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3.5. O tempo do arraial: sons do sino da matriz

“A matriz de Bello Horisonte tem um relogio e um relogio que dá horas e todas as pessoas que conhecem a minha ogeriza, com os relogios de torre e seus derivados, já podem ter calculado o que tenho soffrido; tendo, a cavalleiro da minha estafada

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maio de 1894, p.3.

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individualidade, o badalar do sino deste relogio que, nos seus séstros, manhas e manias, anda na mais completa opposição, com tudo quanto ha de logico e de racional”.222 O badalar do sino da matriz organizava o tempo do arraial.223 Para o cronista, entretanto, essa forma de controlar o tempo, um tempo do coletivo, pouco se adequava aos espíritos acostumados com a individualidade, com a lógica e a racionalidade. No arraial, além do tempo ser controlado pela vida religiosa, pelo badalar dos sinos que clamavam pelos fiéis na hora da missa, o amanhecer e o anoitecer ditavam seus ritmos, serviam de balizas para suas atividades. Nessa direção, vale destacar que os hábitos matutinos das senhoras do arraial, por exemplo, foram apresentados em crônica: “A’s seis horas da manhã, quando o crepusculo ainda conserva, em entoações violáceas, as cristas das montanhas, já se encontram senhoras passeiando pelas ruas de Bello Horisonte. As manhãs aqui são fresquissimas e a atmosphera, de excepcional pureza e transparencia, não encobre, como no Rio de Janeiro, pela manhã, o azulado fugitivo dos ultimos planos”.224 Esse clima propício e a plena iluminação logo no início do dia, porém, não explicariam ao cronista esta característica matutina do arraial: “Os encantos do clima, as bellezas da paizagem devem influir um tanto na feição madrugadora das senhoras residentes em Bello Horisonte; mas eu estou disposto a crer antes que o facto das noites monotonas que ellas passam e que as arrasta a deitarem-se pelas nove horas é que é o principal elemento d’estes matutinos pendores para o bucolismo”.225 Não seria esse hábito matutino ou madrugador um reflexo de um tempo mais comunitário, de espírito comum, controlado apenas pela mensuração dos sentidos? Ver o dia e a noite, sentir a brisa fresca e o calor...

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junho de 1894, p.3.

223 Ver Figura 12. Igreja do Arraial do Curral d’El Rey. Instituição: Museu Histórico Abílio Barreto.

Fundo: Pinacoteca. Título: Igreja do Arraial do Curral Del Rey. Autoria: Honório Esteves. Data: 1894. Notação: MHAB0197 93. “Dados históricos: Pintura datada de 1894, de autoria de Honório Esteves,

nascido em Ouro Preto em 1860 e falecido em Mariana em 1894. a formação profissional do artista deu- se, sobretudo, entre 1883 e 1890, quando freqüentou a Imperial Escola de Belas Artes/R.J. Seu valor documental reside no fato de trazer registrada a feição primitiva do ponto mais tradicional do arraial do curral Del Rei: o entorno imediato da matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem. Erguida no início do século XVIII, a igreja obedecia ao padrão construtivo das primeiras matrizes mineiras, tornando-se logo o mais importante referencial urbano e sócio-cultural da localidade”. Disponível em:

<www.comissãoconstrutora.pbh.gov.br>.

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Alfredo Camarate, acostumado com os grandes centros urbanos, indicou como o tempo passava a ser cada vez mais controlado e individualizado. Cada um, pelo uso do relógio individual, passava a ser o dono do seu próprio tempo. O habitante da cidade moderna pode nem mais perceber que o dia já está no seu fim, já que a iluminação elétrica e artificial substitui prontamente a iluminação natural, que cessa com a chegada da noite. As atividades comerciais podem continuar acontecendo, e a rua pode continuar como um espaço habitável na claridade da noite. O cronista queria ter seu tempo controlado. Por isso, a indignação com a imprecisão dos relógios da matriz:226 “Em primeiro logar, o relogio da matriz de Bello Horizone, animado do mais louvavel espirito de classe, serve para que toda a população da localidade nunca saiba a que horas anda!”.227

