CAPÍTULO II – CIDADANIA, TEMPO E PROCESSO
2.2. Efetividade processual e tempo
2.2.1. O tempo na história
Para tanto: inicialmente, far-se-á uma abordagem histórica do significado do tempo ao longo da história da humanidade,216 inserindo-se nesse retrospecto a visão filosófica e a científica do fenômeno, destacando a importância do tempo no mundo contemporâneo, no mundo ligado pela internet; posteriormente, tratar-se-á das relações entre tempo e direito, tentando-se aferir qual a noção de tempo utilizada pelos ordenamentos jurídicos e qual a influência do fator tempo no direito. Finalmente, serão destacadas as relações mais relevantes na atualidade entre o tempo e o fenômeno processual.
Os estudos históricos e, principalmente, os filosóficos têm o mérito de demonstrar que a ordenação das coisas no mundo não foi sempre do forma que se apresenta hoje e não têm necessariamente que permanecer na forma atual. Partindo-se dessa premissa, observam-se, em relação a alguns fatores, mudanças tão radicais que podem ser denominadas de verdadeiras revoluções. Exemplo disto é a concepção de tempo ao longo da história.
A vida contemporânea guia-se por relógios que ditam quando se deve acordar, o momento de se alimentar, o período em que se trabalha, enfim, regulam todas as atividades na sociedade. Essa constatação, tão simples e óbvia para o homem do início do século XXI, é exceção na história das sociedades humanas. Para se comprovar tal fato, basta observar que, há pouco mais de 200 (duzentos anos), poucas pessoas possuíam relógios portáteis. A idéia que possuímos hoje de tempo, ao contrário do que foi difundido de Descartes até Kant217 no sentido de que o tempo seria um síntese a priori que estrutura a percepção humana independente de qualquer experiência, “situa-se num alto nível de generalização e de síntese, que pressupõe um riquíssimo patrimônio social de saber no que concerne aos métodos de mensuração das seqüências temporais e às regularidades que elas apresentam.”218
Embora Kant afirme que o tempo é “uma representação fundamental que constitui a base de todas as intuições (...), sendo, sem dúvida, concebido a priori,”219 a percepção do tempo depende da experiência de cada sociedade e, às vezes, da genialidade de um indivíduo como Einstein, que trouxe correções à concepção de tempo absoluto, ou seja, único e uniforme em toda extensão do universo físico, defendida por Newton.220 Esta posição
216
Muitos entendem que não haveria história sem o ser humano, sendo, portanto, tautológicas expressões como história da humanidade.
217
João Maurício Adeodato ao explicar as idéias de Kant nos ensina que para ele “o espaço e o tempo são as formas a priori com que nós humanos estamos aparelhados e que aplicamos obrigatoriamente à matéria sensíveis para apreendê-la.” Cf. ADEODATO, João Maurício. Filosofia do Direito: uma crítica à verdade na
ética e na ciência(através de um exame da ontologia de Nicolai Hartmann). São Paulo: Saraiva, 1996, p. 28.
218
ELIAS, Norbert. Sobre o tempo. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p. 35. 219
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Trad. Alex Martins. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 73. 220
HAWKING, Stephen William. Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. Trad. Maria helena Torres. Rio de janeiro: Rocco, 1988, p. 30.
que se defende é facilmente comprovável com a análise das fontes históricas. Aliás, a própria história só adquire importância quando o ser humano passa a ter noções de passado, presente e futuro, ou seja, quando se confere grande importância ao tempo e aos seus desdobramentos.
No Egito Antigo, na Babilônia ou no Irã Antigo, ou seja, em civilizações mais antigas, era comum a correlação entre eventos naturais e sociais. No Egito, por exemplo, havia o culto a Osíris, que representava as cheias do Nilo. Todavia, como bem observa Gerald James Whitrow:221 “os egípcios concebiam o tempo como uma sucessão de fatos recorrentes. Tinham muito pouco sentido de história, e mesmo de passado e de futuro.” Os Egípcios pensavam o mundo de forma estática e imutável, pois acreditavam que os Deuses o haviam criado do jeito que ele é hoje.222 O isolacionismo do Egito, facilitado pela sua localização geográfica, e a regularidade das cheias e secas do rio Nilo223 explicam essa concepção.
Na Babilônia, as cheias dos rios Tigre e Eufrates não eram tão regulares como no Egito, o que afastava uma idéia de permanência. Todavia, foi nessa região que se desenvolveu com intensidade a astrologia em razão de uma crença antiga de que os eventos celestes provocavam uma reação na Terra, mais tarde dirigindo-se à idéia de que a vida do homem era controlada pelos astros, levando-se a uma concepção cíclica da história e rechaçando-se a idéia de progresso com o passar do tempo.
