Conforme já mencionado, o espaço das relações sociais cotidianas estava diretamente relacionado com as atividades desenvolvidas por cada pessoa na comunidade. As mulheres bastante atarefadas com os trabalhos do lar, pouco tempo tinham para estabelecer relações de vizinhança “naquele tempo a gente quase não procurava ir nas casas uns dos outros, ficava fazendo o serviço da gente, lavando roupa, que se lavava nas fontes, não tinha poço”236.
Então os espaços de sociabilidade ficavam muito restritos, aos bailes, domingueiras, às festas da Igreja, conforme veremos mais adiante, além do ônibus.
É, o ônibus, também, representa um importante espaço de sociabilização, permitindo uma comunicação entre a comunidade dos Ingleses, a cidade, e as coisas da cidade. Como não existia televisão ou rádio, a forma de contato mais direta com o restante do mundo era através das informações orais de pessoas que iam e vinham.
O ônibus tinha um papel importante, porque, ao chegar no ônibus pela manhã, sabia-se o que acontecia no bairro. As “fofocas”. Não só as “fofocas”, é no sentido pejorativo da coisa. As informações. Então, todos ficavam sabendo de tudo. Na volta era a mesma coisa, traziam novidades de lá (cidade). Então, era interessante isto. A gurizada podia trazer sonho, podiam trazer carne, carne aqui era iguaria. 237
Mas, quebrando a rotina, eram as festas da igreja o maior e mais intenso espaço de sociabilização, não somente entre os moradores, mas também, com pessoas das comunidades vizinhas e do centro.
A igreja tinha esta força de atração, ela tinha uma função muito importante social, não somente religiosa e espiritual, mas ela tinha função importante na firmação social da comunidade. Então, quando o padre vinha, ou o bispo, que eventualmente vinha, era uma grande festa em tudo. Era tudo sadio.238
236 Dona Anita (entrevista realizada em 15/05/2005). 237 Seu Mário (entrevista realizada em 23/01/2005)
O maior espaço público - a praia (pois paralelo a orla não existiam ruas, e no restante eram caminhos), era bastante praticado no dia-a-dia, era onde tudo acontecia.
Como o número de moradores era bastante reduzido, todos se conheciam e sabiam a que família pertenciam, desenvolvendo hábitos de relacionamento bastante respeitosos e amigáveis, naquele tempo, “era falta de respeito passar pelos mais velhos e não pedir benção”239.
Na coletividade, a população dos Ingleses não costumava unir-se para protestar ou reivindicar suas necessidades. Não costumavam fazer manifesto reivindicando melhorias para a comunidade ou qualquer coisa deste gênero.
Os moradores dos Ingleses acompanhavam a política, quando possível, mas, não se envolviam. Em época de campanha, os políticos vinham “faziam as promessas, e a gente entrava no papo deles, né.”
“A política? No meu tempo, aqui era tudo certo. Porque era a eleição, era só. Os da antiga não tinham este negócio de partidos, era só dois, só. Então, a gente ia lá e votava.”240
As eleições aconteciam no Grupo Escolar Gentil Mathias da Silva. No dia da eleição era uma festa, matavam dois, três bois nos campos ao redor da escola, todos juntavam-se para “acompanhar o movimento das eleições”.
A única forma de organização política no bairro estava relacionada aos intendentes, que eram considerados como um prefeito do lugar. Mas, esta organização ficava bastante restrita a ação do intendente, e o grupo de familiares direto.
Antigamente era um único intendente para as comunidades de Rio Vermelho e Ingleses, depois passou a ter um para cada comunidade. A separação das intendências acontece antes do desmembramento dos Distritos.
