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O Teorema de Euler

No documento Curso de Matematica Olimpica POTI (páginas 62-73)

Nesta aula, obteremos uma generaliza¸c˜ao do teorema de Fermat.

Defini¸c˜ao 1. Dado n ∈ N, denotaremos o n´umero de naturais menores ou iguais a n e relativamente primos com n por φ(n).

Segue imediatamente da defini¸c˜ao de φ(n) que φ(1) = 1, φ(2) = 1, φ(3) = 2, φ(5) = 4 e φ(6) = 2. Se p ´e primo, φ(p) = p − 1.

Lema 2. Se p ´e um n´umero primo e k um n´umero natural, ent˜ao: φ(pk) = pk−1(p − 1).

Os ´unicos n´umeros do conjunto {1, 2, . . . , pk} que n˜ao s˜ao relativamente primos com pks˜ao aqueles que s˜ao divis´ıveis por p. A quantidade de tais n´umeros ´e p

k p = p

k−1. Sendo assim, φ(pk) = pk− pk−1= pk−1(p − 1).

Nosso pr´oximo objetivo ser´a encontrar uma f´ormula para calcular explicitamente φ(m) em fun¸c˜ao da fatora¸c˜ao em primos de m. Precisaremos relembrar um exemplo estudado na aula 6:

Lema 3. Sejam m um n´umero natural, l um n´umero natural relativamente primo com m e r um inteiro arbitr´ario. Ent˜ao, o conjunto:

r, l+ r, 2l + r, . . . , (m − 1)l + r; ´e um sistema completo de restos m´odulo m.

Suponha, por absurdo, que existem dois inteiros i e j com 0 ≤ i < j < m e para os quais tenhamos r + il ≡ r + jl (mod m). Assim, (j − i)l ≡ 0 (mod m). Como l ´e relativamente primo com m, devemos ter j − i ≡ 0 (mod m). Obtemos um absurdo pois 0 < j − i < m. Consequentemente, temos um conjunto de m inteiros todos incongruentes m´odulo m e, portanto, tal conjunto ´e um sistema completo de restos.

POT 2012 - Teoria dos N´umeros - N´ıvel 2 - Aula 9 - Samuel Feitosa

Teorema 4. Se l e m s˜ao n´umeros naturais primos entre si, ent˜ao: φ(ml) = φ(m)φ(l).

Demonstra¸c˜ao. Como φ(1) = 1, o teorema anterior ´e valido quando m = 1 ou n = 1. Suponha ent˜ao que m, l > 1. Fa¸camos uma contagem dupla. Primeiramente, usando a defini¸c˜ao, φ(mn) ´e o n´umero de inteiros da tabela abaixo que s˜ao relativamente primos com ml. 1, 2, . . . , r, . . . , l, 1 + l, l+ 2, . . . , l+ r, . . . , 2l, 21 + l, 2l + 2, . . . , 2l + r, . . . , 3l, . . . , . . . , . . . , . . . , . . . , . . . , (m − 1)1 + l, (m − 1)l + 2, . . . , (m − 1)l + r, . . . , ml,

Seja r ≤ m um n´umero natural qualquer. Considerando a r-´esima coluna da tabela, se mdc(r, l) > 1, nenhum de seus elementos ´e relativamente primo com l. Ent˜ao, se buscamos os elementos que n˜ao possuem nenhum fator em comum com ml, devemos nos ater `as colunas com mdc(r, l) = 1. O n´umero de tais colunas ´e φ(l). Considerando agora a r-´esima coluna e supondo que mdc(r, l) = 1, em virtude do lema anterior, sabemos que os restos de seus elementos na divis˜ao por m formam exatamente o conjunto {0, 1, . . . , m} e dentre eles existem exatamente φ(m) n´umeros relativamente primos com m. Sendo assim, podemos contar os n´umeros relativamente primos com ml atr´aves do n´umero de colunas ”boas”e do n´umero de ”bons”elementos em cada uma delas, obtendo: φ(m)φ(l).

Corol´ario 5. Se n = pα1

1 pα22. . . p αk

k ´e a fatora¸c˜ao em primos de n, ent˜ao: φ(n) = n  1 −p1 1   1 −p1 2  . . .  1 −p1 k 

De fato, pelo teorema anterior, φ(n) = φ(pα1 1 pα22. . . pα k k ) = φ(pα1 1 )φ(pα22) . . . φ(pα k k ) = pα1−1 1 (p1− 1)pα22−1(p2− 1) . . . p αk−1 k (pk− 1) = pα1−1 1 pα22−1. . . pα k−1 k (p1− 1)(p2− 1) . . . (pk− 1) = n  1 − 1 p1   1 − 1 p2  . . .  1 − 1 pk 

Exemplo 6. Mostre que qualquer n ≥ 7 pode ser escrito na forma a + b, com a e b naturais primos entre si, ambos maiores que 1.

