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CONSUMIDORES

Desde a demolição do Mercadinho do Batel até a construção de um novo mercado municipal na década de 1950, Curitiba permaneceu vinte e um anos sem um prédio público para o abastecimento da cidade. Somente quando o Plano Agache foi transladado do papel para o concreto, teve início a construção de um Mercado Central para o abastecimento municipal. A rede que performatizou a construção deste novo mercado público municipal era diferente das outras redes que performatizaram os mercados públicos anteriores. Certamente houve ações distribuídas em outros tempos e espaços que ainda agiam sobre elementos dessa rede, porém, a novidade nesta rede estava nas pessoas (arquitetos urbanistas, engenheiros, prefeitos, etc.), ideias modernistas, textos legais e planos urbanísticos.

Na primeira metade do século XX, Curitiba já estava engajada na ideologia da modernidade e ostentava diversos elementos materiais considerados modernos. Utilizando o argumento de Zygmunt Bauman (2001, p. 36), pode-se dizer que Curitiba tenta ser moderna aderindo à modernização obsessiva e compulsiva. Já na perspectiva de Latour, “os brasileiros nunca foram modernos. Foram sempre, de uma certa forma, pós-modernos.” (LATOUR;

FIORINI, 2009). O controle e a limpeza dos espaços e das pessoas aumenta em Curitiba e isso é visto como desenvolvimento e urbanidade. A carta do prefeito em exercício, Aluizio França, à Câmara Municipal de Curitiba, publicada no jornal “O Estado” no dia 10 de setembro de 1937 deixa clara esta obsessão pela modernidade vinda da França e dos Estados Unidos:

1 - LIMPEZA PUBLICA - As minhas primeiras providências foram de carater higienico. Mandei logo intensificar a limpeza da cidade, o aumento das turmas, a lavagem das ruas [...] 5 - FISCAIS EDUCADORES - Mandei organizar uma turma de fiscalização para percorrer as ruas e solicitar polidamente de seus moradores a conservação e limpeza dos passeios de suas residências, reparação de irregularidades por ventura existentes e, sobretudo, para vigilância dos vendedores ambulantes de frutas e de outras mercadorias, que estacionavam em certos logares da cidade e os enxovalhavam de cascas e de outros detritos de seu comercio. [...] 6 - COLETORES DE LIXO - Mandei confeccionar coletores de lixo, de tipo moderno e aspecto elegante, para colocar em varios pontos da cidade, afim de evitar que transeuntes atirem papéis ou outros objetos usados nas ruas [...] 15 - AUMENTO DA ILUMINAÇÃO - Curitiba é uma cidade escura. Saindo-se da rua 15 e de 2 ou 3 ruas é flagrante a dificiencia da iluminação. [...] 20 - PROBLEMA DE URBANISMO - depois da brilhante administração do prefeito Prado Junior, no Distrito Federal, contratando o urbanista Agache para traçar o plano da cidade maravilhosa, os

problemas do urbanismo se puzeram em fóco, no Brasil. [...] Sendo o homem um animal do 'ar livre' como dizem os americanos do norte, cabe aos governos a obrigação de crear-lhe o ambiente propicio. E suas são as escolas de urbanismo que disputam restabelecer o contacto do homem com a Natureza: a urbes in rure e a rus in urbe. Levar as cidades para os campos, ou trazer os campos para as cidades.

Sempre, e em todos os casos, pôr o homem em contacto com a Natureza, porque a Natureza, como diz o erudito urbanista professor Anhala de Melo 'é o Tabor em que se transfigura a humanidade que trabalha, e o laboratório em que uma alquimia maravilhosa transmuda a escoria dos nossos labores no ouro da saude, da alegria, da felicidade'. 21 - CONTRATO DE UM URBANISTA - Por isso, ate a necessidade que vejo de acudir-se, desde já, os sempre altos problemas de educação, de estetica, de viação, de circulação, de transporte, de recreio, de higiene, de zoneamento de Curitiba, contratei, no Rio o urbanista patricio e engenheiro arquiteto, professor Lucas Mayerhofer para estudar e dirigir os nossos serviçoes de urbanismo, agora, quando ainda, tudo é mais ou menos fácil de solução. (O ESTADO, 1937, p. 2).

