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2. NO CAPÍTULO DE HOJE NOVELAS E SERIALIDADE

2.2. A DEUSA DO CANGAÇO E A SERIALIDADE

2.2.1. O Tema

O cangaço foi uma prática de banditismo presente no Sertão Nordestino brasileiro entre meados do século XIX e início do século XX. Tratava-se de bandos nômades de homens e, mais tarde, algumas mulheres, que circulavam pelo Nordeste, fazendo saques, invadindo cidades e casas, praticando assassinatos e outros tipos de crime, inclusive a agiotagem. Segundo Frederico Pernambucano de Mello (2004), o que diferenciava os cangaceiros de outros tipos presentes naquele contexto, como o cabra, o jagunço ou o valentão, é a ausência

de patrão. Cada bando de cangaceiros possuía um chefe, mas não se submetia a outros tipos de liderança externos a ele.

Mesmo quando ligado a fazendeiros, por força de alianças celebradas, o chefe de grupo não assumia compromissos que pudessem tolher-lhe a liberdade. A convivência entre eles se fazia de igual para igual, agindo o cangaceiro como um fazendeiro sem terras, cioso das prerrogativas que lhe eram conferidas pelo poder das armas, sem dúvida o mais indiscutível dos poderes (MELLO, 2004, p.88).

Mello identifica três formas de cangaço, diferenciadas a partir de suas motivações: o cangaço meio de vida, o cangaço de vingança e o cangaço-refúgio. Na primeira forma, mesmo adentrando a prática por motivações outras, o bandoleiro permanece nela por identificação. Trata-se, segundo o pesquisador, de um modo profissional de cangaço. A segunda forma, como o nome já diz, se refere àqueles que se juntam ao cangacismo com o objetivo de vingar- se de uma desfeita. Satisfeito o objetivo, o cangaceiro abandona a vida de crimes. No terceiro tipo, o bando serve de refúgio a homens perseguidos.

Dentre os nomes mais famosos de praticantes do cangacismo, encontram-se o Cabeleira – que atuou no litoral pernambucano; – Sinhô Pereira, antigo chefe do bando de Lampião; Jesuíno Brilhante; Luís Padre; e, o mais famosos deles, Virgulino Ferreira, o Lampião. O fascínio pelo cangaço vem desde a época de sua existência, em um Sertão regido pela violência e com insatisfatória atuação do poder público, quando era bem vista a ideia de “ p v v f v ”. (I p.117) D , muito se romantizou acerca dessa prática, numa tendência ao que Mello chama de

robinhoodização (p.71), uma mitificação do bandoleiro como alguém que, de certa forma,

responde às injustiças sofridas pelo povo.

É nesse Sertão violento que se passa A Deusa do Cangaço, que discute também a imagem dúbia dos cangaceiros, em especial Lampião, inserido como personagem dessa novela.

2.2.2. O Roteiro

A Deusa do Cangaço foi, portanto, a primeira da série de quatro radionovelas criadas

para serem veiculadas no ano de 2011. Estreou em 25 de abril daquele ano e, como no caso dos programas do projeto anterior, foi ao ar ao longo de duas semanas, de segunda a sexta-

feira, nos horários de 8h30 e 17h30. Aos sábados, nesses mesmos horários, havia um rápido resumo dos acontecimentos da semana.

A Deusa do Cangaço teve direção de Iami Rebouças e preparação vocal de Ivan

Alexandre. Contou com as vozes dos integrantes das duas companhias idealizadoras: Deco Simões, Iara Villaça, Ilma Nascimento, Karina de Faria, Pedro Morais e Sandra Simões. E com as participações especiais de Marquinho Carvalho e José Jorge Randam, ator de radionovelas na década de 60. Deco Simões também assinou a trilha sonora e a sonoplastia, juntamente com Caji, também engenheiro de som. A produção ficou por conta de Socorro de Maria, Ana Paula Teixeira e Humberto Faria.

SINOPSE27: A Deusa do Cangaço se passa no Nordeste brasileiro, iniciando-se mais precisamente na cidade fictícia de Cabrobró do Judas, no período em que governava o “E l í R p l S . l V ” f á no capítulo 1. Temos um grupo de mulheres, formado por Djanira, sua cunhada Judite e as duas filhas desta, Rosário, adolescente, e Téssia, de 10 anos. Uma família pobre, vivendo em região e tempo violentos, povoados por cangaceiros e policiais sem escrúpulos. Essas mulheres não possuem pretensões de viver aventuras, a não ser pela menina Téssia, fã do cangaço e profunda conhecedora do tema, seus personagens, práticas e costumes. Tal caracterização da paixão de Téssia tem extrema importância na fábula, uma vez que é o que desencadeará o conflito, assim como também o resolverá.

