• Nenhum resultado encontrado

O trabalho com a escrita em um projeto de letramento

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.2 CONTRIBUIÇÕES DOS ESTUDOS DE LETRAMENTO

3.2.2 Projetos de letramento e práticas de escrita

3.2.2.1 O trabalho com a escrita em um projeto de letramento

A execução de um projeto de letramento conduz os alunos a realizarem práticas

de escrita para a resolução do problema que enfrentam em seu contexto social. É pensando nesse problema que os participantes do projeto elaboram estratégias para

solucioná-lo. A prática de escrita, nesse caso, é a ferramenta pela qual os estudantes agem a fim de que mudanças necessárias possam acontecer na escola, na universidade ou em seu entorno. Escreve-se não para aprender a escrever somente, mas para atingir outros objetivos, provocar mudanças.

Devido a isso, a prática de escrita, em um projeto de letramento, pode acontecer

tanto na sala de aula quanto em outros espaços, dependendo dos rumos do projeto. O que não pode acontecer é que as tarefas em torno da escrita tenham objetivos

circulares: escrever uma carta argumentativa para provar ao professor que aprendeu esse gênero discursivo. Em um projeto de letramento, o aluno escreve para agir no meio social em que vive.

Na prática de escrita, os aspectos discursivos, além dos linguístico-textuais, são colocados em discussão, já que o fato de os alunos escreverem como resposta a um problema vivencial faz com que interajam com outros sujeitos sociais e não unicamente com o professor. No caso da escrita da carta argumentativa, foi necessário inserir os alunos numa discussão em torno não só da estrutura composicional da carta, mas também, e antes disso, do que se entende por defesa de um ponto de vista sustentado por argumentos.

Outra questão importante a ser debatida foi o estabelecimento de interlocução entre o escrevente e seu destinatário, visto que a carta argumentativa é escrita para uma pessoa específica ou para um grupo determinado de pessoas. Percebe-se, nesse caso, que a construção composicional é tratada como um dos assuntos entre tantos outros relacionados à aprendizagem do gênero discursivo.

Outro aspecto que diferencia a prática de escrita gerada em projeto de letramento é que, em vez de o gênero ser o eixo norteador no ensino da carta, a situação comunicativa é a responsável por orientar as práticas de escrita e, portanto, a escolha do gênero não é feita a priori, como ocorre, por exemplo, nas sequências didáticas em geral.

As práticas de escrita são planejadas e executadas por professor, alunos e demais participantes para que possam ser realizadas as ações sociais que funcionam como a razão de ser do projeto. Em sendo assim, em um período de eleições para reitor e vice- -reitor de uma universidade, escrever uma carta argumentativa para os candidatos, a fim de que se disponham a debater temas importantes em um contexto universitário específico, possibilita o exercício da cidadania, por parte do aluno, na universidade em que está construindo sua formação profissional.

Para tanto, não basta aprender os conteúdos teóricos e práticos das disciplinas em que o curso está dividido. É necessário também aprender a votar conscientemente, e a universidade pode ser um espaço para esse tipo de aprendizado.

Conduzir o aluno a lançar um olhar crítico sobre o estado em que se encontra sua universidade, num momento de eleições, e, em tal contexto, levá-lo a pensar e a agir significativamente por meio da escrita são orientações que fazem o ensino dessa modalidade da língua responder a demandas urgentes da vida dos alunos. Estes, então, são sujeitos escreventes, pois fazem uso da escrita para agir no mundo e escrevem de acordo com as demandas de uma dada situação comunicativa e suas respectivas possibilidades de ação social.

Na prática de escrita, o trabalho com o texto se desenvolve numa dimensão mais social, pois as ações de linguagem são realizadas de maneira mais colaborativa. Isso significa que nem sempre é necessário que todos os alunos conheçam todos os recursos

dos quais precisam fazer uso para realizar a contento as atividades de escrita. O importante é agirem colaborativamente pensando na ação coletiva, nas possíveis

consequências das ações desenvolvidas pelo grupo envolvido na execução do projeto. Desse modo, os participantes do projeto precisam estar atentos às situações comunicativas que o compõem e aprendem, inclusive, a avaliar estrategicamente os gêneros que delas emergem, ou seja, os gêneros que serão trabalhados a fim de se realizar uma ação social importante. Por essas razões, os gêneros não são escolhidos a

gêneros necessários para efetivar as ações sociais que são alvos do projeto de letramento.

