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As irmandades leigas ou confrarias270 em Portugal tiveram suas primeiras aparições no século XIII, propagando-se para as longínquas terras de além-mar, conquistadas pelo império português, a partir do século XVI271. A finalidade primordial desse tipo de associação era dar assistência material e espiritual a seus membros bem como promover o culto ao santo de sua devoção. Nesse sentido, elas se constituíram no intuito de atender as necessidades de seus associados, “não apenas através de uma prática caritativa baseada no amor ao próximo com forma de assegurar a salvação individual, mas também através da orientação doutrinal dos fiéis, do estímulo da procura dos sacramentos, do culto dos mortos e do exercício de outras atividades devocionais e piedosas272”.

As irmandades ainda que revelassem e legitimassem as hierarquias e diferenças sociais não deixaram de exercer papel relevante na construção da identidade dos grupos que elas representavam, do mesmo modo que “reforçaram os processos de integração e

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Irmandade, confraria e ordem terceira eram associações leigas com a finalidade de desenvolver o culto a um santo e prestar serviços caritativos a seus membros. Embora com objetivos comuns, na sua forma de funcionamento e estruturação comportavam diferenças. Assim, conforme Célia Maia Borges (2005) “as pias uniões eram associações de fieis eretas com o objetivo de exercer obras de piedade ou caridade. Quando constituídas em organismos, reguladas por um estatuto, chamavam-se irmandades. As que se erigiam para promover tão somente o culto público (procissões, rezas e representações de várias naturezas) denominavam-se confrarias”. In: Escravos e libertos nas irmandades do Rosário, Juiz de Fora, Editora UFJF, 2005, p. 52. Para os envolvidos com as associações leigas no Ceará não parecia haver muita diferença entre elas dado ser comum o emprego de ambos os termos para se referir ao fenômeno. Em razão disso, faço uso recorrente dessas duas expressões como se fossem sinônimas.

271 Conforme A. J. R. Russell-Wood “A Península Ibérica não ficou imune a este sentimento corporativo

que varreu a Europa do Mediterrâneo Báltico” Op. cit., 2005, p. 191. Diz ainda o autor que “As primeiras irmandades de Portugal sobre as quais há detalhes são a Ordem Terceira de São Francisco (1289), a Confraria dos Homens-Bons (Beja, 1297) e a Irmandade da Imaculada Conceição (Sintra, 1346). Além disso, as sociedades de Espanha e Portugal incluíam diversas religiões, raças e idiomas e propiciavam oportunidades de contato intercultural freqüente. No século XV, existiam nas cidades de Espanha e de Portugal irmandades católicas que contavam, entre seus membros, com Negros trazidos da África como escravos, além de Brancos de origem Ibérica.” Op. cit., 2005, p. 191. Contudo, para P. Penteado, “A maioria das confrarias portuguesas medievais foram criadas a partir do século XIV e localizavam-se em igrejas paroquiais e capelas próprias”. Op. cit. 2000, p. 461. Já no Brasil somente no século XVII e XVIII essas irmandades aparecem no cenário urbano das principais freguesias. Portanto, “No século XVII, seria verdadeiro dizer que para cada pessoa, negra ou mulata, homem ou mulher, escrava ou livre, e para cada origem tribal e local de nascimento (Crioulo, ou seja, nascida no Brasil, ou vinda da África) existia uma irmandade na qual poderia encontrar seus iguais”. A. J. R. Russell-Wood, Escravos e Libertos no Brasil

Colonial, Rio de Janeiro, 2005, p. 199.

272 P. Penteado, Confrarias, in Dicionário de História Religiosa de Portugal. Carlos Moreira Azevedo

158 coesão comunitária e multiplicaram os tempos, espaços e formas de sociabilidade273,

principalmente em torno das festas e celebrações religiosas274”. Paulo Penteado (2000) destaca a dimensão política dessas agremiações pela sua capacidade de criar oportunidades de “exercício do poder local, factor que muito contribuiu para seu sucesso275”. Por fim, junta a essa característica, o seu caráter festivo uma vez que “a maior parte das irmandades tinha responsabilidade de organização ou de participação em várias festividades, facto que garantia maiores oportunidades de exibição e reconhecimento social e de sociabilidade, particularmente entre seus membros, que assim poderiam estabelecer laços mais estreitos entre si276”.

