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CAPÍTULO III: Elementos indicativos do mercado de trabalho e das condições de

3.2 O trabalho do assistente social na esfera estatal

De início, cabe situar que o assistente social é majoritariamente funcionário público, e dedica-se a implementação de políticas públicas desde o nascedouro da profissão, é “um executor terminal de políticas sociais” (NETTO, 2007).

De acordo com Nogueira (2010), o setor público estatal pertence a uma totalidade de relações de produção predominantemente capitalistas. Desse modo, neste setor, as relações de trabalho são relações entre não proprietários de meios de produção entre si, não são diretamente capitalistas. Assim, o trabalho na esfera estatal não se direciona à produção direta de valor para a acumulação de capital, é um trabalho assalariado improdutivo40 (NOGUEIRA, 2010). Entretanto, isso não quer dizer que não há exploração direta do trabalho pelo Estado.

A exploração ocorre na esfera da reprodução do capital, ou seja, nos processos de serviços e administração voltados à esfera da reprodução social e política do conjunto da sociedade de classes. A taxa de exploração do trabalho no Estado envolve a quantidade de salário em relação à jornada de trabalho e às condições necessárias de vida em sociedade, mas não é realizada para produzir, e sim reproduzir o capital (NOGUEIRA, 2010, p. 04).

40 Marx (2004, p. 125) explica que “só é trabalhador produtivo aquele que emprega a força de trabalho – que

diretamente produz mais-valia; portanto, só o trabalho que seja consumido diretamente no processo de produção com vistas à valorização do capital. Nessa direção, é produtivo o operário em que o processo de trabalho é igual ao processo de consumo produtivo da capacidade de trabalho, por parte do capital ou do capitalista (ibid.). Daí decorrem duas conclusões, a primeira é que o possuidor da força de trabalho é um trabalhador assalariado. E a segunda é que após o processo de circulação, sua força de trabalho e seu trabalho incorporam como fatores vivos no processo de produção do capital. Marx (2004) adverte que os trabalhadores podem ser assalariados e não produtivos. Ele indica que a diferença entre o trabalho produtivo e o improdutivo se dá no fato de “o trabalho trocar-se por dinheiro ou por dinheiro como capital” (ibid., p. 137). Desse modo, o trabalho produtivo consiste naquele em o trabalhador produz diretamente mais-valia e o trabalho improdutivo o que não produz capital e o trabalho não constitui um momento do processo de autovalorização do capital.

Os funcionários públicos são trabalhadores assalariados, portanto, precisam vender a sua força de trabalho para o empregador, no caso o Estado. Essa condição assalariada impõe uma submissão e uma subordinação do trabalhador ao empregador, o que implica na ausência do controle e da autonomia relativa no desenvolvimento das atividades profissionais. Nogueira (2010, p. 07) afirma que: “os funcionários do Estado são assalariados livres, que apenas dispõem de sua força de trabalho para vender e sobreviver na sociedade e, neste aspecto, igualam-se aos demais assalariados submetidos à ordem do capital e do mercado em sentido mais abrangente”.

O autor caracteriza o processo de trabalho no âmbito do Estado como muito diverso e heterogêneo, em sua maior parte voltado aos serviços. Nesse setor, a essência do trabalho é atividade intelectual e administrativa, visto que “o processo de trabalho lida diretamente com a informação, o planejamento, a administração e o controle geralmente por meio de símbolos e escritos” (NOGUEIRA, 2010, p. 07).

Nessa esteira, localizam-se os assistentes sociais, majoritariamente funcionários públicos, conforme revela a pesquisa do CFESS (2005) e outros estudos que tratam especificamente da profissão, que trataremos no próximo item. Raichelis (2009) indica que o trabalho do assistente social na esfera estatal deve ser apreendido na dinâmica da vida social, considerando todos os processos engendrados no sistema capitalista que tanto repercutem nas condições de vida e trabalho da classe trabalhadora.

Analisar a profissão e os desafios do projeto profissional na esfera estatal supõe apreendê-los na dinâmica sócio-histórica, que configura o campo em que se desenvolve o exercício profissional e problematizar as respostas profissionais – teóricas, técnicas e ético-políticas – que traduzem a sistematização de conhecimentos e saberes acumulados frente às demandas sociais dirigidas ao Serviço Social (RAICHELIS, 2009, p. 01).

