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O supervisor escolar no contexto burocrático

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CAPÍTULO II SUPERVISÃO ESCOLAR: UMA IDENTIDADE PROFISSIONAL EM

2.1 A burocracia no cotidiano da escola pública e seus reflexos no trabalho do Supervisor

2.1.2 O supervisor escolar no contexto burocrático

No momento em que o supervisor ou supervisora tomam como objeto da sua supervisão os aspectos mais formais, ou certos pormenores, da prática do seu companheiro, mas sem se comprometer com ela, então eu acho que aí os riscos para a burocratização da sua prática são enormes. (FREIRE, 2002)

O Supervisor Escolar, visto pelos profissionais da escola como um representante das alturas hierárquicas do sistema de ensino (SILVA JÚNIOR, 2002), pode-se dizer que seja o profissional mais diretamente associado à burocracia estatal presente na esfera escolar. A autoridade hierárquica do status de seu cargo está fortemente associada ao poder de controle, do formalismo e da impessoalidade do sistema burocrático.

“Um contínuo fiscalizador e orientador do cumprimento das regras”, isso é o que o sistema burocrático espera da autoridade hierárquica. Nesse ponto, é relevante trazer a noção de autoridade e cargo de Weber, quando destaca que a efetividade da autoridade legal descansa na aceitação da validez da algumas ideias interdependentes, dentre elas:

“1) Que toda norma legal pode ser estabelecida por acordo ou imposição, visando a fins utilitários ou valores racionais — ou ambos. A norma estabelecida pretende obediência, pelo menos dos membros da organização, mas, normalmente, inclui todas as pessoas dentro da esfera da autoridade ou poder em questão [...] 2) Que todo Direito consiste, essencialmente, num sistema integrado de normas abstratas. Ademais, a administração da lei consiste na aplicação dessas normas a casos particulares [...]

3) Que, assim, a pessoa que representa tipicamente a autoridade ocupa um "cargo". Na atividade específica de seu status, que inclui a atividade de mando, está subordinada a uma ordem impessoal para a qual se orientam suas ações. Isso é verdadeiro não apenas para os que exercem a autoridade legal inscrita no conceito usual de "funcionários", mas, por exemplo, para o presidente eleito de um Estado.

4 ) Que a pessoa que obedece à autoridade o faz, como é usualmente estabelecido, apenas na qualidade de "membro" da associação. O que é obedecido é ‘a lei’ [...] (WEBER, 1966, p. 15 - 16)

A relação de interdependência dessas ideias está clara. A lei é estabelecida e a autoridade que impõe é representada pelo ocupante de um cargo. Assim, a autoridade não está na pessoa e sim na lei, supõe que qualquer pessoa empossada no cargo nos termos das prerrogativas burocráticas está apta a representar a autoridade legal.

Para reforçar o conteúdo weberiano presente no sistema escolar, trago mais uma citação de Pereira na qual discorre sobre a descrição de Robert K. Merton:

[...] uma estrutura social, formal e racionalmente organizada, (que) implica padrões de atividade claramente definidos e nos quais cada conjunto de ações está funcionalmente relacionado com os objetivos da organização. Nessa organização há um sistema de cargos e posições hierarquizadas, aos quais correspondem obrigações e privilégios precisamente definidos por normas específicas. Cada um desses cargos abrange uma área de competência e responsabilidade atribuídas. A autoridade, ou seja, o poder de controle que deriva de status reconhecido está no cargo e não na pessoa que o ocupa. A atividade ligada ao cargo ordinariamente desenvolve-se dentro do sistema de regras preestabelecidas na organização. O sistema de relações prescritas entre os vários cargos envolve um considerável grau de formalismo e de distância social, claramente definida, entre os ocupantes desses cargos. O formalismo manifesta-se por meio de um ritual social mais ou menos complicado, que simboliza e apoia a hierarquia dos vários cargos. Tal formalismo, que se integra à distribuição da autoridade no interior do sistema, serve para tornar mínima a fricção, através de uma ampla restrição dos contatos aos modos de comportamento previamente definidos pelas regras da organização... A burocracia implica uma nítida divisão de atividades integradas, que são encaradas como deveres inerentes ao cargo. A atribuição de papéis ocorre na base das qualificações técnicas, que são constatadas através de procedimentos formalizados e impessoais como, por exemplo, os exames de seleção. Na estrutura de autoridade hierarquicamente distribuída, as atividades de especialistas assalariados são governadas por regras gerais, abstratas e claramente definidas, que dispensam a necessidade de se expedirem instruções específicas para cada caso específico... A maioria dos cargos burocráticos envolve a expectativa de serem ocupados durante a vida toda dos indivíduos, desde que fatores perturbadores não intervenham para fazer diminuir o tamanho da organização. A burocracia assegura, ao máximo, a estabilidade no emprego. A função dessa estabilidade assegurada, das pensões, dos salários progressivos e dos procedimentos regulamentados de promoção é garantir a devoção ao desempenho dos deveres ao cargo, sem se recorrer a pressões extrínsecas. O principal mérito da burocracia é sua eficiência técnica, graças à precisão, rapidez, controle, continuidade, discrição e rendimentos ótimos. A estrutura burocrática é das que promovem a completa eliminação de relações personalizadas e de fatores não racionais – hostilidade, ansiedade, envolvimentos afetivos, etc. (PEREIRA, 1967, p. 59)

O excerto anterior não requer uma análise mais profunda para deixar claro que o sistema burocrático tem, como premissa, a normatização, não somente de todas as atividades da área de jurisdição com a qual se relaciona, mas também da autoridade hierárquica e dos direitos e deveres das pessoas em questão e, dentre elas, obviamente, o Supervisor Escolar.