As irmandades em voga no Brasil colonial remontam às confrarias religiosas européias, que por sua vez se distinguem das corporações de ofícios ou das guildas bastante populares no período medieval. O modelo para aqui importado em quase nada se distinguia de suas congêneres portuguesas, pois as características apresentadas àquelas em Portugal são facilmente encontradas nas confrarias brasileiras, destacando- se, sobretudo pelas suas qualidades festivas e devocionais. Em quase todas as freguesias brasileiras encontravam-se as irmandades do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora do Rosário e das Almas, tendo sido também as primeiras a serem estimuladas na metrópole. Os Negros normalmente se congregavam em torno da virgem do Rosário, seguindo também o padrão português, mas existiam outros santos de sua predileção como São Benedito, Santa Ifigênia.

A irmandade de Nossa Senhora do Rosário apareceu em Lisboa, no mosteiro dominicano, em 1460277. Inicialmente parecia ser de devoção tanto de Pretos como de Brancos, mas a identificação maior dos primeiros com seu culto foi gradativamente afastando os outros, tornando-se o orago quase que exclusivamente das confrarias de Pretos libertos ou escravos, Africanos ou Crioulos. No século XVI, o culto criado por São Domingos de Gusmão, e já quase esquecido, foi restabelecido com os primeiros

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A sociabilidade não parece se distinguir dos esquemas de interação seja entre iguais ou diferentes para Georg Simmel (2006). Para além de um caráter “superficial” e de um mundo artificial que lhe possa ser conferido, para ele “toda sociabilidade é um símbolo da vida quando esta surge no fluxo de um jogo prazeroso e fácil. Porém, é justamente um símbolo da vida cuja imagem se modifica até o ponto em que a distância em relação à vida o exige” (Grifos do autor). In: Questões fundamentais da sociologia, Rio de Janeiro: Zahar, 2006, p. 80.

274 P. Penteado, op. cit., 2000, p. 460. 275

Ibid.

276

P. Penteado, História Religiosa de Portugal, Carlos Moreira Azevedo (Dir), Rio de Janeiro, Círculo de Leitores, v. 2, 2000, p. 327-328.

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159 missionários enviados para a África. De certo modo, isso justificou sua generalização

entre os Negros escravizados278.

A metrópole foi a grande difusora do culto no âmbito das irmandades, mas foi também por meio da África, como enfatizou Eduardo Hoornaert (1991) “que o Rosário passou para o Brasil, onde constituía o elo fácil e muito popularizado de contato entre a instituição oficial da igreja e o mundo dos escravos Negros”279. Então, não seriam as irmandades e a devoção à virgem do Rosário uma “reinterpretação do catolicismo africano” em terras brasileiras e ainda a possibilidade de rememoração de práticas culturais católicas adquiridas pelo Africano antes de sua subjugação na África?

Para Roger Bastide (1971), o culto aos santos negros ou à virgem do Rosário foi uma etapa da cristianização, sendo utilizado pelos proprietários de escravos no Brasil como um instrumento de controle e submissão do escravo. A parte essa visão meramente negativa relacionada às devoções negras instituídas pelas irmandades, porquanto nem sempre elas foram bem aceitas, não se pode perder de vista que o culto à senhora do Rosário e as festas correlatas, se constituíram para os Negros em linhas de fuga ou alternativas de poder em um contexto onde as possibilidades de inserção eram bastante limitadas. As irmandades pretenderam construir uma alternativa política e social a partir de onde os Negros negociavam um lugar na sociedade e muitas vezes até sua liberdade sem se investir no confronto com os senhores e menos ainda com pretensão de destruir o sistema de escravidão.