Com a chegada do bando de cangaceiros à cidade, as duas mulheres mais velhas tratam de esconder as duas jovens no assoalho. No entanto, Téssia não consegue manter-se escondida por muito tempo e, ao ouvir no rádio sobre a aproximação da polícia, decide revelar seu paradeiro e de sua irmã, a fim de alertar seu ídolo, Lampião. O que deveria ser um encontro temporário entre ele e aquela família, ganha um vínculo maior com o que acontece a seguir: o rapto de Rosário pelo jovem cangaceiro Juventino, com a anuência de Lampião.

Diante da falta de apoio por parte da polícia e dos demais cidadãos de Cabrobró do Judas, a família protagonista parte em busca da jovem raptada, a fim de resgatá-la. Através das informações que Téssia possui acerca da prática do cangaço e do encontro com um dos cangaceiros que as reconhece, terminam por chegar ao acampamento do bando.

Lampião propõe a Téssia um desafio de perguntas acerca do cangaço. Caso ela vença, toda a família será libertada. Caso perca, todas as mulheres serão mortas, com exceção de

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Rosário, que permanecerá com o bando. Téssia vence o desafio. Sua família é libertada e vai embora juntamente com Juventino. De volta a Cabrobró do Judas, ficam todas sabendo da morte de Lampião.

2.2.3. Serialidade

A opção pela visibilização das discussões acerca de serialidade possui algumas razões. A primeira delas é que elas dão conta de um produto que se transforma e tem deixado de seguir regras específicas para explorar complexidades narrativas, como as séries de TV e os

comics. Diluem-se as fronteiras entre uma modalidade e outra, de acordo com os conceitos

fluidos da pós-modernidade. Acredito que essa seja uma discussão importante para essa pesquisa, porque a radionovela, enquanto produto serial, enquanto narrativa fracionada, necessita pensar nas formas de manutenção do ouvinte por vários dias.

Como já mencionado, dentro do projeto Nova Rádio Caleidoscópio foi possível observar limitação em todos os níveis de produção. Sejam colocadas pelas exigências do edital, pela equipe do IRDEB ou pela equipe realizadora acerca de elementos que poderiam ter sido mais explorados. Mesmo a equipe do projeto buscou se inspirar no que lembrava ou conhecia acerca de radionovelas. O resultado foi, portanto, uma tentativa de repetição dos modelos antigos, com algumas inovações. Sejam aquelas propostas pelo edital – como tempo de duração; pelo período em que foram produzidas –, como a sonoplastia feita de sons gravados, não produzidos por objetos; ou pela equipe – influenciada por outras linguagens, como desenho animado, cinema e TV.

O que caracteriza uma novela (seja de rádio, TV ou Web)? O que a diferencia dos outros formatos (seriados, comics, dentre outros)? A diferença se dá, basicamente, na frequência dos episódios. As novelas possuem veiculação diária ou, pelo menos, em vários dias da semana. Além disso, pressupõe-se que aquele produto um dia chegará a seu fim e será substituído por outra novela. Enquanto no seriado, mesmo que a história se encerre em uma temporada, existe a possibilidade de a série continuar com uma nova história, mas com uma mesma característica, como no caso de American Horror Story (EUA/FX, 2011), que está atualmente em sua quarta temporada. Em cada uma das temporadas contou-se uma história diferente, com novos personagens. No entanto, o gênero de terror e o elenco permaneceram. A permanência de ambos – novelas e seriados – depende bastante do mercado e da aceitação

do público. No entanto, por mais sucesso que esteja fazendo, a novela terá que, em algum momento, finalizar sua trama.

2.2.3.1. Saga, Arco Narrativo e Continuidade

A comunicação com o radiouvinte é delicada e pode ser facilmente desfeita. Sobretudo na atualidade, que incorporou novos meios de comunicação, com forte apelo visual. Manter o interesse do leitor, ouvinte ou espectador, trata-se de um desafio especial para os criadores de narrativas seriadas ou fracionadas, desde Sherazade, de As mil e uma noites. As narrativas

seriadas, como já foi dito, são aquelas que possuem mais de um episódio ou capítulo, sendo

cada um veiculado em um dia diferente, a exemplo dos folhetins, radionovelas, telenovelas, webnovelas, seriados e minisséries.

