Parte III: As fábulas de Iriarte entre o espanhol e o português
2. Análise da fábula “Los Dos Conejos” e suas retextualizações
2.1 O texto-fonte “Los Dos Conejos”, fábula XI (1782)
“Los Dos Conejos” é a Fábula XI do livro Fábulas Literarias. Ocupa as páginas 25 e 26 da primeira edição do livro, publicada na Espanha (YRIARTE, 1782). O volume Fábulas Literarias foi apresentado no item 3.1 da parte II, p. 90. O texto está em espanhol.
a) Visão geral da composição (macronível)
Como todas as demais fábulas desse volume, trata-se de uma narrativa em forma de poema. Tem a participação de duas personagens nomeadas no título (dois coelhos) e de outras duas personagens que são apresentadas inicialmente no diálogo entre estes protagonistas (dois cachorros), como seus antagonistas, e participam da ação no desfecho trágico, já na voz do narrador. O texto é bastante breve, com cento e trinta e duas palavras (excetuado o título) e, assim como a fábula analisada anteriormente, caracteriza-se pela economia de recursos narrativos, concentrando-se principalmente no diálogo entre os dois coelhos, que é precedido e sucedido por narração. Dos seus trinta e dois versos, dezoito estão centrados no diálogo entre as personagens, enquanto os outros catorze são ocupados pelo narrador.
A voz narrativa identifica brevemente o espaço em que se desenrola a ação (Por entre unas matas), apresenta as personagens por meio de substantivos comuns iniciados com maiúscula (Conejo, Perros) ou com minúscula (compañero) e acompanhados de artigo indefinido no caso dos substantivos singulares (un Conejo, un compañero), narra a ação, anuncia as falas das personagens com verbos de dictum (decir, replicar) e, por fim, oferece seu julgamento. A ação narrada e o julgamento apresentado podem ser resumidos da seguinte forma: um coelho encontra outro que foge de dois cães de caça e a dupla passa a discutir se os perseguidores são galgos ou podencos. A discussão se estende até o momento em que os cachorros alcançam os coelhos desprevenidos por terem ficado parados discutindo quem tem razão, em vez de fugir.
A distribuição dos elementos da narrativa pelas estrofes do texto pode ser esquematizada como segue:
FÁBULA XI-LOS DOS CONEJOS
1 Por entre unas matas,
E STROF E 1 espaço 2 Seguido de Perros , A p er so n ag ee n s em a çã o (n a v o z do n ar rad o r)
3 (No diré corría)
4 Volaba un Conejo. A 5 De su madriguera E STROF E 2 espaço
6 Salió un compañero , A personagem
7 Y le dixo : tente , d iálo g o em d is cu rs o d ir et o (9 tu rn o s de f ala, alter n ad o s en tr e os d o is co elh o s)
8 Amigo , ¿qué es esto ? A
9 ¿Qué ha de ser ? responde :
E
STROF
E
3
10 Sin aliento llego.... A
11 Dos pícaros Galgos
12 Me vienen siguiendo. A 13 Sí ( replica el ótro ) E STROF E 4
14 Por allí los veo.... A
15 Pero no son Galgos—
16 ¿ Pues qué son ?— Podencos— A 17 Qué ? Podencos dices ?
E
STROF
E
5
18 Sí , como mi avuelo. A 19 Galgos , y mui Galgos :
20 Bien visto lo tengo— A 21 Son Podencos : vaya ,
E
STROF
E
6
22 Que no entiendes de eso— A 23 Son Galgos te digo—
24 Digo que Podencos. A
25 En esta disputa E STROF E 7 ação (n a voz do n ar rad o r) d esen lace
26 Llegando los Perros, A 27 Pillan descuidados
28 A mis dos Conejos. A
29 Los que por questiones
E STROF E 8 m o ral (n a voz do n ar rad o r) 30 De poco momento A
31 Dexan lo que importa,
32 Llévense este exemplo. A
Quadro 10 - Reprodução da fábula “Los Dos Conejos” (1782). Fonte: elaborado pela autora a partir da fonte citada.
