Para compreender os objetivos e funcionamento do SADC, faz-se necessário remontar a origem de seu antecessor, o Southern African Development Coordination Conference16 (SADCC) constituído em 1980 pela declaração intitulada África Austral Rumo à Independência Econômica, que ficou posteriormente conhecida como Declaração de Lusaka. O SADCC era composto originalmente por Angola, Botsuana, Lesotho, Malawi, Moçambique, Swazilândia, Tanzânia, Zâmbia e Zimbábue.
Os objetivos explícitos do SADCC eram quatro: redução da dependência econômica, especialmente em relação à África do Sul; possibilitar integração regional de forma equitativa; mobilização de recursos para implementação de políticas nacionais, interestatais e
regionais; atuação internacional para a garantia de cooperação dentro de uma estratégia de liberalização econômica (SADC, 2010). Ou seja, surge como um movimento que tinha como um dos objetivos centrais o combate ao regime sul-africano. Desta forma, assim como os Estados da Linha de Frente (ELF) combatiam politicamente o apartheid, o SADCC tinha como função combatê-lo de forma econômica o que, na prática, seria um meio mais eficaz de obter sucesso no objetivo político, ou seja, a abolição do regime. Esse poderia ser entendido como um objetivo implícito do SADCC: o apoio aos movimentos de libertação, este extra- oficial para evitar retaliações por parte da RAS.
Com a crença de que a dependência dos países membros em relação à África do Sul, o SADCC buscou então elaborar um programa multilateral e, para tanto, atribuiu a cada país membro a responsabilidade sobre uma área específica, visando o desenvolvimento de diversos setores, como comunicações, transportes, relações comerciais, investimentos e fluxos migratórios. Destes, merecem destaque as áreas de comunicação e transporte, este último no intuito de compensar a falta de acesso ao mar de seis dos nove signatários. Entretanto, seria inviável a efetivação das ideias, em face da aberta oposição sul-africana à perda de seu controle sobre seus vizinhos: a resposta foi dada através de ações de desestabilização tanto econômica quanto militar.
Diversos problemas e conflitos ocorreram entre a RAS e os países do SADCC no período compreendido entre a criação do SADCC em 1980 até a adesão da África do Sul em agosto de 1994. Ainda que não sejam estes detalhados aqui, é ilustrativo descrever o cenário mundial à época, para que possa ser entendido o contexto histórico no qual se deu a transformação do SADCC na SADC, em 1992.
Wallerstein (2004) explica o período pós-guerra através dos ciclos de Kondratieff. A fase A do ciclo seria o período de 1945 a 1973, marcada por uma curva ascendente de expansão econômica; já a fase B, caracterizada pela curva descendente de contração econômica compreenderia o período de 1973 até os dias de hoje e as próximas décadas. Tal qual já observado em ciclos anteriores ao atual, a fase A coincidiu com o ápice da hegemonia norte-americana ao assumir, em 1945, a situação de potência não devastada pela II Guerra Mundial. Entretanto, a partir de 1968 a estagnação começa a sinalizar através do deslocamento do capital da esfera produtiva para a financeira, o aumento do desemprego e a fuga das fábricas para áreas com salários mais baixos.
A década de 1970 é marcada pelo aumento do preço do preço do petróleo pelos países produtores que, juntamente com Estados Unidos e Alemanha, lucram com os juros abusivos cobrados pela concessão de crédito aos países mais pobres. Já a década de 1980 foi marcada
pela crise da dívida, pelo crescimento econômico oriental e pelo keynesianismo militar17 que deu origem à dívida nacional estadunidense. No caso da década de 1990, vale destacar a invasão de tropas iraquianas ao Kwait, com a finalidade de controlar suas reservas de petróleo, uma afronta direta ao poder de polícia da potência hegemônica.
Desta forma, Wallerstein (2004) analisa o período como característico de saída da fase B de um ciclo para entrada na fase A do novo ciclo. No entanto, o equilíbrio nunca é restaurado no mesmo ponto, pois é dinâmico e possui tendências seculares. Existem três grandes pressões estruturais sobre a capacidade dos capitalistas acumular capital: a) aumento do nível salarial como percentagem dos custos de produção; b) custo da aquisição de materiais; c) tributação. Ou seja, ainda que o período entre os ciclos não possa ser indefinido, é essa conjuntura de incertezas que ainda deve marcar as próximas décadas.
Com o fim da guerra fria entre as potências capitalista e comunista, a disputa pela atenção, apoio e território no continente africano perdeu destaque frente a eventos como a queda do Muro de Berlim e reunificação da Alemanha. Os investimentos dos EUA e também dos países europeus passaram a ser voltados para a estabilização alemã, buscando sustentar sua evolução para um regime democrático. Ao mesmo tempo, o interesse comunista em competir com o capitalismo deixava de existir no que diz respeito ao financiamento de regimes africanos, o que criou sérias dificuldades à manutenção econômica do SADCC.
Por outro lado, com o fim do patrocínio externo das forças militares envolvidas nos diversos conflitos internos dos países africanos, foi viabilizada a negociação para o estabelecimento de regimes democráticos, como no caso sul-africano, que viu o fim do subsídio norte-americano ao regime segregacionista e abriu caminho para que lideranças como Frederik De Klerk e Nelson Mandela preparassem a população para o fim do apartheid. Desta forma, não tardaram os dirigentes do SADCC a vislumbrar a necessidade de adequar aos novos tempos seus objetivos, dentre eles a inclusão da África do Sul, país com a possibilidade de ajudar a todos os demais, visto suas características de potência econômica, ainda que periférica:
A África do Sul é claramente distinta do restante da África subsaariana. Apresenta um nível bem mais alto de industrialização, uma economia mais diversificada e exerce papel mais significante na economia global do que os demais países do continente. Não se enquadra nem como economia dependente, de baixos salários, nem como emergente, altamente qualificada e competitiva. (CASTELLS, 1999, p.148).
17 Keynesianismo militar é como ficou conhecida a política do presidente norte-americano Ronald Reagan de aumentar o gasto militar com vistas ao aumento da demanda efetiva.
Assim, em agosto de 1992 na Namíbia, os agora dez países membros com a entrada deste, assinam o Tratado que altera a denominação e, mais importante, a finalidade da antes Conferência de Coordenação e agora Comunidade para o Desenvolvimento18. Ainda que possa parecer apenas uma mudança de nomenclatura, a grande inovação que surge com o nascimento da SADC é a ideia de formação de um mercado comum entre os países da África Austral.