Na Grécia antiga, vamos encontrar interessantes instrumentos de medição do tempo como o relógio de água ou clepsidra e o quadrante solar. Não obstante há existência de várias idéias sobre o tempo entre os gregos, entre elas predominou a visão cíclica. O próprio Aristóteles acreditava que as artes e ciências eram descobertas muitas vezes e novamente perdidas, e Platão, por sua vez, pensava que todo progresso consistia em se tentar aproximar do modelo pré-existente no mundo atemporal das formas transcendentais, o que excluía a possibilidade de uma teoria evolutiva.224
A idéia linear de tempo em contraposição com a idéia cíclica somente surgiria com os judeus antigos. A religião que indicava como causa do declínio e da escravidão de Israel os pecados e a falta de fé ocorridos no passado, também prometia, desde o livro do profetas Daniel e Isaías, a vinda de um messias que enfrentaria os inimigos de Israel, restaurando a
221
WHITROW, G.J. O tempo na história (concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias). Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p.39.
222
WHITROW, G.J. O tempo na história (concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias). Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p.39.
223
A pesar disso, os Egípcio deram uma notável contribuição ao estudo do tempo que nasceu de necessidades práticas ligadas, também, às cheias do Nilo, que foi o seu calendário.
224
WHITROW, G.J. O tempo na história (concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias). Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 62.
glória passada. Desta forma, os judeus “possuíam uma visão linear e unidirecional do tempo”225 com início na criação do mundo e fim na vitória do povo eleito na terra. Essa concepção seria transmitida, mais tarde, ao Cristianismo e ao Islamismo.
Na Roma Imperial, o cristianismo primitivo iria alterar fortemente a visão cíclica da história. Afora a tradição herdada dos judeus, a religião cristã, principalmente através de Paulo de Tarso, iria demonstrar a intenção de universalidade. Por outro lado, o Messias dos cristãos já tinha vindo à Terra e cumprido a sua missão. Era preciso olhar para o futuro, pois o tempo passava e a segunda vinda do Messias não se realizava.226 Com o Concílio de Nicéia, em 325, a religião cristã se tornou a oficial do Império Romano e o Imperador Constantino,227 por haver se convertido ao Cristianismo, deixa de ser um Deus, embora tenha sido reconhecido o seu direito divino ao trono.
Nessa perspectiva de se olhar para o futuro228 dos pensadores da Igreja Católica, encontramos Santo Agostinho. Ele, nas sua famosas “Confissões,” uma das primeiras autobiografias de que se tem notícia, toma a atividade da mente como base da medição temporal. O Bispo de Hipona, no norte da África, é responsável pela visão psicológica do tempo, por haver se preocupado com o modo com que nós o compreendemos. Ele ainda combate a visão aristotélica que identificava tempo com o movimento, pois para ele o tempo é o instrumento de medição dos movimentos e não o próprio movimento.229 Santo Agostinho, também faria observações ainda hoje comuns tais como: “Falamos do tempo e mais do tempo, dos tempos, e ainda dos tempos. Andamos constantemente com o "tempo" na boca. (...) São palavras muito claras e muito ordinárias, mas ao mesmo tempo bastante obscuras”.230
Dos Romanos, herdar-se-ia o calendário instituído por Júlio César, mais tarde substituído paulatinamente pelo calendário gregoriano (Papa Gregório XIII). Na Idade Média, excetuando-se algumas discussões isoladas como a referente ao cálculo da data da Páscoa não
225
WHITROW, G.J. O tempo na história (concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias). Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 67.
226
É importante observar que segundo o Evangelho ninguém senão o Pai, Deus, sabe o dia e a hora em que haverá a segunda vinda.
227
O Imperador Constantino se converteria quando, em sonho, visualizara um estandarte com símbolo cristão com a frase "Com este símbolo vencerás".
228
Aula de Filosofia de Direito nos Cursos de Mestrado e Doutorado em Direito da UFPE, ministrada pelo Professor João Maurício Leitão Adeodato em setembro de 2001. Essa perspectiva de olhar para o futuro foi elaborada para contrapor o pensamento de dois doutores da Igreja Católica: Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. O primeiro no século V d.c. olhava para a frente, pois se preocupava com o futuro de um Igreja em construção. O segundo, olhava para trás, pois a instituição já tinha se solidificado.
229
AGOSTINHO. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 251.
