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“O testemunho do tempo, e a prova da experiência”

“O testemunho do tempo, e a prova da experiência”

A legislação relativa aos índios que viria a ser promulgada a partir de 1755 – inicialmente, para o norte da América Portuguesa – seguia em sentido completamente contrário aos argumentos defendidos pelos missionários e presentes no regimento proposto pelo provincial Manoel de Siqueira, visto no capítulo anterior. A lei de 6 de junho de 1755 conferiu liberdade aos índios do Maranhão, determinando que fosse estabelecido, em suas povoações, um “modo de governo político e civil”, ou seja, que as aldeias fossem transformadas em vilas e lugares. O alvará com força de lei de 7 de junho derrogou o capítulo primeiro do Regimento das Missões do Maranhão, de 1686, pondo fim ao governo “espiritual e temporal” dos missionários sobre os índios. Finalmente, ao estender a validade dessas leis ao restante da América portuguesa, o alvará de 8 de maio de 1758 pôs fim ao “sistema dos jesuítas”, determinando que fosse implantado um novo modelo de conversão e cristianização dos povos indígenas.

A promulgação do alvará de 8 de maio de 1758

Como vimos na introdução, a promulgação das leis de 1755 visava estabelecer uma nova política de colonização para a região norte da América Portuguesa, fundada na inserção dos índios como trabalhadores livres na economia regional. Essa política esteve a cargo do governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão e colaborador do secretário de estado e principal ministro de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro conde de Oeiras e marquês de Pombal1. A ação de Mendonça Furtado conduziu a um enfrentamento

1

Sobre o marquês de Pombal e a chamada época pombalina há uma extensa bibliografia. Seguimos, principalmente, os seguintes autores: AZEVEDO, João Lúcio de. O Marquês de Pombal e a sua época. São Paulo: Alameda, 2004. FALCON, Francisco Calazans. A época pombalina. 2. ed. São Paulo: Ática, 1993. MAXWELL, Keneth. Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996. MONTEIRO, Nuno Gonçalo. D. José: na sombra de Pombal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006. Sobre a colonização no Estado do Maranhão e a relação entre a questão indígena e a recuperação econômica da região, cf. DOMINGUES,

direto com as ordens religiosas que atuavam na região, constituindo um capítulo fundamental das relações entre Estado e Igreja em Portugal na segunda metade do século XVIII. A supressão da administração das aldeias pelos religiosos contribuiu para amadurecer a posição regalista que seria uma das principais características do governo de D. José I após a expulsão dos jesuítas e o rompimento das relações diplomáticas com a Santa Sé. O confronto com a Companhia de Jesus, iniciado no Grão-Pará, ocuparia o centro das preocupações do governo durante cerca de duas décadas.

A intensa campanha publicitária movida contra a Companhia de Jesus, que seria uma das marcas características do período pombalino, foi iniciada em 1757 com a publicação da Relação Abreviada da República2. Este pequeno panfleto narrava os episódios referentes à execução do Tratado de Limites de 1750 entre as Coroas de Portugal e Espanha e a ferrenha resistência por parte dos índios guaranis aldeados pelos jesuítas nas possessões espanholas do sul do continente, nas chamadas “reduções”, que equivaliam às aldeias ou aldeamentos do lado português. No norte, as dificuldades enfrentadas por Mendonça Furtado para proceder às demarcações – incluindo o fato de a comissão espanhola não ter comparecido ao local – foram atribuídas inteiramente à influência dos jesuítas, cujos “vastíssimos, e perniciosíssimos projetos”, visavam o completo domínio das possessões ibéricas na América3.

A Relação Abreviada é uma peça fundamental da campanha antijesuíta levada a efeito no período pombalino4. Estima-se que cerca de 20 mil exemplares circularam na Europa em diferentes idiomas, incluindo francês, alemão, italiano e, mais tarde, latim5. Junto

Ângela. Quando os índios eram vassalos. Colonização e relações de poder no Norte do Brasil na segunda metade

do século XVIII. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2000. Ver

também a correspondência do Marquês de Pombal com o seu meio-irmão e governador do Estado do Grão Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, publicada em: MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A

Amazônia na Era Pombalina. 2 ed. Brasília: Senado Federal, 2005. 3 v.