Podemos escrever b = n − a e nosso objetivo ´e encontrar a com 1 < a < n − 1 tal que mdc(a, n − a) = 1. Para isso, basta que mdc(a, n) = 1. Pelo corol´ario anterior,

φ(n) = pα1−1

1 pα22−1. . . p αk−1

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Se a express˜ao anterior ´e igual `a 2, necessariamente devemos ter αi = 1 e pi= 2 ou 3 para todo i. Sendo assim, n ≤ 6. Logo, φ(n) > 2 e existe pelo menos outro n´umero natural diferente de 1 e n − 1 que ´e relativamente primo com n.

Exemplo 7. Prove que existem infinitos inteiros positivos n tais que φ(n) = n

3.

Basta tomar n = 2 · 3m, onde m ´e um inteiro positivo. Ent˜ao: φ(n) = φ(2 · 3m) = φ(2)φ(3m) = 2 · 3m−1= n

3. Exemplo 8. Se n ´e um inteiro positivo composto, ent˜ao

φ(n) ≤ n −√n Se n = pα1

1 pα22. . . p αk

k , usando que n ´e composto, podemos garantir que existe um fator primo pi tal que pi ≤√n. Assim,

φ(n) = n  1 − 1 p1   1 − 1 p2  . . .  1 − 1 pk  ≤ n  1 −p1 i  ≤ n  1 −√1 n  = n −√n

Teorema 9. (Teorema de Euler) Se mdc(a, m) = 1, ent˜ao aφ(m)≡ 1 (mod m)

Demonstra¸c˜ao. A prova deste teorema ser´a muito similar `a prova do teorema de Fermat. Sejam r1, r2, . . . , rφ(m) os restos em {0, 1, 2, . . . , m − 1} que s˜ao relativamente primos com m. Considere o conjunto {ar1, ar2, . . . , arφ(m)}. Se dois de seus membros deixam o mesmo resto por m, digamos:

ari≡ arj (mod m);

temos ri ≡ rj (mod m) pois mdc(a, m) = 1. Claramente isso ´e uma contradi¸c˜ao. Al´em disso, mdc(ari, m) = mdc(m, ri) = 1. Analisando os restos na divis˜ao por m dos membros desse novo conjunto, podemos concluir que tal conjunto coincide com o conjunto dos restos iniciais. Assim,

r1· r2· . . . · rφ(m) ≡ ar1· ar2· . . . · arφ(m) ≡ aφ(m)r1· r2. . .· rφ(m)

Como mdc(r1· r2· . . . · rφ(m), m) = 1, podemos cancelar esse termo em ambos os membros da congruˆencia anterior obtendo assim o teorema de Euler.

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Exemplo 10. Encontre os ´ultimos trˆes d´ıgitos de 79999 Como φ(1000) = 400, usando o Teorema de Euler, obtemos:

710000 = (7400)25

≡ 1 (mod 1000) Note que 7 · 143 = 1001 ≡ 1 (mod 1000). Assim,

79999 ≡ 79999· 7 · 143 ≡ 710000· 143 ≡ 143 (mod 1000) Logo, 79999 termina em 143.

Exemplo 11. (Putnam 1972) Prove que n˜ao existe um inteiro n > 1 tal que n|2n− 1. Se existem tais inteiros positivos, denotemos por m o menor deles. Claramente m ´e ´ımpar, pelo teorema de Euler, podemos garantir que:

m| 2φ(m)− 1.

Seja d = mdc(m, φ(m)). Pelo problema 27 da aula 3, temos 2d−1 = mdc(2m−1, 2φ(m)−1). Como m | mdc(2m− 1, 2φ(m)− 1), d > 1. Al´em disso, d ≤ φ(m) < m e d | 2d− 1. Isso ´e um absurdo pois m ´e o menor inteiro maior que 1 com tal propriedade.

Exemplo 12. (Olimp´ıada de Matem´atica Argentina) Demostre que para cada n´umero na- tural n, existe uma potˆencia de 2 cuja expans˜ao decimal tem entre seus ´ultimos n d´ıgitos (da direita) mais de 2n

3 d´ıgitos que s˜ao iguais a 0.