230
AGOSTINHO. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos e Ambrósio de Pina. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 249.
se verificaram maiores modificações na concepção de tempo. A idéia de imutabilidade e estabilidade presente na Idade Média contribuiriam para isso. Grande alteração se observaria com a construção dos primeiros relógios mecânicos, cujo mecanismo foi passo a passo aperfeiçoado. Chegou-se a acreditar, a exemplo de Kepler, que o universo seria como um relógio, daí a concepção mecanicista do universo como algo que segue um ritmo certo e pré- ordenado.231 Mais Tarde, encontraríamos Newton com a idéia de tempo absoluto. Idéia que seria contrastada por seu contemporâneo Leibniz que não acreditava que momentos do tempo pudessem existir independente de fenômenos.232 Havia, ainda, diversos estudiosos preocupados em determinar a data exata da criação do mundo em face do predomínio da teoria criacionista.
Com o Renascimento, posteriormente com o movimento iluminista, com Rosseuau e com outros pensadores estudando a origem da sociedade tal como a conhecemos, criar-se-ia ambiente para o surgimento de uma perspectiva histórica. Surgiriam as grandes navegações e com elas relógios marítimos. Foram descobertos novos mundos. O filósofo da história, o italiano Vico, afastando-se da influência de Descartes , defenderia a possibilidade de se compreender a história porque as instituições sociais, as línguas, costumes e leis são tão criações humanas como a matemática o é. A concepção de tempo modifica-se com muita rapidez. Surge a revolução industrial. Darwin apresenta a teoria da evolução das espécies. Firma-se a idéia de evolução. Idéia, aliás, que, no século XIX, teria, pelo menos, dois divulgadores na Faculdade de Direito do Recife.233
Com a revolução industrial, o capitalismo ganha força. Gláucio Veiga nos lembra ter Marx observado, no livro I do Das Kapital, que a máquina provocou uma verdadeira revolução, alargando o exército industrial de reserva e aumentando o grau de exploração, pois reduzindo o componente muscular da força, a máquina tornou proletária a
231
Do antigo sistema de escape se evolui para um sistema baseado no pêndulo idealizado por Galileu. WHITROW, G.J. O tempo na história (concepções sobre o tempo da pré-história aos nossos dias). Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993, p. 140.
232
Para fazer prevalecer suas idéias e desqualificar a de Leibnz, Newton se valeu de diversos meio fraudulentos. Cf. HAWKING, Stephen William. Uma breve história do tempo: do Big Bang aos buracos negros. Trad. Maria helena Torres. Rio de janeiro: Rocco, 1988, p. 247-248.
233
Refiro-me a José Hygino Duarte Pereira, divulgador das idéias de Hebert Spencer e Tobias Barreto que, à semelhança da escola histórica de Savigny, defenderia a historicidade do direito e a sua mutabilidade, variabilidade no tempo e no espaço. Tobias se basearia em Ihering, Haeckel e em Noire, autor que fez pouco sucesso em sua terra Natal. Tobias também possuía em sua biblioteca um exemplar de Das Kapital de Marx, sendo o primeiro no Brasil a citá-lo, embora se duvide que ele tenha feito uma leitura mais atenta. Sobre o tema Cf. VEIGA, Gláucio. História das idéias da faculdade de direito do recife. Vol. VIII. Recife: Artegraf, 1997. LOSANO, Mário. O germanismo de Tobias Barreto. In BARRETO, Luiz Antônio. Tobias Barreto Obras
força de trabalho infantil e feminina.234 A máquina também foi utilizada para transporte com o surgimento das locomotivas a vapor. Viagens que há séculos duravam dias passaram a ser feitas em horas. Einstein surge com a teoria da relatividade e Hubble com a idéia do universo em expansão. Aparecem o Telex, o computador, o relógio, atômico, a padronização no sistema de contagem das horas a partir do Meridiano GMT (Greenwich Mean Time).
O sistema capitalista monetiza o tempo, como demonstra o Gláucio Veiga,235 tornando-se usual a expressão time is money. O tempo se torna elemento fundamental na nossa sociedade. Embora cada vez mais haja mudanças, a perspectiva histórica adquire destaque. As descobertas científicas afastam a limitação temporal de 6000 (seis mil) anos para milhões, hoje, bilhões de anos.
Com Bergson, tem-se a distinção entre tempo e duração, sendo aquele objeto de pesquisas científicas e esta o tempo uno e vivido na continuidade da consciência;236 com Heidgger, teríamos um retorno às fontes aristotélicas, buscando-se de maneira ontológica um tempo existencial, sendo a duração o lapso de tempo que abrange o movimento.237 Desta forma, podemos conceber o tempo como a parte mensurável do movimento, ou seja, duração ou o seu devir infinito, eterno.
É nesse mundo, em que existem datas, horários, minutos e até segundos precisos para diversas ações, que se faz necessário discutir o fenômeno jurídico, de modo específico o processual, os quais não podem ser alheios a essa visão do tempo, uma vez que ela está, de forma imanente, na vida dos homens que a eles estão submetidos.