2 O SUJEITO NULO NO PB
2.2 O sujeito nulo no PB
Como exposto no item 2.1, o PB tem apresentado alterações em relação ao paradigma verbal, porém essas alterações ainda nos permite afirmar que o PB é uma língua de sujeito nulo. Neste item, descreveremos as possibilidades de realização do sujeito nulo ainda presentes no PB.
O sujeito nulo expletivo de 3ª pessoa no PB continua a ser permitido em contextos onde o verbo indica fenômenos meteorológicos, como em (74a), e com verbos impessoais, como em (75b).
(74)
a) pro Choveu.
b) pro Parece que choveu.
Há que se registrar a ocorrência do verbo ‘ter’ (existencial) no PB.
(75) pro Não tinha pis...pro não havia quase piscina naquele tempo. (BERLINCKet al, 2009, p. 149).
De acordo com os exemplos apresentados em (74a) e em (74b), o sujeito nulo expletivo tem permanecido inalterado no PB.
2) Sujeitos nulos referenciais
Sujeitos nulos referenciais são os sujeitos nulos nos quais o verbo apresenta flexão de número e pessoa, podendo ser recuperado e identificado pela flexão, seguindo o padrão do italiano que apresenta AGR forte e paradigma verbal rico. No PB, esse tipo de sujeito está restrito àqueles que apresentam referência dêitica, 1ª e 2ª pessoas, e suas realizações podem estar associadas aos tempos verbais com formas mais distintivas, como o presente e o pretérito perfeito, exemplificado em (76). Nesse caso, os sujeitos de 1ª pessoa não necessitam de um antecedente em orações subordinadas, como ocorre em (77).
(76) pro Fui quase suspenso (DUARTE, 1995, p. 58). (77) João pensa que pro compramos um carro.
Com o desaparecimento progressivo dos clíticos no PB, as formas verbais de 3ª pessoa do singular que anteriormente apareciam ligadas ao ‘se’, agora deixam um vazio preenchido por um pro expletivo que, segundo Figueiredo (1996), pode ser interpretado como pro [+ arb.], como no exemplo em (78).
(78) Não pro usa mais chapéu (FIGUEIREDO, 1996, p.123). 4) Sujeito nulo correferencial
De acordo com Rizzi (1982) e Haegeman (1994), é possível haver uma categoria vazia correferencial nula na posição de sujeito em orações subordinadas, como apresentado em 1.1. Por outro lado, na descrição do paradigma verbal do PB apresentada em 2.1, pode-se observar que duas formas verbais possuem distinções morfológicas capazes de assegurar os traços de concordância necessários para a realização do sujeito nulo: 1ª pessoa do singular e 1ª pessoa do plural. Isso nos permite dizer que, em orações matrizes, o sujeito nulo é possível com essas duas pessoas gramaticais, como ocorre nos exemplos em (79) e em (80).
(79) pro Viajarei para o Brasil. (80) pro Viajamos hoje para o Brasil.
Isso que dizer que a realização da 3ª pessoa do singular apresenta problemas no PB por vários motivos, entre os quais a falta de especificações de número e pessoa e a homofonia compartilhada com outras formas, já descritas no item 2.1. Então, podemos observar que existem dificuldades para a utilização da 3ª pessoa do singular em orações matrizes: ou se supõe um antecedente discursivo, como no caso exemplificado em (81), ou se utiliza o pronome pleno, como no caso exemplificado em (82).
(81) ?Viajou para o Brasil. (82) Ele viajou para o Brasil.
Então, nas orações subordinadas, podemos encontrar uma categoria vazia preferencialmente de 3ª pessoa (não referencial) na posição de sujeito, que pode ser recuperada e identificada somente por um antecedente localizado na oração matriz, como exemplificado em (83), diferindo da realização apresentada em (84), referencial e identificada e recuperada pela flexão.
(83) Joãoi disse que proi voltará para o Brasil.
(84) Joãoi disse que prot voltaremos para o Brasil.