2 A Relação Abreviada foi impressa, provavelmente, em Lisboa, no ano de 1757. Ela integra a Collecção dos Breves Pontifícios, e Leys Régias, editada em 1759. Cf. COLLECÇAÕ DOS BREVES PONTIFICIOS, E LEYS REGIAS,

que foraõ expedidos, e publicadas desde o anno 1741, sobre a liberdade das pessoas, bens, e commercio dos indios do Brasil. [Lisboa]: Impressa na Secretaria de Estado, [1759].

3

RELAÇÃO ABREVIADA da República que os Religiosos Jesuítas das Províncias de Portugal e Espanha estabeleceram nos Domínios Ultramarinos das duas Monarquias e da guerra, que nelas tem movido e sustentado contra os exércitos espanhóis e portugueses, formada pelos registros das secretarias dos dois respectivos principais comissários e plenipotenciários e por outros documentos autênticos, f. 1.

4

Cf. FRANCO, José Eduardo. O mito dos jesuítas: Em Portugal, no Brasil e no Oriente (Séculos XVI a XX). Volume

I: Das origens ao Marquês de Pombal. Lisboa: Gradiva, 2006, pp. 317-627. 5

com outros importantes documentos da época, a Relação Abreviada contribuiu para compor “uma historiografia oficial que os jesuítas se empenharam e continuam se empenhando em refutar”6. Ela acusa os jesuítas de acumularem um imenso poder longe dos olhos das monarquias ibéricas e tentarem encobri-lo ao saber das demarcações que seriam feitas após a assinatura do tratado de 1750, apoiando a guerra movida pelos índios. De acordo com o documento, os índios ignoravam que houvesse no mundo poder superior ao dos padres, que se constituíam como “soberanos despóticos dos seus corpos, e almas”. Os jesuítas teriam incentivado o ódio aos europeus proibindo o uso do idioma espanhol nas reduções e impedindo a entrada dos colonos. Tais fatos são corroborados por documentos da época, transcritos no final da narrativa, dando à Relação Abreviada um tom de historicidade e verossimilhança, segundo os padrões da historiografia acadêmica do século XVIII7.

Junto com a Relação Abreviada, circulou também um pequeno impresso intitulado Pontos principaes, a que se reduzem os abusos, com que os Religiosos da Companhia de Jesus tem usurpado os Domínios da América Portugueza e Hespanhola8. Nesse panfleto, as acusações feitas aos jesuítas em relação aos episódios narrados no documento anterior aparecem resumidas em cinco pontos: usurpação da liberdade dos índios; usurpação da propriedade dos seus bens; usurpação da perpétua cura das suas paróquias; usurpação do governo temporal de suas aldeias; usurpação do seu comércio terrestre, e marítimo9. Os pontos indicados no documento estão em perfeita sintonia com as leis de 1755 e com as ideias presentes na correspondência enviada por Mendonça Furtado ao reino, sobretudo, nas cartas trocadas com seu irmão10. A argumentação presente neste panfleto fundamentava-se, principalmente, nos juristas Samuel Puffendorf e Juan de Solórzano

6 MAXWELL, Marquês de Pombal, op. cit., p. 20.

7 Sobre a historiografia acadêmica do século XVIII, cf. KANTOR, Iris. Esquecidos e renascidos: Historiografia Acadêmica Luso-Americana (1724-1759). São Paulo: HUCITEC; Salvador: Centro de Estudos Baianos, 2004. 8 Sem menção ao autor, editor ou data de publicação. Muito provavelmente, foi impressa, também, em 1757.

Aparece logo após a Relação Abreviada na Collecção dos Breves Pontificios, e Leys Regias, de 1759.

9

Cf. PONTOS PRINCIPAES, a que se reduzem os abusos, com que os Religiosos da Companhia de Jesus tem usurpado os Domínios da América Portugueza e Hespanhola. O tema das “usurpações” dizia respeito às relações entre a Igreja e o Estado no contexto de um debate que se prolongava desde o século XII, culminando com a afirmação do absolutismo real, no XVIII. Cf. ZERON, “Três documentos relacionados à extinção da Companhia de Jesus”. In: KARNAL, Leandro & FREITAS NETO, José Alves (org). A escrita da Memória:

Interpretações e análises documentais. São Paulo: Instituto Cultural Banco Santos, 2004, pp. 228-233. 10

Pereira, além de bulas papais e decretos régios11.