O urbanista Lucas Mayerhofer planejou, entre outras coisas, a higienização dos rios Ivo e Belém. A execução do projeto retificou e canalizou estes rios, direcionando o crescimento da cidade para o nordeste ao construir uma avenida radial margeando o rio Belém.30 Apesar das melhorias e reformas, observou-se em Curitiba um crescimento material e funcional da cidade que não seguiu o acelerado ritmo do crescimento do número de pessoas, de veículos, de mercadorias, de serviços, o volume das edificações, etc. Áreas da cidade foram sendo ocupadas sem que a população ou a administração pública tivessem consciência das implicações do adensamento, usos específicos ou mesmo segregação residencial por tamanho de lotes. Curitiba havia abandonado ares de vila passando a viver e traduzir problemas e soluções de uma cidade moderna. O urbanista Lucas Mayerhofer, ao comentar sobre seu plano para Curitiba no jornal “O Estado”, acaba abordando alguns destes problemas e soluções modernas.

Mas afóra este papel de ornamento, são ainda essencialmente uteis á cidade: as praças, jardins, parques-avenidas, parques, bosques, proporcionam repouso a moços e velhos, isolando-os do mundo moderno barulhento e agitado [...] E mais ainda: as avenidas plantadas, ligando entre elas estes parques e jardins, separando as diferentes zonas da cidade oferecem-nos mais que arvores cheias de sedução - mostram um plano. Doença mais cruel que a sífilis, a tuberculose, o câncer, e nos tempos modernos a loucura, dizem estatísticas. Aos infelizes que passam a vida sobre utensílios em misteres grosseiros é preciso proporcionar, sobre o trajeto que fazem habitualmente, encontros com a natureza. (O ESTADO, 1938, p. 3).

A municipalidade havia contratado Mayerhofer porque percebia a necessidade de remodelamento das condições de urbanização, um plano, dizia o discurso da época, para distribuir as funções na cidade. Nesse mesmo sentido ocorreu a contratação, em 1941, da

30 É preciso notar que estas não foram as primeiras intervenções urbanas em Curitiba. Desde o final do século XIX, seguidas intervenções foram realizadas sob responsabilidade de diversos profissionais, principalmente engenheiros formados em escolas militares do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco.

empresa paulista Coimbra Bueno & Cia para que realizasse um plano urbanístico para Curitiba; a empresa por sua vez contratou o arquiteto e urbanista francês Alfred Hubert Donat Agache para elaborar o plano. Entregue à prefeitura em 23 de outubro de 1943, o “Plano Agache” carregava uma intenção modernista de criar e organizar setores funcionais, onde as várias atividades da cidade fossem exercidas em territórios polarizados ao mesmo tempo em que integrados. Nesse intuito criou-se, por exemplo, os projetos da Cidade Industrial como centro para o trabalho fabril; o Centro Politécnico da UFPR como um núcleo de pesquisas, especialmente nas áreas de tecnologia e engenharia; e um novo Mercado Municipal, na região central da cidade, planejado como um centro de comércio e escoamento de produtos de consumo. (BOTTON, 2011 ).

