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2.2 Do “delineamento” do objeto

2.2.1 O tipo ideal espírito do capitalismo

A proximidade entre as reflexões dos dois primeiros ensaios metodológicos publicados por Weber – Roscher e Knies e A Objetivida-de – e a EPEC é evidente quando se acompanha a formação conceitual substantiva nesta última obra. Em perfeita sincronia com aqueles en-saios, Weber argumenta que, num trabalho investigativo científico-so-cial ou – para ser mais preciso com a terminologia daqueles tempos – nas ciências históricas da cultura, uma definição conceitual acabada do objeto só é possível ao final da investigação, ou seja, depois de concluída a explicação-interpretação causal daquele objeto. Nisto o cientista social difere assimetricamente do naturalista.

Tomemos um zoólogo. Para este, é possível definir ou classificar um animal desconhecido encontrado ao acaso a partir da observação cuidadosa das suas características morfológicas, prescindindo da análi-se da evolução natural daquele organismo complexo, que pode ocorrer paralelamente à sua classificação.

É esta a diferença que Weber (2004: 41-2) procura salientar. Enquanto a individualidade biológica encontrada pelo zoólogo pode ser a princípio definida como mero caso, “segundo o esquema genus proximum, differentia specifica”, uma “individualidade histórica” tal qual o “espírito do capitalismo”, que é dado pela sua “significação cultural”, não pode ser deduzido de uma generalidade conceitual que o englobe,

mas, pelo contrário, deve ser indutivamente definido ou “composto a partir de cada um de seus elementos, extraídos da realidade histórica”. A apreensão ‘acabada’ destes elementos essenciais não pode prescindir da investigação do desenvolvimento histórico desta individualidade.

No entanto, o trabalho científico-social não progride sem uma mínima base de referência sobre aquilo que pretende explicar. No caso da EPEC, torna-se necessário “um delineamento provisório daquilo que se entende por ‘espírito’ do capitalismo”. Tal delineamento, que difere de uma definição, também em distinção com o procedimento naturalista, não privilegia o recurso a uma classe ou a uma lei, mas, relacionado com determinada perspectiva unilateral de valor, seleciona e concatena os elementos tidos como essenciais ou importantes na infinitude da rea-lidade empírica. Inicia-se então o processo de formação conceitual das Wirklichkeitswissenschaften, distinto da formação conceitual das Begri-ffwissenschaften, que não valoram os elementos tidos como essenciais por serem atraídas pelo geral e não pelo particular.

Este delineamento preliminar – primeira generalidade, na ter-minologia rickertiana – consiste na elaboração de tipos ideais, meios para o estabelecimento de “conexões [genéticas] concretas” (Weber, 2004: 42), quadros teóricos puros, úteis na apreensão de individualida-des históricas. Diferentes perspectivas unilaterais de valor podem ela-borar diferentes tipos ideais para um mesmo objeto. Para a perspectiva privilegiada por Weber, que busca salientar os elementos ascéticos da conduta capitalista, não é preciso tanto esforço para delinear o espírito do capitalismo: a pureza requerida pelo tipo ideal já está dada, livre de contradições, nas obras de Benjamin Franklin, principalmente em Ne-cessary Hints to Those that Would be Rich de 1736, e Advice to a Young Tradesman de 1748.

[...] tempo é dinheiro [...] crédito é dinheiro [...] o dinheiro é procriador por natureza e fértil [...] um

bom pagador é senhor da bolsa alheia [...] nada contribui mais para um jovem subir na vida do que pontualidade e retidão em todos os seus

ne-gócios [...] as mais insignificantes ações que afe-tam o crédito de um homem devem ser por ele ponderadas [...] pareças um homem tão cuidado-so quanto honesto, e isso aumenta teu crédito [...] mantém uma contabilidade exata de tuas despesas e receitas... descobrirás como pequenas despesas se avolumam em grandes quantias e discernirás o que poderia ter sido poupado e o que poderá sê-lo no futuro [...] Por seis libras por ano podes fazer uso de cem libras, contanto que seja reconhecido como um homem prudente e honesto (Weber, 2004: 42-4).

