2. Conectividades: panorama de políticas brasileiras e latino-americanas de
2.6 O telecentro em sua complexidade como parte do mundo social
Para compreender a complexidade do ambiente midiático-comunicacional do telecentro é preciso situar a atmosfera em que se articulam os micro-contextos que problematizamos no primeiro capítulo: a concretude das experiências historicamente situadas do projeto Paranavegar e Faróis do Saber ou das relações midiático-digitais
com o cotidiano e a cultura midiática dos internautas. As entrevistas com administradores dos projetos Paranavegar e Faróis do Saber173 e os documentos analisados destacam a tendência mundial em que estão inseridos os projetos de telecentros, seja no aspecto de políticas de combate a “exclusão digital”, seja na defesa de modelos ou concepções tecnológicas de caráter “livre” (open source), ou de código
“proprietário” (com patentes e copyright), ambos os debates ultrapassam as fronteiras nacionais.
A outra necessidade foi também fazer com que o projeto fosse, a plataforma fosse, software livre. Porque é uma tendência mundial, e como o projeto atende uma boa parcela da população da comunidade, isso ajudaria também não só na divulgação do projeto, mas a finalidade do projeto [Entrevista Adalberto Serpa, ICI, Curitiba, 14/09/06].
É consenso mundial que a exclusão digital aprofunda a exclusão sócio-econômica, e o Governo do Estado do Paraná reconhece não só que a toda a população deve ter garantido o direito de acesso ao mundo digital como também que a inclusão digital deve ser uma política pública articulada e integrada entre as esferas federal, estadual e municipal.174
Portanto, é limitada a compreensão dos ambientes midiático-digitais dos telecentros e os processos de usos e apropriações pelos internautas, se os tomarmos isoladamente, se não situarmos os contextos a que estão relacionados. É o que propõe Milton Santos, inspirado em autores como Baudrillard e Abraham Moles, ao tratar dos objetos técnicos: de que não podem ser vistos isoladamente, mas em uma relação entre elementos que compõem uma cadeia. Dar conta assim da “vida sistêmica dos objetos”
(SANTOS, 2002: 71). Tomamos aqui a noção de relação proposta por Gregory Bateson (1998). Para ele, tanto os processos de indução como de dedução ganham um novo sentido, quando se levam em conta as relações entre os dados.
Un fonema existe como tal sólo en combinación con otros fonemas que constituyen una palabra. La palabra es el contexto del fonema.
Pero la palabra sólo existe como tal – sólo tiene “significado” – dentro del contexto de la elocución, la que sólo tiene sentido, a su vez, en una relación (BATESON, 1998: 432).
Se analogicamente a palavra só existe como tal, só tem significado, dentro do contexto da elocução, poderíamos afirmar que a compreensão dos projetos de telecentro
173 Realizadas em setembro de 2006, na cidade de Curitiba.
174 CELEPAR. Programa Telecentros. Telecentros Paranavegar: Documentos. Junho de 2003, 6 pgs.
(Documento pdf)[http://www.telecentros.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=9].
como fenômeno midiático-digital se dá na relação com seus contextos político-econômicos.175 Em suma, partir para a tentativa de uma compreensão macro dos contextos que os enquadram (frame) formando relações em circuito (BATESON, 1998:
516), que envolvem distintas concepções de sociedade da informação. Ou seja, é necessário problematizar a transnacionalidade dos telecentros, situando os programas de telecentros, na medida do possível, em diferentes estratégias de inclusão de sociedades nacionais no paradigma da Sociedade da Informação.
A questão transnacional representa a nova fase do desenvolvimento do capitalismo, na qual o campo da comunicação é parte decisiva (MARTÍN-BARBERO, 2001a). Configura-se não mais como a imposição de um modelo econômico, mas um salto para a internaciona lização de um modelo político difuso, inter-relacionado e interpenetrado, ou seja, complexo, que coloca a idéia de Nação – logo os países que tentam se contrapor e se defender linearmente com um discurso nacionalista – em um foco de contradições e conflitos inéditos. “Como a transnacionalização opera principalmente no campo das tecnologias de comunicação – satélites, telemática – é no campo da comunicação que a questão nacional encontra seu ponto de fusão”
(MARTÍN-BARBERO, 2001a: 295). A discussão da transnacionalização se torna pertinente e necessária, em nossa proposta de produção de conhecimento sobre os modelos de telecentros como para os demais processos midiáticos, em três aspectos.
Primeiro, nas micro-relações sob o aspecto dos próprios objetos técnicos e suas formas de produção, circulação e reconhecimento, que estão atravessados pelas tecnologias digitais de transmissão e recuperação de dados, aliados a poderosas interfaces gráficas de representação. Segundo, do ponto de vista macro do contexto social, político e econômico: a própria criação de grandes oligopólios comunicacionais de amplitude mundial com a fusão entre grandes redes de televisão e rádio com empresas de cinema, música e internet, a exemplo da AOL-Time-Warner Co., tendo como uma de suas repercussões a não distinção, ou a fusão, entre informação e entretenimento. É preciso situar também os aspectos relacionados aos processos culturais de identidade; ao local em tensão com o transnacional caracterizado pelos movimentos de territorialização / desterritorialização e aos modelos hegemônicos que podem representar os programas de inclusão digital, se fundamentado somente em
175 Compreender o midiático como processo na experiência digital nos telecentros, “implica um reconhecimento de que ele é fundamentalmente político ou talvez, mais estritamente, politicamente econômico”
(SILVERSTONE, 2002: 17).