Com o Plano Agache é elaborado um novo local para o Mercado Municipal, porém, sua execução só ocorreria em 1956. Neste meio tempo a prefeitura elaborou nova regulamentação definindo feiras livres itinerantes, assim, feirantes, suas bancas e produtos percorreriam os bairros da capital. Em texto publicado pelo jornal Diário do Paraná, no dia 29 de março de 1955, pode-se perceber certa insatisfação com relação a estas feiras itinerantes e anseios por uma modernização do abastecimento de Curitiba. Em nome dos cidadãos de Curitiba o jornal pedia “um Mercado Municipal, à maneira das grandes e pequenas cidades do País.” (DIÁRIO DO PARANÁ, 1955). Os problemas apontados eram a desorganização no abastecimento, a necessidade de um local fixo para o abastecimento (em oposição às feiras volantes propostas pela prefeitura), a possível violência e crimes nas feiras e a falta de higiene nestes locais.

A falta de um Mercado Municipal continua a preocupar a população de Curitiba.

Contando a nossa capital com um certo número de feiras-livres que abastecem a população, notamos que, talvez a falta de hábito, ainda não está esse serviço funcionando como devia. Por um lado, nota-se a luta dos feirantes para poderem suprir suas bancas, procurando adquirir dos intermediários que lhes vendem nos caminhos vindos dos Municípios vizinhos [...] Estes vendedores intermediários às vezes já estão vendendo mercadorias adquiridas à outros intermediários. [...] o Sr.

Kawasi também está alarmado com a notícia das Feiras Volantes, pois conforme a distância em que terá que levar seu produto, irá prejudicar sua mercadoria. O sr.

Kawasi, japonês, possui uma das maiores culturas de tomate de Curitiba. [...] Até os feirantes reconhecem a falta de higiene que existem nos locais das feiras de Curitiba.

[...] Conta ainda o Sr. Novaes sobre a segurança das bancas: ‘É quase inexistente’.

Há um homem encarregado de tomar conta destas barraquinhas... Mas é um homem que poderá ser agredido num lugar perigoso como este... E daí! Se roubarem nossas bancas! Qual a nossa segurança? (DIÁRIO DO PARANÁ, 1955, p. 8).

O Código de Posturas e Obras do Município de Curitiba de 1953 definia na secção VII (Dos Mercados e Feiras), o Art. 806, que “os mercados municipais têm por fim

proporcionar acomodações e facilidades para serem expostos e vendidas, a varejo, aos consumidores, hortaliças, frutas, carne, peixe, aves e outros gêneros alimentícios, mediante licença da Prefeitura”. (CURITIBA, 1953). Nesta mesma secção, o Art. 803 proíbe nos mercados e feiras, sob pena de multa, ações contrárias à higiene pública, tais como: depositar lixo fora dos recipientes a esse fim destinados; conservar sujo o recinto da banca; deixar de lavar, diariamente, os açougues, as bancas de verduras, de aves ou de peixes; dificultar a limpeza do recinto; deixar animais soltos; conservar, sem proteção, expostas ao pó, aos insetos ou ao sol, mercadorias que, por sua natureza, sejam suscetíveis de contaminação ou deterioração. Este texto legal era um “mediador”31 importante que interferiu nos rumos das cidades, regulando, constrangendo, direcionando ações mercantes das feiras e mercados municipais. Mas não mais o governo municipal estabelece sua prerrogativa de interferência na comercialização ou qualquer obrigatoriedade de exposição dos alimentos básicos por dias determinados. A situação do abastecimento não era mais de carência de alimentos, o avanço nas pesquisas agronômicas, assistência técnica e a agroindustrialização elevaram a produção e consolidaram um mercado interno de alimentos.

No dia 14 de outubro de 1955, o prefeito Ney Braga32 assinou no Paço da Liberdade a lei municipal nº 1136, que dispôs sobre a criação e exploração de um Mercado Municipal em Curitiba. Em seus artigos 1º e 4º a Lei definiu que:

Art. 1º - Fica o Poder Executivo autorizado a baixar instruções e regulamentos para construção e exploração de um Mercado Municipal em Curitiba, nos precisos termos desta Lei. [...] Art. 4º - Nas dependências do Mercado Municipal poderá ser instalado em Entreposto Municipal de Gêneros, destinado à armazenagem e comércio, por atacado, de gêneros alimentícios, trazidos para consumo da população do Município da Capital. (CURITIBA, 1955).

