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O sujeito ubíquo e seus espaços

No documento Tese - Luis Henrique Boaventura (páginas 99-103)

4 A CONSCIÊNCIA IDENTITÁRIA E O ATO DE LINGUAGEM NA COMUNICAÇÃO

5.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

5.1.5 O sujeito ubíquo e seus espaços

Nossa abordagem da Teoria Semiolinguística de Charaudeau (2010a) sob a lente da Comunicação Ubíqua de Santaella (2010, 2013a) incorrerá principalmente na proposição de uma revisão acerca da posição dos sujeitos enunciador e interpretante e a respeito dos espaços que eles ocupam, já que a noção de espaço sofre uma revisão a partir da hipermobilidade. Como sabemos, o ato de linguagem de acordo com Charaudeau (2010a) está posto em dois espaços bem delimitados, o espaço externo, do social, e o espaço interno, discursivo. É o que nos lembra Emediato (2007, p. 4).

A estruturação de um ato de linguagem comporta dois espaços, um espaço externo, relativo ao fazer social, e um espaço interno, espaço do dizer. No espaço externo, os parceiros do jogo comunicativo assumem papéis sociais […]. No espaço interno, os protagonistas da encenação discursiva assumem papéis discursivos.

As rápidas transformações nas formas de comunicação nos forçam a levar em consideração a ubiquidade do sujeito e a perda de valor da noção de “lugar”, de “espaço”. “À lógica do lugar se substitui aquela da do vínculo” (MAINGUENEAU, 2016, p. 157, grifo do autor). Santaella (2010) promove toda uma reestruturação da nossa concepção de lugar como um ponto fixo e de sujeito como um ser singular imobilizado em seu lugar social físico. “A metáfora prototípica dessa sociedade é a dos ‘espaços de fluxos’, metáfora que caracteriza uma lógica organizacional independente de localização” (SANTAELLA, 2010, p. 16).

Em um ato de linguagem que ocorra na hipermobilidade, EUe (ser discursivo) não pode mais ser representado como que projetado diretamente por EUc (ser social) sem antes ter passado por um meio-campo virtual e por uma primeira projeção. EUc não projeta EUe diretamente; projeta um correlativo social virtual que, em articulação com o ser social físico, projeta EUe. A essa articulação chamaremos de EUu, sujeito ubíquo, ser social que simultaneamente é ser virtual e físico, ocupante de dois circuitos no nível situacional, responsável por projetar o ser de discurso no circuito interno, nível discursivo.

Diante disso, consideramos que o circuito externo é duplicado no nível situacional. Este circuito extra (Figura 15) que propomos divide com o circuito externo original o nível situacional, visto que o Twitter é uma rede social em que seus usuários representam virtualmente a si mesmos, seus correlativos reais (que são seres determinados física e socialmente), utilizando muito frequentemente seus nomes sociais e uma foto de perfil real. Ainda assim, aquela não é a pessoa física, localizada e determinada materialmente: trata-se de uma projeção virtual desta que é determinada de modo social, mas não físico. Como comenta Charaudeau (2015), a situação de comunicação se institui socialmente ou se inscreve nas situações comunicacionais de troca na forma de um contrato. O circuito em que se situa o ser físico está no nível da situação de comunicação, dada socialmente; externo, portanto, ao nível discursivo. O circuito ocupado pelo ser virtual se situa igualmente no nível situacional, externo ao nível do discurso. O “virtual” e o “físico” não estão separados na era dos fluxos, mas amalgamados no mesmo plano, sujeitos às mesmas coerções e mesmas margens para estratégias discursivas. “Assim, o ciberespaço digital fundiu-se de modo indissolúvel com o espaço físico. Uma vez que as sobreposições, cruzamentos, intersecções entre eles são inextricáveis, chamo de espaço de hipermobilidade esse espaço intersticial, espaço híbrido e misturado”. (SANTAELLA, 2007, p. 183–187)

Assim, propomos representar o quadro do ato de linguagem na ubiquidade, com a articulação entre circuitos externos físico e virtual e com a articulação entre seres sociais que formam o ser ubíquo, da seguinte forma na Figura 15:

Figura 15 – O ato de linguagem na ubiquidade

Fonte: elaborada pelo autor

Temos representados três circuitos: dois externos, localizados no nível situacional, e um interno, localizado no nível discursivo. Temos dois seres físicos, EUc e TUi: ambos projetam dois seres virtuais (lembrando que o TUi virtual é uma projeção de TUi ainda sobre o nível situacional, não uma projeção de EUc, pois este se trata de TUd, ser discursivo). EUu e TUu (seres ubíquos) não são sujeitos independentes, mas uma articulação entre ambos os seres sociais (EUc + EUc virtual; TUi + TUi virtual). EUu e TUu são ubíquos porque estão presentes em mais de um lugar social simultaneamente, de acordo com a definição dada por Santaella (2013a) a este sujeito. Desta forma, é EUu quem projeta os seres discursivos EUe e TUd e encena estratégias de discurso de acordo com seu projeto de fala para uma finalidade contratual. Não se pode excluir a projeção EUc virtual pois é através dela que EUc encena seu ato de linguagem na rede social, ou seja, é uma dinâmica entre esses dois seres sociais e historicamente determinados que encena o discurso; apenas a projeção virtual ou apenas o ser físico, isolados, não dão conta de representar a encenação do ato nas redes sociais.

Esclarecidas essas questões, podemos finalmente ilustrar nosso modelo de análise na Figura 16: Circuito externo (virtual) Circuito interno (discursivo) TUi virtual- social EUc físico-social EUu sujeito ubíquo TUu sujeito ubíquo TUi físico-social Nível situacional Nível discursivo EUe ser de fala) TUd ser de fala EUc virtual-social Circu ito externo ( físico )

Figura 16 – Modelo de análise

Fonte: elaborado pelo autor

É pela comunicação ubíqua de Santaella (2013a) que se articulam as teorias de Charaudeau (2010a) e de Bakhtin (1997, 2012), passando pelo filtro da comunicação ubíqua para chegar ao corpus e respectiva materialidade de análise — as marcas e pistas linguageiras que circunscrevem a interação verbal. Na parte inferior, temos nossa contribuição, de relativo ineditismo, para a análise de discursos na ubiquidade: a ideia de espectro polarizante, que ilustra os destinatários verdadeiro e aparente, bem como o jogo de preservação e fortalecimento da consciência identitária do enunciador, e a ideia de enunciador ubíquo (EUu), ocupante de múltiplos lugares sociais simultaneamente dentro do quadro do ato de linguagem e seus sujeitos, de Charaudeau.

Passemos na sequência à análise de respostas a dois tweets, cada um em lados opostos do espectro polarizante, para aplicar o que vimos até o momento acerca dos postulados de Bakhtin, de Charaudeau e de Santaella, bem como a articulação entre eles e a revisão que propomos de alguns conceitos sob a luz da comunicação ubíqua.

Semiolinguística: encenação do ato de linguagem

(CHARAUDEAU)

Filosofia do ato responsável: ato ético (BAKHTIN) Comunicação ubíqua (SANTAELLA) Corpus (tweets) Espectro polarizante;

quadro que revela os polos e os destinatários real e aparente

Enunciador ubíquo (EUu);

quadro do ato de linguagem na ubiquidade

6 UMA ANÁLISE DO ÓDIO E DA INTOLERÂNCIA NAS REDES SOCIAIS

Na sequência trazemos a análise dos casos que compõem o corpus. Utilizamos dois tweets em nosso corpus, composto por respostas dos usuários Renato Barbosa e Ailton Lopes, respectivamente, a Leonardo Boff e Reinaldo Azevedo. Inicialmente vamos dar contexto a essa interação verbal; vamos ilustrar o cenário da época e falar um pouco sobre a relação entre a cultura do ódio na internet e o uso do nome de Dona Marisa Letícia como ponto de alavanca para os usuários da rede no debate político e, na sequência, passar à análise.

No documento Tese - Luis Henrique Boaventura (páginas 99-103)