Mas ainda era assim, se o PSD ganhava era o meu avô, José Fernandes, quando a UDN ganhava era o falecido Gentil. Só tinha dois partidos políticos, era a UDN e o PSD. Então meu avô era da PSD, Seu José Fernandes era PSD. Quando o governo mudava, o prefeito municipal que nomeava o intendente. Eles eram como os coronéis, né. Eles comandavam tudo. Quando o prefeito da UDN ganhava o intendente era o Gentil, quando o PSD ganhava o intendente era Seu José Fernandes.241
238 Seu Mário (entrevista realizada em 23/01/2005) 239 Dona Cecília (entrevista realizada em 01/03/2006) 240 Dona Rachel (entrevista realizada em 03/10/2006).
Assim, a política nos Ingleses acompanhava a política do município sede - Florianópolis. Isto significava que na comunidade, também existia uma rivalidade política, e cada intendente queria demonstrar mais sua influência no meio político. Cada intendente tinha seus líderes na política, a energia elétrica foi um benefício do intendente José Fernandes; enquanto que o Colégio Gentil Mathias foi construído na gestão do Gentil, quando o prefeito era o Paulo Fontes, da UDN.
A “rivalidade política” interferia diretamente nas relações entre famílias. Pois, além do Gentil e do Fernandes, serem os líderes políticos da comunidade, eram eles também os donos das redes de pesca. Estas questões provocavam algumas “rixas” entre famílias. E, por muitos anos era proibida a união (casamento) entre as duas famílias. Somente na segunda geração estas rivalidades entre famílias começam a ceder.
Seu Raul, um apaixonado por política desde a juventude, hoje, acompanha os sobrinhos e parentes candidatos, e lembra com muita emoção do primeiro comício que ele a oportunidade de presenciar, no final da década de 1950:
O primeiro comício que eu participei. Que eu participei, eu era garoto acho que eu tinha uns 14 anos, foi na eleição do Ex- Governador Jorge Lacerda. Eles fizeram um comício na casa do tio Gentil e estava presente, o Jorge Lacerda, Irineu Bornhausen, o pessoal do Bulcão, e vários outros que acompanhavam eles. Naquela época era o partido da UDN, e foi justamente o Jorge Bornhausen que era filho do Irineu Bornhausen, ele também era adolescente, ele já tinha 18 anos, 19 anos por aí. Eu me lembro que ele... a única coisa que eu me lembro, quando todo mundo falou, discursou em cima daquele palanque, quando o Jorge Lacerda terminou de discursar, ele saiu corrido de onde estava, e pulou em cima do palanque e começou a discursar. Eu observei que dali, que daquela data em diante começou a carreira política do Jorge, do Jorge Bornhausen. Porque ele era garotão. Isso me marcou muito. A atitude dele, de querer entrar, a ansiedade de entrar na política. Saiu corrido subiu no palanque e começou a discursar, e discursou muito bem. Discursou muito bem.
Deste modo, pode-se dizer que as relações sociais nos Ingleses estava permeada pela política nacional, e esta invadia nas relações comunitárias, provocando a cisão nos núcleos familiares.
Entretanto, as famílias eram tão “fechadas”, que era comum acontecerem casamentos entre primos. Estes casamentos chegavam a ser meio que “arranjados” pelos pais. Como o caso da Dona Anita e o Seu Plínio:
Ele é meu primo. A mãe dele é irmã do meu pai. Ai ela queria que ele se casasse, ele tinha namorada fora, tudo. Mas, eu não tinha muito namorado, quase não gostava muito de namorado, não. Ai, a mãe dele queria muito que ele procurasse por mim, casasse comigo. Ai, nós começamos a namorar, ficamos noivos e casamos.
Portanto, um bairro na sua estrutura não está somente relacionado a uma divisão topográfica e geográfica, mas as divisões simbólicas da comunidade. Que mesmo aparentemente homogênea apresenta suas divisões de pertencimento ao um grupo ou outro. Uma pessoa dos Araçás dificilmente casava, com uma pessoa das Companhas. “Aí depois, começou a casar, um daqui (Ingleses) com ali Aranhas, ou daqui com Sítio. Ai, começou. Tinha esta coisa. Quer ver aqui com o Rio Vermelho, aqui com qualquer outro lugar.”242
Isso significa que, além da divisão no interior do bairro, a coletividade também preservava o sentimento de pertencimento ao bairro. E, o “bairrismo” era igualmente revelado pelas relações matrimoniais, no jogo de futebol, no lugar da pesca.