Logo que se tornou pública a intenção de Ney Braga construir em sua gestão o Mercado Central proposto no Plano Agache, ocorreu um amplo debate nos jornais sobre a

31 Mediadores são entidades que transportam significados mas no caminho transformam, traduzem, distorcem, modificando-os e fazendo outras entidades agirem. Por serem capazes de provocar ações pela transformação de significados e informações, os mediadores são tratados por Bruno Latour como atores (ou atores) – humanos ou não humanos – porque atuam ou provocam outros atores a agirem na constituição do mundo. (LATOUR, 2012).

32 O major Ney Aminthas de Barros Braga começa sua carreira política como chefe da polícia do Estado indicado por seu cunhado o governador Bento Munhoz da Rocha Neto. Deixou a chefia da polícia para se candidatar ao cargo de prefeito de Curitiba, pelo Partido Libertador, com apoio do então prefeito Ernani Santiago de Oliveira. Braga foi o primeiro prefeito eleito em Curitiba pelo voto direto para um mandato de quatro anos (1954 - 1958). Apoiado por setores da União Democrática Nacional e identificando sua candidatura com a de Jânio Quadros à Presidência, foi eleito governador do Paraná em 1960. Em 1965, tomou posse como ministro da Agricultura no governo Castello Branco. Eleito senador em 1966, foi vice-líder da Arena (Aliança Renovadora Nacional) em 1973. Com o general Ernesto Geisel na Presidência da República, em 1974, ao qual Braga havia dado seu apoio, foi nomeado ministro da Educação e Cultura. Em 1978, no governo Figueiredo, foi eleito indiretamente para o governo do Paraná.

finalidade deste novo Mercado Municipal. No jornal Diário do Paraná o novo Mercado Municipal foi tema constante até sua inauguração, além das notícias e comentários o jornal realizou uma longa enquete sobre o que pensam os curitibanos célebres e desconhecidos a respeito do Mercado. Nos diversos textos publicados neste jornal é possível identificar certa controvérsia sobre o papel de um Mercado público central em Curitiba. Reproduzo alguns trechos que ilustram interesses diversos:

A construção do Mercado Municipal faz parte do grande plano de abastecimento de gêneros alimentícios que dará solução concreta a esse antigo problema. Além de garantir a existência de gêneros, o mercado evitará a especulação, que fere ainda mais a já combalida bolsa do povo. (DIÁRIO DO PARANÁ, 1955).

a localização trará uma grande vantagem: o desaparecimento do grande meretrício proximamente situado naquele local e que é motivo de constantes aborrecimentos.

(DIÁRIO DO PARANÁ, 1955).

Assegurado que seja ao produtor, ao colono, ao homem que explora e vive da terra, ponto certo para a venda de sua colheita ao consumidor, sem os prejuízo de atravessadores que sugam os frutos de seus trabalhos, nascerá não só um estado favorável de incentivo à produção, como ficarão asseguradas ao povo, garantias de abastecimentos a preços razoáveis, e sal da especulação que hoje campeia abalando seriamente os alicerces em que se esteia a economia popular. (DIÁRIO DO PARANÁ, 1955).

Ninguém ignora que dado os fortíssimos arredores da cidade, na sua maioria habitado por agrupamentos dedicados ao cultivo da terra, estamos em condição excepcional no que se refere ao <<cinturão verde>>, a defesa exigida para garantia do abastecimento de verduras, legumes, hortaliças e frutas aos habitantes do centro.

Com saudades recordamos os bons tempos de outrora, quando diariamente tinhamos a visita domicilliar das carrocinhas abarrotadas de coisas boas e a precinhos amigos.

Sumiram as belas vendedoras, irradiando saúde e alegria de viver, porque foram suplantadas pelos hábeis intermediários, vendendo tudo pela hora da morte...