Com base em Humberto Eco (2000), Teixeira (2014) desenvolve uma definição de

serialidade “ j que não sendo idênticos apresentam similaridades de

f íl ” (TEIXEIR 2014 p. 33). O l p l p seria a gestão da similaridade “j v ” (NEVES p TEIXEIRA, p. 33).

Barbieri divide as narrativas seriadas em quarto categorias, sendo que duas delas situam-se em pólos distintos. As diferenças encontram-se na relação temporal e na continuidade entre os episódios ou capítulos. As séries iterativas, por exemplo, que situam-se em um dos extremos dessa linha imaginária, possuem uma estrutura fixa. Um episódio não tem, necessariamente, ligação temporal com o outro.

No outro pólo estão as sagas, em que o episódio depende do outro e a ligação temporal torna necessário o conhecimento de informações anteriores para o acompanhamento da história. Trata-se da continuidade “ l l p ” (TEIXEIRA, 2014, p.49). A continuidade demanda, portanto, uma maior fidelização do público.

Referindo-se aos comics, Teixeira (2014) descreve arco narrativo “ pl q l v p l í ” (p.41). Como não nos interessa o conceito de edição, vamos substituí-lo, aqui, por capítulo ou episódio, mais de acordo com a linguagem audiovisual. Em um seriado, por exemplo, pode haver várias categorias de serialidade em um mesmo episódio. Assim, um acontecimento pode estar ligado à trama do dia (iterativo), enquanto outro se refere ao arco narrativo de toda a temporada (saga ou quase- saga), e um terceiro ao arco narrativo que dura três ou quatro episódios, por exemplo (quase- saga).

Os seriados televisivos têm se reinventado de forma contundente, exemplo disso é que têm dado maior espaço para a continuidade em suas histórias. Mesmo aqueles com vocação claramente iterativa, têm seguido a tendência de ampliar a continuidade entre seus episódios. Cada vez mais, assistimos a tensões entre a manutenção de determinadas características de personagens e o impulso atual de transformação. Em outros casos, as obras já são criadas em formato de saga, a exemplo de True Detective (EUA/HBO, 2014) ou no já citado American

Horror Story, cujas temporadas constituem histórias completas, diferentemente do que

acontecia com a grande maioria das soap operas até a década de 90. A continuidade não constitui exatamente uma novidade, uma vez que Dallas (EUA/CBS, 1978) é um exemplo clássico desse tipo de escolha, mas a tendência de ampliação de seu espaço é recente.

As situações presentes em uma novela, seja ela radiofônica ou televisiva, raramente referem-se apenas a um capítulo e normalmente estão a serviço da trama geral. No máximo, servem para caracterizar um personagem, mas, mesmo assim, deve ligar-se a outros fatos e/ou contribuir para a fruição futura da história. Eis uma tentativa que pode ser explorada na atualidade. A princípio, nada impede de, eventualmente, serem criadas situações iterativas ou espirais, cujo aparecimento se resolve no mesmo dia e não deixa grandes implicações para o arco narrativo.

Em A Deusa do Cangaço, tudo serve à trama principal. Sobretudo por possuir curta duração, tanto no que diz respeito ao tempo, quanto ao número de capítulos. As histórias do cangaço, contadas por Téssia ou outros personagens, dentro de cada capítulo, são o que há de mais próximo de iteratividade, uma vez que se encerram dentro do mesmo episódio. Mesmo assim, normalmente possuem alguma função para a trama, como caracterização dos personagens, por exemplo.

O fato de existir um arco narrativo, ou seja, da história ultrapassar o capítulo, tem como principal consequência a presença da continuidade. Para lidar com esse elemento, é

importante a utilização do conceito de leitor modelo, desenvolvido por Eco, que é a ideia de um leitor ideal com quem o autor de um texto dialoga quando produz a obra (TEIXEIRA, 2014). Em uma saga, por exemplo, o leitor ideal deve obter os dados dos capítulos/episódios anteriores. Visando garantir esse conhecimento, são utilizadas diversas estratégias, tais como a recapitulação, o flashback, a narração de um personagem para outro, dos acontecimentos anteriores.

