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2. CAMINHO TEÓRICO-METODOLÓGICO DA PESQUISA

2.2. O TRABALHO COM AS FONTES E PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE

Astransformações ocorridas no campo da pesquisa histórica após a segunda metade do século XX, geraram um fenômeno conhecido como "crise de paradigmas” 9, que fez surgir a defesa do pluralismo epistemológico e temático, passando-se, com isso, a privilegiar os estudos dos objetos singulares. Paolo Nosella e Ester Buffa (2005) chamam atenção para os aspectos positivos dessas mudanças, com destaque para ampliação das linhas de pesquisa, para a diversificação teórico-metodológica e para a utilização de variadas fontes de pesquisa.

Esses autores chamam também atenção para as críticas de alguns estudiosos sobre a fragmentação epistemológica e temática, que pode dificultar a compreensão da totalidade dos fenômenos sociais. Nessa direção, Nosella e Buffa (2005) percebem que no campo da educação houve uma ampliação de temas e objetos de estudos com destaques para a cultura escolar, formação de professores, livros didáticos, disciplinas escolares, currículo, práticas educativas, questões de gênero, infância e instituições escolares, dentre outros. E, para fundamentar essas pesquisas, privilegiou-se a nova história (história cultural), a nova sociologia e a sociologia francesa como caminhos teórico-metodológicos ou matrizes.

Houve também um alargamento das fontes e uma compreensão mais ampla do que seria documento histórico. Esse processo de transformar fontes em documentos ocorre por uma relação direta entre passado e presente, entre as fontes e as intenções do pesquisador, pois, segundo Michel de Certeau (1982), a produção ou operação histórica deve considerar que “uma leitura do passado, por mais controlada que seja pela análise dos documentos é sempre dirigida por uma leitura do presente”, ou seja, parte sempre do interesse de um pesquisador “conformadas por premissas, quer dizer, por ‘modelos’ de interpretação ligada a uma situação do presente” (CERTEAU, 1982, p. 34). Isso significa, de acordo com Certeau, que o discurso

9Segundo Nosella e Buffa (2005), alguns críticos veem nessa crise paradigmática um largo movimento

histórico “não pode ser desligado de sua produção, tampouco o pode ser das práxis política, econômica ou religiosa, que muda as sociedades e que, num momento dado, torna possível tal ou qual tipo de compreensão científica” (CERTEAU, 1982, p. 41).

Considerando que na relação com o presente e com o futuro os documentos do passado ao serem analisados qualitativamente ajudam-nos a compreender as experiências humanas e os significados construídos, faz-se necessário partir deles para compreender o fenômeno educacional, no sentido mais amplo, a fim de construir um discurso histórico válido, pois, como bem postulou Michel de Certeau (1982), a pesquisa histórica é uma operação que produz uma

prática e um discurso a partir da análise de documentos.

Jacques Le Goff (1990) adverte que é preciso ampliar a sentido de documento para além de textos escritos, ultrapassando os limites da historiografia tradicional de Fustel de Coulanges (1830-1889). Para Coulanges, não era possível fazer história sem documentos escritos, porém, essa visão começou a mudar principalmente depois da afirmação do historiador Lucien Febvre (1878-1956) de que, realmente, a história se faz com documentos escritos, mas, se eles não existirem, pode ser escrita com outras fontes.

Ao defenderem que a pesquisa histórica pode ser feita com outras fontes, os historiadores alargaram o conceito de documento para além dos textos escritos. Segundo Le Goff (1990), se a história tradicional reduzia as fontes “aos textos e aos produtos da arqueologia, de uma arqueologia muitas vezes separada da história” (LE GOFF, 1990, p.10), as mudanças ocorridas possibilitaram o avanço do conceito de documento, que chega hoje a abranger vários outros objetos como a palavra e o gesto. Ao compreender que os documentos não se restringem unicamente aos textos escritos, cabe ao pesquisador, segundo Michel de Certeau (1982), a missão de transformar os objetos dispersos em documentos e dar-lhes um estatuto de fonte histórica transformando tais objetos e documentos históricos. Para este autor:

Tudo começa com o gesto de separar, de reunir, de transformar em "documentos" certos objetos distribuídos de outra maneira. Esta nova distribuição cultural é o primeiro trabalho. Na realidade, ela consiste em produzir tais documentos, pelo simples fato de recopiar, transcrever ou fotografar estes objetos mudando ao mesmo tempo o seu lugar e o seu estatuto (CERTEAU, 1982, p. 81).

