Para Mussalim (2016), o texto, sua concepção, natureza e funcionamento, é uma problemática que está presente na Análise de Discurso desde sua fundação. Pêcheux (1969) retoma questões deixadas em aberto pela linguística saussuriana e as formula em um novo terreno: o do discurso, que invoca questões não apenas linguísticas, mas também sócio- históricas. Neste momento inicial, não há uma definição própria de texto. Ele é tratado como uma evidência, no sentido de que todos sabem o que é.
Orlandi (2011, p. 22) considera o trabalho de Michel Pêcheux:
O acontecimento mais importante, na França do século XX, em estudos da linguagem. O passo epistemológico mais decisivo para a linguística pós- saussuriana e pós-estruturalista. A mudança de terreno proposta: nem a língua fechada nela mesma, nem o historicismo do século XIX, nem o psicologismo do sujeito centrado nele mesmo. O político no confronto com o simbólico. A ideologia materialmente ligada ao inconsciente, sendo esta materialidade assim concebida: a materialidade específica da ideologia é o discurso e a materialidade específica do discurso é a língua. E aí eu encontrava meu objeto, o discurso, este que me permite observar a relação entre língua e ideologia. E que traz para dentro o sujeito e a situação.
Seguramente, uma das maiores contribuições da Análise de Discurso para a compreensão do texto diz respeito a uma nova forma de se ver a língua. A língua, para a AD, não é um sistema fechado em si mesmo. É um sistema relativamente autônomo colocado em funcionamento por sujeitos sócio-historicamente situados. A língua é incompleta, heterogênea, falha, aberta a novos sentidos. E os sentidos nos escapam, deslizam, derrapam, realizam-se em nós sem que sejamos completamente conscientes deles.
A língua liga-se incontornavelmente ao fato de que não se pode dizer tudo, não se pode entender tudo. Ou não se entende do jeito que o outro quer. Porque somos sujeitos igualmente falhos, equivocados. Para Ferreira (2003, p. 196):
A língua na Análise do Discurso é tomada em sua forma material enquanto ordem significante capaz de equívoco, de deslize, de falha, ou seja, enquanto sistema sintático intrinsecamente passível de jogo que comporta a inscrição dos efeitos lingüísticos materiais na história para produzir sentidos. Esta compreensão de língua traz implicações para a compreensão do texto. Enquanto objeto sócio-histórico, o texto está sempre sujeito a novas e imprevisíveis interpretações. Interpretações que são autorizadas institucionalmente. A produção, a circulação e a recepção dos diversos textos da sociedade acontecem no âmbito de uma instituição, seja a universidade, a escola, os órgãos públicos ou outro. Essas instituições regulam e controlam os sentidos, faz com que eles não sejam quaisquer um.
Pêcheux, logo em sua obra inaugural, em 1969, faz uma crítica às abordagens conteudistas do texto. Ele diz que até o nascimento da linguística moderna, estudar uma língua era estudar textos e colocava-se a seu respeito questões como: “De que fala este texto?”, “Quais são as ideias principais contidas neste texto?”, “Quais são as normas próprias a este texto?”. Questões que evidenciavam usos semânticos e sintáticos do texto cujos estudos visavam a um fim: sua compreensão. O texto era o “meio de expressão” de seu produtor.
Com a proposição de Saussure de língua como sistema, ela passa a ser o objeto que o linguista vai descrever o funcionamento, e sua função de exprimir sentido perde importância. A consequência é que o texto
de modo algum, pode ser o objeto pertinente para a ciência linguística pois ele não funciona; o que funciona é a língua, isto é, um conjunto de sistemas que autorizam combinações reguladas por elementos definidos, cujos mecanismos colocados em causa são de dimensão inferior ao texto”. (PÊCHEUX, 1969, p. 62)
Mas a linguística deixou a descoberto o terreno e tentativas de responder às questões vieram em modelos que Pêcheux classifica de duas formas diferentes, estabelecendo, é claro,
sua crítica a cada um deles: 1) os métodos não linguísticos, divididos em método por dedução frequencial e análise por categorias temáticas; 2) os métodos paralinguísticos. Não é pertinente explicitar cada um dos métodos aqui, focaremos na proposta de Pêcheux.