Essa imprecisão dos relógios da matriz acontecia com outros sinos que regulavam o tempo de outras cidades onde “o badalar das tres pancadas do meio dia succede-se, em todas as torres e campanarios, pelo espaço de meia hora”. Alfredo Camarate se lembrava dos badalares da sua cidade natal: “Vim uma vez, de Belém para Lisboa, que ficam a uma legua bem puchada, ouvindo os toques do meio dia, desde o momento da partida até o momento da chegada. E o facto repetiu-se por tantas vezes, que cheguei a acreditar que o meridiano daquellas duas cidades ribeirinhas do ‘Tejo de crystal’ fazia differença de meia hora!” A explicação para a imprecisão do balalar estava ligada à necessidade de uma mão humana para comandar o tempo. Em Lisboa, quem dava as três badaladas do meio dia era o sacristão “mal pago pela igreja, vê-se na necessidade de accumullar dois empregos: o de vendeiro, por exemplo ou, então o de alfaiate ou sapateiro”.228 Esse tipo de marcação temporal estava sujeita ao tempo de alguém. Não ao contrário, como acontece com os relógios mecânicos que submetem os homens a um tempo abstrato, invariável. O tempo do sacristão era também o tempo do vendedor que não pode perder o freguês: “pode exigir se, de um pobre sacristão, que abandone o freguez, a quem vende meio kilo de toucinho ou dois decilitros de cachaça;

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“A palavra inglesa clock relaciona-se com a francesa cloche e com a alemã glocke, todas elas

significando sino. Na Idade Média e no Renascimento, a vida das cidades era regida pelos sinos – ‘uma cidade sem sinos’, disse até mesmo Rabelais, inimigo da pontualidade, ‘é como um cego sem bengala’. Mas as horas que eles marcavam, no início do segundo milênio, eram canônicas e imprecisas, e havia pouquíssimas delas por dia, para dar um ritmo razoável aos horários urbanos” (CROSBY, 1999, p.82 e

83).

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pode impor-se um mesquinho aquinhoado pelas rendas da igreja, que abandone umas tombas bem assentes e cosidas num par de botas, só para ir puchar pela corda do sino, que tem por missão annunciar aos povos que é ou que póde ser meio-dia; porque, no seculo dezenove, já não ha quem acredite piamente, nas horas fantasiosas de campanario nem na palavra de honra nunca cumprida dos alfaiates!”.229

Se na Europa os campários ainda conservavam a imprecisão, e o tempo estava submetido à vontade de alguém, não seria lícito solicitar uma mensuração rigorosa do tempo no arraial. Alfredo Camarate, então, escrevia: “É por isso que respeito o sino do relogio de Bello Horizonte: conserva intacta a vetusta tradição de que “os relogios de torre servem exclusivamente para nunca sabermos que horas são!”. O cronista, apesar de respeitá-lo, tentava encontrar os motivos dessa imprecisão, criando estratégias para controlar os erros da marcação do tempo e criar para si um tempo mais preciso. Detectou que o defeito do sino “é a de deitar a correr à desfilada, no tempo quente, e de ficar quasi immovel, nos dias frios!”. Fato detectado, Alfredo Camarate adiantava-se para saber o estado de espírito do sino: “De madrugada, quando me levanto, tenho por habito consultar um thermometro que possuo dependurado à cabeceira e, tão habituado estou a regular a actividade e a preguiça do relogio da matriz, pela ascensão ou descensão da columna de mercurio do meu thermometro, que instinctivamente, murmuro sempre: “Doze graus! Grande preguiça no relógio da matriz”. Ou então: “Olá! Vinte oito graus centigrados! O relógio da igreja, com certeza, já, a estas horas, está no dia de amanhã!”.230 É singular como o cronista arranjou outra maneira de controlar o tempo, utilizando um aparelho do qual dispõe para mensurar precisamente a temperatura.