No caso das novelas do projeto Nova Rádio Caleidoscópio, não havia tempo para muitas repetições, uma vez que toda a história era contada em 10 capítulos de cinco minutos. Além disso, todas as radionovelas veiculadas pela Rádio Educadora estão disponíveis para acesso pelo site do IRDEB28. Isso permite que o ouvinte ouça os capítulos quantas vezes quiser, inclusive em sequência. Dessa forma, no caso específico das histórias do projeto Nova

Rádio Caleidoscópio, e de projetos similares, como os citados nesse capítulo, uma simples e

rápida recapitulação é suficiente para relembrar o ouvinte diário dos últimos acontecimentos:

No capítulo de ontem, a mãe e a tia de Téssia, apreensivas com a chegada de Lampião, esconderam Téssia e sua irmã, Rosário, no vão embaixo do assoalho, torcendo pro bando de Lampião não ir pra lá. Mas foi na porta delas mesmo que ele bateu. (VILLAÇA, 2011a, Cap. 3).

Em A Deusa do Cangaço, há poucas repetições com fins de lembrete para o ouvinte. Essa é, na realidade, uma tendência das novelas atuais pesquisadas que, como já dito, possuem pouco tempo de duração. Eis um dos poucos exemplos encontrados em A Deusa do

Cangaço:

DJANIRA – Lampião deve favor a Juventino e, ao mesmo tempo, prometeu a Téssia que ia libertar a gente se ela acertasse as perguntas. Agora eu quero é ver como ele vai resolver isso... (VILLAÇA, 2011a, Cap. 10).

Assistimos às séries iterativas para acompanhar como personagens com determinadas características vivenciam variadas situações. Quanto às sagas, as acompanhamos para descobrir como se desenrolam os acontecimentos. O foco desta última está, portanto, na história, enquanto que o foco da primeira está nos personagens. Como consequência disso, os autores e criadores de sagas utilizam-se do expediente gancho para manter o interesse do

28 Exceto, como já citado na introdução dessa dissertação, O Samba de Lucas, cujo áudio está incorreto,

público. Trata-se da famosa estratégia de Sherazade: interromper a história quando algo importante está para acontecer. Este é o caso da novela analisada:

TÉSSIA - Ai Meu Deus! E agora? Fico aqui escondida e deixo Lampião ser atacado ou desobedeço minha mãe e minha tia e aviso o bando?

ROSÁRIO - Tu fica aí quietinha. É isso o que tu vai fazer. TÉSSIA - Ói... Já sei o que fazer... Seja o que Deus quiser... VINHETA FINAL (VILLAÇA, 2011a, Cap. 3).

2.2.4. Gestão de Similaridade

2.2.4.1. Elementos Temáticos

Em A Deusa do Cangaço há elementos que se repetem. Um deles é o reforço do tema do cangaço, mote para criação da história. Esse reforço acontece de várias formas. Uma delas é através do próprio discorrer dos personagens em relação ao assunto. Como mencionado anteriormente, Téssia e Djanira são as personagens que concentram a maior parte das informações a respeito do tema. Tendo a segunda personagem uma abordagem mais analítica. Os próprios cangaceiros também são grandes fontes de informações, que aparecem em menores momentos e são pulverizadas em outros personagens. São abordados temas como origem e conceito de cangaço, seu cotidiano, vestes e hábitos; seu entorno (coiteiros, cabras, valentões); e, sobretudo, seus causos. Tratam-se de histórias conhecidas e contadas através dos tempos, não necessariamente verdadeiras.

Tais causos foram retirados de livros ou lembranças de situações contadas por minha família, sobretudo minha mãe, que, por sua vez, ouviu da mãe dela. Eles fazem jus ao tema definido em projeto – Histórias do Cangaço – e caracterizam Lampião e seu bando.

É impossível falar de cangaço sem mencionar o sertão nordestino. Por isso são feitas muitas alusões a essa região. Inspirada em livros de Frederico Pernambucano de Mello, a radionovela traz muitas de suas análises acerca do sertão, pulverizadas em falas das personagens. Além, claro, de suas características, práticas, hábitos, crenças.