Se 2ktiver um resto muito pequeno m´odulo 10n, poderemos garantir que existir˜ao muitos ze- ros consecutivos entre seus ´ultimos d´ıgitos. Para obtermos a equa¸c˜ao 2k≡ r (mod 10n) com rpequeno, ´e interessante come¸carmos analisando 2k (mod 5n) uma vez que mdc(2, 5n) = 1. Fa¸camos isso. Pelo teorema de Euler, temos:

2φ(n) ≡ 1 (mod 5n) ⇒ 2φ(n)+n ≡ 2n (mod 10n).

Como 2n = 8n/3 <10n/3, podemos concluir que 2n possui menos que n

3 d´ıgitos e, conse- quentemente, entre os ´ultimos n d´ıgitos de 2φ(n)+nexistem pelo menos n −n

3 = 2n

3 d´ıgitos consecutivos iguais `a zero.

Exemplo 13. (IMO 1971) Prove que a sequˆencia 2n− 3(n > 1) cont´em uma subsequˆencia de n´umeros primos entre si dois a dois.

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Uma boa estrat´egia ´e construir uma sequˆencia recursivamente. Suponha que j´a tenhamos escolhido os termos a1, a2, . . . , ak na sequˆencia de modo que mdc(ai, aj) = 1. Como pode- remos escolher o pr´oximo termo ak+1 da forma 2n− 3? Claramente mdc(2, ai) = 1. Desde que φ(ai) | n, poderemos usar o teorema de Euler para obter:

2n− 3 ≡ 1 − 3

6≡ 0 (mod ai) Sendo assim, pelo teorema 4, basta escolhermos:

n= φ(a1· a2· . . . · ak) = φ(a1)φ(a2) . . . φ(ak); que naturalmente ser´a um m´ultiplo de cada φ(ai). Logo, podemos definir

ak+1= 2φ(a1·a2·...·ak)− 3

e assim temos uma sequˆencia de termos infita satisfazendo as condi¸c˜oes do enunciado.

Problemas Propostos

Problema 14. Encontre todos os n´umeros naturais n para os quais φ(n) n˜ao ´e divis´ıvel por 4.

Problema 15. Prove que se p > 2 e 2p + 1 s˜ao ambos n´umeros primos, ent˜ao para n = 4p vale que

φ(n + 2) = φ(n) + 2.

Problema 16. Encontre todas as solu¸c˜oes nos n´umeros naturais da equa¸c˜ao φ(n) = φ(2n). Problema 17. Encontre todas as solu¸c˜oes nos n´umeros naturais da equa¸c˜ao φ(2n) = φ(3n). Problema 18. Se n possui k fatores primos distintos, prove que 2k| φ(n).

Problema 19. Prove que para qualquer n´umero natural k, existe pelo menos um n´umero natural n tal que

φ(n + k) = φ(n).

Dica: Considere o menor divisor primo p que n˜ao ´e um divisor de k e estude o n´umero n= (p − 1)k.

Problema 20. Mostre que se a e b s˜ao inteiros primos entre si, ent˜ao existem inteiros m e ntais que am+ bn≡ 1 (mod ab).

Problema 21. (Alemanha) Se n ´e um n´umero natural tal que 4n+ 2n+ 1 ´e primo, prove que n ´e potˆencia de 3.

Problema 22. (USAMO 1991) Mostre que para qualquer inteiro fixo n ≥ 1, a sequˆencia 2, 22,222,2222, . . . (mod n);

´e eventualmente constante, isto ´e, a partir de um certo termo da sequˆencia todos os restos obtidos na divis˜ao por n ser˜ao iguais.

Dica: Tente considerar os casos em que n ´e par ou n ´e ´ımpar em separado e use indu¸c˜ao. Problema 23. Encontre os ´ultimos 8 d´ıgitos da expans˜ao bin´aria de 271986

Problema 24. Mostre que, para qualquer inteiro positivo n com n 6= 2 e n 6= 6 temos: φ(n) ≥√n.

Referˆencias

[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos N´umeros ? um passeio com primos e outros n´umeros familiares pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimp´ıadas Cearenses de Matem´atica 1981-2005 (N´ıveis J´unior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalh˜aes, Treinamento Cone Sul 2008. Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol. 7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of Numbers.

