• Nenhum resultado encontrado

Capítulo 3. Os contextos políticos e sociais de Campo Grande MS

3.1 Perfil e características do município

3.1.1 O surgimento do município e seus principais problemas

Fundado em 1872 e emancipado em 26 de agosto de 1899, o município de Campo Grande nasceu com um território de 105.000 km². Também conhecido como Cidade Morena, Campo Grande teve um papel significativo na economia e política local desde o seu nascimento. Entretanto, a partir da criação do estado do Mato Grosso do Sul em 1977, a cidade se tornou oficialmente capital do estado, ganhando maior evidência em todos os campos, em virtude das rápidas mudanças ocorridas em toda sua estrutura. Segundo o Observatório de Arquitetura e Urbanismo da UFMS (2016, p. 35):

A cidade, como capital do novo Estado, desenvolveu-se numa enorme velocidade. Com taxa média geométrica de crescimento de 8 % ao ano, a população dobrou, mais uma vez, de uma década para a outra atingindo mais de 250 mil habitantes, e apresentando fluxo migratório interno e externo intenso, aumentando a pressão no setor habitacional e nos serviços públicos.

32

Centro Regional de Saúde – CRS; Unidade de Pronto Atendimento – UPA; Unidade Básica de Saúde – UBS; Centro de Atenção Psicossocial – CPS; Unidade Básica de Saúde da Família – UBSF; Centro Regional de Assistência – CRAS; Centro de Referência Especializada de Assistência Social – CREAS; Centro de Convivência com o Idoso – CCI.

O amplo crescimento favoreceu, sobretudo, a construção civil, também influenciada pela forte migração e fixação de moradores, especialmente nos anos 1980, quando a cidade era considerada o “Eldorado do Centro-Oeste” (BITTAR, 1999). Esses fatores favorecem seu desenvolvimento e também seu crescimento desordenado, trazendo enormes desafios principalmente em torno das demandas por moradia. A criação de Conjuntos Habitacionais da Companhia de Habitação Popular – COHAB em locais distantes dos centros de empregos aumentava as dificuldades dos moradores (OBSERVATÓRIO DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UFMS, 2016)33. Em virtude da distância dos bairros em relação ao centro, surgem enormes vazios urbanos, onde passou haver fixação de moradores de baixa renda que,devido à falta de acesso à habitação,optaram por medidas alternativas de ocupação do espaço, formando as primeiras favelas do município. Segundo Souza (1997, p.133), tal cenário se consolida em grande medida principalmente pela:

não-existência de uma política de governo voltada para o incentivo das atividades ligadas à agricultura familiar em todo o estado, o que de certo modo levou número alto de famílias a abandonar as atividades rurais e transferir-se para a periferia dos grandes e médios centros urbanos do estado.

O aumento das favelas em Campo Grande é um dos fatores que contribuiu para esse cenário, tendo em vista que em 1987 já existiam em torno de 60 favelas no município e aproximadamente 7.000 famílias situadas no chamado “cinturão de miséria”, com mais de 30.000 menores carentes (JORNAL DOS MOVIMENTOS POPULARES, 1987a). Tudo isso era considerado um reflexo de uma tímida política nacional de habitação e de uma baixa atuação do Estado, que programou conjuntos habitacionais sem orientação, coerência, planejamento e ainda em número muito inferior à demanda necessária (SILVA, 2007).

33

Não por acaso, os problemas de moradia passam a ocupar o centro do debate de políticas públicas locais, influenciando toda uma estrutura de planejamento, como abordaremos nos próximos tópicos deste capítulo.

O cenário precário da habitação no município contribuiu para a criação, em 10 de maio de 1987, da fundação do Movimento dos Posseiros Urbanos – MPU, que reunia os trabalhadores sem terra e sem teto de toda a cidade e região. Eles ocuparam diversas regiões da cidade, como os bairros: Nova Bahia e Mata do Jacinto e o Sayonara (JORNAL DOS MOVIMENTOS POPULARES, 1987c). Entre as medidas defendidas pelo movimento estavam: a) a desapropriação a baixo custo ou a custo zero; b) levantamento das terras urbanas públicas: municipais, estaduais e federais; c) levantamento das terras urbanas particulares como áreas de especulação imobiliária; d) direito à assistência jurídica gratuita em caso de despejo ou outro conflito; e) tributo ou taxa de imposto alto sobre terras ociosas da cidade; f) direito à suspensão da liminar de ação possessória de terra e casas; g) participação no planejamento, zoneamento e orçamento do município; e h) soberania popular, o direito do povo de fazer Leis na Câmara e Assembleia Legislativa, entre outras demandas (JORNAL DOS MOVIMENTOS SOCIAIS, 1987b).