A infiltração dessa linha de raciocínio, de que é possível estabelecer regras específicas para tudo que concerne à organização, seja humano ou não, evidencia- se ao Supervisor Escolar, muito comumente, nas situações em que o funcionário, docente ou não, diante da discordância de alguma atribuição, lhe questiona: “Onde está escrito que eu sou obrigado a fazer isso?” ou protesto equivalente.

Esse apelo à regra, tão corriqueiro, é das evidências mais claras da força do ordenamento normativo no contexto da organização e, ainda que não se possa fazer uma avaliação da pertinência ou não do questionamento em tela, considerada a diversidade de ocasiões em que é proferido, não se pode negar o quanto a convivência no sistema burocrático gera nas pessoas a expectativa de ser possível estabelecer normas ou leis para toda e qualquer situação e, pior, que não estar

escrito supõe que deva ser ignorado.

É o tiro que sai pela culatra. A burocracia, na intenção de normatizar tudo, impessoalizando relações e conferindo à autoridade hierárquica o papel de fazer

cumprir, fiscalizando e punindo, torna-se refém da ausência da regra, posto ser

impossível cercear de regras toda e qualquer possiblidade de comportamento humano.

Inserido nessa realidade, que Silva Júnior (1997) chamou de “prisão

burocrática”, o Supervisor Escolar, via-de-regra, se vê esmorecido e impotente para

realizar um trabalho que contribua para desenvolver a ação docente.

Desde os primórdios da Supervisão Escolar, descritos no primeiro capítulo dessa pesquisa, é recorrente a queixa de que a multiplicidade de tarefas que lhe são atribuídas, aliada às obrigações de cobrar e estipular, constituem grandes obstáculos ao trabalho do supervisor16.

Considerando que até mesmo a burocracia se renova quando aqueles que a integram se recusam a ser meros burocratas, ainda de acordo com Silva Júnior

16 Ressalto que ao falar dos primórdios da supervisão escolar, neste ponto, refiro-me às queixas apresentadas já

(1997), a práxis criativa do supervisor requer uma interpretação crítica da burocracia em que se movimenta, portanto, das dimensões dessa prisão.

Assim, entender a escola implica em assumi-la como uma organização social e, portanto, sustentada burocraticamente, contudo, por tratar-se de uma organização voltada ao estudo e à reflexão, ela só se realizará [como escola] “se efetivamente se

dedicar à análise e à crítica da própria realidade em que se constitui, e isso passa, naturalmente, pela burocracia que a atravessa” (SILVA JÚNIOR, 1997, p. 60).

Ocorre que a burocracia passa, frequentemente, de modo de organização a modo de pensamento e é nesse sentido que ela quase sempre se revela insuperável. Pensar burocraticamente é não pensar, é assumir a impessoalidade e renunciar, consequentemente, à expressão pessoal. É indispensável que o supervisor da escola se expresse como educador e como especialista. Do supervisor espera- se que aja como "o cimento possível da passagem para a coletividade dos educadores daquelas iniciativas e realizações que os pequenos grupos das escolas conseguirão produzir por seu apoio e orientação" (Ibid, p. 103).

Em palestra aos supervisores escolares da Rede Municipal, em 2002, Silva Junior (2002) faz algumas considerações:

Deixa eu lembrar umas coisas que se pode fazer, ou pelo menos tentar fazer:

Primeira coisa, desenvolver a consciência política para relativizar a posição hierárquica. Há um problema, talvez insolúvel mesmo, na pratica da supervisão que é, ao mesmo tempo, a sua garantia e é também seu grande desafio, se temos um sistema, então precisamos de supervisão, mas se temos um sistema temos uma organização burocrática, e se temos uma organização burocrática, como vamos fazer para desenvolver uma supervisão democrática no interior de uma organização burocrática? Esta é a questão fundamental. Como desenvolvemos uma democracia no interior de uma burocracia? [...] Eu estou me referindo à burocracia no sentido weberiano mesmo. As estruturas das grandes organizações se sustentam pela burocracia. Está posto que as estruturas das grandes organizações se sustentam pela burocracia. Dessa forma, a práxis criativa do Supervisor Escolar requer um questionamento fundamental:

Se existem alturas hierárquicas diferenciadas, como é que nos movimentamos sem que a nossa movimentação esteja necessariamente na direção dos movimentos preferencias das alturas que se colocam acima da nossa própria altura? É complicado,

é desafiador, é algo que envolve criação, desejo de inovação, disponibilidade para confrontação etc, etc, mas é certamente alguma coisa muito importante de ser feita, ou, pelo menos, de ser tentada. (Ibid, 2002)

Considerando que Saviani (2003), ao tratar dos requisitos básicos que atribuíram à supervisão educacional o status de profissão, destacou primeiramente,

“a sua necessidade social, ou seja, um mercado de trabalho permanente representado, no caso, a burocracia estatal de grande porte gerindo uma ampla rede de escolas”; diante do exposto nesta seção, a burocracia é, portanto, o desafio, mas

também a garantia do trabalho do supervisor.

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