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Tendo em vista o excerto de Raízes do Brasil acima fixado, recuperemos brevemente um debate já estabelecido por alguns recentes trabalhos sobre a obra do nosso autor, qual seja, a questão política imbricada no rearranjo da tessitura do livro de 1948 e subsequentes edições. Autores como João Kennedy Eugênio e Leopoldo Waizbort, já pincelados na primeira parte do nosso trabalho, enfatizam um salto político democrático dado pelo ensaísta entre o arco temporal que cobre os anos de 1936 a 1948. Esse caráter progressista da perspectiva parece claro naquele excerto, na medida em que preconiza uma possível derrocada futura do par liberalismo-caudilhismo persistente na

47

NICODEMO, Thiago Lima. “Os planos de historicidade na interpretação do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda”, op. cit., p. 08.

48 AVELINO FILHO, George. “As raízes de Raízes do Brasil”, op. cit., p. 36. 49 Idem, Ibidem, p. 38.

132 cultura política brasileira, mas também nos países de raízes ibero-americanas. Leopoldo Waizbort assevera que, no clima histórico e cultural em que vem a lume a edição de 1936, lê-se um intelectual comprometido com soluções não-democráticas e conservadoras, identificando-se com “um regime oligárquico, tingido por lideranças pessoais (talvez populistas)”,50

além de demonstrar, também, certa valoração positiva à empresa colonizadora lusa. João Kennedy Eugênio, embora por via da análise do discurso organicista e vitalista de vertente alemã, com ênfase na filosofia da vida [Lebensphilosophie], de Ludwig Klages, desvela, outrossim, nas modificações do livro, certa simpatia por parte de Buarque de Holanda com o sucesso do empreendimento colonizador português. O aparato organicista, se antes, 1936, cumpria, grosso modo, a função de corroborar conceitualmente o sucesso dos portugueses e a “plasticidade” que deles herdaram os brasileiros, a partir de 1948 a sua atenuação vem a serviço de um “despistamento” do leitor, orientando-o às sendas do viés progressista das Raízes do

Brasil.51 Isso posto, elencaremos o derradeiro passo no qual a marcação temporal, junto a outras nuances da modificação, vem à baila no sentido de corroborar tal debate sobre a possibilidade de o historiador profissional estar relendo o ensaísta histórico de Raízes do

Brasil, 1936, procurando alinhavar o texto geral, atribuindo-lhe maior coerência. Dessa

vez, após apresentarmos o trecho da primeira edição, adentraremos já na segunda metade daquela centúria, ou seja, com vistas à edição de 1956.

Todo estudo comprehensivo da sociedade brasileira há de destacar o facto verdadeiramente fundamental de constituirmos o unico esforço bem succedido, e em larga escala, de transplantação da cultura européa para uma zona de clima tropical e sub-tropical. Sobre territorio que, povoado com a mesma densidade da Belgica, chegaria comportar um numero de habitantes igual ao da população actual do globo, vivemos uma experiencia sem símile. Trazendo de paizes distantes as nossas formas de vida, nossas instituições e nossa visão de mundo e timbrando em manter tudo isso em um ambiente muitas vezes desfavoravel e hostil, somos ainda uns desterrados em nossa terra.52

Façamos agora uma comparação com o excerto abaixo, contido no parágrafo da terceira edição:

A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é,

50 WAIZBORT, Leopoldo. “O mal-entendido da democracia: Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do

Brasil, 1936”, op. cit., p. 42.

51 Cf. EUGÊNIO, João Kennedy. “Uma atenuação plausível: o organicismo em Raízes do Brasil, 1948”,

op. cit..