O cronista, com ares investigativos, quis saber o motivo de tanta maleabilidade do tempo do sino. Alfredo Camarate soube, assim, que “O relogio é, de vez em quando, lubrificado com azeite de peixe, de peixe ou de algodão, de algodão ou de qualquer outra procedencia vegetal, mineral ou animal, que pertença ao capitulo dos azeites baratos! Como se limpe raras vezes o relogio, ou como mesmo elle nunca se limpe, as camadas accumuladas de óleo de varias procedencias formam crôstas espessissimas, que se liquidificam com o calor ou, então, que se tornam de uma grossura densa e

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teimosa, quando o frio aperta...”.231 Essa imprecisão da “desconjunctada caranguejolla” também explicava, para o viajante, o motivo dos “incolas de Bello Horizonte se [levantarem] mais cêdo no verão e mais tarde de inverno”.232

Essas constatações, levadas à prova pela medição da temperatura, não foram suficientes para o cronista-investigador que indicou sua necessidade de perscrutar determinados acontecimentos, comportamentos, manias do arraial: “O relogio de Bello Horizonte é, portanto, uma das minhas infelicidades e como eu, pelas muitas que tenho tido, já as estude e encare frente a frente, fui saber que o famoso desregulador da igreja matriz de Bello Horizonte havia sido construído por um ferreiro chamado Manoel José das Infelicidades!”. Os motivos da qualificação do nome pelas “infelicidades” da vida do ferreiro foram contados ao cronista que reteve duas explicações na memória: “o desastroso parto daquelle relogio, que foi uma espantosa infelicidade e o desgraçado parto de uma filha, chamada Prisca, que nascera cega de um olho: do esquerdo ou do direito, que já me não lembro bem!”.233 O cronista parece ter instigado os interlocutores moradores do arraial para saber mais do ferreiro e acrescentou, às informações algumas, qualificações suas:

E contaram-me que era um ferreiro habilissimo; mas tão infeliz, tão caipóra, tão perseguido pela macaca, que tudo lhe sahia às avessas e, como o feitiço sempre lhe virasse contra o feiticeiro, adoptou o nome de Manoel José das Infelicidades; verdadeiro ferreiro de maldição, que, quando tinha ferro, não tinha carvão.

Eu, por colleguismo, perdôo-lhe o mal que me faz, com o irregular andamento do seu relogio; porque, coitadinho! mais caipóra do que elle, só conheço um – eu!234

Caipora, às avessas, desregulado. Esse aparente tom descritivo e pouco relevante da crônica, carregando um tom pejorativo para explicar os motivos da imprecisão do relógio e do sino da Matriz, pode ser descontruído se tomamos Alfredo Camarate como um sujeito em constante diálogo com o discurso científico, cuja sensibilidade fora muito educada a partir de elementos, traços, objetos, sentimentos de uma vida urbana que se

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junho de 1894, p.3.

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RIANCHO, Alfredo. Collaborações/Por Montes e Valles XXII. Minas Geraes. Ano III, n.148, 3 de junho de 1894, p.3.

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expandia. A esse modus vivendi, acrescentamos, como característica, o controle do tempo, uma dimensão educativa, que passa a ser cada vez mais individualizado, incorporado como principal sensor da vida. A difusão dos relógios de bolso sugere a exatidão calculista da vida moderna e exibe essa sensibilidade que se organiza. Como observa Simmel, “a técnica da vida metropolitana é inimaginável sem a mais pontual interação de todas atividades e relações mútuas em um calendário estável e impessoal” (1979, p.15). Por mais que cada gesto, como o de retirar o relógio do bolso, possa parecer superficial, está prenhe de sentido. Todas as exterioridades, das mais banais da vida, estão ligadas a decisões concernentes ao significado e ao estilo de vida. Tal gesto é exemplar de como a “pontualidade, calculabilidade, exatidão, são introduzidas à força na vida pela complexidade e extensão da existência metropolitana” (SIMMEL, 1979, p.15). A contínua mensuração do tempo pode soar como um traço aparentemente insignificante, que se situa sobre a superfície da vida, mas ele indica a constituição de uma sensibilidade citadina, vinculada aos elementos do capitalismo, à crença no progresso.