É provável que tenha sido a irmandade de Nossa Senhora do Rosário de Pernambuco a primeira a ser instituída em terras brasileiras. Conforme A. J. R. Russell- Wood (2005), “em 1589, dois zelosos missionários jesuítas formaram irmandades de escravos Negros que trabalhavam nas fazendas açucareiras de Pernambuco com o objetivo declarado de melhorar a instrução espiritual”280

. Na Bahia, as confrarias negras com devoção a Nossa Senhora do Rosário foram inúmeras e contavam no século XVII com pelo menos duas de maior destaque em Salvador: a do Rosário da Conceição da Praia, 1686 e a do Rosário das Portas do Carmo, 1685. Certamente, para uma dessas duas o padre Antônio Vieira fez um sermão em 1688, antes mesmo de sua ordenação, exaltando a necessidade dos Negros se manterem fiéis ao culto católico. “Dites-moi: vous parents, qui sont nés dans les ténèbres du paganisme, qui y vivent et y finissent

278

R. Bastide, As religiões africanas no Brasil, São Paulo: Livraria Pioneira, 1971, 163.

279

E. Hoornaert, O cristianismo moreno do Brasil, Petrópolis: Vozes, 1991.

280

160 leurs jours, privés de la lumière de la foi e de la connaissance de Dieu, où vont-ils après

leur mort? »281.

Ao pregar para a confraria negra, o objetivo de Vieira não era o de condenar a escravidão do Africano como fez em relação à escravidão indígena, mas antes convencer os escravos da doçura de sua condição “Il n‟y a pas de travail plus sucré que celui de vos engenhos. Mais à qui va toute cette douceur? Vous êtes comme les abeilles, qui fabriquent le miel, mais pas pour elles mêmes»282. Para o pregador o sofrimento dos engenhos seria suplantado pela alegria e pela glória, “suivant l‟orde du chapelet”283. Impossível afirmar se as irmandades ao venerarem Nossa Senhora do Rosário faziam essa associação, mas o fato é que foi através dessa devoção que puderam alternar suas desventuras quotidianas com momentos de festa e de encontro.

Assim, seguindo o exemplo das portuguesas, as irmandades do Brasil exerceram importante papel na doutrinação da fé católica da população que se conformava na colônia com o Branco Português e o Negro Africano, escravizado. Como o processo de evangelização do autóctone encaminhava-se no sentido da constituição das aldeias jesuíticas, depois com o estabelecimento das vilas pombalinas, esse tipo de organização quase não prosperou no seu seio. O que não foi bem o caso dos colonos Portugueses e dos Negros, pois não somente possuíam associações distintas como muitas vezes estavam impedidos de freqüentarem umas as outras e até mesmo de cultuar o mesmo patrono. Também não muito diferente da realidade portuguesa, as irmandades no Brasil representavam as hierarquias existentes na sociedade e a sua instalação se deveu em grande parte pela possibilidade de dar assistência social e espiritual aos necessitados e desvalidos, especialmente a população africana e crioula. Nesse sentido, elas foram relevantes no “processo de aculturação da população africana, estimulando-a ao exercício dos ritos católicos e à participação nos sacramentos”284

.

Se foram os dominicanos a propagarem o culto de Nossa Senhora do Rosário na África e em Portugal, em terras brasilis vão ser jesuítas e franciscanos a incentivarem- no através da criação das irmandades. Foi por meio dessas duas ordens religiosas que os Negros puderam apreender o ethos católico e a manipulá-lo a seu favor. As associações religiosas leigas brasileiras, não muito diferentes das do reino em relação ao fato de

281

A. Vieira apud A. José-Saraiva, Le Père Antônio Vieira S.J et la question de l‟esclavage dês Noirs au XVIIe siècle, Annales, 1967, nº 6, p. 1291.

282

Ibid, p. 1292.

283

Ibid.

284

161 integrar a população respeitando suas diferenciações quer fossem étnicas, de raça ou de

cor, “encontraram pleno florescimento no decorrer do século XVIII. Partindo de modelos portugueses, procuram adaptar-se às circunstâncias locais, sem perder, entretanto, as características de seus modelos de origem, que se encontram sobretudo nas regras das Misericórdias e em particular na de Lisboa”285.

