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O TOMBAMENTO ENTRE PERMANÊNCIAS E TRANSFORMAÇÕES

1. Patrimônio cultural 2 Participação social I Universidade Federal do Paraná II Pontes,

4.2 O TOMBAMENTO ENTRE PERMANÊNCIAS E TRANSFORMAÇÕES

Percebe-se através do estudo dos casos que houve variedade na forma como a instrução de cada processo foi conduzida. Observando a questão através dos níveis de análise propostos por Lefebvre, pode-se entender que o IPHAN representa o nível G, o nível institucional. Embora orientado por uma postura geral, de ampliação e diversificação do acervo nacional tombado, o desenvolvimento de cada processo de tombamento de conjunto assumiu características diversas e até mesmo contraditórias. Tombamentos derivados de estudos de um mesmo macroprocesso, como Antonina, Paranaguá e Iguape tiveram abordagens destoantes entre si. Essa divergência ficou ainda mais evidente levando em conta que as votações para os tombamentos de Paranaguá e Iguape foram realizadas em sequência na mesma reunião do Conselho Consultivo. Enquanto o primeiro caso teve uma abordagem mais tradicional, o segundo foi desenvolvido incorporando a participação comunitária. Essa heterogeneidade pode ser observada também dentro de uma mesma superintendência, comparando-se por exemplo, o já citado tombamento de Iguape com São Luiz do Paraitinga, da Superintendência Estadual de São Paulo. Embora não seja identificável uma unidade de atuação no nível G, ele ainda é predominante em relação às tomadas de decisão. Quando o processo é desenvolvido sem a inserção efetiva da comunidade, ocorre um processo de cima para baixo, com o nível G sobrepondo-se ao nível P, do cotidiano. Essa sobreposição pode ocorrer mesmo quando são acionados canais aparentemente participativos, mas que não representam uma real delegação de poder. As impugnações, que são o canal oficial para manifestação dos agentes envolvidos, são uma forma muito pontual de participação, não representando um envolvimento consistente. Além disso, essa atuação através de meios legais, que requer embasamento e termos técnicos, pode inibir a atuação de parcelas da população não habituadas a esses procedimentos.

O nível P, o “habitar como poeta”, é levado em conta em casos onde as práticas sociais e as manifestações intangíveis influenciam, mesmo que de forma indireta, a delimitação das referências culturais a ser tombadas. A ênfase na comunidade que vivencia o patrimônio cultural fica ainda mais evidenciada nos casos de adesão antecipada. Considerados exceções, esses processos trazem alento para a instância institucional. Por outro lado, o fato dessa mobilização coletiva

prévia ser considerada excepcional, aponta que o envolvimento da comunidade almejado na Constituição está distante de ser a regra. Explicita-se dessa forma a inversão apontada por Lefebvre, do nível P subordinado ao nível G, quando deveria ser o contrário. Essa lógica é invertida quando a sociedade se organiza em função do patrimônio cultural. Em Jaguarão ocorreu um exemplo do trânsito entre os espaços inventados e convidados discutidos por Miraftab. Quando parte da população promove vigílias em torno de uma edificação de valor cultural, utiliza-se de um espaço inventado, e da mesma forma pressiona os espaços convidados, incitando a utilização de um instrumento legal como o tombamento para a proteção dos bens.

O movimento de baixo para cima evidencia-se também quando a coletividade expressa seu desconforto com determinada situação, solicitando modificações. O caso de Fernando de Noronha é elucidativo dessa questão. A qualidade da argumentação apresentada passa pelo nível de conscientização, entendimentos e domínio prévio da comunidade sobre o assunto. Por outro lado, está a instituição e seus técnicos que irão acatar ou não às requisições. Como abordado anteriormente, não existe homogeneidade em relação a essa questão, podendo haver casos mais ou menos favoráveis ao diálogo. No processo de tombamento do arquipélago o IPHAN adotou uma postura de acatar a argumentação da comunidade, revendo a forma de proceder. Trata-se de um caso onde o diálogo entre técnico e leigo, apontado por Motta, convergiu na elaboração de uma nova proposta.

Em síntese, em relação a participação, o período estudado transita entre permanências e transformações. Coexistiram estudos desenvolvidos de maneira tradicional, outros que buscaram uma leitura mais integrada com o patrimônio imaterial, e aqueles onde houve uma inclusão da população, seja de maneira voluntária ou conquistada. Os Conselheiros reconhecem, ao longo das discussões, a necessidade de incluir as comunidades envolvidas com os bens culturais na construção dos processos de tombamento. Porém abordam também as dificuldades em incorporar essa postura, o temor quanto a demolições que as notícias anteriores à proteção podem causar, e limitações de ordem técnica e financeira. Em regra, há concordância com a ideia da participação, porém questionam sobre a forma de colocá-la em prática. Desse modo, embora exista a intenção, na prática as comunidades envolvidas ainda possuem pouco poder de decisão. Com exceção dos

casos considerados de adesão antecipada, apenas em Fernando de Noronha e Iguape ficaram evidentes a influência da população na determinação do que foi tombado.

Ao passo que neste capítulo foram estudadas quais as formas de participação ocorridas nos processos de tombamento, no próximo capítulo serão estudadas possíveis metodologias utilizadas para inclusão das comunidades. Serão analisados três estudos de caso onde foram aplicadas metodologias participativas, sendo um relativo ao tombamento, um à chancela da paisagem cultural, e um ao inventário participativo.

5 PARTICIPAÇÃO NAS POLÍTICAS DE PATRIMÔNIO: TOMBAMENTO, CHANCELA DA PAISAGEM CULTURAL E INVENTÁRIOS PARTICIPATIVOS

Neste capítulo serão analisadas experiências realizadas em anos recentes que tenham utilizado metodologias participativas em processos de identificação ou patrimonialização. Através da análise de relatórios, dossiês e referências bibliográficas sobre o tema, busca-se captar quais foram as metodologias utilizadas, os atores envolvidos, o alcance da participação, e as potencialidades e limitações dessas experiências já realizadas. Entre os objetos de estudo estarão o Tombamento do Conjunto Histórico e Paisagístico de Iguape, onde utilizou-se a cartografia social como método participativo de construção de mapas do território ; a Chancela da Paisagem Cultural da Foz do Rio São Francisco, onde foi utilizada a aplicação de entrevistas com agentes relacionados aos bens culturais; e o Inventário Participativo Minhocão contra Gentrificação, onde foi utilizada a metodologia dos inventários participativos.