Polos Olímpicos de Treinamento

Curso de Teoria dos Números - Nível 2

Prof. Samuel Feitosa

Aula

10

Divisores

Suponha que n = pα1 1 p α2 2 . . . p αk

k ´e a fatora¸c˜ao em primos do inteiro n. Todos os divisores de n s˜ao da forma m = pβ1

1 p β2

2 . . . p βk

k , onde 0 ≤ βi ≤ αi. Cada um desses n´umeros, aparece exatamente uma vez no produto:

(1 + p1 + p21 + . . . + pα11)(1 + p2 + p22 + . . . + pα22) . . . (1 + pn + p2n + . . . + p αk

k ), quando o mesmo ´e expandido usando a distributividade. Como existem αi+ 1 termos em cada parˆenteses, O n´umero de termos dessa expans˜ao ´e:

(α1+ 1)(α2+ 1) . . . (αk+ 1). Al´em disso, sabemos que:

1 + pi+ p2i + . . . + pα i i = pαi+1 i − 1 pi− 1 . Sendo assim, podemos concluir que:

Teorema 1. Se n = pα1

1 pα22. . . p αk

k ´e a fatora¸c˜ao em primos de n, ent˜ao:

a) O n´umero de divisores de n, denotado por d(n), ´e: (α1+ 1)(α2+ 1) . . . (αn+ 1). b) A soma dos divisores de n, denotada por σ(n), ´e:

(1 + p1+ p21+ . . . + pα11)(1 + p2+ p22+ . . . + pα22) . . . (1 + pn+ p2n+ . . . + pα

n

n ) ou, de forma mais sucinta,

pα1+1 1 − 1 p1− 1 ! pα2+1 2 − 1 p2− 1 ! . . . p αn+1 n − 1 pn− 1 

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Observa¸c˜ao 2. (Pareamento de divisores) Se d ´e um divisor de n, ent˜ao n

d tamb´em ´e um divisor de n.

Portanto, pelo menos um dentre {d,nd} ´e um divisor de n menor ou igual a√n.

Exemplo 3. Determine o n´umero de divisores positivos de 20088 que s˜ao menores que 20084.

O n´umero de divisores de 20088 = 224· 2518 ´e 225. Como n ´e um quadrado perfeito e em virtude da observa¸c˜ao anterior, 112 desses divisores s˜ao menores que√20088 = 20084e 112 s˜ao maiores.

Exemplo 4. Encontre a soma dos inversos dos divisores postivos de 496.

Sejam d1, d2, . . . , dn os divisores de 496 e K a soma de seus inversos. Usando a observa¸c˜ao anterior, o conjunto {496d

1

+496 d2

+ . . . +496

dn } coincide com o conjunto {d

n+ dn−1+ . . . + d1} e da´ı: 1 d1 + 1 d2 + . . . + 1 dn = K ⇒ 496 d1 +496 d2 + . . . +496 dn = 496K ⇒ dn+ dn−1+ . . . + d1 = 496K ⇒ 25− 1 2 − 1 · 312− 1 31 − 1 = 496K ⇒ 960 496 = K. Portanto, k = 60 31.

Exemplo 5. Um n´umero natural n possui exatamente dois divisores e n + 1 possui exata- mente 3 divisores. Encontre o n´umero de divisores de n + 2.

Se n possui exatamente dois divisores, ent˜ao n = p ´e um n´umero primo. Se n + 1 possui um n´umero ´ımpar de divisores, ent˜ao n + 1 = x2 ´e um quadrado perfeito, para algum x inteiro positivo. Logo, x2− 1 = (x − 1)(x + 1) = p. Como p ´e primo, a ´unica possibilidade ´e x − 1 = 1 e consequentemente n = 3. O n´umero de divisores de n + 2 = 5 ´e 2.

Exemplo 6. Encontre todos os inteiros n que possuem exatamente √n divisores positivos. Para √nser inteiro, n deve ser um quadrado perfeito e assim podemos escrever:

n= p2α1

1 p2α2 2. . . p2α

k

k . A condi¸c˜ao do problema ´e equivalente `a:

pα1

1 pα22. . . p αk

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Analisando o lado direito, podemos concluir que cada pi ´e ´ımpar e consequentemente pαi

i ≥ 3α

i

≥ 2αi+ 1.

Como devemos ter a igualdade, p1 = 3 e 3α1 = 2α1 + 1. Se α1 > 1, vale a desigualdade estrita(veja o problema 13). Logo, a ´unica solu¸c˜ao ´e n = 9.