133 nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vêzes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.53

Antes, porém, das considerações sobre as passagens propriamente ditas, algumas palavras sobre a edição terceira do livro de estreia do autor podem ter alguma relevância: juntamente com o polêmico ensaio do poeta Cassiano Ricardo em torno do conceito de “homem cordial” e a carta-resposta de Sérgio Buarque, anexados ao final do livro, talvez seja a modificação supracitada a mais substantiva, ao menos no aspecto embaraçoso do problema que trás. No que diz respeito a elementos formais externos ao texto principal, os paratextos, percebe-se clara pretensão de dar foro de obra acadêmica ao empreendimento editorial, na medida em que, logo na sua página de rosto, veem-se anúncios de obras do autor, inclusive duas delas no prelo: Caminhos e Fronteiras e

Tentativas de Mitologia. Em preparo: A Era do Barroco no Brasil. E, ao final, o livro se

vê agraciado com índices de assuntos e onomástico, somando ao todo quinze páginas. Pois bem, voltando aos excertos acima, coloquemos em cena o principal autor que o tratou, talvez, de modo mais detido. Na edição de 1956, presencia-se, segundo João Cezar de Castro Rocha, surpreendente supressão de significativa e paradoxal questão colocada pelo ensaísta, ainda na edição de 1936, acerca da formação sociocultural do país, a saber: uma “experiência de pensamento” que, mediante sedimentação do tema do exílio, desde a literatura romântica nacional, conforma a longa duração dos grandes debates e interpretações do Brasil. De acordo com Castro Rocha, ao desfazer o paradoxo contido na catacrética sentença de que somos o único esforço

bem sucedido e sem símile de transplantação de cultura europeia para os trópicos, embora ainda assim desterrados na própria terra, o historiador, optando pelo segundo

polo, revelava o índice de seu elã profissionalizante, por assim dizer, esforçando-se por dar foro de objetividade e particularidade histórica aos fenômenos da formação nacional; consequentemente, deixando o texto final mais aplainado e coerente. A partir dessa argumentação, o arguto estudioso da obra buarquiana sugere que o acabamento dado à edição de 1956 fecha as portas para “a retomada crítica das circunstâncias históricas”, ameaçando “revestir Raízes do Brasil com um imobilismo (seria excessivo dizer fatalismo) que destoa do movimento dialético, típico do pensamento de Sérgio

134 Buarque”.54

Ao destacar outros aspectos da permuta estilística e conceitual efetuada por Holanda, ainda na edição de 1948, diz, “com bom humor [...], que o leitor recebeu uma segunda edição revista e... diminuída, apesar do que promete a capa do livro”.55

A marca temporal do “ainda hoje”, agregada somente à passagem da terceira edição, reafirma a retenção, no horizonte histórico de 1956, de aspectos do passado, moldando a fisionomia do presente; e fazendo jus, relembremos, ao caráter projetivo da metáfora cara ao terceiro capítulo da obra: “Herança Rural”. A condição de exilados na própria terra, ainda constatada naquela contemporaneidade, em virtude de fatores sociopolíticos e também intelectuais, reforça, uma vez mais, o espaço de experiência, e cujo horizonte de expectativa é experienciado efeitualmente como “inefetividade teleológica”56 provocada pela protensão temporal implicada no ainda não do evento aguardado – no caso, uma sociedade efetivamente democrática. Quanto à supressão do tom um pouco otimista que abre a edição de 1936, o qual, talvez, pode surpreender o leitor contemporâneo, há já alguns estudos que se defrontaram com a tensão enigmática que inere ao parágrafo de abertura do livro. Castro Rocha aposta na possibilidade de que o historiador paulista – a essa altura na eminência de assumir a cátedra de História da Civilização Brasileira, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP –, ao reler o seu livro de estreia, estivesse recuando em relação à positividade dada, à época, ao empreendimento colonizador luso; projetando, consequentemente, com a solução dada à abertura da terceira edição, a sensação de desenraizamento “nos primórdios da formação histórica brasileira, como se fosse o pecado original do país do futuro”.57

Porém, dado que Castro Rocha não coteja o mesmo parágrafo com outras partes que evidenciam a tensão constante do ensaio como um todo, a sua hipótese primeira, segundo a qual Buarque de Holanda atribui juízo negativo à colonização portuguesa, torna-se um pouco comprometida. Como atesta o trabalho do próprio Kennedy Eugênio, com o auxílio do aparato organicista, vemos que o historiador, no parágrafo primeiro do seu ensaio, não alude apenas – ou, quiçá, de modo algum – à empresa lusitana, e, em virtude da impossibilidade de desvencilhar-se por completo das metáforas orgânicas ao longo das

54 ROCHA, João Cezar de Castro. “O exílio como eixo: bem sucedidos e desterrados. Ou: por uma edição crítica de Raízes do Brasil”, op. cit., p. 117.

