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O tema, a tese e a justificativa do discurso

2.1 O tema

Em uma espécie de preâmbulo, Dehon inicia indicando três categorias de assuntos que lhe passaram pela mente ao preparar este discurso para a Sociedade de São Francisco Xavier.

4 La Semaine Religieuse 5 (1888) p. 53.

5 O título do discurso que aparece no manuscrito é “Sur l’éducation”, porém, considerando o estilo e as

metáforas utilizadas no texto, e para distingui-lo dos outros discursos educacionais nós o chamaremos de “Discurso dos Pássaros”.

Primeiro, pensou em falar da Igreja, do Papa, de Roma, de seus tesouros artísticos, inclusive em Saint-Quentin. A segunda categoria seria formada de assuntos ligados à Pátria, ao espírito francês, de sua condição de filha predileta da Igreja. A terceira categoria seria os assuntos do mundo do trabalho, da solução proposta pela Igreja para o problema social, do corporativismo cristão, do ensino de Leão XIII. No entanto, escolheu como tema a educação dos filhos que são, ao mesmo tempo, objeto de seu afeto e a esperança da França e da Igreja.

Para expressar-se de um modo verdadeiramente cristão e verdadeiramente francês, Dehon primeiro pergunta ao Criador que lições sobre educação estão espalhadas na natureza. Depois utiliza o método de La Fontaine como linguagem para seu discurso6. Isto não é ocasional. A forma francesa e o conteúdo cristão resultam em uma síntese inteligente e consciente destes dois âmbitos, nos quais se move o pensamento educacional de Dehon: Roma e França; a Igreja e sua pátria. Esta matriz esconde também seu conceito de educação para ser um verdadeiro cidadão na pátria da terra, mas tendo sempre em vista a pátria do céu. Isto faz parte do seu conceito de Educação Integral.

Aparentemente, o discurso é um conjunto de metáforas inocentes para ajudar os pais e as mães a educarem melhor seus filhos. Mas, na aplicação final, uma frase de Dehon nos ajuda a entender seu meta-discurso que pode ser compreendido agora que conhecemos o contexto e o pré-texto de seus outros discursos, que é sempre defender a educação segundo o ideal cristão, atacada pela laicização da Terceira República, e criticar a proposta de uma educação no qual a dimensão religiosa é excluída: “Assim fazem, sem dúvida, aqueles que iludidos por suas vãs teorias pretendem dar à França uma juventude sem Deus”7.

Dividimos o discurso em partes e inserimos os títulos para facilitar a compreensão e análise do pensamento de Dehon.

6 Jean de La Fontaine (1621-1695) nasceu em Château-Thierry, no Departamento de l’Aisne, entre Soissons e

Reims. Foi um poeta de origem burguesa, que estudou teologia e direito. Suas populares fábulas, em geral se inspiram na obra de Fedro e de Esopo, mas possuem originalidade na aplicação e arquitetura tipicamente parnasiana, primando pela métrica e perfeição compositiva. Dehon faz referência a isso em seu discurso: “[...] j’emprunte la méthode du bon et intéressant La Fontaine, la gloire du parnasse français et l’honneur de notre département”. L.DEHON, “Sur l’Education”, p. 3.Dehon não utiliza apenas o “método” de La Fontaine, mas

também seus personagens, muito populares em seu tempo. Os alunos do Colégio São João costumavam fazer pequenos exercícios literários deste estilo já em 1878. Encontramos vários em L’Aigle de Saint-Jean. Uma análise literária minuciosa encontraria muitas metáforas e alusões às fábulas de La Fontaine. Isto ultrapassa o âmbito de nossa pesquisa.

2.2 A tese de fundo

A tese que fundamenta o conjunto de analogias composto por Dehon é que o Criador de todas as coisas deixou lições sobre como educar, impressas no mundo que criou. Os antropomorfismos sempre fizeram o gosto dos poetas e das religiões. Até mesmo os deuses são freqüentemente representados com o auxílio destes recursos, em que a força é atribuía ao leão e a esperteza à raposa.

O Criador que nos deu, através dos animais, muitas lições de virtude, mostrando o símbolo da coragem no leão, de temperança no cavalo de corrida do deserto [coursier du désert], de previdência na formiga, de trabalho e disciplina na abelha, de ordem social na cidade do castor; ensinou-nos a arte da educação especialmente pelo exemplo dos pássaros. Que amáveis e graciosos mestres! Eles são os hóspedes do nosso céu. Eles são as flores e a harmonia do ar e o símbolo dos anjos. Que dons invejáveis a maior parte deles recebeu: um olhar que domina toda uma província; uma voz que humilha os nossos concertos; uma agilidade que desafia até mesmo nossos carros. Não poderiam também nos fazer sentir vergonha de nossa indiferença para com o Criador, quando tão piedosamente com seus cantos solenizam o despertar da aurora e a noite que se aproxima? Eles são artistas, arquitetos, músicos, grandes viajantes; algumas vezes nobres e valentes, outras vezes suaves e amáveis, delicados, previdentes, ativos, generosos,

dedicados; eles são, como veremos, admiráveis educadores8.