As irmandades, espalhadas em todas as latitudes da colônia, foram organizadas e administradas em conformidade a um conjunto de regras intituladas compromissos, não sem antes estes serem submetidos a aprovação real por meio da Mesa de Consciência e Ordens. Nesses compromissos determinavam-se os critérios de elegibilidades da mesa regente, os deveres e as obrigações dos que ocupavam os cargos administrativos. Delimitavam ainda as obrigações e os privilégios que teriam os componentes da agremiação, ou irmãos, se respeitadas e cumpridas as prescrições da agremiação. A administração da irmandade ficava então sob a incumbência de uma mesa, constituída por um ou mais juízes286, posto de maior importância, procuradores, tesoureiros, escrivães e mesários287. Além dos cargos efetivos, havia os cargos figurativos, simbólicos, ou para usar uma expressão comum nos regulamentos, cargos por devoção, que poderiam ter a mesma configuração de juiz, procurador, tesoureiro ou escrivão. As irmandades negras atribuíam essa característica aos postos de rei e rainha.

Em linhas gerais, os compromissos se estruturavam em capítulos, desdobrando- se em artigos e parágrafos. Através deles se expressavam os anseios da organização, mais especificamente o modo como deveria funcionar. Embora fossem os critérios econômico/raciais que diferenciassem as irmandades, na verdade o que lhe caracterizava estava proposto logo no primeiro capítulo do compromisso com uma descrição de sua finalidade não necessariamente fazendo alusão a esses aspectos. Esses critérios vinham a lume quando era definida a sua composição. A seguir, vinha uma descrição dos direitos e obrigações dos membros. Alguns estatutos traziam uma exposição pormenorizada das funções de cada cargo e um cronograma, definindo os momentos de encontro dos irmãos para se proceder à renovação da mesa regedora. No tocante ainda a um calendário, estabeleciam-se a data de comemoração do orago e outros momentos de festividades dos quais os confrades deveriam participar.

285

J. Scarano, Devoção e Escravidão, São Paulo: Brasiliana, 1978, p. 27.

286

O juiz poderia ser chamado de presidente, administrador, prior ou provedor.

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162 A cada ano deveria se proceder à eleição e posse dos novos regedores. A escolha

era realizada por meio de eleição e em caso de haver rejeição ao cargo, novo processo eleitoral seria estabelecido. O irmão que recusasse o posto para o qual foi escolhido deveria justificar, e não sendo convincentes os motivos, era-lhe cobrada uma multa. Os compromissos previam critérios de admissão dos associados. Nesse ponto se definiam as condições sociais ou raciais dos membros da irmandade. Em resumo, essas normas além de regular a administração,

estabeleciam a condição social ou racial exigida dos sócios, seus deveres, e direitos. Entre os deveres estavam o bom comportamento e a devoção católica, o pagamento das anuidades, a participação em cerimônias civis e religiosas da irmandade. Em troca, os irmãos tinham o direito à assistência médica e jurídica, ao socorro em momento de crise financeira, em alguns casos ajuda para a compra de alforria, e muito especialmente, direito a enterro decente para si e membros da família, com acompanhamento de irmãos e irmãs de confraria, e sepultura na capela da irmandade288.

Para o santo de sua veneração deviam os irmãos se empenhar para construir uma capela ou uma igreja. Mesmo havendo explícitas diferenças entre as confrarias de Brancos e Pretos, estas poderiam se albergar no mesmo espaço sagrado, por certo período de tempo, mas a obrigação que incidia sobre cada uma delas era a construção de um templo próprio para o culto do orago de sua devoção. Para tanto, essas associações deveriam conformar um patrimônio em bens de raiz e móveis através de doações fossem de seus próprios componentes ou de outros fiéis. Elas procuravam por todos os meios o auto-gerenciamento e a auto-sustentação, não recusando contudo o dom de quem quer que fosse. Embora não fosse a realidade de todas as irmandades negras, o fato é que muitas delas possuíam bens em propriedade de terra, casas, animais e outros. Diante de semelhante situação, isto é, em que fossem muitos os recursos a gerir, maiores responsabilidades pesavam sobre os administradores, em especial sobre o tesoureiro, que tão logo finalizasse seu mandato deveria prestar contas das rendas à nova diretoria. Em caso de discrepâncias entre as receitas e despesas, o tesoureiro tinha obrigação de fazer as cobranças necessárias ao devedor “para que pague o principal, e as custas, o que fará dentro de um mês, e não cumprindo assim, o Escrivão lhe carregará

288

163 a dívida como se já estivesse recebida”289

. Daí se verifica a importância que tinham os livros de receitas e despesas.