Exemplo 7. (Sui¸ca 2011) Encontre todos os inteiros positivos n para o qual n3 ´e o produto de todos os divores de n

Claramente n = 1 ´e solu¸c˜ao. Suponha que n > 1 e sejam d1 < d2 < . . . < dk os divisores de n. Pela observa¸c˜ao 2, podemos agrupar os divisores em pares cujo produto ´e n, assim:

n6 = (d1d2. . . dk)(d1d2. . . dk) = (d1dk)(d2dk−1) . . . (dkd1) = nd(n)

Consequentemente, 6 = d(n) e n = p5 ou n = pq2 com p e q primos distintos. Fica a cargo do leitor verificar que essas solu¸c˜oes satisfazem o enunciado.

Exemplo 8. (Irlanda 1995) Para cada inteiro positivo n tal que n = p1p2p3p4, onde p1, p2, p3 e p4 s˜ao primos distintos, sejam:

d1= 1 < d2 < d3 < . . . < d16= n,

os 16 inteiros positivos que dividem n. Prove que se n < 1995, ent˜ao d9− d8 6= 22.

Suponha que n < 1995 e d9− d8 = 22. Note inicialmente que d8 n˜ao pode ser par pois n seria divis´ıvel por 4 contradizendo o fato de que n possui quatro fatores primos distintos. Consequentemente d8, d9 e n s˜ao ´ımpares. Tamb´em temos a fatora¸c˜ao: 35 · 57 = 1995 = 3 · 5 · 7 · 19. Ent˜ao, usando a observa¸c˜ao 2, d8d9 = n. Se d8 ≥ 35 ter´ıamos d9 < d8 para manter n < 1995 e isso seria um absurdo. Logo, d8 <35. Os divisores d1, d2, . . . , d8 s˜ao produtos de primos ´ımpares distintos. Como 3 · 5 · 7 > 35, nenhum dentre d1, d2, . . . , d8 ´e grande o suficiente para possuir trˆes fatores primos distintos. Como n possui somente quatro fatores primos distintos, quatro desses di’s devem ser o produto de dois primos ´ımpares. Os menores n´umeros que s˜ao o produto de dois primos s˜ao:

15, 21, 33, 35, . . . e consequentemente devemos ter d8 ≥ 35, uma contradi¸c˜ao.

Exemplo 9. Prove que n˜ao existe inteiro positivo n tal que σ(n) = nk para algum inteiro positivo k.

Afirmamos que n = 1 ´e a ´unica solu¸c˜ao. Suponha que n > 1 seja solu¸c˜ao e sejam d1 = 1 < d2< . . . < dk= n,

POT 2012 - Teoria dos N´umeros - N´ıvel 2 - Aula 10 - Samuel Feitosa os divisores de n. Ent˜ao σ(n) = d1+ d2+ . . . + dk <1 + 2 + . . . + n = n(n + 1) 2 < n 2. Al´em disso, n < n+ 1 ≤ d1+ d2+ . . . + dk= σ(n). Da´ı, n < nk< n2, e obtemos um absurdo.

Exemplo 10. (Olimp´ıada de Leningrado 1989) Duas pessoas jogam um jogo. O n´umero 2 est´a inicialmente escrito no quadro. Cada jogador, na sua vez, muda o n´umero atual N no quadro negro pelo n´umero N + d, onde d ´e um divisor de N com d < N . O jogador que escrever um n´umero maior que 19891988 perde o jogo. Qual deles ir´a vencer se ambos os jogadores s˜ao perfeitos.

Nesse problema, basta determinarmos apenas aquele que possui a estrat´egia vencedora. Note que o in´ıcio do jogo ´e estritamente determinado: 2 → 3 → 4. Suponha que o segundo jogador vence o jogo. Ap´os o movimento 4 → 5 do primeiro jogador, o segundo s´o pode jogar 5 → 6. Isto significa que 6 ´e uma posi¸c˜ao vencedora. Entretanto, o primeiro jogador pode obter a posi¸c˜ao 6 jogando 4 → 6, uma contradi¸c˜ao. Logo, o primeiro jogador possui a estrat´egia vencendora.

Exemplo 11. (Olimp´ıada de Leningrado) Duas pilhas de palitos sobre uma mesa cont´em 100 e 252 palitos, respectivamente. Dois jogadores jogam o seguinte jogo: Cada jogador em sua vez pode remover alguns palitos de uma das pilhas de modo que o n´umero de palitos retirados seja um divisor do n´umero de palitos da outra pilha. O jogador que fizer o ´ultimo movimento vence. Qual dos dois jogadores ir´a vencer se ambos s˜ao perfeitos?

