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1.2 Dos diferentes critérios às diferentes imagens

1.2.2 O sujeito indeterminado – a partícula "se"

A partícula "se" desempenhará a função sintática de "pronome apassivador", se acompanhar verbos transitivos diretos – nesse caso, o verbo concordará em pessoa e número com o sujeito passivo: "Vende-se casa", "Abriram-se os lacres". Se acompanhar verbos intransitivos, transitivos indiretos ou de ligação, a partícula "se" assumirá o papel de "índice de indeterminação do sujeito"; nesse caso, o verbo deverá ser empregado na terceira pessoa do singular: "Nada-se no mar, na terra, caminha-se", "Precisa-se de funcionários", "Está-se feliz neste lugar".

Essas regras, prescritas pelos manuais normativistas, contrastam com construções, muito recorrentes no português brasileiro, do tipo: "Vende-se doces", "Aluga-se casas". Tal oposição "regras x uso" reflete a história da reanálise do "se" apassivador como "se" impessoal. Nas palavras de Naro (1976): "The se-impersonal construction is not found in the oldest Portuguese texts. In fact, it is relatively recent innovation, first occurring in texts of the mid-16 th century, and is based on the classical se-passive construction13"

Em Oliveira (2005), os resultados obtidos pela análise dos dados depreendidos do corpus do português arcaico confirmaram: "Nenhuma ocorrência explícita de "se", signo de apassivação, como "se", signo de impessoalização".

13 "O "se" impessoal não é encontrado em textos do português mais antigo. De fato, é uma inovação relativamente

recente, com as primeiras ocorrências aparecendo em textos do século XVI, e se baseia na construção de "se- passivo" clássico". (NARO, 1976, p. 788) – Tradução nossa.

Da reanálise do "se" apassivador (a partir do século XVI), emergem, no português e em outras línguas românicas, novas estruturas: o verbo não mais concorda com seu argumento interno no plural, pois o "se", e não mais o argumento interno do verbo, encontra-se associado à posição de sujeito.

O "se" passivo passou a ser reinterpretado como "índice de indeterminação do sujeito" numa construção de voz ativa. Segundo Castilho (2001), essa reanálise opera no eixo sintagmático e resulta da abdução, um raciocínio que leva o falante a atribuir a um fenômeno, lingüístico ou não, uma regra, considerando que esta lhe diga respeito.

A não-aplicação das regras de concordância ("se" impessoal e "se" apassivador) engendra, para o português brasileiro, efeitos nefastos: (a) a gramática aprendida na escola se torna uma espécie de língua estrangeira; (b) sob a égide purista ecoa o estigma à diversidade: o português brasileiro infringe, por meio de neologismos e insubordinações, a língua de Camões.

A variação nas construções de passivas com "se" elucida a reanálise14 do pronome apassivador e ratifica o contraste "regra x uso". A pesquisa realizada por Scherre (199) atesta o paradoxo.

Hoje, a estrutura classificada como passiva sintética - "joga-se búzios ou jogam-se búzios; doa-se filhotes ou doam-se filhotes [...]" não é passiva sintética; é, sim, uma estrutura ativa de sujeito indeterminado semelhante a outras estruturas irmãs do tipo: "No Brasil, precisa-se urgentemente de reforma agrária e vive-se bem nesta terra". A concordância nas estruturas denominadas passivas sintéticas é variável e ocorre "por atração ou por falsa concordância" com o objeto direto, em função, especialmente, do conhecimento da norma codificada, ou seja, da gramática normativa da língua portuguesa. (SCHERRE, 1999, p. 13).

14 Oliveira (2005) afirma que a reanálise do "se" apassivador como "índice de indeterminação do sujeito" está

presente não só na fala, mas também na escrita, mesmo nas mais formais. Passivas de "se" estão sendo reanalisadas como orações ativas com sujeito indeterminado. Para chegar a essa conclusão, Oliveira procedeu ao levantamento sistemático de dados de voz passiva nominal, cuja perífrase é formada com "ser" e "particípio passado" de um verbo transitivo direto (ou transitivo direto e indireto) e de voz passiva pronominal, formada com o pronome "se" apassivador relacionado a um verbo também transitivo direto (ou transitivo direto e indireto), segundo a descrição tradicional.

Se, por um lado, no português brasileiro, a não-concordância verbal em construções com a partícula "se" confirma, para essa variedade de língua, a preferência pela forma inovadora, por outro lado, essa opção o afasta do português europeu. Segundo Nunes (1991), "... pelo menos em relação às construções com verbos transitivos, o português europeu falado praticamente se mantém estável em relação à variação provocada pelo surgimento do 'se' indeterminador".

Ao analisar, em diferentes gêneros, a variação das formas com "se" na escrita contemporânea do português europeu e do português brasileiro, Duarte, Kato e Barbosa (2001) constataram: a) diferentemente da variedade lusitana, na qual predomina a regra de concordância15, no português brasileiro, a regra é a não-concordância. Especifica-se: todas as ocorrências com argumento interno no plural mantiveram, no português brasileiro, o verbo no singular. Resultados encontrados no gênero "ENTREVISTAS"; b) nas "RECEITAS DE COZINHA" o contraste também é flagrante: no português europeu, as construções com "se" totalizaram 27% das ocorrências; no português brasileiro, a rejeição a essa partícula foi categórica; c) das estratégias de indeterminação do sujeito, no gênero "CARTAS AOS LEITORES", as construções com "se" são as mais recorrentes, quer no português europeu, quer no português brasileiro.