Sabendo que é papel do pesquisador transformar os objetos em documentos, quais critérios e procedimentos devem ser adotados? Para Rodrigues e França (2010) devem-se

utilizar na pesquisa documental materiais encontrados nos mais diferentes lugares, que não receberam ainda um tratamento analítico ou que já receberam, mas que podem passar por novas análises. Dentre estes materiais, as autoras citam: livros, revistas, correspondências, diários, noticiários de rádio, televisão, filmes, material da internet, produções iconográficas, testemunhos orais, dentre tantos outros.

Para o trabalho com essas variadas fontes é preciso considerar, de acordo com Le Goff (1990), que todo documento é parcial, ou seja, não é neutro, “não é um material bruto, objetivo e inocente, mas exprime o poder da sociedade do passado sobre a memória e o futuro” (LE GOFF, 1990, p. 10). Portanto, todo documento é um monumento e deve ser desestruturado e desmontado pelo pesquisador. Assim,

O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é "falso", avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo. Os documentos só passam a ser fontes históricas depois de estarem sujeitos a tratamentos destinados a transformar a sua função de mentira em confissão de verdade (LE GOFF, 1990, p. 10- 11).

Rodrigues e França (2010) recomendam que “o pesquisador deve submeter o documento a uma análise rigorosa e contextualizada”, mas com certa dose “de paciência para se evitar conclusões precipitadas”. Além disso, apontam que a coleta de dados e as análises devem estar “diretamente relacionada às necessidades impostas pela construção do objeto de estudo” (RODRIGUES; FRANÇA, 2010, p. 62).

Para esta tese, situada no campo da história da educação, cujo objetivo é analisar o projeto educativo do Bispo D. Antônio de Macedo Costa enquanto prática social e discursiva, localizado nos meandros das disputas econômicas e ideológicas encampadas pelos grupos que tentavam impor os seus valores e domínio a fim de civilizar a Amazônia oitocentista, optei por um conjunto de fontes capazes de revelar a complexidade desta realidade: jornais; imagens; relatórios e falas dos presidentes da Província do Pará; ofícios e outros documentos produzidos por autoridades do governo imperial; ofícios e outros documentos produzidos por autoridades do governo provincial; textos de autoria do Bispo D. Antônio de Macedo Costa (alocuções, memória, discursos, ofícios, portarias, pastorais, cartas, instruções pastorais, artigos, livros); textos de autores adotado pelo Bispo D. Antônio de Macedo Costa; textos de autores contemporâneos ao Bispo D. Antônio de Macedo Costa, que fazem referência a ele; textos de

autores que discutem o contexto histórico da Amazônia oitocentas, especialmente aqueles que tratam da segunda metade do século XIX; textos de autores que já pesquisaram sobre a vida e obra do o Bispo D. Antônio de Macedo Costa.

Os jornais foram contemplados como fontes porque abrigam uma significativa gama de informações sobre o Bispo D. Antônio de Macedo Costa, principalmente durante o seu episcopado. As matérias utilizadas englobam notícias positivas, que elogiam ou informam sobre seu trabalho, e notícias negativas, que criticam suas ações.

As notícias positivas sobre o Bispo e seu programa romanizador foram publicadas principalmente nos jornais criados por ele: A Estrela do Norte (1863-1869) e A Boa Nova (1871-1883). As notícias veiculadas pelo partido conservador, que de certa forma apoiava as inciativas de D. Antônio de Macedo Costa, como o Jornal do Pará (1867 a 1878) e A

Constituição (1874-1886), também seguem essa perspectiva positiva.

A localização e o manuseio dessas fontes e de outras, também publicadas na segunda metade do século XIX, se deu com a ajuda de uma ferramenta muito importante nos dias atuais, a internet. Todos esses jornais e outras fontes também publicadas na segunda metade do século XIX, como por exemplo, várias obras de autoria do D. Antônio de Macedo Costa, estão disponíveis para consulta em formado JPEG e PDF em sites específicos, que digitalizaram todo esse material com objetivo de facilitar o trabalho dos pesquisadores.

