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O trabalho da alteridade – percebendo o outro

CAPÍTULO 3 – Competência intercultural Didática e formação

3.3 O tripé dos princípios interculturais

3.3.2 O trabalho da alteridade – percebendo o outro

Nos dias de hoje, a questão não é mais ‘conhecer a cultura do outro’, mas poder interagir socialmente com ele. Assim, as culturas constituem-se espaços emergentes de interação e de intercompreensão entre os indivíduos e as culturas. Como integrar então a

experiência da alteridade em sala de aula de LE? Um dos motivos principais na

elaboração e experimentação de um dispositivo didático que contemplasse uma perspectiva intercultural no ensino e aprendizagem de FLE foi justamente o de responder a essa questão, que será aprofundada no Capítulo 4 deste trabalho.

A alteridade compõe-se das noções de diferença, de identidade e de relação. Na verdade, o confronto com a alteridade permite que o eu construa sentido, invente-se e conscientize-se da sua própria alteridade (Kristeva, 1994); por esse motivo ela poder ser externa ou interna a este eu, o que leva a deduzir que a identidade e a alteridade não são noções estáveis, mas mutantes, múltiplas e em movimento.

A relação com a alteridade tornou-se um assunto irreversível para a compreensão do mundo, onde não só as trocas e a circulação de bens e capitais, mas também de indivíduos, grupos, idéias, informação, projetos de vida, dentre tantos outros itens, intensificaram-se dia após dia. No processo dialético da identidade e da alteridade, i.e., das relações entre ‘eu’ e ‘outro’, entre ‘eles’ e ‘nós’, entre o ‘familiar’ e o ‘estrangeiro’, as transformações, tentativas de integração e aceitação da diferença nem sempre são bem sucedidas e não acontecem sem algumas rupturas e crises, não obedecendo a uma somatória sucessiva, seja de rejeição, superação ou de aceitação, seja de abertura ou restrição. Tais dificuldades face à alteridade revelam o traço natural de etnocentrismo do ser humano. Por etnocentrismo, tomamos a definição de Ladmiral e Lipiansky (1989):

O etnocentrismo é inerente a qualquer afiliação a um grupo sociocultural, étnico ou nacional. É correlativo ao mecanismo de distinção que separa o seu do meu, os próximos e os estrangeiros, as “pessoas daqui” e as “pessoas de fora”. [...] Assim, o etnocentrismo é tanto um traço cultural universalmente difundido, quanto um fenômeno psicológico de natureza discriminativa em que qualquer percepção é feita através de uma "grade de leitura" elaborada inconscientemente a partir do que nos é familiar e de nossos próprios valores; esta grade opera um tipo de seleção e

traduz o que é diferente na nossa linguagem habitual, reinterpretando, portanto, a alteridade no registro do mesmo ou, rejeitando-o.124( Ladmiral e Lipiansky, 1989:137-138)

O objetivo da abordagem intercultural não é de identificar o outro fechando-o dentro de uma rede de significações, nem de estabelecer uma série de comparações com base em uma escala etnocêntrica. Metodologicamente, concentra-se mais atenção nas relações que o ‘eu’ (individual ou coletivo) mantém com o outro do que nesse outro propriamente dito (procedimento da etnologia). Assim, dentro dos parâmetros interculturais, a alteridade não é mais um fenômeno objetivo que tenta-se descrever, mas uma relação dinâmica entre duas entidades que constroem sentido mutuamente (Abdallah- Pretceille, 2005).

Ora, no confronto com a alteridade os membros de uma comunidade procuram, antes de mais nada, o prazer do reencontro consigo mesmo e a permanência de sua visão de mundo (Zarate, 1986). A sala de aula torna-se então um local privilegiado onde esses mecanismos podem ser questionados, onde outros modos de relação entre as culturas de origem e a estrangeira podem ser propostos, onde paradigmas de uma visão de mundo etnocêntrica e hegemônica podem ser postos de lado em favor de uma percepção e conscientização de um mundo cada vez mais plural, onde as culturas devem buscar um diálogo conciliador e transformador, valorizando a aproximação, sem precisar abrir mão de suas diferenças.