O primeiro jogador perde. Em cada momento do jogo, podemos registrar o expoente da maior potˆencia de 2 que divide os n´umeros de palitos em cada pilha. Por exemplo, no in´ıcio os n´umeros s˜ao (2, 2). A estrat´egia do segundo jogador ´e manter esse n´umeros sempre iguais. Suponha que, em um dado momento, as pilhas possuem 2m · a e 2m · b palitos com a e b ´ımpares. O par registrado ser´a (m, m). Vejamos o que acontece quando retiramos um divisor d da segunda pilha do n´umero de palitos da primeira. Se 2m ´e a maior potˆencia de 2 que divide d, ent˜ao 2m+1 dividir´a o n´umero de palitos da primeira pilha e consequentemente o par registrado ter´a n´umeros diferentes. Se 2k, com k < m, ´e a maior potˆencia de 2 que divide d, ent˜ao 2k ser´a a maior potˆencia de 2 que divide o n´umero de palitos da primeira pilha e novamente o par registrado ter´a n´umeros diferentes. Assim, sempre que um jogador receber um par registrado com n´umeros iguais, ele ir´a passar um par registrado com n´umeros diferentes para o outro jogador. Suponha agora que, na sua vez, as pilhas possuem 2m · a e 2n · b palitos, com m < n e a ≡ b ≡ 1 (mod 2). Basta o jogador retirar 2m palitos da segunda pilha para passar um par registrado com n´umeros iguais a (m, m). Como inicialmente as pilhas possuem n´umeros registrados iguais, o segundo jogador pode sempre manter essa propriedade e consequentemente o ´unico que pode passar uma pilha com zero palitos pela primeira vez ´e o primeiro jogador.

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Problemas Propostos

Problema 12. Mostre que se k ´e um inteiro positivo ent˜ao 3k≥ 2k +1 e vale a desigualdade estrita quando k > 1.

Problema 13. (R´ussia 2001) Encontre todos os n tais que quaisquer divisores primos dis- tintos a e b de n o n´umero a + b − 1 tamb´em ´e um divisor de n

Problema 14. O n´umero 332− 1 tem exatamente dois divisores que s˜ao maiores que 75 e menores que 85. Qual o produto desses dois divisores?

Problema 15. (Ir˜a 2012) Sejam a e b inteiros positivos de modo que o n´umero de divisores positivos de a,b, ab ´e 3,4 e 8, respectivamente. Encontre o n´umero de divisores positivos de b2.

Problema 16. (Olimp´ıada de S˜ao Petesburgo) Enconte todos os inteiros positivos n tais que 3n−1+ 5n−1 divide 3n+ 5n.

Problema 17. Sejam 1 = d1 < d2 < .... < dk = n o conjunto de todos os divisores de um inteiro positivo n. Determine todos os n tais que:

d26+ d27− 1 = n.

Problema 18. Um divisor d > 0 de um inteiro positivo n ´e dito ser um divisor unit´ario se mdc(d,n

d) = 1. Suponha que n ´e um inteiro positivo tal que a soma de seus divisores unit´arios ´e 2n. Prove que n n˜ao pode ser ´ımpar.

Referˆencias

[1] F. E. Brochero Martinez, C. G. Moreira, N. C. Saldanha, E. Tengan - Teoria dos N´umeros ? um passeio com primos e outros n´umeros familiares pelo mundo inteiro, Projeto Euclides, IMPA, 2010.

[2] E. Carneiro, O. Campos and F. Paiva, Olimp´ıadas Cearenses de Matem´atica 1981-2005 (N´ıveis J´unior e Senior), Ed. Realce, 2005.

[3] S. B. Feitosa, B. Holanda, Y. Lima and C. T. Magalh˜aes, Treinamento Cone Sul 2008. Fortaleza, Ed. Realce, 2010.

[4] D. Fomin, A. Kirichenko, Leningrad Mathematical Olympiads 1987-1991, MathPro Press, Westford, MA, 1994.

[5] D. Fomin, S. Genkin and I. Itenberg, Mathematical Circles, Mathematical Words, Vol. 7, American Mathematical Society, Boston, MA, 1966.

[6] I. Niven, H. S. Zuckerman, and H. L. Montgomery, An Introduction to the Theory of Numbers.

Polos Olímpicos de Treinamento

Curso de Teoria dos Números - Nível 2

Prof. Samuel Feitosa

Aula

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No documento Curso de Matematica Olimpica POTI (páginas 62-73)