Também ligadas ao cangaço encontram-se as referências à época. Além dos próprios cangaceiros serem incluídos na história, o que já a localiza no início do século XX, há, eventualmente, citações sobre Getúlio Vargas, Padre Cícero, coronéis. Utilizam-se também expressões como speaker, como era chamado o locutor de rádio e são citadas as novidades da época: a ampliação do número de estradas, a chegada do rádio.

Aborda-se, de maneira menos contundente, a temática da mulher, cujo papel social era mais limitado a cuidar da casa entre outras poucas funções. Há, nesse sentido, uma alusão ao papel da mulher no cangaço, menos atuante do que muitos imaginam. Essas alusões são contrapostas, na trama, pela atitude da família de Téssia, toda composta por mulheres, que enfrenta os perigos do sertão indo atrás de Rosário. Há um dado importante que determinou a escolha pela criação dessas personagens, que é a presença de um maior número de mulheres no elenco. Inicialmente, haveria um pai na família. A modificação se deu por sugestão de Ilma Nascimento e acrescentou outra dimensão à busca.

2.2.4.2. Elementos Narrativos

Servindo à narrativa, visando inserir os já citados causos, optou-se pelo expediente do

flashback. Algumas histórias são encenadas no capítulo, transportando a audiência para o

tempo dos acontecimentos. O flashback está entre as estratégias da serialidade utilizadas para recordar o público de acontecimentos anteriores. Não é o caso aqui. Primeiro, porque não são repetições de nenhum acontecimento anterior. Segundo, porque apenas caracterizam e informam sobre o cangaço, podendo ser suprimidas do roteiro sem prejudicar a trama.

MARIA BONITA - Pois quando eu tinha 15 anos me casei com um sapateiro chamado Zé Neném. Vixe, o home era um frouxo. A gente não combinava em nada. De vez em quando eu ia buscar consolo no colo de minha mãe. Foi num dia desses que meus pais me apresentaram a Lampião, que pernoitou na fazenda deles, em Santa Brígida, lá na Bahia. Eu tinha 19 anos e Virgulino já tinha 33. Nós proseamos por horas e horas. Até esqueci de meus aborrecimentos de casa. (música de história).

INSERT 1

JOAQUINA (MÃE) - Me adesculpe capitão, mas é hora de Maria Déia se deitar.

LAMPIÃO - Certamente, senhora dona Joaquina... Certamente. Peço desculpa pelo meu descabimento. Deixe ver a hora... Vixe meu padim pade Cirço, como é tarde!... Temo, senhora dona Joaquina, que amanhã eu e sua filha não vamos ter a oportunidade de travar outra conversa. Vou sair com meu pessoal antes do cantar do galo. Temos muito chão pela frente e só no ano que vem, quando passar novamente por essas bandas é que poderemos continuar nossa prosa, que para mim foi muito interessante. Isto é, se ela quiser e estiver disponível.

MARIA BONITA - Pode deixar que vou está aqui esperando. (som dos passos de Maria saindo). Capitão!?

LAMPIÃO - Sim!?...

MARIA BONITA - Existe mulher cangaceira? LAMPIÃO - Não!... Acho que não!...

MARIA BONITA - Então, quem sabe eu não serei a primeira? (VILLAÇA, 2011a, Cap.6).

Outro elemento que se repete são as falas de exaltação ao cangaço, proferidas por Téssia. Essa profunda admiração justifica seu conhecimento e suas escolhas, que acabam por expor Rosário ao perigo. Também servirá de contraponto às reflexões que ela mesma fará ao se deparar com o bando de Lampião. Os comentários de Téssia são, normalmente, seguidos pela crítica da família. Por um lado, elas se surpreendem com a quantidade de informações que a menina possui, por vezes lamentando o que consideram ser um mal uso de tamanha capacidade intelectual. Por outro lado, elas discordam dos comentários, trazendo, a todo tempo, a visão crítica ao cangaço. Ambas as opiniões – de Téssia e de sua família – serão relativizadas durante a história.

JUDITE – Quando tu fala assim, Téssia, me dá uma sensação de desperdício... Não podia saber tanto sobre outra coisa? (VILLAÇA, 2011a, Cap.5)

Outro elemento narrativo de repetição se refere à sequência, no capítulo 3, em que as meninas estão escondidas no assoalho. Há quatro cenas: duas de Téssia e Rosário escondidas, duas dos demais personagens em outras partes da casa. Téssia, escondida, costuma se referir

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