Os jornais paraenses do século XIX e primeiras décadas do XX, como os que foram usados nesse estudo, foram digitalizados pela Biblioteca Nacional Digital Brasil e estão disponíveis para consulta em formado JPEG no seu site http://bndigital.bn.gov.br/, no link

Hemeroteca Digital (http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/). Nesse mesmo endereço,

encontram-se também os jornais que faziam oposição ao Bispo D. Antônio de Macedo Costa, como O Liberal do Para (1869 a 1889), O Santo Ofício (1872 a 1880) e O Pelicano (1873 a 1874).

Na sua grande maioria, as imagens usadas neste estudo são fotografias. Duas são imagens raras do Bispo D. Antônio de Macedo Costa, localizadas no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, onde ele aparece vestido com todo indumentário de Bispo. As demais, são imagens de Igrejas e Conventos que abrigaram os Seminários e Colégios na gestão de D. Antônio de Macedo Costa. Essas imagens também foram reproduzidas de em sites e blogs.

Os relatórios e falas dos presidentes da Província do Pará são documentos significativos, que revelam informações importantes sobre a realidade amazônica, porque neles os governantes que saiam informavam para os seus sucessores e para a Câmara dos Deputados o que realizaram e como deixavam administrativamente a Província. Eram informações sobre as finanças, transporte, agricultura, saúde, religião, educação, entre outros. Nesses documentos também são publicados ofícios, portarias e leis aprovadas que deveriam regular a vida social na Província. O acesso e manuseio dessas fontes também foram facilitadas porque se encontram em formato

JPEG e PDF, no site Center for Research Libraries Global Resources Network: http://www.crl.edu/brazil/provincial/par%C3%A1. Nesse site estão disponíveis os relatórios dos presidentes da Província do Pará, de 1833 a 1889, e também as Mensagens dos governadores do Pará, após a proclamação da República até 1930.

Os ofícios e outros documentos produzidos, tanto pelas autoridades do governo imperial como por autoridades do governo provincial, foram localizados em jornais, nos relatórios dos Presidentes da Província do Pará e no livro de 1939 de D. Antônio de Almeida Lustosa, religioso que escreveu sobre a vida e obra de D. Antônio de Macedo Costa.

Os textos de autoria do Bispo D. Antônio de Macedo Costa, como as alocuções, memória, discursos, ofícios, portarias, pastorais, cartas, instruções pastorais, artigos, foram publicados nas folhas diocesana A Estrela do Norte e A Boa Nova e no livro de D. Antônio de Almeida Lustosa, de 1939. O discurso que D. Antônio de Macedo Costa fez durante a inauguração da Biblioteca Pública da Província do Pará, em 1871, e que foi publicado no mesmo ano, encontra-se copiado e devidamente guardado no Arquivo Público do Estado do Pará. Os livros escritos por D. Antônio de Macedo Costa usados nesse estudo – o Direito contra

o Direito (1875), Amazônia, meio de Desenvolver sua Civilização (1883), Deveres da Família

(1877) e Compêndio de Civilidade Cristã (1880) – estão disponíveis em formato formado JPEG e PDF, no Setor de Obras Raras na Biblioteca Arthur Vianna, Belém-Pa.

Os textos de outros autores que foram adotados pelo Bispo, encontram-se publicados nos jornais da Diocese, com a exceção do Catecismo do Pará (1870). Este não foi uma obra de autoria do Bispo, mas ele foi responsável por sua organização, publicação e divulgação. Muito usado na Diocese do Pará, seu conteúdo era compatível com as ideias e princípios defendidos pelo Bispo do Pará. A cópia utilizada nesse estudo encontra-se na Biblioteca Arthur Vianna, no Setor de obras Raras. A obra Constituições e Regras do Instituto Religioso das Irmãs Mestras

de Santa Dorotéia (1851), de autoria de Paula Frassinetti, fundadora do Instituto da Irmãs

Mestras de Santa Dorotéia, usada para orientar as atividades no Asilo e Colégio criados por D. Antônio de Macedo Costa, encontra-se em formato impresso na Biblioteca do Colégio Santo Antônio, cidade de Belém-Pa.

