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4 A (RE)CONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE: A COMPLEXIDADE DE UM

4.2 DISCUTINDO AS CATEGORIAS DO MACROCONCEITO: SUJEITO, SENTIDO

4.2.1 O sujeito: produtor e produto dos processos formativos

Para compreender a subjetividade, escolhemos partir do sujeito como produtor, mas também como produto desse sistema complexo e em desenvolvimento ininterrupto, caracterizado pelas formações de sentido — que discorreremos adiante — que não se apresenta numa perspectiva universal, mas, ao contrário, indica a experiência humana, particular, situada histórica e socialmente, como um registro complexo no qual se produz sentido, seja pelo lugar no qual o sujeito está situado em relação às suas próprias experiências de vida, seja pela forma com que outros sentidos se entrelaçam na construção de novas vivências.

Historicamente, a ideia de sujeito já esteve fundida essencialmente a um “[...] princípio universal de inteligibilidade, consciência e ordem” (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 221), atributo caracterizador do sujeito racional e compreendido de forma intencional em tendências filosóficas da modernidade, que encontra base no racionalismo cartesiano.

Após um período histórico no qual o pensamento humano esteve extremamente atrelado à perspectiva divina, que concebia o homem, única e exclusivamente, como imagem e

semelhança de Deus (teocentrismo), as transformações culturais da Modernidade fizeram emergir a nova interpretação e postura de sujeito em frente ao mundo e ao conhecimento: o antropocentrismo. O desabrochar da tendência social antropocêntrica, numa postura de valorização das ações, construções e compreensões humanas, colocava-se diante do questionamento da visão teocêntrica (Deus como centro de tudo), que moldou e movimentou todo o pensamento e sujeito medieval. O movimento cultural denominado Renascimento (séculos XV e XVI) contribuiu ativamente para essas transformações: inspirado no humanismo, ele possibilitou que se desenvolvesse uma mentalidade racionalista, disposta, com maior afinco, à investigação dos problemas do mundo, sendo necessário que o sujeito aguçasse sua capacidade de observação da natureza, dedicando mais tempo à pesquisa e à experimentação. O pensamento moderno, portanto, não tem a limitada intenção de conhecer a realidade, mas, principalmente, tem o desejo de traduzi-la em leis objetivas que orientem todos os fenômenos naturais que sejam passíveis de controle do homem sobre elas (GALLERT, 2010).

A confiança na razão assume seu auge no século XVII: o racionalismo se configura como a atitude de quem confia nos procedimentos da razão e a privilegia como meio para conhecer a verdade (ABBAGNANO, 2007). É nessa confiança sobre a razão e a capacidade pensante do ser humano que uma pergunta ontológica milenar persiste: quem é o sujeito?

René Descartes (1596-1650) traz à luz o entendimento de que o sujeito — que é consciência e cognoscência — é o eu que pensa, centrado em si mesmo e que conhece e reconhece sua própria atividade e existência — a expressão desse entendimento encontra-se, sobretudo, na conclusão de Descartes perante a dúvida metódica: penso, logo existo. Nesse sentido, o sujeito tem total destaque e poder sobre os objetos do pensamento, a ponto de entender-se capaz de traduzir o mundo em leis racionais (REALE; ANTISERI, 2004).

Por outro lado, John Locke (1632-1704) propõe outro olhar sobre o conhecimento humano e sua atividade de pensamento: enquanto Descartes concebia o pensamento como constitutivo e essencial do ser humano, Locke, fundamentado numa perspectiva empirista, questiona o inatismo, ao propor que a mente humana, ao nascer, é uma tábula rasa, significando que nela não há nada gravado e que essa escrita passa, fundamentalmente, pelos sentidos (REALE; ANTISERI, 2005).

Independentemente do modo como o sujeito conhece, em ambos os casos essa constatação é inquestionável: ele conhece. Dessa forma, o diálogo entre as duas perspectivas foi mais um marco teórico-filosófico na história da humanidade, encontrando na ciência moderna a sua expressão mais fiel.

Nesse sentido, precisamos ter em mente uma relação intrínseca na Modernidade: o sujeito cognoscente está diretamente ligado à perspectiva de entendimento da ciência. Alguns elementos se relacionam para constituir essa significação: a ciência se configura como um processo de construção de conhecimentos experimentais que, formulando uma racionalidade científica, embasada em leis, axiomas e teorias sobre a realidade objetiva, possibilita aplicar exames empíricos que comprovem tais conhecimentos. Dessa forma, a racionalidade humana produz a ciência como sinônima da Modernidade, na qual a razão científica é capaz de indicar objetivamente o mundo e traduzi-lo em conhecimento passível de experimentação e comprovação racional.

Segundo González Rey (2005a), a ideia de sujeito da razão, um ser capaz de dominar a natureza e o seu próprio ser, produzindo verdades universais traduzidas em leis científicas, ditas inquestionáveis, criou raízes profundas na cultura do Ocidente, reforçando-se na ciência, política, educação e nas produções de sentido coletivo. Essa essencialidade do sujeito moderno, cuja força se encontra na racionalidade como aspecto universal, implica uma divisão estática do mundo em “bom” e “mau”, com quase nenhum valor ético ou moral, haja vista que ninguém se assume pertencente ao mundo “mau”, mas sempre como parte daquele que é “bom”. Para o autor, o sujeito universal, portanto, estaria associado, de forma direta, ao sujeito ideal, inspiração das construções éticas, políticas e religiosas do Ocidente e que permanecem enraizadas ainda hoje.

