CAPÍTULO III A EXPERIÊNCIA DO TRABALHO DOS CATADORES DENTRO DA
3.2 O “território usado”: conceito e significado
Muito provavelmente o território, entendido como o espaço carregado de atividades humanas, de história e imaginários, significa um ponto de encontro para distintos interesses. Desde as políticas territoriais e econômicas ligadas à geografia física e econômica predominantemente desenvolvida na primeira metade do XIX, até as investigações antropológicas colonialistas dirigidas por interesses das grandes potências mundiais durante o século XIX e princípios do XX, essas ações tinham um interesse político, econômico e cultural (RIOS, 2006).
O conceito de território transcende ao entendimento do limite político administrativo, alcançando a idéia de espaço efetivamente usado pela sociedade. É neste espaço que as relações sociais acontecem, dando ao território uma categoria de análise de uso, ou seja, território usado. É na diversidade dos conceitos atribuídos ao espaço que sua semântica assume distintas significações, como o espaço do autóctone, o espaço do migrante, o espaço do urbanista, o espaço das empresas, o espaço da política, emprestando diferentes acepções ao uso da palavra espaço, ora apresentado como algo vazio a ser completado, ora como produto, ora como meio, mas o que realmente interessa é o “espaço do homem” (SANTOS, 1986), espaço humano, “[...] que contém e é contido por todos esses múltiplos de espaço” (SANTOS, 1978, p.120).
Para Santos (1998) e também para Bortolozzi (2008), a análise dos conflitos pela perspectiva do território fornece entendimento indispensável à apreensão da sua dinâmica, sobretudo por seu conteúdo político, acrescentando que o conceito de território só poderá tornar-se uma categoria de análise social, quando entendido como “território de usos”. É a partir então do uso do território que ocorre a possibilidade de articular-se a materialidade, que inclui a natureza e o seu uso, com a ação política,
segundo Santos & Silveira (2001). Isto porque o território usado não é estático e sim dinâmico, transformador, e mostra as contradições da sociedade ao revelar os processos históricos cristalizados nos seus objetos.
Milton Santos (1994), ao fazer a crítica do “território usado”, apresenta características como densidade e rarefação. A densidade está relacionada com a ocupação do território pela população e seu entendimento desdobra-se entre as densidades técnicas e informacionais, reguladoras da vida coletiva. As densidades técnicas e informacionais definem novas realidades espaciais que aprofundam a distância entre ricos e pobres. Inversamente a este conceito, a rarefação liga-se ao homem pobre e “lento”.
Milton Santos e Maria Laura Silveira acrescentam à crítica do “território usado” as idéias de fluidez e viscosidade como “sistemas de engenharia que produzem os movimentos, interessando diretamente à divisão territorial do trabalho” (SANTOS & SILVEIRA, 2005). Esses sistemas de engenharia (infra-estruturas, sistemas viários) contribuem para a fluidez, servem para dotar o território de circulação e, por serem seletivos, resultam em segregação. É o clássico caso do Sul desenvolvido do país e do Nordeste atrasado.
O território apresenta rapidez e lentidão refletindo o mandar e o fazer: o primeiro comanda e o segundo obedece. A rapidez está nos transportes, que intensificam as relações sociais e econômicas, distinguindo a divisão territorial do trabalho. Rapidez e fluidez são condições comuns nas grandes metrópoles, que conflitam com a viscosidade e lentidão, aprofundando a desigualdade e a segregação sócio-espacial e gerando pressões e conflitos.
Finalmente, território, para Milton Santos, é:
O território é a arena da oposição entre o mercado – que singulariza – com as técnicas da produção, a organização da produção, a geografia da produção e a sociedade civil – que generaliza – e desse modo envolve, sem distinção, todas as pessoas. Com a presente democracia de mercado, o território é suporte de redes que transportam as verticalidades, isto é, regras e normas egoísticas e utilitárias (do ponto de vista dos atores hegemônicos), enquanto as horizontalidades levam em conta a totalidade do atores e das ações (SANTOS, 1996).
Entende-se que é no território que se manifestam as dimensões das experiências humanas envolvidas no propósito teórico-político de apreensão da totalidade concreta. O uso do território só pode acontecer quando existe o sentimento de posse ou o de pertencer, entendido também como territorialidade. Esse sentimento de pertencer, não exclusivamente do homem, é a preocupação com o destino e o futuro, atribuindo um caráter político de existência ao território. O uso do território configura-se na conjunção da materialidade, dos recursos naturais, do trabalho e da política.
Milton Santos afirma que as funções do espaço geográfico no uso do território é a interpretação de que o espaço é um campo de forças que vai desde os sistemas de objetos e sistemas de engenharia aos movimentos da população e extensão da cidadania. O autor, em “A Natureza do Espaço” (2000), mostra que o mundo é apenas um conjunto de possibilidades, cuja efetivação depende das oportunidades oferecidas pelos lugares.
O município de Bragança Paulista não foge a esta interpretação: ao mesmo tempo em que recebe o mais ilustre morador, é também o espaço que abriga os mais pobres. Os ilustres moradores normalmente utilizam a cidade como dormitório. Bragança Paulista é “viscosa e lenta” demais para atender aos seus interesses. Já aos pobres resta a tentativa de um trabalho, seja como empregado doméstico, funcionário público, caseiro e, aos que migram, o lixo.
O lixo é fonte de vida para aqueles que foram excluídos. Nele reside a possibilidade de gerar renda e de ter acesso aos bens de consumo, pois para uns significa a falta de oportunidade, para outros, apenas um conjunto de possibilidades.
Com relação à formação do espaço, é preciso entender também o papel da produção, ou seja, do trabalho do homem como gerador de impulsos de transformação e de confronto (SANTOS, 2005, p.22).
Entre as possíveis interpretações do espaço verifica-se a de Milton Santos (2005, p.22), para quem “o espaço, ele mesmo, é social”. O papel do espaço em relação à sociedade deve ser considerado neste estudo como “um teatro das relações humanas” (LEFEBVRE, 1991), permitindo interpretar o espaço como um fato histórico e que somente a história da sociedade mundial, aliada à sociedade local, pode servir como
fundamento da compreensão da realidade espacial, que induz ao entendimento de que a história não é escrita fora do espaço e não há sociedade a-espacial.