Linda Alcoff (1991) no artigo “O problema de falar pelos outros” traz uma importante reflexão sobre o dilema que se é articular outras vivências. O reconhecimento deste problema está fundamentdo em duas argumentações: Primeiro, tem havido uma consciência crescente de que a fala afeta tanto o significado quanto a verdade do que se diz e assim, que não se pode assumir uma capacidade de transcender sua localização. Em outras palavras, a localização do locutor (que aqui para se referir à sua localização social ou identidade social) terá um impacto epistemicamente significativo sobre as afirmações desse orador e, pode servir tanto para autorizar ou desautorizar o discurso. Devemos finalmente reconhecer que as divergências sistemáticas na localização social entre falantes e aqueles em que estão na posição de falados, terão um efeito significativo sobre o conteúdo do que se é dito. A premissa subentendida aqui é que a localização de um orador é epistemicamente proeminente. A segunda afirmação sustenta que, não só a localização é epistemicamente proeminente, mas como a prática de pessoas privilegiadas em nome ou por conta de pessoas menos privilegiadas (em muitos casos) no aumento ou reforço da opressão do grupo falado.
Os teóricos são capacitados, em virtude de suas posições acadêmicas, a desenvolver teorias que expressem as idéias, necessidades e objetivos de outros. Contudo, devemos começar a questionar se isso é sempre uma autoridade legítima e, em caso afirmativo, quais são os critérios para essa legitimidade. E quando se trata das cotas, vivemos neste constante paradoxo e, quase sempre sua existência tem entrado em batalhas intermináveis e isso acontece pelo processo de reiteração das mesmas
prerrogativas, destacadas pela autora, em relação a esse outro. O ser negro, historicamente, sempre foi visto como um fenômeno negativado, e por isso, sempre na necessidade de ser explicado.
Para os movimentos negros as histórias do povo negro nas Américas se inscrevem em narrativas que incluem migrações forçadas e travessias, onde as ressonâncias deste processo, de um modo particular, constituem-se em uma das prioridades a serem debatidas. Pereira (2007) de uma forma esquemática, distingue três fases nas relações entre acadêmicos e militantes negros, após a proclamação da República: a primeira foi caracterizada pela total falta de diálogo entre ambos (anos 50). A segunda, pelo estabelecimento de um diálogo, cuja iniciativa coube aos estudiosos brancos (no processo de elaboração de ideias) e, finalmente, a terceira e atual fase em que os acadêmicos e militantes procuram situar-se simetricamente uns em relação aos outros. Mas isso dentro de uma veste de (re) construções identitárias implicando (re) construções político-sociais, entendendo o espaço acadêmico como um lugar incessante luta para assegurar a reprodução e a legitimação de suas necessidades vitais, epistêmicas e materiais.
Uma vez que o colocamos como um problema de representação, vemos que, as práticas de falar para os outros é de fato, estar “falando por mim” (Alcoff, 1991). O que isso significaria para os acadêmicos no debate sobre cotas? Falando por si, acredito que também estejam representando o seu eu de certa maneira. Ocupando um lugar de sujeito-posição, em que o problema desta representação estará subjacente, encontrando- se na dualidade do falar por si em nome de outros. Não estou sugerindo que todas essas representações sejam ficcionais, pois reconheço suas origens e efeitos materiais. Mas elas são sempre mediadas pelo poder e pela localização. O problema de falar para os outros é social e, as opções disponíveis para nós são socialmente construídos nas práticas, que não podem ser entendidas simplesmente como os resultados de uma escolha individual autónoma.
Agora, a resposta deste problema de falar pelos outros, está no desafio de reconhecer a legitimidade de olhar a produção deste “outro”. Isto porque, quando as óticas negras se impõem recebem um tipo de tratamento segregado, sendo visto como aquilo que é produzido fora das fronteiras do conhecimento (marginalizado). Por ser considerado o próprio “objeto” seu discurso é quase sempre reduzida a práticas particularistas. Segundo Ângela Figueiredo e Ramón Grosfóguel (2009) isso ocorre devido à soma de diferentes fatores: a geopolítica do conhecimento que tem levado a
minimizar a produção dos intelectuais negros; o funcionamento da cultura acadêmica (networks) e do capital social e simbólicos requeridos; e o isolamento do intelectual negro, particularmente, quando ele é politicamente comprometido com o combate às desigualdades raciais e, evidentemente, ao racismo, tal como ele se manifesta em nossa sociedade.
Paul Gilroy (2001) ao lançar a apropriação histórica destaca a tradição como uma ideia que possui um estranho poder hipnótico no discurso político negro. É invocada para sublinhar as continuidades históricas, conversações subculturais, fertilizações cruzadas intertextuais e interculturais, que fazem parecer plausível a noção de uma cultura negra distinta e autoconsciente. Ela fornece um lar temporário no qual se pode encontrar abrigo e consolo diante das forças viciosas que ameaçam a comunidade racial. A afirmação dos movimentos sociais tipifica o melhor desses impulsos revisionistas. A escravidão fica esquecida e a duração da civilização negra anterior à modernidade é invocada em seu lugar.
O principal ponto surge no momento de aferir a produção de conhecimento e na usurpação dos paradigmas nascidos em assuntos sobre relações raciais. Saber quem as produz, na verdade, é saber como cada um conduz os “jogos” epistemológicos que regem as concepções a serem seguidas dentro das teorias raciais. O desafio se estende na hora de destacar o que está dentro do discurso das relações raciais no momento em que vivemos em políticas de cotas. A mestiçagem exige uma função ideológica que opera para descrever as relações raciais latino-americanas, no entanto, entra no paradoxo que encobre os malefícios da discriminação, tanto de quem prática como de quem é vítima, no qual as interpretações proporcionam invisibilidade e sub- representações dentro da sociedade.
De fato, a política de cotas tem trilhado caminhos dentro de suas particularidades e experiências desenvolvidas. A inevitabilidade das ações afirmativas depende igualmente da ampla compreensão de seus mecanismos, associadas à instrumentalização histórica, tantos no uso e disseminação dos “eventos” (escravidão, diáspora etc.) como considerando o “discurso” e sua eficácia ideológica. Assim, a essências e peculiaridades dita por negras e negros, devem ser o ponto de partida para o debate das relações raciais, não só brasileira, mas também latino-american. Pretendo com essas discurso, conforme a discussão feita no próximo capítulo, trazer as o
problema de se dizer pelo outro através de textos existentes no inicio de implementação de uma politica publica voltada para a população negra e sua importância para a sua entrada na Universidade pública no debate acadêmico brasileiro.