CAPÍTULO III NARCOTRÁFICO E O TERRORISMO
3.1.7 O Tráfico de Droga em Cabo Verde
Nas palavras de Adilson Tavares (2016), tal com o resto do mundo, Cabo Verde também é uma vítima da problemática das drogas. Segundo afirma este autor, uma das principais causas da desestruturação das famílias e de muitos crimes no arquipélago têm origem nas drogas. Como é certo e consensual o uso abusivo das drogas por norma tem mais ênfase nos centros urbanos, e Cabo Verde não foge à regra. Por maioria de razão, Santiago, São Vicente e a ilha do Sal, na leitura de Tavares têm maior índice de consumo de droga, por serem as ilhas mais desenvolvidas. A cannabis, vulgarmente conhecida por “padjinha” em Cabo Verde é a mais consumida, contudo, há uma certa tendência para o aumento de consumo de outras drogas mais pesadas, sobretudo, a cocaína, o crack e a heroína. O uso abusivo de drogas pelos jovens é um problema transversal, é cada vez mais uma preocupação enorme das sociedades, e em Cabo Verde a situação não é diferente, e a tendência o consumo começar em idade cada vez mais baixa55.
Conforme o jornal online ASemana (2015), a ação do tráfico de drogas proveniente do Brasil, alargou o seu alcance, não apenas o Centro Oeste e Sudeste do País. Através de Cabo Verde a droga chega à Europa. De acordo com o delegado Janderlyer Gomes de Lima, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Ceará, “O destino dos
50
entorpecentes, vindos da Colômbia e da Bolívia, é Cabo Verde". Segundo este delegado a intensificação verificou-se com a inauguração de um voo direto ligando Fortaleza à Cidade de Praia, em 2013. A droga chega ao Brasil via Mato Grosso, e Amazonas; adianta ainda o delegado de que em São Paulo há células da Máfia Nigeriana, com ramificações em várias cidades, fundamentalmente em Nordeste, e outros cidadãos da costa ocidental africana, as “mulas” que fazem chegar a droga a Cabo Verde. Esta tese de Cabo Verde como corredor de droga para a Europa é consensual, pois os sucessivos Governos de Cabo Verde sempre manifestaram esta preocupação.
Face aquilo que são as características de Cabo Verde, i.e., um país arquipelágico não é fácil nem simplista a abordagem à problemática das drogas neste pequeno país. Num relatório sobre drogas, feito nos Estados Unidos da América, em 2017, alertaram Cabo Verde que o consumo de droga aumentou e que Cabo Verde ainda é um importante interposto de droga de América do Sul a Europa, adianta ASemana (2017). Por outro lado, o Departamento de Estado norte-americano esclarece que Cabo Verde tem feito um esforço enorme para fazer face ao tráfico de drogas. E segundo Gustavo Plácido Santos (2014) é notória a abnegação de Cabo Verde na luta contra o tráfico de drogas, mormente a criação do COSMAR, e considera que o sucesso de Cabo Verde é transversal a todo mundo. Este autor considera que, “Cabo Verde tem sido um vetor relevante na estratégia de Washington para a estabilidade e segurança na região (…). O pequeno arquipélago africano é um polo de estabilidade numa região volátil e tem uma posição estratégica no atlântico sul. Perder Cabo Verde para o narcotráfico não é, de forma alguma, uma opção tolerável” (Santos, 2014, p. 12).
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (2017), doravante INE, registaram- se 83 ocorrências de tráfico de drogas, cerca de 0,3% das ocorrências policiais em 2015, o que se traduz em 21,7% de diminuição de ocorrências de tráficos de drogas face ao ano anterior. Isto revela a resiliência de Cabo Verde em lutar contra este flagelo global. Não raras vezes dão à costa de algumas ilhas de Cabo Verde, de forma misteriosa, quantidades de drogas. Entre 2011-2012, em Cabo Verde as autoridades protagonizaram uma grande operação denominada “Lancha Voadora56” que resultou na apreensão de cerca de mil e quinhentos
quilos de cocaína, (Tavares, 2016). Para as autoridades policiais de Cabo Verde a droga fazia o trajeto Colômbia-Brasil, passando por Cabo Verde, rumo a Holanda e Alemanha. Esta foi uma operação conjunta entre Cabo Verde e Holanda, para além da droga aprendida oito
51
pessoas foram constituídas arguidas, vários bens móveis e imóveis foram apreendidos57. Um outro caso mediático de tráfico de drogas é o caso de “Perla Negra” uma operação em pleno centro da cidade Mindelo na ilha de São Vicente que culminou na apreensão de quinhentos e vinte e um quilos de cocaína, provenientes da América Latina. A PJ deteve três indivíduos, sendo um espanhol, um cubano e outro suíço, adianta A Nação (2014). Um outro caso, desta feita, um grupo de três brasileiros que foram detidos em São Vicente com cerca de mil cento e cinquenta e sete quilos de cocaína que tem tido repercussão a nível internacional(Mesquita, 2017).
Relativamente à prevenção, o Governo Cabo-verdiano consciente da dimensão do problema das drogas a nível local regional e global, tem tomado algumas medidas. Com a entrada em vigor do Decreto-Regulamentar n.º 02/95 BO n.º 01 de 18/01/95, institui e regula as atribuições e o funcionamento da comissão de luta contra o tráfico ilícito de estupefaciente e outras substâncias psicotrópicas. Sem se esquecer do Ministério da Saúde, Polícia Nacional, Polícia Judiciaria e também ONGs, fundações e associações sem fins lucrativos que têm feito frente ao problema.
Inequivocamente as drogas são um enorme desafio para Cabo Verde, a sua localização geográfica é muito atrativa para os narcotraficantes. Contudo, Cabo Verde é tido como um exemplo para o resto dos países do continente africano. Pese embora se depare com dificuldades a vários níveis para capacitar ainda mais as forças e serviços de segurança, com meios modernos e potentes para dar resposta ao fenómeno. No entanto, com ou sem recursos as quantidades de drogas já aprendidas pelas autoridades cabo-verdianas faz de Cabo Verde sem sobra de dúvidas um exemplo notório nesta matéria.