Várias áreas de conhecimento – por exemplo, a saúde – vêm se ocupando de forma diferenciada do tema envelhecimento, visto a atualidade das preocupações envolvendo o aumento de expectativa de vida em todos os continentes e o desafio do envelhecimento saudável. Na esteira do envelhecimento populacional, definido como a mudança da estrutura etária da população (BRASIL, 2006), os idosos estão ganhando visibilidade e atenção das políticas públicas, especialmente de saúde e previdenciária, por se tornarem mais numerosos, exigindo o esforço de se entender melhor os modos de se pensar e viver o envelhecimento em sociedade.
A noção de envelhecimento, de modo geral, alude à idéia de degradação do corpo e do psiquismo, implicando na perecebilidade e na perda da capacidade funcional do organismo. Cícero, que viveu em Roma de 106 a.C. à 43 a. C., em seu texto Saber Envelhecer (2011), já problematizava naquela época questões relacionadas ao envelhecimento.
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Na presente dissertação o termo sujeito aparecerá circunscrito à duas acepções. A primeira diz respeito ao sujeito no sentido mais geral do termo, sinônimo de ser humano e “indivíduo”. A segunda versa sobre o sujeito do desejo (inconsciente), sujeito da psicanálise. Ambos os termos aparecerão sem que haja indicação explícita de qual seu uso específico, sendo possível, no entanto, identificar qual o sentido de seu uso a partir do contexto.
Para ele, existiam quatro razões possíveis para não se simpatizar com a velhice: 1) Ela nos afastaria da vida ativa; 2) Ela enfraqueceria nosso corpo; 3) Ela nos privaria dos melhores prazeres; 4) Ela nos aproximaria da morte. Depois de citar tais razões, ele as combate, mostrando que estas indicariam uma visão pejorativa do processo de envelhecer, pois se ligariam preponderantemente à idéia de perda.
A atualidade dos temas ligados à longevidade permitem afirmar que os discursos sobre o envelhecimento multiplicam-se, e ater-se exclusivamente ao aspecto das perdas advindas com o passar do tempo revelar-se-ia uma perspectiva restritiva. Aliás, poder-se-ia dizer que as perdas e as aquisições que se somam no correr da vida são coerentes com a ideia de desenvolvimento, que considera os elementos que vão se articulando ou desarticulando na história do sujeito com a passagem do tempo. A história na psicanálise não tem relação direta com a história do desenvolvimento, mais ligada às datas e ao tempo que passa. A história na psicanálise tem relação com os efeitos de um dizer que não consideram uma perspectiva linear de tempo, contrapondo-se a ideia de desenvolvimento. No entanto, é especificamente sob o aspecto das perdas que se descortina a questão da finitude. É porque as coisas acabam que faz sentido pensar em um antes e um depois. Esta é propriamente a dimensão do quando, que permite localizar no fluxo de acontecimentos um antes e um depois.
O antes e o depois instauram limites. É através de sua demarcação que se torna possível determinar começos e fins relativos. Mas, na velhice, está-se diante de uma forma específica de fim que não se relativiza: a morte. O futuro, tempo de incertezas, reserva apenas uma certeza: a morte. Tal fato corrobora a idéia articulada a este período da vida, ou seja, a velhice: contar-se com um futuro mínimo, “da qual se extraem as principais significações da vida que ainda resta” (JERUSALINSKY, 2001, p. 17).
Santo Agostinho (2010) abordou este problema a partir de sua filosofia, que também se debruçava sobre problemas teológicos, argumentando que a eternidade pertencia à Deus, o criador. A eternidade é o tempo da “plenitude do ser, de uma totalidade a que nada falta. É um tempo estacionário, permanente, estável, como uma imagem, sem começo nem fim, sem sucessão, sem destruição, não mensurável. É uma pura duração onde nada acontece, pois desde sempre tudo está ali.” (PORGE, 1998, p. 82). Seguindo a idéia de Santo Agostinho, vê-se que Deus, obreiro dos tempos, precedeu a existência do próprio tempo, para então poder criá-lo. Neste sentido, pode-se
concluir que não é possível que se diga algo sobre o tempo quando ele ainda não existia. Para ele, o tempo coincide com o advento do humano.
Os discursos religiosos são fontes privilegiadas para se acessar os mitos referentes à criação do universo e, portanto, sobre uma eventual “origem dos tempos”. Santo Agostinho é um destes autores que nos brindam com reflexões de tal monta. Ele insiste no argumento, afirmando que o criador se distinguiria dos humanos por anteceder ao tempo. Sendo assim, ele viveria fora do tempo, na eternidade. O tempo implica a noção de finitude, antes e depois. Aos humanos, então, restaria “estar no tempo”.
Viver no tempo implica em se haver com as intercorrências que advém com sua passagem, especialmente na velhice. Cientes de que a passagem do tempo traz implicações para os sujeitos humanos independente de sua idade, toma-se aqui uma especificidade relacionada ao envelhecimento. Para os idosos, ao contrário das crianças, não é possível viver como se nada fosse definitivo e tudo estivesse por acontecer. O tempo real, aquele que não aceita dilações, marca sua presença através dos limites vivenciados a partir do corpo. “Se até ali, suas lamentações apontavam para o enredo imaginário de seus fracassos amorosos, dos limites de sua fortuna, ou da falta de reconhecimento, a partir desse momento o corpo, de um modo completamente real, cobrará toda a sua presença” (JERUSALINSKY, 2001, p. 12).
O envelhecimento remete a lidar com a idéia de um fim. Isto sempre está posto para os que vivem. Mas, com o avanço da idade ganha uma dimensão maior, visto que a expectativa em relação ao futuro vê-se marcada de forma indubitável pelo real do corpo, que perece.
No texto O mal-estar na civilização (1930), inclusive, Freud aborda serem três as direções em que o sofrimento ameaça os homens: do próprio corpo, do mundo externo e do relacionamento com outros homens. O primeiro dos três alude à finitude ligada ao corpo, condenado, nas palavras do próprio Freud, à decadência e à dissolução.
Em seu texto O tempo não-reconciliado (1996), Pelbart alude a algumas palavras de Rilke sobre o morrer, encontrando nelas uma certa idealização de tal experiência, mas que não deixam de mostrar a incomensurabilidade da morte, sua inacessibilidade, sua indeterminação absoluta, que revogam a produção de um sentido. Diz Rilke, segundo Pelbart: “Nós, os mais perecíveis de todos os seres, [...] não estamos apenas entre os que passam, mas somos também os que consentem em passar, que dizem sim ao desaparecimento e em quem o desaparecimento se faz fala e canto” (PELBART, 1996, p. 49).
O tempo real é aquele que nunca pára e demonstra, em seu próprio fluxo, que as coisas estão em permanente transformação. Por assim se apresentar, em fluxo constante, vê-se sempre as voltas com fins e inícios. A velhice testemunha uma das formas mais radicais de se implicar com a finitude, imbricada no próprio corpo. O envelhecimento do organismo marca um tempo que já se foi e traz implicações decisivas para o tempo que está por vir.
2.3 A FLECHA DO TEMPO: PASSADO – PRESENTE – FUTURO