CAPÍTULO I – O TEXTO E SEU CONTEXTO: FUNDAMENTOS TEÓRICOS
1.5. Tipologia textual e/ou de Gêneros do Discurso e Ensino
1.5.1. O texto Dissertativo e suas sequências argumentativas
Silveira (2006), fundamentando-se em estudos que tematizam o ponto de vista sócio-cognitivo-interativo, postula que os textos dissertativos se qualificam pelo caráter opinativo, devendo-se considerar o fato segundo o qual as opiniões são variáveis por dependerem das condições de produção discursivas. Para esta autora, os conhecimentos referentes aos tipos de textos, gêneros ou classes são armazenados em arquivos da memória social de longo prazo, de sorte a facultar a organização de conhecimentos de mundo e facilitar a interação comunicativa entre os humanos. Logo, os esquemas textuais, assim como os conhecimentos léxico- gramaticais, os variados tipos de registros, estilos e modelos de atos de fala, são esquemas fundadores do designado marco das cognições sociais.
O estudo do texto dissertativo, por esses marcos, leva Silveira (2006) a diferenciar dois tipos de esquemas para explicitar a organização desse tipo de esquema textual: o dissertativo expositivo e o dissertativo argumentativo propriamente dito.
1.5.1.1. O texto dissertativo expositivo
Designado por dissertativo de uma tese, esse tipo se organiza, na sua dimensão linguística, segundo Silveira (1993), por dois tipos de seguimentos textuais: um reduzido (apresentação) e outro expandido (justificativa e exposição). Essa organização tem por suporte um modelo cognitivo de estruturação que, segundo a autora, assim se explica: o seguimento reduzido é estruturado pela categoria da apresentação cuja função é orientar o leitor quanto à referência tematizada, ou seja, o assunto que será colocado em foco. A categoria justificativa- exposição responde pela estruturação do segmento textual expandido conjunto de informações referentes, cuja função é explicitar para o leitor ao assunto a ser tratado. E, por fim, a categoria “finalização” cuja função é a avaliar a referência tematizada, segundo o ponto de vista do autor-expositor.
1.5.1.2. O texto dissertativo argumentativo
Designado por dissertativo argumentativo de duas fases, esse tipo é aquele por meio do qual se defende uma ideia, opinião ou ponto de vista5, uma tese.
Segundo Silveira (1994):
Argumentar, em sentido restrito, implica levar o outro a dar a sua adesão ao julgamento do autor e quando já se tem uma posição tomada, abandonar o que sabia e acatar o “saber novo” transmitido; para tanto, há a explicitação da justificativa por argumentos que visam estabelecer a relação (que percorre da necessidade, passando pela probabilidade, até a possibilidade) entre a premissa-hipótese e a conclusão do autor (p.56,57).
Assim, a produção de argumentos, tem como finalidade persuadir6 o leitor
sobre o ponto de vista do autor a respeito do assunto em foco. Organiza-se, na sua dimensão linguística, segundo Silveira (2006), por um referente de duas teses, ou seja, tese 1, justificativa, argumentos, contra-argumentos, opinião do autor a respeito da tese 1; tese 2, argumentos, causalidade das duas teses, premissa (informações referentes à tese anterior), hipótese da tese 2, conclusão da tese 2. A conclusão geralmente retoma a tese sintetizando as idéias gerais do texto ou propondo soluções para o problema discutido. Deve ser coerente com o desenvolvimento e com os argumentos apresentados.
Sua estrutura convencional é formada por três partes essenciais: a) a introdução - apresenta o assunto e o posicionamento do autor que, ao se posicionar, formula uma tese ou a idéia principal do texto; b) o desenvolvimento é formado por parágrafos que fundamentam tese – em cada parágrafo é apresentado e desenvolvido um argumento, como: relações de causa/efeito, comparações entre situações (confrontando idéias, fatos, fenômenos apresentando as semelhanças ou dessemelhanças), enumerações, depoimentos ou citações de pessoas
5 Ponto de vista varia dependendo do propósito, intenção, interesse e objetivo comum de pessoas
pertencentes a um determinado grupo social.
6 Persuadir tem caráter ideológico, subjetivo e visa atingir não só a razão, mas os sentimentos dos
interlocutores, através de argumentos que os induzem a inferências e formação de juízo sobre o assunto em foco e levá-los a abandonar um conhecimento anterior e aderir a um novo conhecimento.
especializadas no assunto, dados estatísticos, pesquisas, alusões históricas etc.; c) a conclusão. Observa que, embora existam diferentes formas de organização de parágrafos, os textos dissertativo-argumentativos e alguns gêneros jornalísticos apresentam uma estrutura padrão. Essa estrutura consiste em três partes: a idéia- núcleo, as idéias secundárias (que desenvolvem a idéia-núcleo), a conclusão. Em parágrafos curtos, é raro haver conclusão.
Os argumentos são de fundamental importância no texto argumentativo para convencer, persuadir o leitor – através da apresentação de razões, explicações, motivos – da veracidade do assunto apresentado procurando, por todos os meios, fazê-lo seguir uma linha de raciocínio e a concordar com ela. Podem-se usar
argumentos favoráveis ou desfavoráveis à idéia central, dependendo do objetivo que se quer atingir com o texto (cf. Silveira, 1994, p.124).
Vários autores vêm tratando os argumentos como as relações estabelecidas pelo locutor, entre a premissa e a conclusão. Esses autores apresentam-nas como modalidades percorrendo a necessidade, a probabilidade, a possibilidade, legitimidade e de reforço.
a) Argumento da necessidade – tem o caráter normativo da proposição e é
construído a partir dos conhecimentos sociais que compõe o marco das cognições sociais de uns grupos. Havendo um conhecimento prévio, o interlocutor aceita o argumento como verdade-falsidade;
b) Argumento da probabilidade – está relacionado à prova e significação
varia de acordo com o contexto. Ao modalizar a relação entre a premissa- hipótese e a conclusão representa, de forma argumentativa, o que aconteceu no mundo e que é tomado como prova, para legitimar a conclusão construída, a partir de um julgamento;
c) Argumento da possibilidade – relaciona uma premissa-hipótese com uma
conclusão, de forma a construir dois mundos possíveis – o de possível existência e o de possível não-existência – que podem conviver entre si, pois estão situados na incerteza do futuro.
d) Argumento da legitimidade – retirado do marco das cognições sociais que
e) Argumento do reforço – também é um argumento de legitimidade e
objetiva apresentar novas comprovações/suposições, para persuadir o auditório.
Esses fundamentos teóricos, conforme abordado neste capítulo traz os princípios teóricos da Linguística Textual com a finalidade de rever a prática pedagógica do professor de língua portuguesa e a aprendizagem dos alunos, através da análise dos registros escritos produzidos por eles, analisados nos próximos capítulos dessa Dissertação.