Raichelis (2009) aponta seis premissas para analisar o Serviço Social nas relações sociais capitalistas, a saber: a primeira premissa considera que as profissões são construções históricas que somente ganham significado e inteligibilidade quando analisadas dentro do movimento das sociedades nas quais se inserem. A autora ressalta a necessidade de se ter presente as determinações sociopolíticas do Serviço Social em sua origem e os processos que culminaram a sua organização como profissão. A segunda premissa apresenta a particularidade do Serviço Social como profissão de intervir nos processos e mecanismos ligados ao enfrentamento da questão social, que se reatualizam nas diferentes conjunturas sócio- políticas. Nestas conjunturas, aumentam-se expressivamente os níveis de exploração e

desigualdades, a questão social se reatualiza e se reproduz exponencialmente, e o assistente social é chamado a intervir nas suas expressões. A terceira premissa refere-se ao fundamento da profissionalização do Serviço Social, a partir da estruturação de um espaço sócio- ocupacional determinado pela dinâmica capitalista, que emerge da necessidade do Estado burguês em dar respostas às sequelas da questão social. A quarta premissa diz respeito à centralidade do Estado na análise das políticas sociais, o que não significa reduzi-la ao campo da intervenção estatal, porém nessa esfera as mesmas podem vir a ser universais e de fato “constituir-se espaços de afirmação de direitos e de iniciativas de contradesmanche de uma ordem injusta e desigual (YASBEK et al., 2008, p. 31)”. A quinta premissa apresentada por Raichelis (2009) refere-se a reflexão acerca do trabalho do assistente social na esfera estatal. Esta relaciona-se, necessariamente, ao tema das relações entre o Estado e a sociedade civil. Raichelis (2009) explica que o Estado não é algo separado da sociedade, é produto das relações entre ambos. E a última premissa afirma que embora seja comum igualar a referência das categorias Estado e governo, essa confusão pode gerar graves implicações políticas, a exemplo de supor que assumir poder governamental é a mesma coisa que conquistar o poder político.

Conforme já dito no capítulo anterior, o Serviço Social como profissão emerge na dinâmica da ordem monopólica quando a questão social necessita de um novo tratamento por meio de políticas sociais. Segundo Yasbek et al. (2008), as condições que possibilitaram a profissionalização do Serviço Social no Brasil relacionam-se ao seu processo de institucionalização e legitimação como um dos recursos mobilizados pelo Estado e pelo empresariado, com o apoio da Igreja Católica, no enfrentamento às sequelas da questão social, a partir das décadas de 1930/1940.

É quando crescem as lutas sociais dos trabalhadores e dos segmentos mais empobrecidos da população, e as ações de caráter assistencial, religioso e filantrópico desenvolvidas pela solidariedade social mostram-se insuficientes para dar conta das necessidades sociais. Tal contexto sociopolítico, de centralização e intervenção do Estado na condução de políticas econômicas e sociais, expõe as expressões da questão social como “matéria-prima” a justificar a constituição do espaço profissional do Serviço Social na divisão social e técnica do trabalho (YASBEK, 2008, p. 07).

Conforme as autoras, na década de 1930/40 o Estado é encarregado de assumir a regulação das relações de classe através de um conjunto de medidas que reconhece a legitimidade da questão social no bojo das contradições que permeiam a ordem burguesa e, ao mesmo tempo, procura ajustá-las juridicamente visando desmobilizar a ação dos trabalhadores

e controlar as tensões existentes entre as classes sociais. Portanto, o Estado impulsiona a profissionalização e a expansão do mercado de trabalho do assistente social.

As políticas sociais, como mediação fundamental da ação do Estado, viabilizam uma intervenção continuada e estratégica sobre as sequelas da questão social, levando o aparelho estatal a desenvolver simultaneamente funções econômicas, políticas e sociais, administrando as contradições e buscando um sistema de consensos em busca de legitimidade social (RAICHELIS, 2010, p. 754-755).