Particularmente em relação ao último método, que propõe um tratamento homogêneo entre os fatos da língua e os fenômenos da dimensão do texto, Pêcheux (1969, p. 73) propõe uma “‘mudança de terreno’ que faça intervir conceitos exteriores da lingüística atual”. E aí temos uma teoria do discurso que trata da determinação histórica dos processos de significação.
Segundo Orlandi (2011), a Análise de Discurso pressupõe a Linguística, mas se distingue dela em pontos cruciais. Não se trata de uma evolução dessa ciência. A AD “trabalha com os processos e as condições de produção da linguagem” (ORLANDI, 2011, p. 12). Diferente da linguística saussuriana, há, para a AD, uma relação constitutiva da linguagem com sua exterioridade (a situação). Uma exterioridade que está inscrita na historicidade do texto, visto agora como um monumento e não documento. A situação “está atestada no próprio texto, em sua materialidade (que é de natureza histórico-social)” (ORLANDI, 2011, p. 13).
Diz Pêcheux (1969, p. 77, grifo do autor): “um discurso é sempre pronunciado a partir de condições de produção dadas”. Um conceito caro à Análise de Discurso, as condições de produção envolvem fundamentalmente os sujeitos e a situação. Fazem parte do processo de produção de um discurso em uma circunstância dada. A reflexão de Pêcheux sobre as condições de produção de um discurso surgiu como crítica ao esquema conversacional de Jakobson (1973). Esse esquema prevê uma mensagem transmitida entre um destinador e um destinatário, designados como indivíduos psico-físicos na sociedade, em um contexto que funciona como um pano de fundo neutro para a transmissão da mensagem.
A AD considera as condições de produção no sentido estrito, que envolvem as circunstâncias imediatas da enunciação de um texto, e há as condições de produção no sentido amplo, que envolvem o contexto sócio-histórico cultural e ideológico no qual os textos são produzidos e circulam. São integrantes das condições de produção de um discurso o suporte material textual, ou seja, um outdoor, um livro didático, uma faixa, etc e a memória discursiva.
A memória discursiva possui um estatuto central para a AD. A reflexão inicial sobre esse conceito encontra-se em Courtine (1999) que a designa como interdiscurso. A memória discursiva é aquilo que sustenta cada tomada da palavra, é “o saber discursivo que torna possível todo dizer e que retorna sobre a forma de pré-construído, o já dito que está na base do dizível” (ORLANDI, 2010, p. 31).
Ao enunciar, o sujeito repete algo que já foi dito, de certa forma, em diferentes enunciações passadas, este dito está localizado de forma desnivelada em uma memória que é “feita de esquecimentos” (ORLANDI, 1999). Sendo assujeitado pela língua para dizer, os sentidos realizam-se no sujeito a partir de uma memória discursiva fazendo com que o não dito também signifique a partir do dito. A memória sustenta cada tomada da palavra (ORLANDI, 2010) de modo que para que elas façam sentido é preciso que já tenham sentido.
Em relação ao papel dos sujeitos na produção de textos em condições dadas, a AD postula que são “lugares determinados na estrutura de uma formação social” (PÊCHEUX, 1969, p. 82). Lugares que são representados nos processos discursivos de forma imaginária e não como um lugar sociológico. “O que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que A e B se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do outro” (PÊCHEUX, 1969, p. 82). Assim, há a imagem que se faz de um professor, patrão, diretor etc.
Não só os protagonistas do discurso como também o referente, o contexto ou a situação designam objetos imaginários e não uma realidade física, objetiva. A realidade é apreendida pelo discurso e nunca é a mesma para todos os sujeitos. Sendo assim, é importante na escola que os sentidos produzidos pelos alunos sejam autorizados, já que não há uma relação direta entre a linguagem e o mundo. O caráter inerentemente múltiplo e heterogêneo da linguagem permite que os sujeitos – que são sempre sujeitos de linguagem – construam diferentes realidades via discurso. Autorizar os sentidos dos alunos faz parte do processo de assunção de sua autoria. E, para a AD, a função-autor é um conceito definidor na constituição da textualidade. Falemos mais sobre esse conceito.