Considerando que o PB tenha perdido o Princípio “Evite o Pronome”, como defende Duarte (1995), pode-se encontrar um pronome pleno nessa posição, como em (85).
(85) Joãoi disse que elei voltará para o Brasil.
A proposta de Huang (1984) considera a existência de um sujeito nulo não referencial, diferente daquele recuperado e identificado pela flexão, como considera Rizzi (1982), em que é recuperado pela flexão. Para explicar essa ocorrência, Huang (1984) estende a Teoria do Controle a PRO e a pro. Segundo o autor, um pronome vazio pode ser coindexado a um elemento nominal mais próximo.
5) Inversão do sujeito
A inversão é uma das propriedades centrais para a questão do parâmetro do sujeito nulo e está atrelada à ordem em que os argumentos do verbo aparecem na sentença. No PB, a inversão com verbos transitivos não é possível, como atestam os exemplos em (86a) e em (86b).
(86)
a. *Comeram o bolo [as crianças]. Ou como exemplifica Kato (2000):
b. *Colocou a carta no correio [um aluno].
Em relação às sentenças com verbos intransitivos, segundo Kato (2000), não há preferência do falante do PB, como ocorre em (87). A autora comenta em nota de rodapé: “Embora os dados mostrem apenas uma ocorrência residual de VS com verbos inergativos, o falante não a rejeita como os padrões VOS” (KATO, 2000, p. 97).
(87) Telefonou o cliente (KATO, 2000, p. 97).
A mudança não atingiu a inversão inacusativa no PB, como se pode observar em (88). Isso quer dizer que a inversão do sujeito desapareceu do PB, restando apenas a inversão inacusativa, na qual o NP é, na realidade, um argumento interno.
(88) Chegou a carta (MIOTO, 2013, p. 158).
Menuzzi (2001) afirma que uma questão que pode ser destacada com base nos estudos realizados é que a inversão do sujeito no PB tenha sobrevivido apenas quando o verbo da sentença for inacusativo e que as demais realizações sejam resquícios de um momento anterior do PB, quando ele mantinha as realizações do PE do século XIX.
Novaes (1996) resume a questão da inversão no PB da seguinte forma:
(...) o sujeito posposto no português do Brasil é restrito a sentenças com verbos monoargumentais. Portanto, temos que negar a generalização de que o sujeito nulo e a inversão do sujeito são fenômenos correlacionados, uma vez que no português do Brasil estas duas características não coexistem (NOVAES, 1996, p. 109).
Isso quer dizer que a ordem dos elementos de uma língua só pode ser alterada se essa língua possuir estruturas verbais capazes de sustentar paralelamente o argumento externo do verbo em uma posição posposta. O PB não possui estruturas capazes de assegurar a posposição de um NP. De qualquer forma, o PB tem, na perda da inversão do sujeito, um fator que contribui para a perda progressiva da capacidade dessa língua de permitir a categoria vazia pro na posição de sujeito.
Do exposto acima em 1), 2), 3), 4) e 5), verificamos que o PB preserva os seguintes tipos de sujeitos nulos:
a) sujeito nulo expletivo: com verbos indicando fenômenos meteorológicos e verbos impessoais;
b) sujeito nulo referencial: 1ª pessoa do singular e 1ª pessoa do plural; c) sujeitos nulos quase argumentais de 3ª pessoa;
d) sujeito nulo correferencial em orações subordinadas; e) inversão dos verbos inacusativos.
Deixaram de ser realizados no PB:
a) Sujeito nulo referencial: com 2ª pessoa do singular, 3ª pessoa do singular, 2ª pessoa do plural, 3ª pessoa do plural;
b) a ordem VS com verbos transitivos e com intransitivos: a realização da inversão está comprometida.
No item 2.3, descreveremos três trabalhos que apresentam explicações para o caráter do sujeito nulo no PB. São eles: Duarte (1995), Figueiredo (1996) e Novaes (1996).