A compreensão de sujeito e subjetividade, para González Rey (2005a, p. 222), não surge na Psicologia por causa de sua passagem pela Modernidade, mas como “[...] resultado de sua assimilação da dialética marxista”. Ele afirma que:

O marxismo, pela primeira vez, representa o caráter histórico e social do homem, que supunha o trânsito de um sujeito universal, fechado dentro de um conjunto de categorias metafísicas, para um sujeito concreto, que mostra em sua condição atual a síntese de sua história social, não como acumulação, mas como expressão de uma nova condição.

Encontramos, então, uma nova concepção de sujeito que ultrapassa a essencialidade e a universalidade da Modernidade, que submetem o ser humano a tipos de ordem situada fora dele, como forças externas de opressão, e que o determinam de forma incondicional. Observamos, dentro da perspectiva materialista histórico-dialética18 de Karl Marx (1818- 1883), a compreensão de um sujeito pessoal em busca de sua emancipação, ao perceber seu lugar na ordem social, as forças que o circundam e o oprimem e o que o determina histórica e socialmente. O aspecto histórico-dialético coloca o entendimento de sujeito em contato com a realidade que o circunscreve e não mais com formas transcendentais e universalizadas.

González Rey (2005b) aponta que, ao lado desse reconhecimento do mundo real, das relações estabelecidas entre os sujeitos e a historicidade desses processos, há também que se considerar, a partir das análises de Alain Touraine, o resgate do mundo interno do sujeito. Segundo González Rey (2005a, p. 224), esse resgate reafirma, na construção do sujeito, a centralidade da ideia de que “[...] o sujeito é um sujeito constituído subjetivamente, é um sujeito subjetivado com capacidade de subjetivação de sua experiência”. O que identificamos aqui é uma representação dialética do homem, do sujeito, que não está mais centrada na concepção de controle do mundo por parte dele, mas na capacidade de optar, romper e agir de modo criativo, de forma que acaba por constituir sua própria subjetividade.

A representação dialética e complexa do sujeito nos comunica a duplicidade de sua presença no mundo: ao mesmo tempo em que falamos de um ser singular, estamos, inevitavelmente, falando de um ser social. Isso não quer dizer que a sociabilidade do sujeito configura sua determinação mecânica, mas representa parte de uma plurideterminação em que a ação desempenhada pelo outro tem sua participação, assim como sua própria atividade.

Evidenciamos, então, a perspectiva de sujeito como motor de seu próprio processo subjetivo, haja vista que sem ele não haveria razão para falar de subjetividade. Mas, dialeticamente, essa autoria é atravessada por outros protagonismos subjetivos que, no encontro e na relação uns

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A concepção de história de Karl Marx funda-se sob o conceito de materialismo histórico e materialismo dialético. O materialismo histórico “[...] é a teoria segundo a qual a estrutura econômica de uma época determina a superestrutura ideológica (isto é, o conjunto das idéias religiosas, morais, políticas, jurídicas, estéticas etc. dessa época)” (REALE; ANTISERI, 2005, p. 170). Por sua vez, o materialismo dialético diz respeito às mudanças que ocorrem com o desenvolvimento da história, de forma que “[...] toda realidade histórica [...] gera em seu seio ‘contradições’ que necessariamente levam à sua superação: a burguesia nasce de dentro da sociedade feudal, e será justamente a burguesia que [...] despedaçará os vínculos feudais doravante sufocantes e não mais suportáveis [...]” (Idem, p.179). Assim, é a dialética a lei que desenvolve a realidade histórica e expressa as inevitáveis transformações que ocorrem na sociedade.

com os outros, se transformam. O sujeito é, assim, o autor dos processos que vive, mas também se constitui neles. Sua consciência é consciência dos sentidos produzidos por ele, diante do outro e do mundo. Por isso é importante compreender que:

Reconhecer um sujeito ativo é reconhecer sua capacidade de construção consciente como momento de seus processos atuais de subjetivação, o que não significa que estes se ajustem a um exercício da razão; entre outras coisas, porque, a partir de nossa compreensão da subjetividade humana, as construções da consciência são produções de sentido, não construções racionais. O exercício da consciência pelo sujeito é, em si mesmo, um processo de subjetivação. A consciência, portanto, designa a ação do sujeito dentro de um espaço representado, suscetível à sua intencionalidade e reflexão, o que não quer dizer que o sentido desses espaços seja definido a partir de sua representação ou intenção (GONZÁLEZ REY, 2005a, p. 226).

González Rey (2005a, p. 225) deixa clara a noção de sujeito que pressupõe a subjetividade: “O sujeito é constituído subjetivamente e suas ações são fonte constante de subjetivação que chega a ser constituinte dos próprios processos nos quais se constitui”. Tal noção de sujeito se opõe às compreensões inatistas ou de orientação a priori que defendem a substancialidade das ações, como externalização de pulsões internas. Por outro lado, permite o entendimento de sujeito consciência-inconsciência, dialeticamente, como momentos diversos da experiência subjetiva que vão compondo o sentido subjetivo, pilar que discutiremos em seguida.

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