A partir da década de 1990, observa-se uma ampliação do mercado de trabalho dos assistentes sociais na esfera estatal, em razão da Constituição Federal de 1988 que instituiu o tripé da Seguridade Social - saúde, assistência social e previdência social. No Serviço Social, a saúde aparecia em diversas pesquisas como a área que mais requisita assistentes sociais, no entanto, após a consolidação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) a assistência social passou também a requisitar um grande número de assistentes sociais. Ademais, temos a expansão de outras políticas sociais, como as afetas aos Programas de Transferência de Renda (PTR), que visam retirar os seus beneficiários da linha da extrema pobreza e garantir um mínimo de sobrevivência. Estas também fomentam a demanda de atuação dos assistentes sociais. Conforme afirma Yasbek et al. (2008, p. 27)

No âmbito das políticas sociais, e particularmente na Seguridade Social, destaca-se a presença e o envolvimento dos assistentes sociais na saúde, na assistência social, na habitação, na defesa do SUS, Suas, ECA e Estatuto do Idoso, do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e do Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direitos de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária (PNCFC), além da recente conquista na previdência social, com a abertura de concurso público para novecentos assistentes sociais ainda em 2008 [...].

No entanto, na esfera estatal permanecem características neoliberais da política social brasileira “centradas em situações-limites em termos de sobrevivência e direcionadas aos ‘mais pobres entre os pobres’, perdendo-se do horizonte a direção de universalização do acesso a direitos” (YASBEK et al., 2008, p. 26). Nesse cenário, os assistentes sociais vêm realizando um trabalho direcionado à construção e defesa de direitos sociais, em consonância com o que prevê o Projeto ético-político profissional da categoria.

Observa-se a redução do gasto público e das políticas públicas, o arrocho salarial e a deterioração das relações e condições de trabalho dos funcionários públicos. É a adoção do ideário neoliberal que vem imprimindo essa imensa precarização nas relações e condições de

trabalho dos funcionários públicos. No âmbito municipal, a tendência de precarização é mais acentuada, porém os outros âmbitos também vêm sendo afetados com a diminuição dos concursos públicos, a redução das políticas sociais, a desvalorização salarial e a contenção de gastos públicos. Assim, o assistente social na busca de politizar e dar visibilidade aos interesses e direitos das classes subalternas na esfera pública, sofre com a intensa precarização das políticas e das suas relações e condições de trabalho (YASBEK et al., 2008).

Nogueira (2010) assinala uma diferença entre a lógica de funcionamento do Estado e a lógica de funcionamento das empresas capitalistas, visto que o Estado aparenta representar “equilíbrio e árbitro de conflito, a razão absoluta e o espaço de decisão coletiva” (NOGUEIRA, 2010, p. 05). Ademais, a real funcionalidade do Estado é preservar a ordem do capital em detrimento dos interesses da classe trabalhadora. No setor privado, os ganhos e as melhorias salariais se dão quando os trabalhadores se mobilizam e fazem acordos e negociações, enquanto que no setor público as relações são mais complexas, tendo em vista que as melhorias de condições de trabalho ficam condicionadas a estatutos e dependem das instâncias políticas e administrativas.

Segundo o referido autor, há uma grande dificuldade das organizações sindicais em melhorar as condições de trabalho destes profissionais, porém, verifica-se a importância determinante das lutas de classes na qualidade de atuação do Estado.

Não é preciso dizer que nesse quadro, a instabilidade e a conflitualidade nas relações coletivas são permanentes e envolvem um conjunto de forças complexas que tornam os processos de decisão, nesses casos, demorados e instáveis. A mudança de governo influi diretamente nesse processo e pode fazer voltar à estaca zero qualquer conquista anterior. A ausência de convenções coletivas ou acordos coletivos de trabalho, a ausência mesmo de uma justiça do Trabalho para dirimir o conflito e de outros mecanismos de mediação e arbitragem explicam também a recorrência do conflito (NOGUEIRA, 2010, p. 06).

Segundo Nogueira (2010, p. 04) “qualquer proposta atual sobre um sistema de relações de trabalho para o setor público depende do encaminhamento dessas questões de defasagem salarial, das perdas salariais históricas e da melhoria das condições gerais de trabalho”. Embora se observe a existência de reivindicações em prol de melhores salários e condições de trabalho por parte do funcionalismo público e das suas lideranças sindicais, essas se mostram fragilizadas frente a investida do capital, com a adoção de sua lógica neoliberal.

3.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE O MERCADO E AS CONDIÇÕES DE TRABALHO DO