Coreografar com e no
PRIMEIRO COREOGRAFAR
2. O tempo do íntimo, da inconsistência
Todas as coreografias apontadas e trabalhadas até aqui, cada uma com sua especificidade e singularidade, poderiam ser elencadas como sintomas e extratos do contemporâneo. Mediante o que foi exposto, a poesia brasileira produzida por poetas mulheres se apresenta, entre outras acepções, como sendo aquela em que se pode exercer um pensamento da sensibilidade, como coloca Gilles Deleuze (1988, p. 241) em Diferença e Repetição. Essa sensibilidade, que marca o trabalho de abraço coreografado e interventivo entre poesia e
tempo, viabiliza um pensamento-potência que instiga o interlocutor dançante desses escritos a refletir acerca das imediaticidades inconsistentes e das imagens deformantes que os textos poéticos extraem de sua dança com o tempo. Mais do que uma análise pautada por um anacronismo, é preciso fazer valer novamente a premissa de Raul Antelo (2008, p. 08) que enfatiza a necessidade de “pensar por imagens, de pensar com as imagens”, ativando, para isso, a imaginação. Coreografar com o poema e se entregar junto com ele no tempo é se deixar marcar por um sintoma, extraindo dele um efeito que difere de sua própria condição. Adentrar o terreno fértil da poesia é se acidentar nessa aventura, aventura da palavra para pensar com Rancière (1995), e de algum modo sentir (d)o avesso da liberdade poética.
É preciso que haja a compreensão de que, apesar desse capítulo fazer uma tentativa de organização linear e quase didática para que se entenda como se comportam algumas das questões temporais em cada uma das poetas, nenhum esforço é ou está habilitado para abranger, com precisão, as curvas da relação poema e contemporaneidade, ou palavra poética e tempo. Os efeitos desse abraçamento são produzidos de modo enviesados, portanto não se esgotam em uma determinada e individual leitura. Isso equivale a dizer que os textos poéticos analisados são compostos, principalmente, a partir de sobreposições de detalhes desordenadamente cronológicos, tempos fragmentados, repetições que se reelaboram, e deslocamentos permanentes. Agem a partir de problemáticas com o tempo mas não necessariamente resolvem essas problemáticas, apontando para elas soluções definitivas.
Por esse motivo, não é intento desse trabalho propor uma linearidade solúvel, resolvível. Fala-se de poéticas do presente enviesadas no e para o contemporâneo, pois os efeitos dessa correspondência, desses abraços, não são contáveis ou facilmente compreensíveis. A não-transparência é o que também desafia o interlocutor contemporâneo a se colocar disposto nesse tempo do íntimo, da inconsistência, para que ele também possa fraturar e perceber essas luzes que nunca alcança, constituindo assim o seu próprio tempo mítico, tempo que desmobiliza o presente.
A contemporaneidade, assim, e em todos os efeitos que nela cabem, não se reduz a um exercício restritamente histórico ou temporal, mas a um encontro com as desregularidades poético-temporais coreografadas por cada poema, cada obra e cada poeta. Engana-se quem mergulha nessa experiência em busca de um ponto fixo, de uma verdade explicativa, pois as escrituras trabalham com as inconsistências, com tempos que expulsam os sujeitos de suas temporalidades acomodadas. Nesse sentido, a fixidez é uma ilusão, e a expulsão do presente é apenas o começo de tantas outras expulsões que o poema contemporâneo efetua. O pouso de sentido, ao lidar com as escrituras poéticas do presente, é contraditória, pois ela é inexistente.
Por conseguinte, é “no escuro de uma experiência anônima”, que a experiência da obra poética produz uma gama pertinente de conhecimentos acerca dos tempos que a envolvem.
Nesse contratempo que a poesia escrita por poetas mulheres simula modalizar, o tempo da poesia se mostra como “tempo sem datas” (PAZ, 2017, p. 67), formando um ponto de paradoxo único, um tempo do íntimo, das inconsistências consequentes desse abraço com o tempo. A poeta contemporânea inventa um limiar em meio a relação mitológica e antagônica de Chronos e Kairós, não aterrissando em nenhum deles, mas efervescendo entre um tempo que é pura fissura, rachadura do comum.
Na mudez que fala, as vozes líricas engendradas pelas lentes poético-temporais coreografam nessa temporalidade que é sempre outra, constituindo um choque com as cronologias definidas. A poesia e o presente, as coreografias poéticas e o agora, fazem parte dessa magia irrestrita que os poemas de autoria de mulheres estabelecem. Se no começo dessa redação, buscava-se pelo mais conveniente modo de estabelecer uma dança com o poema, ao final das considerações desenhadas, não se sabe a forma certeira de deixar a dinâmica coreográfica. Depois de percorrer as travessias poemáticas, ainda cabe perguntar: conseguem os escritos instituídos na chamada contemporaneidade responder ao chamamento que lhes foi feito?
Como foi visto, nos tempos específicos criados provisoriamente pelos poemas, a refração temporal não se apoia em um caminho seguro. Na especificidade de cada um desses tempos, o que se sabe é que a linha temporal singular atua contra as ações de massificação da experiência. É a singularidade temporal x a massificação do tempo imposta aos sujeitos e as suas vivências. O poema contemporâneo faz curvas contrárias, pois é a enunciação para detalhes que passam despercebidos por lentes sistemáticas. Logo, as experiências nas coreografias são “parte da magia que o poema pode descobrir e criar”, como reitera Morales em Poesía, historia y cotidiano:
El tiempo absoluto del poema, este tiempo mítico, es tiempo exclusivo, único que realiza la lectura de un texto poético, es la única relacion directa entre las palabras y el reloj. Es impossible forzar a este tiempo, es inutil tratar de cronometrarlo: su exténsion, su paso, su latido es absolutamente outro el al da realidade: es un tiempo virtual, un tiempo inexistente, que sólo opera en el poema y donde un minuto puede extenderse diez años y un decênio trinta treinta segundos. (...) El secreto del poema (si es que hay alguno, uno o muchos) es justamente produzir la seducción a través de coordenadas reconocibles aunque siempre esbozadas, redibujadas y orientadas por el poeta. Ese juego, essa ficción, esa mirada que va de lo real a lo poetico (eses
espejos enfrentados y complementários) son parte de la magia que el poema puede descobrir y criar. (MORALES, 2000, p. 171).
Se fora do poema, o tempo da pressa predomina, pode-se afirmar que dentro das escrituras contemporâneas o tempo comum se dissolve e se abre para outras (e mais ricas) operações. As temporalidades na poesia pendulam, rasuram, deflagram, deliram, decepam e movem-se, contrariando o ritmo frenético, impensante e convulsivo que paira sobre as atividades mundanas.
Esquecer algo não pela moenda do tempo à maneira das pedras que o rio torna brandas Coisa esquecida É cicatriz permanente Lembrança perdida Dor para sempre.
Coreografar
no e do
arquivo
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Um segundo coreografar se desdobra a partir das associações e correspondências operadas pela poesia do presente em sua relação com o arquivo literário e cultural.
Considerando que o verso é uma experiência de montagem, desenham-se explanações que percorrem em direção aos lugares do arquivo enquanto promessa de futuro (rememoração produtiva por meio da poesia), sobrevida (no jogo de resistência e de obliteração do sentido suscitado pela palavra poética) e tensão e harmonia (no organizar impuro da memória que propõe uma diferida reconstrução no poema).
São aspectos como estes que recopilam e caracterizam os movimentos do segundo coreografar na escrita que segue.