Esse modo de dar lugar ao gênero discursivo no ensino da escrita argumentativa se dá por meio da imersão dos alunos no gênero. Aprender o gênero não significa conhecer apenas suas características formais, mas conhecê-los imergindo neles, ou seja, realizando uma determinada ação social e vivenciando, na prática da escrita, as maneiras pelas quais essa ação solicita lançar mão de formas relativamente estáveis para que determinados objetivos possam ser alcançados pelo sujeito social escrevente.

Nesse sentido, a aprendizagem não é somente sobre o gênero, mas, sim, com o próprio gênero. Este é entendido conforme as reflexões de Bakhtin ([2003] 2011) acerca dos chamados tipos relativamente estáveis de enunciados, isto é, como enunciados que refletem as condições e as finalidades de uma dada esfera da atividade humana por meio de seu conteúdo temático, de seu estilo e também de sua construção composicional.

Acrescente-se a isso, a ideia de que vivenciar as ações que resultam e que são esperadas do trabalho com o gênero discursivo pode causar uma ampliação do tempo e do espaço de aprendizagem, pois podem ser estendidos para além da sala de aula e do horário comumente destinado às aulas de escrita. Tudo isso depende das ações que compuserem o projeto de letramento.

O fato de o projeto de letramento estar relacionado a um propósito ou a um conjunto de propósitos a serem alcançados faz com que a atividade de escrita nele realizada tenha determinados aspectos. Tomando por base a análise feita anteriormente no que tange às ações constituintes de um projeto desse tipo, os textos nelas observáveis e o seu caráter voltado necessariamente para o aluno ou para outros sujeitos, pontuemos os aspectos que singularizam a atividade de escrita nos projetos de letramento.

Quadro 2 – Visão orgânica da prática de escrita no projeto de letramento

Fonte: Acervo da pesquisa (2015)

De acordo com o quadro 2, o trabalho com a prática de escrita em um projeto de letramento leva em consideração o caráter situado da escrita. A situação comunicativa, nesse caso, tem papel importante, pois é a partir dela que os agentes envolvidos no projeto de letramento podem realizar ações sociais demandadas a partir da escrita.

A situação comunicativa é norteadora das atividades e tarefas que dão corpo ao projeto. Os gêneros pelos quais os participantes agem são estudados levando-se em conta aspectos discursivos, bem como aspectos linguístico-textuais e ortográficos. Esse estudo, pelo fato de servir à execução de um projeto de letramento, não é organizado com vistas a fazer com que o aluno assimile apenas, por exemplo, a construção composicional de um dado gênero. Indo além da aprendizagem da forma, o aluno aprende o gênero para agir no mundo.

Assim, a escrita funciona como tecnologia para o alcance de objetivos que extrapolam o espaço da sala de aula e a necessidade de se obter nota satisfatória. Os alunos, o professor e os demais participantes do projeto são, desse modo, agentes de letramento, pois suas ações por meio da escrita são caracteristicamente estratégicas, ou seja, planejadas e concretizadas em função dos propósitos estabelecidos que dão contornos específicos ao projeto. Além disso, devido às ações extrapolarem os limites da sala de aula, ocorre uma ampliação do tempo/espaço de aprendizagem na qual os

agentes estão envolvidos. O trabalho com prática de escrita evidencia, portanto, uma ressignificação do ensino da modalidade escrita da língua.

Conforme vimos até aqui, o trabalho com os projetos de letramento se apoia em um aporte teórico-metodológico advindo da construção de saberes de forma mais horizontal. Nessa perspectiva, o conceito de “comunidade de aprendizagem” se destaca. Vejamos por quê.