lógicas tecnológicas transnacionais. Sob o ponto de vista dos governos e do poder econômico, o marco que constituiu a criação dos telecentros foi a necessidade de integrar as periferias dos países “em desenvolvimento” e os próprios países periféricos ao sistema global de informação como condição necessária para o desenvolvimento destes. Noutra linha de pensamento, estão organizações da sociedade civil como a World Association for Christian Communication (WACC) de Londres, a Agência Latino-americana de Informação (ALAI) de Quito e a Associação Mundial de Rádios Comunitárias (AMARC) de Montreal, que juntamente com outros agentes sociais que compõem a Plataforma pelo Direito à Comunicação (grupo que aglutina ONGs de diversos países que atuam no campo da mídia e comunicação) lançaram a Campanha CRIS (Communication Rights in the Information Society). Para estas organizações, mais do que uma necessidade, os telecentros e todo um conjunto de discussões sobre tecnologias e controle da informação devem ser vistos como parte do direito à comunicação.
Entre a necessidade e o direito ao acesso às tecnologias da informação e da comunicação, há diversos matizes.176 Não cabe aqui descrever cada um deles, mas discutir a percepção sobre a linha tomada por diversas organizações sociais que, mesmo em termos de promover a cidadania e a “inclusão digital” em sentido lato, mais do que construir uma “consciência crítica”, pretendem “integrar à hegemonia os grupos potencialmente capazes de resistir a ela” (FRAGOSO, 2004: 10). Suely Fragoso aponta que existem grupos que atuam na perspectiva da contra-hegemonia, mas, para além desta dicotomia, coloca que a lógica dos produtos e suas interfaces são frutos do processo hegemônico e trazem essa carga consigo. Assim, tornar-se- ia limitada a política de “trazer para a rede” os grupos minoritários e periféricos, seja no âmbito da necessidade ou do direito, do ponto de vista hegemônico ou contra- hegemônico, quando não se leva em conta que,
as afinidades e divergências culturais em relação aos conjuntos de valores incorporados nas tecnologias digitais condicionam significativamente não apenas as formas de apropriação daquelas, mas o próprio desejo e interesse [grifo do autor] dos diferentes agrupamentos socioculturais pela utilização das redes digitais de comunicação” (FRAGOSO, 2004: 12).
176 Suely Fragoso (2004) aponta os diversos níveis em que se manifesta a chamada “brecha digital” (digital divide).
Ou seja, não se leva em conta que há distinções entre a lógica dos produtores de tecnologias e as lógicas dos grupos minoritários ou excluídos. Assim, muitas políticas de inclusão digital acabam representando ações de imposição cultural (ROSZAK, 1988;
SCHAFF, 1995; DYSON, 2001; WARSCHAUER, 2006), norteadas por uma “política bipolar”, em que recusas ou apropriações desviantes são vistas como “fracasso”
(FRAGOSO, 2004). E podemos ver isso tanto do lado das políticas governamentais, como também em ações das organizações da sociedade civil (WARSCHAUER, 2006).
Um caminho apontado por Fragoso seria a revisão das políticas internacionais de inclusão digital, para que trilhassem uma perspectiva multicultural e pré-dispostas para potenciais processos de hibridização (FRAGOSO, 2004: 15).177 E aqui acrescentamos que tal perspectiva não poderia ser entendida como assimilação ou aculturação, mas na perspectiva de García Canclini, de mestiçagem, sem essa preocupação de buscar a autenticidade ou fronteiras bem definidas de uma noção hoje ultrapassada de identidade.178 Ou seja, perceber a inclusão digital numa linha em que “interações multiculturais estão fadadas a modificar valores de todos os grupos em contato, não apenas daqueles considerados ‘mais fracos’ ou ‘menos desenvolvidos’” (FRAGOSO, 2004: 15). A questão é que certos gestores fazem na mídia uma projeção para os telecentros como se eles fossem a condição suficiente, por exemplo, para erradicar a criminalidade e a miséria, gerando cidadania e participação. Na reportagem de O Globo,179 as fontes oficiais questionam o uso dos telecentros como salas de informática.
Sérgio Amadeu, presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), afirma:
Um projeto de inclusão digital não é apenas dar acesso a um aparelho com processamento eletrônico, é dar condições a uma comunidade de ter mais autonomia na sociedade dita da informação. Acredito na tecnologia da informação para combater a miséria e a pobreza.
177 A autora parte das hipóteses formuladas por Krysztofek (2003) sobre as possíveis reações de culturas pré-estabelecidas à “invasão” por elementos de uma cultura “globalizada”. (FRAGOSO, 2004: 15).
178 Leitura de Rodrigo Hasbaert (2002: 46) sobre Culturas Híbridas, de Nestor García Canclini.
179 Acessada em 17/10/2005 no boletim digital Clipping do Dia, Epcom - Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação, 02/06/2004, site do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação [www.fndc.org.br].