Resolvido o Mercado Municipal teremos as bancas para exposição e venda direta ao público, beneficiando-se as partes interessadas - produtores e consumidores - num real barateamento do custo de vida. E o que é mais importante: a vigilância zelosa dos poderes competentes em favor da saúde do povo. (DIÁRIO DO PARANÁ, representarão problemas novos. Urbanisticamente, o empório altera o trafego [...]

Mas o Mercado Municipal, por si só, não soluciona o abastecimento de Curitiba.

Problemas muito mais sérios que a simples distribuição das mercadorias tornam, entre nós, a questão extremamente complexa. (DIÁRIO DO PARANÁ, 1958).

O sr. Jair Câmara, diretor da firma realizadora do Super Mercado, adiantou-nos alguns detalhes do <<shopping-center>> de Curitiba [...] Diversas linhas circulares de ônibus serão criadas pela Prefeitura, tornando o Super Mercado acessível a todos os curitibanos. Aliás, a posição estratégica do <<shopping-center>> permitirá que os principais bairros da cidade sejam ligados diretamente a ele (DIÁRIO DO PARANÁ, 1958).

Somente o tabelamento poderia conter a exploração no comércio das frutas [...] O Mercado Municipal deverá combater os gananciosos: foi construído com este objetivo e estando isentos os seus locadores de quaisquer impostos não se tem dúvida quanto a sua eficiência no combate a carestia (DIÁRIO DO PARANÁ, 1958).

O próprio Ney Braga explica que “no início da década de 50, Curitiba tomou um desenvolvimento muito intenso, o que obrigava à administração municipal estabelecer medidas de execução do plano viário então vigente, o Plano Agache, e adotar outras providências para ordenar o desenvolvimento”. (IPPUC, 1990). Durante a gestão de Ney Braga ocorre uma reestruturação administrativa na Prefeitura que leva a criação do Departamento Municipal de Planejamento e Urbanismo, responsável pelo controle urbanístico da cidade (do qual fazia parte Saul Raiz), e da Comissão de Planejamento de Curitiba (COPLAC). Estas instituições conectadas a Prefeitura mediaram e “traduziram” o Plano Agache, implantando algumas de suas diretrizes e extrapolando outras. No plano de Agache, um novo Mercado Central seria localizado em área contígua a uma nova Estação Rodoviária.

O plano visava concentrar o abastecimento da cidade em um Mercado Central e distribuir entrepostos pelos bairros; conectado ao Mercado Central haveria uma Estação Rodoviária que concentraria todo o sistema rodoviário que cruzava a cidade de forma dispersa. A Estação Rodoviária e o Mercado Municipal estariam conectados com as estradas municipais e interestaduais, estariam próximos ao centro da cidade, do comércio e da estrada de ferro. O plano não foi executado sem transformações, ele passou pela mediação da Prefeitura e do arquiteto urbanista Prestes Maia que determinaram a construção do Mercado Municipal em outro lugar, na região do Capanema, em frente às oficinas da antiga Rede Ferroviária.

Os Mercados públicos de Curitiba, até então, haviam sido planejados e construídos sempre junto as igrejas, prédios da municipalidade ou simplesmente no centro da cidade. Esse novo projeto distanciou o Mercado destes elementos e o aproximou de novos elementos, símbolos da modernidade: trens, ônibus, caminhões e carros. De acordo com Sganzerla (2005), a construção do Super Mercado Municipal neste local tinha como objetivo urbanizar o Capanema, uma região até então desvalorizada, longe do centro, por onde passavam as boiadas conduzidas para o matadouro e as carroças de verduras e frutas montadas por colonos europeus e seus descendentes. Da mesma forma que Antônio Ferucci, o engenheiro italiano que determinou a localização da estação ferroviária, os engenheiros e urbanistas do Departamento Municipal de Planejamento e Urbanismo apostaram no Mercado como agente da urbanização e modernização. “Vinte anos após a inauguração do Mercado, dava pra ver de longe que o empreendimento fora um sucesso, como declara o engenheiro Saul Raiz. O

‘progresso’ chegara ao Capanema.” (SGANZERLA, 2005, p. 125).