A questão da administração temporal dos religiosos nas aldeias aparece, com destaque, no quarto ponto: “usurpação do governo temporal dos mesmos índios”. Diversas proibições emanadas dos pontífices romanos contra o exercício de funções temporais pelos religiosos são citadas a propósito dos argumentos apresentados, concluindo-se que as aldeias não poderiam ser governadas pelos missionários, pois aos mesmos só seria lícito o exercício de funções espirituais, não temporais. A administração das aldeias deveria ficar a cargo dos próprios índios, pois “o governo dos seus principais, e caciques, é o mais conveniente, mais acomodado ao seu gênio, e mais conforme a razão, aos costumes, e às leis, e ordens régias”12.

Ao mesmo tempo em que promovia a divulgação desses panfletos na Europa e entre as autoridades coloniais, o governo português buscava conquistar o apoio da própria igreja contra a Companhia de Jesus. Seu propósito era conseguir que o próprio pontífice condenasse os jesuítas, pois essa condenação não cabia na jurisdição régia. O monarca português tinha a seu favor o fato de que a Companhia de Jesus estava vivendo uma situação difícil na Europa, sobretudo em função da condenação dos seus métodos missionários no oriente, no desfecho da questão dos ritos malabares e chineses13. Na França, eram acusados de participar do complô para tirar a vida do rei. Em Portugal, desde o reinado de D. João V, os jesuítas vinham perdendo espaço nos campos em que mais se destacavam, a saber, política e educação. Aos poucos, os padres oratorianos, seus principais rivais em termos intelectuais, ganhavam maior projeção. Os jesuítas também estavam sendo pressionados no tocante ao imenso patrimônio que haviam reunido em Portugal e nos domínios ultramarinos por meio de doações, compras e investimentos, ao longo de praticamente dois séculos. Sua situação, portanto, não era das melhores.

No Grão Pará, Mendonça Furtado procurava agir em sintonia com o bispo, D. Frei Miguel de Bulhões, seu mais importante aliado político, “para, assim juntos, obrarmos de

11

PONTOS PRINCIPAES, op. cit. Sobre essa questão, cf. FLEXOR, Maria Helena M. Ochi. “O Diretório dos Índios do Grão-Pará e Maranhão e o direito indiano”. Politeia, v. 2, n. 1, 2002, pp. 167-183.

12 PONTOS PRINCIPAES, op. cit., pp. 4-5. Veja que é exatamente o mesmo argumento presente na lei de 6 de

junho de 1755 (cf. anexo 2).

13

Por meio da bula Ex quo singulari providentiae, o papa Benedito XIV, em 1742, ratificou as condenações aos ritos chineses. Dois anos depois promulgou a bula Omnium sollicitudinum, colocando um ponto final na querela dos ritos malabares.

mão comum e conferirmos as dúvidas que ocorrerem” – como ele próprio informava ao secretário de Estado, Thomé Joaquim da Costa Corte Real, em 12 de abril de 175714. Com o apoio do bispo, o governador resolveu divulgar, após a publicação da lei de 6 de junho de 1755, o breve Immensa Pastorum, promulgado pelo próprio Benedito XIV e assinado pelo cardeal Passionei, em 20 de dezembro de 174115. Ele foi traduzido para o português e inserido em uma carta pastoral redigida e assinada por Miguel de Bulhões, com data de 29 de maio de 1757. Por meio deste breve, o pontífice renovava disposições anteriores, nomeadamente de Paulo III, em 1537, e Urbano VIII, em 1640, que afirmavam a humanidade dos povos indígenas da América e proclamavam-se a favor de sua liberdade16. Benedito XIV dirigia-se aos próprios religiosos, “ainda da Companhia de Jesus”, proibindo-os de escravizar ou apoiar quem escravizasse os índios, “debaixo de qualquer pretexto que seja”17. Os jesuítas, tradicionalmente vistos como defensores da liberdade indígena18, são citados como se defendessem a posição contrária, fato que, por si só, revela uma reviravolta importante na política europeia, antes do governo de D. José I e da ascensão política de Sebastião José de Carvalho, visto como principal adversário da Companhia de Jesus no século XVIII19.