55 Idem, Ibidem, p. 124. 56

NICODEMO, Thiago Lima. “Os planos de historicidade na interpretação do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda”, op. cit., p. 09.

57 ROCHA, João Cezar de Castro. “O exílio como eixo: bem sucedidos e desterrados. Ou: por uma edição crítica de Raízes do Brasil”, op. cit., p. 120.

135 primeiras edições do ensaio, ele, a despeito de suas intenções, talvez, não consegue deixar o texto final mais aplainado e coerente, como quer João Cezar. A tensão que caracteriza o passo que enceta o livro de 1936 pode ser presenciada, com teor semelhante, logo no parágrafo que encerra o capítulo I. Vejamos sua permanência – com algumas poucas modificações que atenuam o teor organicista58 – na edição de 1956:

Hoje, a simples obediência como princípio de disciplina parece uma fórmula caduca e impraticável e daí, sobretudo, a instabilidade constante de nossa vida social. Desaparecida a possibilidade dêsse freio, é em vão que temos procurado importar dos sistemas de outros povos modernos, ou criar por conta própria, um sucedâneo adequado, capaz de superar os efeitos de nosso natural inquieto e desordenado. A experiência e a tradição ensinam que tôda cultura só absorve, assimila e elabora em geral os traços de outras culturas, quando êstes encontram uma possibilidade de ajuste aos seus quadros de vida. Nesse particular cumpre lembrar o que se deu com as culturas européias transportadas ao Novo Mundo. Nem o contato e a mistura com raças indígenas ou adventícias fizeram-nos tão diferentes dos nossos avós de além-mar como as vêzes gostaríamos de sê-lo. No caso brasileiro, a verdade, por menos sedutora que possa parecer a alguns dos nossos patriotas, é que ainda nos associa à Península Ibérica, a Portugal especialmente, uma tradição longa e viva, bastante viva para

nutrir, até hoje, uma alma comum, a despeito de tudo quanto nos separa. Podemos

dizer que de lá nos veio a forma atual de nossa cultura; o resto foi matéria que se sujeitou mal ou bem a essa forma.59

Pois bem, juntamente com esse longo trecho, não nos surpreendemos, ainda, naquela passagem que compõe o desfecho inconcluso – e não menos enigmático – de

Raízes do Brasil, permanente em todas as edições ora analisadas, com a mesma tensão

tão característica da obra buarquiana? Tensão que, mediante uso da rica teia tropológica que cobre o ensaio, nos é trazida pelas metáforas musicais, especialmente a do

contraponto, como tentamos evidenciar nas considerações que encerram a primeira

parte deste trabalho. Noção essa que possibilita a entrada do nosso autor num sistema de pensamento dual, porém sem ser dualista, como afirmou Paulo Arantes em nota, também, na parte anterior do trabalho. Nunca há, por parte de Holanda, uma opção simples por algum dos polos dentro de tal sistema, “mas tensão ininterrupta, conferindo ao ensaio inteiro uma particularíssima impressão de dissonância não resolvida, de incomodidade perpetuamente fecunda”.60

Assertiva essa contrária a de Castro Rocha, segundo a qual, como vimos, a alteração do parágrafo por ele analisado ameaça

58

Cf. EUGÊNIO, João Kennedy. “Uma atenuação plausível: o organicismo em Raízes do Brasil, 1948”,

op. cit., p. 274, 275.

59 HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 3ª ed., op. cit., p. 30. (grifo nosso) 60 DANTAS, Luiz. “Prefácio”, op. cit., 19.

136 “revestir Raízes do Brasil com um imobilismo (seria excessivo dizer fatalismo) que destoa do movimento dialético”, característico do pensamento do autor.

