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1. A narrativa da cidade

1.2. A cidade narradora

1.2.1. O traçado e os monumentos

A expressão tecido urbano traz consigo uma dupla metáfora, por um lado, faz referência à tecelagem, à trama têxtil, e por outro remete à biologia, aos tecidos vegetais, ósseos. Seja qual for o enfoque, o termo evoca a noção de conjunto, de organização e até certa solidariedade entre os elementos que o constituem, uma capacidade de se adaptar, de se modificar.66 Dentre as múltiplas acepções, Panerai opta por definir o tecido urbano como a superposição de três conjuntos básicos:

a rede de vias, os parcelamentos fundiários e as edificações (Figura 09).

62 MOUDON, 1997, p. 05.

63 Ibidem, p. 08.

64 PANERAI, Philippe; CASTEX, Jean; DEPAULE, Jean-Charles. Formas urbanas: a dissolução da quadra. Porto Alegre:

Bookman, 2013, p. 02.

65 MOUDON, op. cit., p. 07.

66 PANERAI, Philippe. Análise urbana. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2006, p. 77.

Civitas et Urbs: O PROJETO NEOCLÁSSICO NA CIDADE DA PARAHYBA (1858-1889)

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Essa definição põe em evidência os elementos que permitem que as diferentes partes da cidade evoluam, ao mesmo tempo em que são mantidas a coesão de conjunto e a clareza de sua estrutura. Ela se aplica tanto aos tecidos antigos – fortemente marcados pela sedimentação histórica – como aos setores de urbanização mais recente, onde a constituição do tecido se apresenta, em geral, em um estágio inicial [...]67

Figura 09: O tecido urbano – vias, parcelas e edificações

Fonte: PANERAI, 2006, p. 80

Retomando a analogia do organismo e a teoria das permanências de Poète e Lavedan, Aldo Rossi menciona que, “Na composição urbana, cada elemento deve exprimir com a maior fidelidade possível a vida do organismo coletivo que é a cidade”.68 Para ele, o traçado seria a base desse organismo, uma vez que se atribui às vias de comunicação o destino da cidade, e que é a rua que a mantém viva. Embora se diferencie nas atribuições e muitas vezes se deforme, o plano subsiste sob níveis diversos, ele não se desloca substancialmente e por isso constitui a permanência mais significante para os estudo urbanos.69

Outro elemento morfológico de permanência singular é o monumento, que tende a se individualizar pelo seu significado, pela sua forma e excepcionalidade no tecido urbano, especialmente em determinados períodos históricos. A respeito disso, Marcel Poète defende que o monumento deve intervir em primeira mão na composição da cidade, afinal ele não se situa em qualquer ponto, mas se vale de uma localização específica, servindo para compor a fisionomia urbana.70 Corroborando com essa perspectiva, Rossi acrescenta:

67 PANERAI, 2006, p. 78.

68 ROSSI, 1998, p. 38.

69 Ibidem, p. 52.

70 POÈTE apud LAMAS, 2004, p. 104.

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Há obras que constituem um acontecimento originário na constituição urbana e que permanecem e se caracterizam no tempo, transformando a sua função ou negando a função original até constituir um trecho de cidade, tanto que os consideramos mais do ponto de vista tipicamente urbano do que do ponto de vista da arquitetura. Há obras que assinalam uma nova constituição, são o signo de novos tempos na história urbana; elas são, na maior parte, ligadas a períodos revolucionários, a acontecimentos decisivos no curso da cidade.71

Desse modo, é evidente que a presença do monumento arquitetônico tende a condicionar ou ser condicionada pela organização física da cidade, pelo desenho urbano. São incontáveis as expressões formais dessa interdependência, mas, em geral, tais expressões situam-se entre duas tradições do desenho urbano – aquela do traçado clássico e sua oposta, de tratamento pitoresco.

A primeira visa ordenar o espaço em função da monumentalidade, da simetria, da convergência e da axialidade. É caracterizada pela preocupação com a regularidade e com o funcionamento racional da urbe. Nesse sentido, ao referir-se à cidade renascentista, Lamas afirma que, no traçado clássico, a rua não se limita a um percurso funcional, mas torna-se eixo de perspectiva, de percurso visual, organiza um efeito cênico, estético.72 Já a praça, é entendida como um recinto especial e não apenas um vazio na estrutura urbana. Ela é o lugar público que concentra os principais edifícios e monumentos, possui valor funcional e também político-social, simbólico e artístico (Figura 10).73

Figura 10: La Città Ideale, atribuída a Leon Battista Alberti, c. 1450 Têmpera sobre madeira