14

MENDONÇA, A Amazônia na Era pombalina, op. cit., vol. III, p. 225. Sobre Fr. Miguel de Bulhões, cf. RODRIGUES, Luiz Fernando Medeiros. “Densas nuvens de tempestade sobre a Amazônia: Tensões entre jesuítas e episcopado na segunda metade do séc. XVIII”. In: Anais do 3º Encontro Internacional de História Colonial:

cultura, poderes e sociabilidades no mundo atlântico (séc. XV-XVIII). Recife: UFPE, 2011, pp. 900-902. 15

Mendonça Furtado refere-se a essa resolução em sua correspondência ao irmão, em 12 de novembro de 1755, ao receber cópia das leis de 1755, quando ainda estava no arraial de Mariuá aguardando a comissão espanhola para demarcação dos limites: “Parece-me que também se deve considerar se seria conveniente condenar-se [sic] ao Prelado Diocesano, que depois de publicada a Lei das Liberdades, publicasse também um Breve que tem do Papa reinante, o qual defende [isto é, proíbe] as escravidões dos índios ocidentais com pena de excomunhão, e, ajudando-se as duas espadas, fica inteiramente o negócio seguro” (MENDONÇA, A

Amazônia na Era pombalina, op. cit., vol. II, pp. 508-509, destaque nosso).

16 APEB. Colonial e Provincial, maço 608. Dossiês sobre irmandades, conventos, igrejas e pessoal eclesiástico.

Bulas e Constituições do Papa Bento XIV, 1756-1757.

17

Ibidem. Para João Lúcio de Azevedo, “Em Roma, ao lado do pontifice Benedicto XIV, tinham elles [os jesuítas] no cardeal Passionnei um inimigo encarniçado. A bulla de 25 de fevereiro de 1741, contra os clerigos negociantes, o breve de 20 de dezembro do mesmo anno, dirigido aos bispos do Brazil, sobre a escravidão dos indios, tinham expressamente por alvo a Companhia” (Os Jesuitas no Grão-Pará: suas missões e a colonização. Lisboa: Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1901, p. 212).

18

As bulas de Paulo III e Urbano VIII haviam sido citadas pelos próprios missionários, diversas vezes, contra os colonos, principais interessados na escravidão indígena. Os jesuítas chegaram a ser expulsos de São Paulo após publicarem a bula de Urbano VIII e defenderem a liberdade dos índios. Cf. MONTEIRO, John. Negros da terra:

índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994, p. 130. 19

Com isso não se quer negar que tenha havido uma ruptura política importante na história portuguesa em 1750. A própria publicação do breve em 1757, revela que o novo governo assumia uma postura diferente dos anteriores em relação a essa questão. A carta pastoral de Miguel de Bulhões, contendo o Breve de 1741 traduzido para o português, é o documento que abre a Colecção dos Breves pontifícios, e Leys régias.

No início de 1758, o papa finalmente cedeu à pressão do governo lusitano, exercida por meio do ministro português na cúria, Francisco de Almada de Mendonça, dando crédito aos fatos narrados na Relação Abreviada e nas acusações apresentadas contra os jesuítas. No dia 7 de abril de 1758 ele promulgou um breve de intervenção ou reforma da Companhia de Jesus no reino e domínios ultramarinos, nomeando o cardeal Francisco Saldanha como visitador apostólico e reformador dos jesuítas20.

Pouco mais de um mês após sua nomeação, no dia 15 de maio, o cardeal Saldanha fez publicar um mandamento declarando que as atividades de compra e venda desenvolvidas pelos jesuítas em suas missões a partir do produto do trabalho dos índios constituíam-se em “negociações ilícitas” e “maquinações escandalosas”, expressamente proibidas por decretos canônicos e leis régias, conforme o ensinamento das Escrituras, o entendimento dos tratadistas e as proibições emanadas da Igreja21. O mandamento do reformador apostólico da Companhia de Jesus condenava, no âmbito da disciplina interna da Igreja, aquilo que vinha sendo combatido pelo monarca, em termos políticos e econômicos22.

Nota-se, desse modo, que o alvará de 8 de maio de 1758 foi promulgado em um contexto mais amplo de afirmação do poder régio sobre a Igreja, de amadurecimento dos princípios regalistas que iriam nortear a política lusitana nas décadas seguintes, inclusive no reinado de D. Maria I, e, não menos importante, em meio ao embate entre o governo português e a Companhia de Jesus, que culminaria com a expulsão dos jesuítas do reino e domínios ultramarinos, decretada em 1759. Assim, a par de uma nova política colonial e econômica para a América Portuguesa, iniciada no Grão Pará, o alvará em questão traduzia para o Brasil algo que já havia avançado muito além das fronteiras amazônicas. Ele não pode ser visto, apenas, como extensão das leis de 1755 a respeito da liberdade indígena, mas como uma medida política fundamental do governo lusitano contra as pretensões da Igreja, notadamente, da Companhia de Jesus, em influenciar a política colonial por meio da catequese23.