No artigo “A Celebração do Outro”, de Maria José R. F. Coracini (2003), a autora confirma a importância desse encontro com o outro no espaço de aula de língua estrangeira:

os estudantes e professores de uma língua estrangeira constituem sujeitos irreversivelmente afetados pela alteridade, bem como pelo estranhamento de si (do eu) que os constitui diante do outro mais ou menos desconhecido, com quem se identificam (de maneira positiva ou negativa). O contato com outras línguas e, portanto, com outras culturas favorece a percepção do estrangeiro que nos habita (Kristeva, 1988), pois esse contato provoca o retorno sobre si

124 No original: « L'ethnocentrisme est inhérent à toute affiliation à un groupe socio-culturel, ethnique ou

national. Il est corrélatif du mécanisme de distinction qui sépare le tien du mien, les proches et les étrangers, les "gens d'ici" et les "gens d'ailleurs". [...] Ainsi l'ethnocentrisme est à la fois un trait culturel universellement répandu et un phénomène psychologique de nature discriminative qui fait que toute perception se fait à travers une "grille de lecture" élaborée incosciemment à partir de ce qui nous est familier et de nos valeurs propres; cette grille opère une sorte de sélection et traduit ce qui est différent dans notre langage habituel en réinterprétant donc

mesmo, sobre sua própria cultura, criando, assim, um espaço para o questionamento da univocidade e da homogeneidade aparentes e ilusórias que caracterizam todo discurso e com maior razão ainda o discurso de sala de aula.(Coracini, 2003:198)

Para aprender uma LE, é preciso que haja um certo interesse por culturas distintas da sua própria, um interesse em ver o que se pode aprender com as outras culturas. Com o modelo intercultural, atualmente busca-se conhecê-las tal como são, deixando-se para trás o ranço do modelo colonialista, que procurava modificar as culturas não dominantes de modo a torná-las o mais próximo possível das culturas dominadoras.

Para cada indivíduo existe a dificuldade de aceitar a diferença, de explorá-la e de torná-la parte do seu processo de aprendizagem. Como constata C. Revuz (2001):

Aprender uma língua é sempre, um pouco, tornar-se um outro. (...) É fazer a experiência de seu próprio estranhamento no mesmo momento em que nos familiarizamos com o estranho da língua e da comunidade que a faz viver. Há muitas maneiras de eludir essa experiência, porém não será sempre entregar-se a um duplo desconhecimento: desconhecimento do Outro, da alteridade e desconhecimento de si e do próprio estranhamento? (Revuz, 2001:229)

De fato, seria ingênuo pensar que é possível compreender plenamente o outro, como também constataram Fenner e Newby (2000). Não conseguimos nem mesmo compreender a nós mesmos, nem nossa própria cultura. Conhecer outras línguas e outras culturas não garante uma compreensão melhor do outro, como também não garante que a compreensão mútua será melhor. São ferramentas necessárias, mas não são suficientes. Vivemos impregnados de atitudes etnocêntricas, por mais paradoxal que isto possa parecer em um mundo cercado de tecnologia inovadora, implementando recursos para aproximarem mais as pessoas ou, pelo menos, fazerem-nas comunicarem-se mais e encurtarem as distâncias entre elas.

Aceitar o outro, com todas as suas incoerências e dificuldades (tal como nós mesmos, se lançarmos um olhar mais realista para ‘nosso próprio umbigo’) não é uma atitude que vem espontaneamente de dentro de nós; é muito mais o resultado de um percurso difícil, que passa pela conscientização intrínseca do nosso olhar em direção ao outro (Ladmiral e Lipiansky, 1989).

Por mais paradoxal que possa parecer, a interação com o estrangeiro pressupõe reconhecê-lo como igual e como diferente. Reconhecê-lo como igual é considerá-lo pertencente à mesma humanidade que eu, à mesma 'aldeia global' que sofre com a alteração climática do planeta, com a desigualdade econômica e social; reconhecê-lo como igual é ir ao seu encontro como sujeito, aceitando a porção de alteridade que cada um carrega consigo, i.e., aceitar o estrangeiro contido em nós mesmos pode facilitar nossa tolerância para com o estrangeiro fora de nós (J. Kristeva, 1994). Longe de ser o ‘inferno’, em alusão à citação de J.- P.Sartre – “o inferno são os outros125 - o outro pode ser fator de enriquecimento e de contribuição para superação dos nossos limites, sejam eles de quaisquer níveis - culturais, sociais, psicológicos, espaciais etc. Reconhecê-lo como