A moral da Fábula XI aparece à página 161, no “Índice de las fábulas y de sus asuntos”, remetendo à página do texto da fábula no livro (imagem a seguir). O assunto apresentado é uma reformulação da moral enunciada pelo narrador na última estrofe: “Los que por questiones | De poco momento | Dexan lo que importa, | Llévense este exemplo”.
b) Forma poética (macro e micronível)
A Fábula XI – “Los Dos Conejos” é uma das três indicadas na composição “Endechas de seis sílabas, ó versos de Redondilla menor”, na página 174 da seção “Géneros de metro usados en estas fábulas” (imagem reproduzida a seguir).
Como vimos na análise, as endechas de seis sílabas, também chamadas de versos de redondilla menor, consistem em uma métrica “menor” (menos de nove sílabas) e de origem popular, que tem como características estrofes de quatro versos, versos de seis sílabas, rimas finais vocálicas entre os versos pares iniciadas pela última vogal tônica da palavra e número não fixo de estrofes.
A fábula XI está disposta em trinta e dois versos de seis sílabas, com divisão em oito estrofes de quatro versos cada uma. A contagem de sílabas nos dois primeiros versos seria:
Po / r_en /tre_u / nas / ma /tas, (6 sílabas) Se / gui / do / de / Pe / rros , (6 sílabas)
Figura 36 - Assunto da fábula “Los dos Conejos” (1782). Fonte: web.
Figura 37 - Métrica utilizada na fábula “Los dos Conejos” (1782). Fonte: web.
A partir das palavras Perros e Conejos, colocadas ao final dos versos 2 e 4, é feita a rima única em E_O, ao longo de todos os versos pares, do 6 ao 32: compañero, esto, llego, siguiendo, veo, Podencos, avuelo, tengo, eso, Podencos, Perros, Conejos, momento, exemplo. Os acentos rítmicos não são regulares, contando com algumas variações ao longo dos versos. O início das estrofes aparece indicado tipograficamente por recuo de primeira linha no primeiro verso (com exceção da primeira estrofe, que começa alinhada). Seis estrofes estão dispostas na página 25 e duas, na página 26, restando o último verso da sexta estrofe para a página seguinte, evidentemente por razões de espaço. Reproduzimos o texto na página 136 com a mesma ortografia e os mesmos espaçamentos, apenas acrescentando a numeração das estrofes e dos versos para facilitar a referência a cada um deles ao longo da análise.
Por meio da situação vivida pelos coelhos, o autor representa uma questão mais ampla: a impertinência de dedicar a atenção a assuntos secundários, quando o assunto principal demanda foco. E como as fábulas de Iriarte têm aplicação especial no mundo literário, entendemos que a reflexão pode-se aplicar a escritores que se perdem tratando de temas banais ou secundários, ou até mesmo com adornos formais frívolos, e com isso sacrificam o essencial do texto, trazendo consequências desastrosas para o conjunto.
c) Elementos da narrativa (macro e micronível)
A voz narrativa aparece nas primeiras duas estrofes (versos 1 a 7), sendo retomada nos versos 9 e 13 para pontuar com verbos de dictum as falas em meio a um diálogo e, novamente, nas duas últimas estrofes (versos 25 a 32). Assim, está presente total ou parcialmente em dezessete dos trinta e dois versos que compõem esta fábula. Os outros quinze versos consistem exclusivamente no discurso direto, em diálogo, das duas personagens principais, nomeadas no título: dois coelhos.