20

Breve de 7 de abil de 1758. In: Collecção dos Breves Pontificios, e Leys Regias, op. cit., doc. n. 7.

21

Mandamento do mesmo Eminentissimo e Reverendissimo Cardeal visitador, e Reformador Geral expedido em 15 de Mayo do mesmo ano de 1758. In: Collecção dos Breves Pontificios, e Leys Regias, op. cit., doc. n. 8.

22

Saldanha também determinou que a reforma da Companhia de Jesus se estendesse para o ultramar, nomeando o arcebispo da Bahia e demais bispos ultramarinos como seus subdelegados. A nomeação foi envaida junto com o mandamento de 15 de maio de 1758. Cf. discussão no capítulo 3.

23

A instalação do Conselho Ultramarino na Bahia e a reação dos jesuítas

Entre os dias 8 e 19 de maio de 1758 foram elaborados em Portugal diversos documentos que visavam a implementação do alvará de 8 de maio no Estado do Brasil, com destaque para a capitania da Bahia, onde seriam instalados dois tribunais: um do Conselho Ultramarino e um da Mesa da Consciência e Ordens24. Ambos seriam compostos pelos mesmos ministros, enviados do reino, a saber, os doutores José Mascarenhas Pacheco Coelho de Mello, Manoel Estevão de Almeida de Vasconcellos Barberino e Antonio de Azevedo Coutinho25. Apenas o último era conselheiro ultramarino, os demais foram nomeados sumária e interinamente para o exercício das suas comissões26. Antes do embarque, receberam também o Hábito de Cristo27. Caberia ao Vice-rei, D. Marcos de Noronha, 6º Conde dos Arcos, a presidência do primeiro Tribunal, e ao arcebispo, D. José Botelho de Matos, a presidência do segundo. Eles foram informados de suas obrigações e da constituição dos dois tribunais por cartas do dia 19 de maio28, nas quais estavam definidas as matérias que seriam tratadas, os procedimentos e as prerrogativas de cada tribunal29.

24 Desnecessário lembrar que a Mesa da Consciência e Ordens, estabelecida em 1532, e o Conselho

Ultramarino, criado em 1642, eram os principais órgãos da administração metropolitana sobre as colônias. Para uma síntese sobre o funcionamento desses órgãos, cf. SALGADO, Graça (coord.). Fiscais e Meirinhos: A

administração no Brasil Colonial. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. Sobre a instalação dos dois

tribunais, na Bahia, cf. SANTOS, Fabricio Lyrio. “Te Deum laudamus”: A expulsão dos jesuítas da Bahia (1758-

1763). Dissertação (Mestrado em História). Salvador: UFBA, 2002. 25 Cf. AHU/BA, Castro e Almeida, cx. 20, doc. 3638-3643.

26

José Mascarenhas era desembargador da Casa da Suplicação e atuou na devassa da rebelião ocorrida na cidade do Porto, em 1757, contra a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (MONTEIRO, D.

José, op. cit., p. 98). Gozava, portanto, da confiança da corte, quando foi nomeado pelo rei para um lugar

ordinário no Conselho Ultramarino, por decreto do dia 18 de maio de 1758, “atendendo ao serviço, que me vay fazer ao Estado do Brazil na expedição das Commissoens, de que o tenho encarregado” (AHU/Conselho, cx. 5, doc. 526). Manoel Estevão, que também era desembargador, foi nomeado nos mesmos termos, tendo efetivado sua posse em 26 de outubro de 1767, após regressar ao reino (AHU/BA, Avulsos, cx. 136, doc. 10536).

27

AHU/BA, Castro e Almeida, cx. 20, doc. 3646-3648. Consta a observação de que os mesmos deveriam ser duplicados para José Mascarenhas.

28

Por carta de 22 de maio, o vice-rei foi também informado que, no caso de falta ou impedimento de qualquer dos conselheiros, as diligências deveriam prosseguir com os restantes, “com a mesma plenária, e ilimitada jurisdição”. Cf. AHU/BA, Castro e Almeida, cx. 19, doc. 3574. O original está presente em BNRJ MS 512 (25), D. 251 (cota antiga: II – 33, 20, 41). Publicada integralmente por COUTO, Jorge. O Colégio dos Jesuítas do Recife e o

destino do seu patrimônio (1759-1777). Dissertação de Mestrado. Lisboa: Universidade de Lisboa, 1990, vol. II,

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