No sistema de padroado as irmandades seculares também deviam obediência à Igreja Católica. Para manter a vigilância sobre elas, As Constituições primeiras do

Arcebispado da Bahia (1707) dedicaram algumas instruções para a sua conformação e

administração, não necessariamente para as confrarias negras, incidindo sobretudo na forma como deveriam proceder com seus estatutos ou compromissos “porque tendo na sobredita forma alguns abusos ou obrigações menos decentes, e pouco convenientes ao serviço de Deos, e dos Santos, as fação emendar”290

. Coibir os abusos “que os Confrades, ou irmão põem em seus Estatutos ou Compromissos, obrigando com elles a pensões onerosas, e talvez indecentes, de que Deos nosso Senhor, e os Santos não são servidos291”.

As festas em homenagem ao patrono eram estimuladas e os compromissos dedicavam especial atenção a elas. A ação da confraria muitas vezes se voltava à obtenção de receitas que seriam empregadas nos momentos festivos. As festas favoreciam a visibilidade da associação e por isso elas eram realizadas com esmero e pompa. Eram também os gastos exorbitantes aí empregados o vetor dos conflitos entre confrades e os vigários. Daí se justificar que as Constituições primeiras versassem sobre as despesas a serem consideradas pelos visitadores. “E encomendamos aos ditos Visitadores, não levem em conta gastos demasiados, e excessivos, feitos em comer, e beber, danças, comedias, e cousas semelhantes, mas antes do que crescer dos gastos ordinários, e lícitos, ordenarão que se comprem ornamentos, e peças para as Confrarias”292

.

Embora os estatutos não fossem de encontro ao que determinavam as

Constituições primeiras, é fato que elas procuram construir uma autonomia em relação

ao que deveria ser despendido com as folias em homenagem ao santo venerado, porquanto esses momentos eram de demonstração da grande devoção dos fiéis. A pompa, as danças e as comédias, tolhidas pelas autoridades eclesiásticas e insistentemente engajadas pelas confrarias, poderiam revelar ainda o desejo de marcar

289

S. M. da Vide, Das Confrarias, Capellas, e Hospitais; e da forma, que devem ter os compromissos das confrarias sugeitas à nossa Jurisdição Eclessiástica, in, Constituições primeiras do Arcebispado da

Bahia/feitas, e ordenadas pelo ilustríssimo D. Sebastião Monteiro da Vide, 1707, Brasília: Senado

Federal, 2007, p. 306. 290 Ibid, p. 304. 291 Ibid, p. 304. 292 Ibid, p. 306.

164 com júbilo o encontro da comunidade negra. Encontro no qual as alianças e

solidariedades eram reafirmadas e redefinidas e, como em todo jogo de interação, os conflitos também eram reacendidos. A ação das confrarias, de certo modo, era regulada pela religião católica, como se destacou há pouco, contudo não se pode atribuir a elas ausência de negociação. Mais do que um “simulacro de liberdade política293”, pretendido por Nina Rodrigues (1945), elas poderiam ser percebidas “como meios de integração dos Negros na sociedade local e de humanização dos escravos que ali podiam se reunir e se divertir, sem, entretanto, contestar o sistema escravista, como espaço físico e político que dava a seus membros um sentimento de identidade e orgulho”294

.

É pouco provável que as irmandades, em especial as confrarias negras no Ceará, tenham se distinguido das demais do Brasil porque aí teria sido inexpressiva a escravidão. Sem pretender um retorno a esse debate, importa dizer que não foram as particularidades da escravidão cearense que condicionaram o florescimento dessas agremiações no seu seio, pois onde quer que existisse uma freguesia instalada, os leigos aí se arregimentavam em confrarias. Por outro lado, a escravidão tampouco determinou características peculiares que porventura lhes diferenciassem das outras associações leigas espalhas pelo território brasileiro. Pelo contrário, as associações leigas cearenses se organizavam conforme os cânones do catolicismo tridentino, baseado no culto aos santos e na participação dos sacramentos295.

Outrossim, foi por meio delas A existência de irmandade no século XVII foi registrada pelo bispo de Pernambuco ao relatar ao rei D. Pedro II, as soluções tomadas para resolver o desamparo espiritual que encontrou naquela capitania do Siará em 1698. “Logo que tive notícia do desamparo, em que estava crescerão os moradores, e