A pressão e as pautas exercidas pelo MPU ganham continuidade nos anos 1990, especialmente a partir da criação da Associação dos Moradores Sem Teto, em 1997, que surgiu como um instrumento mais incisivo para chamar a atenção do poder público em relação ao atendimento de suas demandas de forma mais urgente. Em consonância com o desenvolvimento urbano, o tratamento das demandas de moradia pelo governo federal, influenciado pela atuação e a mobilização dos movimentos sociais urbanos, trouxe mudanças significativas no sentido de contornar – ou pelo menos atenuar – problemas inerentes a todo o estado e especialmente a Campo Grande. Analisando brevemente algumas das principais mudanças introduzidas na política urbana local, podemos constatar, conforme o histórico dos Planos de Habitação de Campo Grande, uma evolução do tratamento da questão:

 1965 - Criação da Secretaria de Assuntos Fundiários;  1997- Estabelecimento da política municipal de habitação;  2002 - Criação do Programa Construindo Legal;

 2007 - Lei Complementar que institui a política de Municipal de Habitação;  2008 - Estabelecimento de decreto que dispõe sobre a operacionalização do

Fundo de Habitação – FUNDHAB;

 2009 - Criação do Cadastro Único, que ordena o atendimento e demanda de habitação para pessoas de baixa renda.

Os pontos mencionados se alinham à política nacional de habitação em diversos aspectos, em especial no que se refere aos direitos garantidos pela Constituição de 1988, tais como o direito à moradia. Após a Carta Constitucional, dois fatores enriquecem o tema: o estabelecimento do Estatuto da Cidade em 2001, com várias diretrizes voltadas à questão urbana, e a criação do Ministério das Cidades e a efetivação das Conferências das cidades, em 2003. Ambos favoreceram a maior participação dos movimentos populares de moradia.

A influência das políticas nacionais permite a Campo Grande uma melhora com relação ao tratamento das questões sociais, especialmente nos 1980, quando esses problemas inerentes eram mais acentuados. Naquele momento, a ideia era superar o enorme desafio decorrente da questão urbana, freando ou solucionando em definitivo os problemas de desorganização do contexto urbanístico e, principalmente, do aumento das favelas ou aglomerados subnormais. Assim, no início dos anos 1990, a cidade registrava 25 favelas, distribuídas em regiões como do Anhanduizinho, Bandeira, Imbirussu, Lagoa e Segredo e em pelo menos outros 12 bairros da cidade. Já ao final da década, houve um processo de diminuição desses aglomerados, devido a políticas do governo local implementadas pela administração do peemedebista André Puccinelli no início dos anos 2000. Considerando o cenário de melhora, o último censo do IBGE (2010) registrou apenas três aglomerados, com um total de 463 famílias e 1.462 pessoas, que trabalhavam, sobretudo, com materiais reciclados, uma das principais fontes de renda destes moradores34. O processo de desfavelização, iniciado por Puccinelli e

34 Não por acaso, algumas das principais cooperativas de materiais recicláveis até hoje se concentram em regiões e bairros com baixos índices de qualidade de vida, como os bairros Dom Antonio Barbosa, São Conrado e Vida Nova 2, nas regiões urbanas pertencentes ao Anhanduizinho, Lagoa e Imbirussu.

continuado por outro peemedebista, Nelson Trad Filho, teve efeitos significativos no município, mas não eliminou a questão por completo. Os problemas de habitação voltaram a crescer ao longo do mandato mais recente de Alcides Bernal (PP), quando as favelas retornam aliadas principalmente ao amplo déficit habitacional (CAMPO GRANDE NEWS, 2013).

Um dos pontos de partida da mobilização popular de Campo Grande consiste no rápido processo de transformação urbana, advindo de sua condição de capital. Os problemas e o acúmulo de demandas decorrentes desse processo se relacionam a diferentes cenários, entre eles a dificuldade do poder público em lidar com os problemas mais emergentes do município. A chegada de um elevado número de migrantes intensificou esses problemas, uma vez que uma população maior demandava mais serviços e obras públicas, sobretudo, no tocante à infraestrutura urbana e às políticas de bem-estar social. Todos esses fatores superavam a capacidade de gestão pública do município, que convivia com um aumento dos índices de violência e de despejos, o que acentuava diversos problemas sociais, em especial de moradia e de regularização fundiária, que se mostraram um dos principais problemas do município entre os anos de 1980 e 1990. As crescentes demandas favoreceram a criação de diversas entidades articuladoras,como a UCAF, CRF, UMAM, FEUMANS e, sobretudo, os Conselhos Regionais.

3.2 O panorama político e social do estado

Segundo dados do IBGE (2015), atualmente o estado do Mato Grosso do Sul possui uma população estimada em 2.651.235 habitantes, distribuídos entre 79 municípios, dos quais mais da metade possui população inferior a 25.000 habitantes e 36% apresentam número de habitantes inferior a 10.000. O estado se destaca pelo seu potencial econômico através da pecuária, agricultura, mineração, turismo e, mais recentemente, por conta do processo de industrialização e pela produção da celulose. Entre as principais regiões do estado, é possível destacar: a) a região da