De acordo com Weber (2004: 44-5), o caráter ideal-típico das máximas de Franklin – onde o espírito do capitalismo “nos fala de ma-neira característica”, embora “nem tudo o que se pode compreender por esse ‘espírito’ esteja contido aí” – está no fundamento ético, e não mera-mente utilitário, da sua “filosofia da avareza”. Diferente de Jakob Fugger, judeu e banqueiro na passagem do século XV para o XVI – protótipo da conduta capitalista para Werner Sombart (Weber, 2004: 174, nota 26) –, que pregava preceitos utilitários motivado por uma “ousadia comercial [...] moralmente indiferente”, em Franklin ‘fazer dinheiro com dinheiro’ tem o “caráter de uma máxima de conduta de vida eticamente coroada”. Trata-se de uma obrigação moral que engloba a totalidade da existência individual.

Enquanto Fugger representa a ação do capitalista aventureiro (ou pária), que existiu na “China, na Índia, na Babilônia, na Antigui-dade e na IAntigui-dade Média”, o “ethos peculiar” que dá sentido à conduta de Benjamin Franklin é a própria personificação da ação do capitalista moderno como individualidade histórica exclusiva da Europa Ocidental e da América do Norte.

O contraste com o chamado capitalismo tradicional, mais pre-cisamente a ação capitalista tradicional, é crucial para Weber estabelecer a originalidade da sua investigação em oposição aos seus críticos, que

não percebem em Franklin nenhuma exclusividade, do ponto de vista histórico, na manifestação precoce das características essenciais da con-duta capitalista. Sombart, por exemplo (Weber, 2004: 175-9, nota 34), vê tais características não só em Fugger, dois século antes de Franklin, mas também no renascentista Leon Battista Alberti, que viveu entre 1404 e 1472.

De modo a sistematizar o argumento de Weber (2004: 46-67), pode-se dizer que o espírito tradicionalista se expressa: 1) seja como um interesse no trabalho voltado para a satisfação estrita das necessidades básicas; 2) seja como um interesse assistemático e imediatista no lucro, alcançado através de investimentos predominantemente de risco, do “ li-berum arbitrium indisciplinado”, do “ganho desbragado” desvinculado de qualquer norma de conduta.

O espírito tradicionalista (2), quando voltado para o ganho, tem como fundamento moral a oposição entre a ética interna (da comuni-dade fraternal, comercial, nacional) regulada normativamente, e a éti-ca externa (da relação com o outro), na qual vale tudo no interesse da auri sacra fames. Não é por acaso que Weber identifica como portadores deste espírito, sobretudo aqueles envolvidos em atividades mercantis. Embora não seja explícito, não é preciso malabarismo para perceber que as aventuras coloniais e o estabelecimento das chamadas colônias de exploração representam tipicamente o espírito tradicionalista, do vale tudo, voltado para o ganho.

No que se refere ao tradicionalismo (1), portado principalmente por artesãos e camponeses, que concebe o trabalho como meio orientado unicamente pela satisfação das necessidades básicas de alimentação, habi-tação, vestuário, etc., Weber (2004: 53) toma como exemplo paradigmáti-co, na Alemanha do seu tempo, as frustradas tentativas oficiais e privadas de aumentar a produtividade do trabalho camponês através do aumento do rendimento do trabalho: o camponês alemão, que “leva a vida da mão para a boca” (Weber, 2004: 67), prontamente passou a trabalhar menos para ganhar o mesmo que ganhava antes trabalhando mais.

Nesta altura do debate, fica evidente que Weber não se utiliza da construção típico-ideal somente como concatenação de elementos

senciais do espírito capitalista moderno em oposição ao tipo ideal do es-pírito tradicionalista, mas se utiliza claramente da interpretação racional orientada por uma perspectiva individualista. Lembre-se da pergunta crucial feita pelo método individualista ao abordar um fenômeno de or-dem sociológica: “que motivos determinaram e determinam os funcio-nários e membros individuais [destas coletividades] a se comportarem de tal maneira que ela chegou a existir e continuar existindo” (Weber, 2000: 11)?

É assim que Weber procede ao distinguir tradicionalismo e

espírito capitalista. Enquanto o espírito tradicionalista voltado para o ganho – capitalismo pária mercantil – se pergunta ‘o que fazer para ga-nhar o máximo possível num empreendimento independente dos meios necessários para alcançar este fim?’, o espírito tradicionalista, no marco de uma profissão definida – artesanato e atividade camponesa – se per-gunta “quanto devo trabalhar para ganhar a mesma quantia que recebi até agora [...] e que cobre as minhas necessidades tradicionais?” (Weber, 2004: 53).