"Quanto à concordância com o argumento interno plural ou composto, o 'default' nas receitas portuguesas é usar concordância, mas encontraram-se, surpreendentemente, casos sem concordância". (DUARTE, KATO E BARBOSA, 2001).

Se se pode afirmar, assim como o fez Nunes (1991): "[que] o português europeu falado, pelo menos em relação às construções com verbos transitivos, praticamente se mantém estável em relação à variação provocada pelo surgimento do 'se' indeterminador", pode-se também

15 Das onze ocorrências, dez das construções com "se" + verbo transitivo direto apresentaram o argumento interno no

afirmar, baseado em dados de fala, que nos dialetos de Madeira e de Porto Santo, segundo Martins:

Há um tipo de construção com se que é estranho ao português standart, mas cuja existência pode ser o resultado de um passo adicional no percurso diacrónico que retirou de cena a passiva de se dando lugar ao aparecimento de uma estrutura activa com a particularidade de permitir a repartição das propriedades associadas ao sujeito frásico entre dois constituintes. (MARTINS, 2007, p. 06)

Para exemplificar, transcrevem-se duas das ocorrências encontradas no Corpus Dialetal com Anotação Sintática (CORDIAL-SIN), citadas por Martins (2007):

(a) "E depois, chegando ao tempo da poda, a gente sega-se esses olhos todos e deixa-se este só. Ela vai lá; rebenta a vara. Já não põe força aqui; põe a força (aqui). Deita uma vara grande – tendo umidade e adubo". (Camacha – Porto Santo)

(b) "A gente via-se elas [as baleias] longe, era o esparto. Porque a uma distância grande, ela (em) indo ali sem se 'espartojar', não se via. Ela tinha que dar aquele 'esparto' para o ar. E via-se aquele 'esparto', aquele negro, fora de água". (Caniçal – Madeira)

Do auge à decadência: eis a trajetória do "se" indeterminador no português brasileiro. "Depois de ter vencido as construções com "se" apassivador numa batalha de tantos séculos, as construções com "se" indeterminador lutam agora com construções cuja impessoalização oracional se dá por meio de sua supressão". (NUNES, 1991). Se, em um primeiro momento, a partícula "se" impessoal emerge da reinterpretação do "se" apassivador, em um segundo momento, a indeterminação do sujeito no português brasileiro se faz pelo seu apagamento.

Mas não é só da partícula "índice de indeterminação do sujeito" que se "ressente" o português brasileiro. Ao lado do desaparecimento dessa partícula estão as passivas nominais, hoje restritas à língua escrita e a situações mais formais. As estratégias de indeterminação do sujeito

buscam outros caminhos, como, por exemplo: o emprego do verbo na terceira pessoa do singular sem o oblíquo átono "se" impessoal e sem um constituinte sintagma nominal que assuma a função subjetiva - "vende doce de todo tipo naquela loja" - ou o emprego do paciente como tópico e o verbo indicando a ação na terceira pessoa, sem que o agente seja especificado - "As casas consertaram".

Em Duarte (1995), registraram-se, para o português brasileiro, outras estratégias para indeterminar o sujeito: "as formas pronominais nominativas16 (expressas ou nulas)". Para exemplificar, serão transcritas três ocorrências citadas pela autora:

(a) "Quando você é menor, você não dá muito valor. Você acha que criança é só para encher o saco, né? [...] Na fase que você na adolescência, você tá na praia [...]". (M3a, 63, 67);

(b) "Hoje em dia, quando a gente levanta as coisas, é que a gente vê tudo o que aconteceu. Mas na época a gente não podia acreditar...". (H3b, 162, 166);

(c) "Já quando cv entra no profissional, [o curso] já e mais direcionado". (H3b, 229).

Lê-se em Duarte (1995): "Se levarmos em conta a velocidade com que se implantou no sistema esta nova variante17 [...] não podemos deixar de relacionar seu progresso com a implementação do uso do sujeito pronominal com referência definida".

A tendência à representação pronominal foi diacronicamente descrita por Cavalcante (2002): "desde o primeiro quartel do século XIX (1848 -1869), os pronomes 'nós' e 'a gente' são usados para indeterminar o sujeito".

16 O uso de formas pronominais nominativas para indeterminar o sujeito foi descrito por Tarallo (1989). Para o leitor

interessado: TARALLO, F. Formas de indeterminação do sujeito: em busca do discurso via marcadores sociolingüísticos. In: ORLANDI, E. P; GUIMARÃES, E; TARALLO, F. Vozes e Contrastes: discurso na cidade e

no campo. São Paulo: Cortez, 1989, p. 78-109.

Mas se, no português brasileiro, o uso de formas pronominais para representar sujeitos indeterminados tem-se mostrado produtivo, tanto na fala, quanto na escrita, o mesmo não se constata no português europeu, que, segundo Duarte (1995, 2000) mantém como principal estratégia para a indeterminação do sujeito o uso da partícula "se".

Os estudos que compuseram nossa exposição mostraram as diferentes estratégias de indeterminação do sujeito nas duas variedades do português – brasileira e européia. Nesta, sobressai o uso da partícula "se"; naquela, as formas pronominais nominativas.