Na comunidade dos Ingleses, no entanto, não haviam divisões religiosas. Até mesmo porque, existia apenas um templo para suas manifestações religiosas, e a igreja Nossa Senhora dos Navegantes era o lugar de maior coesão social. Onde as pessoas demonstravam os valores morais, religiosos e éticos da comunidade.
Muito antigamente, contam os nativos mais velhos, o Costão do Santinho também era um lugar de manifestações de fé. “O Costão do Santinho é o costão do norte, onde tem aqueles riscos na pedra, aquelas coisas, que os antigos consideram como um morro do santo. Onde faziam promessas acendiam velas, tudo lá. Mas, depois este santo foi tirado de lá.”243
No entanto, a divisão racial existia, pois em festa de branco preto não entreva, e em festa de preto, branco entrava. Nas atividades de lazer a divisão racial era bem estabelecida, no cotidiano, aparentemente a divisão não era tão enfática.
Era o respeito senhora. Olha eu vou lhe falar a verdade... naquele tempo, aqui em cima um caminhozinho só. E levantou um fogaréu
242 Alcântara (entrevista realizada em 10/10/2006) 243 Seu Carlos (entrevista realizada em 10/10/2006).
no mato. O preto veio, o preto era ligeiro, sabe. Era ligeiro e muito bonzinho. Se não fosse ele ajudar eu passava trabalho. Ele chegava lá, tirava o chapeú. Lá em baixo na praia também, tinha um moreno lá, que se chamava “tio Acácio”, era um preto que tinha um pé deste tamanho assim (mostrava com as mãos o tamanho grande). Era um baita de um homem, tinha a força de um bicho. Então eu conhecia ele. Eu trancava a cabeça dele na minha perna, eu brincava com ele que suava. Um preto com um branco.244
Todavia, existem relatos de divisão racial, Dona Tarsila, afrodescendente, diz que naquela época havia racismo “sim, preto não dançava com branco e branco não dançava com preto.” Se um preto entrasse num baile de branco apanhava. Na época do carnaval existiam dois blocos de carnaval, um bloco de brancos no salão do Carlos, e o “Bloco das Morenas” numa casa do Gentil, perto da salga. Os blocos pagavam licença para sair na rua, a taxa era cobrada pela polícia local, o delegado Sr. Manoel Paulo - Mané Paulo.
Saímos para arrumar dinheiro por ai, para pagar. Aí, saímos. E o negro, o negro quando abre as guelas é aquilo, quando e como dança, é, por ali á fora. Quando passamos ali no Carlos, para dar a volta, os brancos queriam vir para o nosso bloco, o bloco dos pretos. Ai nós dissemos não, aqui só dança preto. - Há! Mas aqui tá melhor do que o de lá. - Não, mas aqui só preto.
Hoje, o discurso racista, está bastante suavizado, pelos referencias do presente, branco “e preto e tudo igual, e depois é tudo mesmo sangue. Deus é um só, não há dois deuses”.245
O delegado de polícia era nomeado pela comunidade, e as leis eram determinadas por ele. Quando acontecia alguma briga ou desentimentos, quem resolvia era o delegado, porque as vezes aconteciam brigas nos bailes e festas, principalmente com o pessoal que vinha de fora. Seu Mane Paulo foi delegado por mais de vinte anos, e a delegacia era na casa dele, se precisasse prender alguém ele levava para sua casa, “Daí o delegado prendia, umas horas, cinco, seis horas daí o delegado soltava. Era só para dar um corretivo”.246
244 Seu Manuel (entrevista realizada em 20/06/2005). 245 Idem