O velho Franklin, assim como todo portador do espírito capi-talista moderno, por sua vez, se pergunta: “quanto posso ganhar por dia se render o máximo de trabalho?”.

Tal qual o tradicionalista aventureiro, o espírito capitalista mo-derno visa o ganho de dinheiro – o “sucesso econômico” –, contanto que se dê “de forma legal”, como produto da habilidade, do planejamento e da sobriedade na profissão, “no resguardo de todo gozo imediato do di-nheiro ganho” (Weber, 2004: 46-7). Assimétrico ao caráter assistemático da ação tradicionalista, o espírito capitalista moderno regula metodica-mente a conduta vida como um todo, “com base no cálculo aritmético rigoroso” (Weber, 2004: 67) das despesas e dos ganhos, o que define o seu “racionalismo econômico”.

A questão que se coloca imediatamente para o intérprete diz respeito ao sentido desta ação que toma o trabalho metódico e o gan-ho de dinheiro através deste como um fim em si mesmo. Ação que, do ponto de vista da felicidade, da satisfação de necessidades e dos prazeres mundanos, aparece como “simplesmente irracional”.

É esta aparência de irracionalidade que a interpretação busca desfazer. Primeiramente por reconhecer os julgamentos de valor sobre a racionalidade ou irracionalidade de determinadas condutas como valorativamente condicionados, fundamentados em pontos de vista particulares. Por outro lado, antes do ganho de dinheiro em si mesmo,

é o trabalho, a realização permanente e sistemática da “profissão como

um dever” (Weber, 2004.: 47) que motiva ou dá sentido à ação de um Franklin e de todo portador do espírito do capitalismo31. A “disposição de executar o trabalho como se fosse um fim absoluto em si mesmo – como ‘vocação’” (Weber, 2004: 54) – converte em irracional, desta vez, a “eterna questão de como, com um máximo de comodidade e um míni-mo de esforço” ganhar o necessário para satisfazer as necessidades mais básicas.

É precisamente na noção de “profissão como um dever” – e não

no ganho a qualquer custo baseado em preceitos puramente utilitários (na auri sacra fames), no “oportunismo político” e na “especulação irra-cional” (Weberm 2004: 67) – que está, para Weber (2004: 51), o funda-mento da “’ética social’ da cultura capitalista” como “fenômeno de mas-sa”, onde predomina a “valorização racional do capital no quadro da empresa e a organização capitalista racional do trabalho [...] na orienta-ção da aorienta-ção econômica”. Também não é por acaso que Weber identifica como típicos portadores do espírito capitalista moderno os segmentos voltados para atividades manufatureiras e industriais.

31 A prova da adequação de tomar Franklin como um tipo ideal do espírito capitalista é dada pela sua afinidade com o “’tipo ideal’ do empresário capitalista” alemão contem-porâneo de Weber, “haja visto alguns exemplos eminentes”, que “se esquiva à ostentação e à despesa inútil, bem como ao gozo consciente do seu poder, e sente-se antes incomo-dado com os sinais externos da deferência social de que desfruta. Sua conduta de vida, noutras palavras, comporta quase sempre certo lance ascético, tal como veio à luz com clareza no citado ‘sermão’ de Franklin – e nós vamos examinar justamente a significação histórica desse fenômeno que para nós é relevante. – Ou seja, não é raro, mas bastante frequente, encontrar nele uma dose de fria modéstia que é substancialmente mais sin-cera do que aquela reserva que Benjamin Franklin soube tão bem aconselhar. De sua riqueza ‘nada tem’ para si mesmo, a não ser a irracional sensação de ‘cumprimento do dever profissional’” (Weber, 2004: 63).

A racionalidade da ação capitalista moderna, pelo menos em sua gênese, não está num fim utilitário como no modelo do homo oeconomi-cus, mas numa finalidade valorativa – ação racional referente a valores. É a profissão como valor que faz com que o “ser humano” exista “para o seu negócio” e não o negócio para o ser humano (Weber, 2004: 62).32

Mas onde emerge e se define este valor como “elemento irracio-nal” que dá sentido ao “racionalismo” típico da conduta capitalista?