Fonte: Acervo da Galleria Nazionale delle Marche

A Paris haussmanniana é, sem dúvida, um dos mais expressivos exemplos de aplicação desses parâmetros na segunda metade do século XIX. Uma das correções estruturais propostas por Haussmann foi a chamada rede de percées [aberturas], que, ao mesmo tempo, cortava a cidade e conectava as grandes intervenções monumentais. Nesse sentido, a proposta revelava um tríplice objetivo: “revalorizar os monumentos, isolando-os e criando conexões visuais entre eles; acabar com a insalubridade e a degradação; e criar uma imagem de modernidade – amplidão e luz, circulação entre estações de trem e entre bairros”.74 Para tanto, o interventor rasgou os tecidos consolidados da capital por todas as direções, demolindo o antigo casario e vielas consideradas insalubres, que dariam então lugar a longas e largas avenidas, a exemplo da Avenue de l’Opéra

71 ROSSI, 1998, p. 167.

72 LAMAS, 2003, p. 172.

73 Ibidem, p. 176.

74 PANERAI, CASTEX e DEPAULE, 2013, p. 14.

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(Figura 11), em cuja extremidade seria construído o ícone do ecletismo mundial, a famosa Ópera de Garnier.

Figura 11: Percurso da abertura da Avenue de l’Opera

Fonte: <http://www.paris-unplugged.fr/le-percement-de-lavenue-de-lopera>

O século XIX também foi marcado, por outro lado, pelas tentativas contrárias à busca da tradição clássica. Diversas experiências arquitetônicas e urbanísticas, a exemplo das cidades-jardim de John Nash, derivaram de uma reinterpretação espacial inspirada na espontaneidade pitoresca das cidades medievais e da arquitetura vernacular.75 Sob esse prisma, haveria uma preferência pelo traçado urbano heterogêneo, que promovesse percursos com maior riqueza de quadros visuais, em detrimento daquele subordinado à regularidade geométrica, então considerada monótona. A ênfase, nesse sentido, reside na experiência da paisagem urbana, enriquecida pela diferenciação dos espaços principais, pela hierarquia das partes, bem como pela noção de continuidades e contrastes. Partindo dessa perspectiva, diversos autores têm se debruçado sobre a análise visual da cidade e ressaltam como o traçado urbano influencia na apreensão de sua forma:

Ele (Gordon Cullen) mostra, por exemplo, como nosso percurso por uma rua retilínea e com arquitetura repetitiva é uma experiência muito menos rica e excitante do que o percurso de uma rua sinuosa e com diversos apelos visuais. Sob este prisma, o conceito de

"pitoresco" seria resultante da organização de formas onde a sucessão de diferentes planos visuais de um percurso sofressem fortes rupturas em distâncias relativamente pequenas, enquanto o "monumental" seria a disposição de quadros visuais relativamente idênticos num percurso longo e que, por isto, torna-se monótono.76

Nesse contexto, a preocupação de Camillo Sitte com a estética das cidades modernas o fez estudar as variações da paisagem urbana na sucessão de praças que caracterizavam as cidades medievais.77 O arquiteto e historiador vienense buscou nos modelos do passado padrões compositivos que

75 PANERAI, CASTEX e DEPAULE, 2013, p. 180.

76 DEL RIO, Vicente. Introdução ao desenho urbano no processo de planejamento. São Paulo: Pini, 1990, p. 88.

77 PANERAI, 2006, p. 29.

1. A narrativa da cidade

37 pudessem facilitar a construção das cidades segundo seus princípios artísticos (Figuras 12 e 13). Para ele, não haveria outro meio de combater “a insidiosa doença da inflexível regularidade geométrica”

senão reconquistar a liberdade de concepção dos mestres antigos e recorrer aos princípios criativos das épocas em que a prática artística ainda era uma tradição.78

Figura 12: A Rua das Pedras em Bruges. Camillo Sitte revisto por Camille Martin. 1) A Grand’ Place; 2) a Rua das Pedras;

3) a Praça Stevin; 4) a catedral Figura 13: Agrupamento de praças, por Camillo Sitte

Fontes: PANERAI, 2006, p. 27; <https://archiwright.files.wordpress.com/2016/11/sitte-piazzas.jpg?w=924>

Não caberia afirmar que a configuração de uma cidade é fruto de um desenvolvimento orgânico ou racional com base tão somente em seus esquemas geométricos. Esses termos não servem em absoluto para compreender os fatos urbanos e, muitas vezes resultam em interpretações históricas controversas.79 Admite-se, contudo, que é fundamental reconhecer os valores intrínsecos a cada esquema em particular, bem como as forças que atuam em sua formação, tanto na dimensão planimétrica quanto na dimensão da paisagem urbana.