De início, nos versos 1 e 5, o narrador dá duas informações sucintas sobre o espaço valendo-se pouco mais que de sua designação por um sustantivo, sem a presença de qualquer outro item lexical que qualifique ou detalhe esses lugares (v. 1 Por entre unas matas, | v. 5 De su madriguera). O espaço tem pouca funcionalidade para o enredo e não é retomado posteriormente, portanto a descrição de espaços praticamente inexiste nessa fábula. Os versos 2 e 3 apresentam, com formas verbais de particípio e imperfecto de indicativo, a descrição da cena inicial, como circunstância do mote da história, desenvolvido com formas
de perfecto simple e imperativo nos versos 4, 6 e 7: um coelho foge de dois cachorros quando é interceptado por outro coelho, que interrompe sua fuga e começa a conversar (v. 2 Seguido de Perros , | v. 3 (No diré corría) | v. 4 Volaba un Conejo. | [...] | v. 6 Salió un compañero , | v. 7 Y le dixo : tente,).
A partir desse momento, entre os versos 8 e 24 desenvolve-se o diálogo entre as personagens, que não conseguem entrar em acordo acerca da raça dos cães de caça que vêm em seu encalço. Cada um dos protagonistas reafirma quatro vezes sua posição no embate, repetindo o primeiro que se tratam de galgos e o segundo, que se tratam de podencos. Apenas nos versos 9 e 13, que representam a primeira e a segunda mudança de interlocutor, há uma intromissão do narrador, que pontua as falas para identificar os turnos (v. 9 ¿Qué ha de ser ?
responde : | v. 13 Sí ( replica el ótro )). A partir daí, as mudanças de interlocutor são indicadas
somente pelo uso de travessão.
A voz narrativa reaparece nas duas últimas estrofes. Na estrofe 7, apresenta o desfecho da história: os coelhos passaram tanto tempo discutindo que foram alcançados pelos cachorros. E, na estrofe 8, o narrador apresenta seu julgamento sobre o acontecimento narrado enunciando a moral: aqueles que deixam de lado o que importa para dedicar-se a questões de pouca importância devem observar este exemplo.
As personagens são caracterizadas por meio da categorização em espécies, o que representa a única forma pela qual o leitor pode imaginar sua aparência, recorrendo a um conhecimento extratextual, já que não há qualquer outro elemento descritivo relativo à sua imagem ou mesmo à sua psicologia, como adjetivos ou outros substantivos. Os coelhos são simples coelhos, nomeados pelo narrador como “un Conejo” e “un compañero”, enquanto que um deles trata o outro por “amigo” – sendo tanto compañero quanto amigo substantivos de conotação positiva. Já os cachorros têm uma raça definida (ou indefinida, já que é justamente isso o que os protagonistas discutem): são galgos ou podengos, duas raças de cão de caça bem parecidas (ver imagens abaixo). Um dos coelhos os define como “pícaros Galgos”, o que segundo o dicionário da Real Academia Española pode significar algo como rápido ou ligeiro, como pode também tratar de uma personagem de baixa condição, astuta, engenhosa e de conduta imoral, protagonista de um gênero literário surgido na Espanha no século XVI. Assim, a escolha de “pícaros” em detrimento de “ágiles”, “veloces” ou termo que o valha, de mesma métrica, não deve ser entendida como algo fortuito, já que pode ao mesmo tempo ter uma conotação positiva e uma negativa. Os cães, apesar de serem o centro da discussão entre os
coelhos, não têm voz na narrativa, perfazendo apenas seus papéis de perseguidores sem chegar a serem humanizados, como os coelhos, por sua capacidade de falar e raciocinar.
O narrador se abstém de classificar psicologicamente as personagens, limitando-se a dizer que os coelhos foram pegos na circunstância de estar “descuidados” – uma adjetivação com conotação negativa que antecede o julgamento do narrador e prepara o leitor para tal. Tendo em vista que o narrador pouco fala sobre as personagens, os protagonistas se caracterizam principalmente pelo diálogo direto que mantém entre si, o que constitui quase a metade da fábula. O leitor testemunha a cena que se desenrola a partir do encontro entre os coelhos e termina por vê-los defender acirradamente sua opinião (acerca de uma bobagem) literalmente até a morte.