Os textos de autores contemporâneos do Bispo D. Antônio de Macedo Costa, fazendo referência a ele e ao seu trabalho, foram localizados nos jornais do partido conservador e nos jornais dos maçons e liberais. Já os textos de autores que discutem o contexto histórico da Amazônia oitocentista, especialmente aqueles que tratam da segunda metade do século XIX, foram encontradas no formato de livro, disponíveis em bibliotecas públicas e arquivos localizados na cidade de Belém-Pa.

Os textos de autores que já pesquisaram sobre a vida de obra do o Bispo D. Antônio de Macedo Costa, também foram encontrados no formato impresso, como é caso do livro de D. Antônio de Almeida Lustosa (1939), e no formato PDF, como é o caso de teses e dissertações, disponíveis nos sites dos Programas de Pós-Graduação. Para chegar a esses estudos, fiz, inicialmente, o estado da arte para identificar quantos e quais trabalhos já haviam sobre o Bispo do Pará D. Antônio de Macedo Costa.

Comecei a busca no banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento

de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e, em seguida, nos sites dos programas de pós-graduação

de universidades brasileiras e em diversos arquivos e bibliotecas públicas. Nessa busca, cheguei ao Arquivo Nacional e Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde me deparei com duas fotografias do Bispo do Pará e com algumas obras que fazem parte da vasta produção literária de D. Antônio de Macedo Costa.

No decorrer do levantamento de dados para a pesquisa, fui encontrando e adquirindo várias obras de autoria do Bispo, assim como alguns trabalhos já publicados sobre ele. Dessa lista de obras que discutem o Bispo do Pará, identifiquei como o primeiro trabalho o livro Dom

Macedo Costa (Bispo do Pará) escrito pelo também Bispo do Pará D. Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974) e publicado em 1939. Está obra foi reeditada em 1992 pela Secretária de

Cultura do governo do Pará. Nesse trabalho biográfico, D. Lustosa queria que “o ínclito D. Antônio de Macedo Costa não ficasse no esquecimento”, pois, para ele, o Bispo do Pará fora “incontestavelmente a glória de súbito valor do episcopado brasileiro”, um personagem que não deveria desaparecer da memória dos seus patrícios. A intenção de D. Lustosa era “prestar justa

homenagem ao grande bispo do Pará” como forma de “agradecimento desta terra que ele tanto amou pela qual tanto sofreu e da qual não recebeu ainda a homenagem de gratidão devida” (LUSTOSA, 1992, p. 8).

Para escrever sobre D. Antônio de Macedo Costa, o biográfico D. Lustosa, valeu-se várias fontes escritas e orais (de pessoas que durante a infância tiveram a oportunidade de conviver com D. Antônio de Macedo Costa), para produzir uma narrativa rica de informações históricas que podem ajudar a elucidar aspectos da vida e obra desse intelectual da Igreja Católica romana do século XIX. Nesse sentido, o livro de D. Lustosa se configura como importante fonte de pesquisa porque, além de conter informações retiradas de fontes primárias, apresenta também vários textos de autoria do próprio D. Antônio de Macedo Costa e de pessoas e instituições que com quem ele interagiu.

O segundo texto que trata de D. Antônio de Macedo Costa é um livreto publicado em 1941, em comemoração ao cinquentenário de sua morte, onde há informações importantes sobre sua vida e atuação na Diocese do Pará. Os demais textos levantados, foram publicados somente no início do século XXI, já no âmbito dos programas de pós-graduação das universidades públicas brasileiras.

A primeira pesquisa acadêmica sobre D. Antônio de Macedo Costa foi escrita por Karla Denise Martins, intitulada O Sol e a Lua em tempo de eclipse: a reforma católica e as questões

políticas na Província do Grão-Pará (1863-1878), publicada em 2001, no Programa de Pós-

graduação em História da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Trata-se de uma dissertação de mestrado na perspectiva da história política, que procura explicar a relação entre Igreja, Estado e Sociedade na visão de alguns bispos católicos brasileiros do século XIX, com destaque para a crise ocorrida devido à interferência do poder civil no poder eclesiástico. No centro da discussão entre Igreja e Estado na segunda metade do século XIX, Martins (2001) destaca a figura do Bispo do Pará D. Antônio de Macedo Costa, que se envolveu diretamente na “questão religiosa” e na discussão de temas como ciência, progresso e civilização na Amazônia, além do projeto ultramontano (romanizador) que defendeu em contraposição ao projeto liberal de modernização da Amazônia.