diferente é admitir que existem outras referências, outros costumes, outras maneiras de

interpretar os comportamentos do estrangeiro relativizando meu próprio sistema de valores; reconhecê-lo como diferente supõe um movimento de descentralização dos meus próprios paradigmas, o que leva a uma percepção e conscientização da própria identidade cultural. Como ressalta T. Todorov (1988:27), o encontro com o outro nos leva a “esta verdade banal que, ao ignorar a si mesmo, nunca se chega a conhecer os outros: que conhecer o outro e se conhecer é uma coisa só”.126 Portanto, inserida em um aparente paradoxo, a descoberta e a compreensão da alteridade passa pela compreensão e superação de mecanismos diferenciadores. Para reconhecer as diferenças, é preciso talvez aceitar as semelhanças.

O ensino de LE registra ainda hoje na realidade da sala de aula uma justaposição dos conteúdos (ou disciplinas) que o compõem; ao invés de se entrelaçarem evitando assim uma fragmentação dos campos de conhecimento, se compartimentam, levando o aluno a um aprendizado também compartimentado, fragmentado, em detrimento de um projeto holístico para a didática de línguas e culturas. Assim sendo, é comum distinguir-se a aprendizagem da gramática da aprendizagem da cultura, freqüentemente transmitida através de uma compilação de conhecimentos enciclopédicos sobre o país onde a língua ensinada é falada.

125 No original: « L'enfers, c'est les Autres » (p.75). Consulta em: SARTRE, J-P. Huis Clos. Paris: Gallimard,

1947.

Assim, a compreensão da alteridade é distanciada das realidades socioculturais, tornando-se algo abstrato, sem dinâmica histórica, sem compartilhamento (partage), sem deixar emergir o sujeito e sua subjetividade.

A tentativa para encontrar respostas em um ensino que fala do outro, mas não se preocupa nem se interessa em conhecê-lo além das imagens estereotipadas dos manuais, métodos, informações pontuais e parciais; um ensino que mostra como se deve falar e se comportar na língua do outro, mas que não se preocupa nem se interessa em viabilizar o ‘poder ser’ na língua do outro, i.e., como ser sujeito, valorizar sua identidade - quem sou e como sou - fazer-se conhecer (e conhecido) também na língua do outro; tudo isso expõe e revela a complexidade e fragilidade de uma visão unilateral e muitas vezes equivocada do outro e de nós mesmos.

Fomentar a simetria nesse encontro torna-se fundamental, pois não é o fato de ir ao encontro do outro que torna alguém menos preconceituoso ou mais tolerante, ou que o coloca em posição inferior, subjugado pela sua cultura, seu comportamento social etc. Nesse encontro, ‘pode-se ser’, porque existe confiança em relação ao que se é, ao que se crê, ao valor e ao que se é capaz de dar em troca (ou não).

É preciso lembrar todo tempo quais são os valores, crenças e bases que movem alguém para viver em sociedade para ter um encontro mais autêntico e menos tenso, menos preconceituoso com o outro. Na didática de línguas a abordagem intercultural trabalha com essas questões, propiciando o confronto da língua e da cultura do aluno com a língua alvo e as culturas no seu entorno, podendo tal confronto ser elemento e momento de reflexão, de transformação para uma atitude mais positiva e liberadora para si e em direção ao outro.

Durante a explanação e justificativa dos temas escolhidos para compor o curso- piloto Noções e práticas interculturais na aprendizagem de FLE, ministrado no segundo semestre de 2006 e que constitui o próximo capítulo deste trabalho, muitas dessas referências à alteridade, bem como à representação, ao estereótipo e ao preconceito, já abordados anteriormente, serão retomadas para um cruzamento teórico-pragmático que pretende apontar canais/alternativas pedagógicas (aulas, seminários) que possam mobilizar o aprendiz a um encontro (ou confronto) com suas próprias vivências culturais e com a alteridade através da aprendizagem de uma língua estrangeira e – por que não? – tentar mobilizar o aprendiz ao desejo e à possibilidade de se relacionar em simetria nas

diferenças e semelhanças com o outro, o estrangeiro, justamente porque o valor e a riqueza do encontro está, em grande parte, na diversidade que o constitui.