Os verbos em passado aparecem apenas nas primeiras duas estrofes (versos 3, 4, 6 e 7), na voz do narrador, que os usa para apresentar a situação inicial. Com o propósito de demonstrar quão rápido corria o coelho, o narrador explica, ao passo que apresenta a personagem: v. 3 (no diré corría) | V. 4 volaba un Conejo). Assim, o coelho é caracterizado por meio de verbos (ação) como extremamente veloz, portanto capaz de escapar dos cães perseguidores. Em seguida, o narrador apresenta seu antagonista, outro coelho, e introduz a primeira fala deste: v. 5 De su madriguera | v. 6 Salió un compañero , | v. 7 Y le dixo : tente .
Na cena de diálogo que se segue, predominam os verbos em presente, que colocam o leitor como espectador direto da cena comunicativa que se desenrola no momento. As formas verbais usadas tanto pelo narrador quanto pelos protagonistas são: es, ha, responde, llego, vienen, replica, veo, son, dices, tengo, entiendes, digo, pillan e dexan. Quanto a sua semântica, são de natureza verbal, indicando o diálogo e as posições argumentativas dos protagonistas
Figura 38 - Galgo. Fonte: web.
Figura 39 - Podenco. Fonte: web.
(responder, replicar, decir); existencial, representando algo que existe ou acontece (ser, haber); mental, indicando processos cognitivos de percepção e interpretação (ver, entender); e de ação, indicando movimento, ataque e permanência (llegar, venir, pillar, dejar). Os usos de gerúndio (vienen siguiendo, llegando), na voz de um dos coelhos e do narrador, também contribuem para colocar o leitor como espectador direto das ações durante seu curso.
Na segunda estrofe surge o primeiro verbo no imperativo, na voz do coelho que intercepta o colega que foge: tente, que segundo o dicionário da Real Academia Española pode ser uma forma antiga do verbo detenerse, equivalente a pararse. Assim, seria algo como deténte, espera, para, aguarda (v. 7 Y le dixo : tente , | v. 8 Amigo , ¿qué es esto ?), o que indica uma natureza comportamental. Outro verbo no imperativo aparece na última estrofe, na voz do narrador, como arremate da sentença moral, a modo de recomendação para os leitores (v. 32 Llévense este exemplo), e sua natureza é basicamente mental, já que pode ser entendido como “aprendam com este exemplo”.
Ainda, é importante observar o uso de sarcasmo na estrofe 5. Em meio ao debate, um dos coelhos assume um tom irônico, zombando da opinião que o outro defende e reafirmando a sua própria, num discurso que poderia ser assim explicado: “O quê, você diz que são podengos? Ah, sim, tão podengos como meu avô! São galgos, estou certo disso, sei bem o que estou vendo” (v. 17 Qué ? Podencos dices ? | V. 18 Sí , como mi avuelo. | V. 19 Galgos , y mui Galgos : | v. 20 Bien visto lo tengo—). O sarcasmo dá características psicológicas de vaidade ao coelho, ao não aceitar ser contrariado em sua percepção. Essa caracterização psicológica se dá puramente pela ação, sem que nenhuma qualificação apareça na voz do narrador ou na do outro coelho.
Os arcaísmos na linguagem, nesta fábula, aparecem em maior número na grafia (as grafias modernas são as que estão entre parênteses): dixo (dijo), tente (deténte), avuelo (abuelo), mui (muy), qüestiones (cuestiones), dexan (dejan), exemplo (ejemplo). Observa-se apenas um caso de acentuação datada: ótro (otro). Também se nota a instabilidade no uso dos sinais iniciais de interrogação ao longo do diálogo.
Há indicadores de linguagem coloquial e de oralidade na expressão sarcástica “como mi avuelo”, em vocativos (amigo) e interjeições (vaya), que contrastam a voz do narrador.
Identificadas as características dominantes do texto-fonte, passaremos a examinar as retextualizações dele.