As qualidades de um bom educador, selecionadas por Dehon e encontradas no exemplo dos pássaros, mostram o mapa de relevâncias de seu conceito de Educação Integral. Logo nesta apresentação da sua tese, ele insinua que um “educador admirável” deve possuir um olhar amplo sobre a realidade, sensibilidade artística, agilidade, vigor e ternura, generosidade e espírito de iniciativa. Todas estas qualidades são mais do coração que da inteligência. Percebemos que, para Dehon, a Educação Integral não começa através do conhecimento, ou do cultivo das faculdades mentais, mas pela empatia, pelas coisas do coração. Outra característica importante é que o educador deve ser uma pessoa capaz de sintetizar, em sua vida, diversas qualidades contrastantes. Como em outros discursos que já analisamos, esta

8 Ibidem, pp. 3-4. O coursier du désert é um cavalo árabe de corrida, utilizado pelos beduínos nômades e que

reúne as qualidade contrastantes da doçura e proximidade com o homem e, ao mesmo tempo, a força e tenacidade exigidas para suportar as condições áridas do deseto. Dehon sintetiza estas duas qualidades na “temperança”. Lembremos que o pai de Dehon era dono de um aras que existe até hoje em sua cidade natal, ao norte da França.

síntese, típica da visão educacional dehoniana, poderia ser expressa nas palavras “ternura e vigor”. Este é, sem dúvida, para Dehon, o educador ideal.

2.3 A justificativa do discurso

Dehon justifica sua tese com um exemplo tirado das páginas da Bíblia. De fato, Jesus se compara a uma galinha que coloca os filhotes sob as asas, num texto repetido em dois dos Evangelhos, Lucas e Mateus: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos sob as asas, e tu não quiseste!” (Mt 23, 37; Lc 13,34). A versão do texto é uma elaboração livre de Dehon, que substitui a frase literal por uma adaptada ao universo educacional.

Mas antes quero justificar a minha tese com um testemunho divino. Vocês se lembram das palavras com que Nosso Senhor se queixou da ingratidão de Jerusalém por não haver tirado nenhum proveito de Seus ensinamentos? Ele dizia: “Eu me dediquei a instruir todos os seus filhos com o cuidado de uma galinha que educa seus pintinhos”. Vejam, o modelo do empenho educacional de Nosso Senhor é a humilde galinha de nossas granjas e viveiros. Vocês viram a atenção que ela tem para que não falte nada aos seus pintinhos? Vai de um lado para o outro, chama-os com seus cacarejos suplicantes, escava a terra ou a erva para encontrar o alimento que lhes convém, ela se priva em seu favor; os aquece e os protege; é feliz ao vê-los brincar ao seu redor; se a ave de rapina os ameaça, torna-se valente: corre, voa diante dela e a espanta com seus gritos agudos batendo as asas. Ela se dedica aos seus ternos cuidados com tanto ardor e preocupação que isto parece alterar a sua constituição. Suas expressivas inflexões de voz e seus ágeis e apressados movimentos têm toda uma expressão de cuidado e afeto maternos9.

Nesta analogia inicial, na verdade, Dehon coloca como modelo de todo educador o Mestre Jesus Cristo. Já vimos em seus discursos como esta tônica está sempre presente. Para ele, o modelo de pessoa e de educador integral é o próprio Cristo. Porém, se dá ao cuidado de evidenciar algumas qualidades deste grande educador: atenção para que não falte nada, sabe convocar com sua voz, busca o alimento que mais convém, é capaz de sacrifícios, protege seus educandos, gosta de vê-los ao seu redor, defende-os quando necessário até com certa agressividade; porém sabe exercer o cuidado e a ternura; tem afetos maternos. Conhecendo o

modo como Dehon costumava proceder com seus alunos, percebemos que ele está aqui descrevendo seu próprio comportamento como educador.

Ainda, justificando a tese fundamental de seu discurso, Dehon indica os contrastes que utilizará em suas analogias. Existem pássaros que são um exemplo de maus educadores:

Outros pássaros completarão a todo momento a nossa lição. Mas, antes de continuar, vejamos o fundo escuro do quadro, ressaltando aquilo que é preciso iluminar. A Providência gosta destes contrastes, coloca ao lado do modelo aquilo que não se deve imitar, para destacar o seu valor. O fundo escuro são alguns grupos de aves, tão defeituosas como educadores que contagiam o resto. Citarei quatro espécies: as aves de rapina, os pássaros da

noite, o avestruz [autrouche]preguiçoso e o pavão [paon] vaidoso10.

O discurso começará exatamente com este pano de fundo de exemplos que não se devem imitar. É claro que o contraste apresentado aqui, em forma de fábula, faz alusão à fórmula educacional proposta por Ferry, que Dehon combate em seus outros discursos. Discretamente, o advogado de defesa da educação cristã se faz presente também neste momento.