Nesse estudo, Martins (2001) concluiu que o clero paraense tinha projetos claros para modificar os comportamentos e os sentimentos da população do Norte do Brasil, e que o envolvimento do Bispo do Pará no debate nacional sobre a secularização demonstrava que o

clero brasileiro era uma ala importante nas discussões sobre as mudanças sociais, na passagem do Império à República. Também aponta que a releitura das fontes e as descobertas de outras podem redirecionar as explicações sobre a história da Igreja brasileira.

Em tese também defendida por Karla Denise Martins em 2005, esta amplia o estudo iniciado na dissertação com a pesquisa intitulada Cristóforo e a Romanização no Inferno Verde:

as propostas de D. Macedo Costa para civilizar a Amazônia (1860-1890). Neste estudo a autora

tinha como objetivo analisar a produção intelectual de D. Antônio de Macedo Costa, com ênfase às suas ideias sobre relações familiares, políticas e religiosas para entender os significados construídos sobre a Amazônia como modelo de sociedade católica.

Martins (2005) destacou o debate de D. Antônio de Macedo Costa na imprensa oitocentista, principalmente contra liberais e maçons, além de tratar de seus projetos agrícolas e extrativistas para desenvolver economicamente a região amazônica. A autora chegou à conclusão de que o pensamento ultramontano de alguns católicos não pode ser interpretado como antimoderno, ou seja, atrasado e conservador, porque alguns clérigos, como o Bispo D. Antônio de Macedo Costa, “pensavam não só a conservação de velhos valores, mas a utilização das mudanças de seu tempo para ampliar e consolidar o próprio catolicismo” (MARTINS, 2005, p. 203).

Martins (2005) defende que a modernidade era entendida por D. Antônio de Macedo Costa como uma tensão entre o transitório e a tradição porque colocava os vultos gregos (como Platão e Aristóteles) e teólogos (como São Paulo, Tomás de Aquino e Santo Agostinho) em diálogo com os autores que emergiam no debate e no discurso moderno, como Fénèlon,

Lacordaire, Lamennais, Rousseau, entre outros. Portanto, o uso do termo “ultramontano” com

o sentido de atrasado não deveria ser associado ao Bispo do Pará e a vários romanizadores porque, segundo Martins, o significado de reforma católica que eles defendiam “não estava dissociada das relações sociais que se estabeleceram com o desenvolvimento do pensamento moderno” (MARTINS, 2005, p. 203-204). Nos textos de Karla Denise Martins (2002, 2005) o tema educação em D. Antônio de Macedo Costa foi secundarizado, tendo em vista que o foco de seu estudo era a história política, com ênfase nas ideias romanizadoras para reformar o catolicismo na Diocese do Bispo do Pará.

A segunda pesquisa acadêmica sobre D. Antônio de Macedo Costa foi escrita por Fernando Arthur de Freitas Neves e defendida no Programa de Pós-graduação em História, da

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em sua tese, defendida em 2009, com o título Solidariedade e conflito: Estado Liberal e Nação Católica no Pará sob o pastorado

Dom Macedo Costa (1862-1889), Neves buscou elucidar a relação entre a Igreja Católica na

Amazônia, o Estado e o Episcopado Nacional durante o pastorado do Bispo D. Antônio de Macedo Costa, para entender como os bispos brasileiros na aurora da República, completamente desprovidos de recursos para a continuidade da proposição católica, se articularam para reaver as edificações, como igrejas, capelas, conventos e colégios, pois, graças a eles, a Igreja conseguia se manter viva nos corações e mente dos fies.

Neves (2009) inicia sua tese fazendo as seguintes indagações: queria a Igreja separa-se do Estado? Queria o Estado separar-se da Igreja? E responde afirmando que era impossível reconhecer na hierarquia da época uma resposta positiva para esse dilema, tendo em vista o vendaval de forças mobilizadas para a Igreja permanecer na direção das almas e das instituições afeitas ao serviço espiritual e civil que vinha desenvolvendo. Segundo Neves, embora alguns clérigos brasileiros tenham defendido um modelo de estado liberal, a exemplo do que aconteceu em outros estados nacionais como Inglaterra, EUA, França, nem por isso deve-se supor que