O projeto do Mercado Municipal, com mais de oito mil metros quadrados de área, ficou a cargo do engenheiro Saul Raiz33 e a construção executada pela vencedora da concorrência pública, a empresa Gastão Câmara & Cia. Ltda. O engenheiro responsável pela execução da obra foi Affonso Alves de Camargo. Para surpresa de muita gente, o Mercado seria construído com recursos da iniciativa privada. Em troca do investimento, a Gastão Câmara & Cia. Ltda. adquiria o direito de explorar o comércio dos boxes, bancas e lojas por vinte anos. No dia da inauguração, 2 de agosto de 1958, discursaram Rubens Câmara, em nome dos concessionários do “Super Mercado Municipal” (nome que aparece na Figura 7 ainda hoje esta na fachada ), Rudy Senff, pelos concessionários, Adolfo Machado, pela Associação Comercial do Paraná e o major Ney Braga, prefeito Municipal. (DIÁRIO DO PARANÁ, 1958). Seis anos depois da inauguração a Gastão Câmara & Cia. Ltda. amplia o Mercado com a construção de um galpão, com frente para a Rua da Paz, especificamente para atacadistas.

Algumas reportagens de jornal exaltavam que o Super Mercado Municipal era frequentado por “todos”, até pelas senhoras de alta classe (talvez não pelos sapos e pobres expulsos para mais longe do centro), a final fora projetado para ser Central, de fácil acesso para uma cidade com 180 mil habitantes que dispunham de conexões com o Mercado Municipal por diversos sistemas de transporte “modernos” como as linhas de ônibus (que se concentram em uma Estação Central próxima ao Mercado), as vias rodoviárias municipais e estaduais e a linha férrea. O novo Super Mercado Municipal, desde a inauguração, vai se configurar não apenas como um local de encontro entre oferta e procura de alimentos mas também com um importante espaço de socialização e passeio.

33 Saul Raiz foi Diretor de Urbanismo de 1954 a 1958, período que foi elaborado o Plano Diretor da Cidade, posteriormente circulou em outros cargos governamentais até ser indicado para o cargo de prefeito de Curitiba pelo então governador do Paraná Jaime Canet Júnior e logo em seguida aprovado pelos deputados estaduais da Aliança Renovadora Nacional -ARENA. Raiz, que também era filiado a ARENA, foi prefeito de Curitiba entre 1975 e 1979.

Figura 7 – Foto do Super Mercado Municipal de Curitiba localizado no bairro Capanema (década de 1960).

Fonte: IBGE, 2015.

De acordo com Marcio Sérgio B. S. de Oliveira, ocorreram nesta época novas conexões entre pessoas e ideias que orientaram ações urbanísticas em Curitiba:

O Plano Agache (1943) representa a primeira tentativa de ordenação da cidade vista como um conjunto. A partir dos anos 50, o discurso sobre Curitiba modifica-se em parte, passando a vincular o paradigma da modernização (que havia norteado seu desenvolvimento até então) ao Brasil diferente (MARTINS: 1989) da imigração de origem europeia: o esforço modernizador de saneamento concorreu então com o esforço de embelezamento e de enriquecimento cultural. (OLIVEIRA, 1996).

O Plano Agache (1943) representa a primeira tentativa de ordenação da cidade vista como um conjunto. A partir dos anos 50, o discurso sobre Curitiba modifica-se em parte, passando a vincular o paradigma da modernização (que havia norteado seu desenvolvimento até então) ao Brasil diferente (MARTINS: 1989) da imigração de origem europeia: o esforço modernizador de saneamento concorreu então com o esforço de embelezamento e de enriquecimento cultural. (OLIVEIRA, 1996).