Retornando ao trecho suprimido pelo historiador, no primeiro parágrafo de sua obra, donde se tem inferido a sua suposta postura negadora da colonização lusa, tem-se elementos sutis que podem matizar, ou mesmo contrariar, essa interpretação. Primeiramente, como tencionamos sugerir, se a tensão entre sermos bem sucedidos e, ao mesmo tempo, desterrados é mitigada na terceira edição do livro, ela continua latente em muitas partes do ensaio. Lançando uma arriscada aposta: talvez o autor tenha a essa altura se dado conta do tom categórico da afirmação, logo nas primeiras linhas dos seus escritos, e quisesse deixar com que a rede interpretativa de suas argumentações fosse tomando forma ao transcorrer das páginas de Raízes do Brasil, instigando o seu leitor potencial a “pensar a coisa, desde o primeiro passo, com a complexidade que lhe é própria”.61

Thiago Nicodemo sugere, igualmente, que a primeira frase do parágrafo de 1936 e 1948 “soava, algum tempo depois, totalmente descabida, pois era preciso relativizar expressões como ‘bem-sucedido’, bem como rever a importância de fatores como o clima na determinação de uma sociedade”.62

Quanto à segunda parte do mesmo parágrafo: “Trazendo de países distantes nossas formas de convívio...”, pensamos que ela não exclui o relativo sucesso do processo lusitano de transculturação realizado no Novo Mundo, se se tem em mente que, como aventamos, não trata, de modo estrito, ao menos, de Portugal. Ao invés de excludente, ela engendra a própria tensão. Recomponhamos todo o trecho: se a tentativa de implantação da cultura europeia – com vistas especialmente à portuguesa – em território de magnitude continental deu-se, a despeito de toda adversidade, como “o fato mais rico em consequências”, temos, não obstante, que as formas de sociabilidade, “de convívio”, “instituições” e “ideias” nele forjadas, posto que trazidas de países distantes – atente-se para o termo colocado no plural! – acabam por fazer com que sejamos “ainda hoje uns desterrados em nossa própria terra”; consequência do fato de não se atentarem os brasileiros para o “ritmo espontâneo”, as “essências íntimas”, e a “plasticidade” que dos portugueses eles herdaram. Palavras contundentes, suscitadas por um diálogo entre três analistas das

Raízes do Brasil, podem vir ao auxílio dos nossos argumentos:

61 ADORNO, Theodor W. “O ensaio como forma”, op. cit., 33.

62 NICODEMO, Thiago Lima. “Sentidos da colonização”. In: ______. Urdidura do Vivido: Visão do

137 [...] Cláudia Wasserman, em seu artigo Nacionalismo: origem e significado..., argumenta que para Sérgio a implantação da cultura portuguesa (em terras hoje correspondentes ao Brasil teria sido um equívoco a ser superado. Visando garantir credibilidade a este argumento, a dita historiadora cita, então, o seguinte trecho de

Raízes...: “Trazendo de países distantes [...]”. Julgo tal entendimento de Wasserman

equivocado em dois sentidos principais: em primeiro lugar, porque compreendo que neste ponto transcrito Sérgio não está se referindo especificamente à cultura portuguesa (não está propriamente realizando um juízo de valor quanto aos lusos e nossa relação com eles), mas sim se remetendo à maneira como temos nos relacionado com qualquer sugestão estrangeira; em segundo lugar, porque Sérgio me parece tem em mente, ao longo de toda a referida Obra, que “contatos” são inevitáveis (e até mesmo necessários), ainda que, aos Seus olhos, seja urgente que se processem de maneira crítica. Para mim, aliás, entre Suas palavras citadas acima destaca-se o verbo “timbrando”, mais que o verbo “trazendo” – “timbrar” denota abuso e embuste; “trazer”, é, ali, um pressuposto. O pesquisador paulista Flávio Aguiar também defende a hipótese de que não estaria Sérgio, de fato, ao longo de seu texto mais célebre, advogando em prol da necessidade de se “exorcizar” a herança cultural a nós deixada pelos colonizadores. Na realidade, para Aguiar, a visão de Sérgio seria a de que o legado ibérico constituía “um mal de raiz com o qual não devemos ser condescendentes, mas com o qual somos obrigados a conviver”.63

Voltemos ao problema em torno da marca temporal do ainda hoje: poderiam algumas ponderações, representativas do prefácio à segunda edição do livro, valerem para o horizonte histórico de meados da década de 1950 no Brasil? Vejamos:

[...] fugi deliberadamente à tentação de examinar, na parte final da obra, alguns problemas específicos sugeridos pelos sucessos deste último decênio. Em particular aqueles que se relacionam com a circunstância da implantação, entre nós, de um regime de ditadura pessoal de inspiração totalitária. Seria indispensável, para isso, desprezar de modo arbitrário a situação histórica que presidiu e de algum modo provocou a elaboração da obra, e isso não me pareceu possivel, nem desejavel. Por outro lado, tenho a pretensão de julgar que a análise aquí esboçada da nossa vida

social e política do passado e do presente, não necessitaria ser reformada à luz dos aludidos sucessos.64

Apesar de a segunda e terceira edições virem a lume num período cuja vida política do país passava por uma relativa experiência democrática, entre os anos 1945 e 1964,65 traços da consciência histórica do autor, verificados nesse jogo dialético dos advérbios, bem como no trecho acima grifado, nos dão testemunho de uma permanência de restos indesejáveis do passado, forjando, portanto, uma postura cum grano salis diante dos horizontes de expectativa relativos aos muitos dos otimismos de certas

63 FERREIRA, Ana L. O. D. “Sérgio Buarque de Holanda: conceitos e métodos de abordagem em Raízes

do Brasil”, 2007. In: Proyecto Ensayo Hispánico. Disponível em <www.ensayistas.org/filosofos/brasil>

(consultado em 18/08/2013) 64

HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Prefácio à segunda edição”. In: ______. Raízes do Brasil. 2ª ed., op.

cit., p. 11, 12. (grifo nosso)

65 Cf. FAUSTO, Boris. “A experiência democrática (1945-1964)”. In: ______. História concisa do Brasil. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Estado, 2001, p. 219-256.

138 análises e projetos sobre os rumos do chamado desenvolvimentismo por qual caminhava a nação. No raio temporal que circunscreve o horizonte da terceira edição de Raízes do

Brasil, temos, talvez, por parte do historiador paulista, uma aproximação, salvaguardada

as devidas proporções, de certo domínio técnico da temporalidade caro a autores cuja inflexão intelectual se encontra no paradigma da “formação”. Se Thiago Nicodemo já ressaltou, em seção anterior, tal técnica como sendo característica de uma imaginação histórica brasileira do século XX, é Marcos Nobre, todavia, quem vem complementar a nossa linha de raciocínio:

Publicados depois de pelo menos vinte anos de vigência do nacional- desenvolvimentismo e em ambiente de incipiente mas existente democracia,

Formação da Literatura Brasileira (1957), de Antonio Candido, e Formação Econômica do Brasil (1959), de Celso Furtado, já apresentavam um grau de

complexidade muito superior ao fornecido pelo par antitético original “arcaico” e “moderno”. Tratava-se, ali, de recolocar os problemas em termos de um vínculo interno entre “nacional-desenvolvimentismo” e “democracia”, entre modernização e justiça social. Sua característica marcante foi reconstruir a história do país como

estações de um processo de formação em curso, já parcialmente realizado, cujo sentido permitiria, por sua vez, delinear tendências de desenvolvimento e mesmo de continuidade. É assim que, nesses dois livros, a ênfase recai não sobre o diagnóstico

dos “arcaísmos”, mas sobre a lenta, porém progressiva, cristalização de instituições sociais que representavam realizações, mesmo que parciais e incompletas, do “moderno brasileiro” (numa palavra: o “sistema literário”, para Candido; o “mercado interno”, para Furtado).66

No âmbito das representações políticas, quais as vicissitudes sociais e institucionais caracterizavam a compleição parcial e incompleta desse “moderno brasileiro”? De que modo a simbiótica relação entre historicidade, erudição, política e imaginação na perquirição da formação do Brasil confluía para a incessante reatualização, pelo historiador, do seu livro estreante? Recuando um pouco no tempo, final da década de 1940, fica a questão: será que, na soleira da segunda metade do século XX, fatores como os efeitos da Segunda Grande Guerra e a tentativa europeia de expurgo dos vários fascismos que assolaram o continente, enquanto que nessas plagas a ditadura varguista demonstrara que a modernidade, acompanhada de uma modernização, apesar das promessas, não trouxera em seu bojo a civilidade almejada

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