• Nenhum resultado encontrado

1.1 NATUREZA E ESPECIFICIDADE DO TRABALHO DOCENTE

1.1.1 O trabalho docente como parte da totalidade do trabalho

Ainda que aparentemente seja dispensável expormos a centralidade do trabalho na constituição humana, entendemos que diante da proliferação, principalmente na academia, de perspectivas teóricas que negam essa compreensão, é fundamental retomarmos tal debate. Além disso, essa discussão nos possibilitará compreender tanto os fundamentos do processo de trabalho (e do processo de valorização) no modo de produção capitalista, quanto as metamorfoses vivenciadas nos últimos anos nesse sistema produtivo e, principalmente, como o trabalho docente se interliga, dialeticamente, com o caráter ontológico do trabalho.

De forma sintética e elucidativa Engels (2004) expõe o processo de constituição do ser humano. Em sua análise é evidenciado o papel central do trabalho como ação que diferenciará a espécie humana dos demais animais. “É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.” (ENGELS, 2004, p. 11). Trata-se da atividade fundante e condição sine qua non para a existência da vida humana.

O trabalho é atividade especificamente humana que produz bens e valores de uso, utensílios necessários à sobrevivência de qualquer formação social. Em sua essência trata-se do intercâmbio orgânico do ser humano com a natureza: “um processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo com a natureza” (MARX, 1983, p. 149). Através do trabalho o ser humano transforma, simultaneamente, a natureza e a si próprio.

Todo animal utiliza e modifica a natureza, porém apenas o homem tem a possibilidade de controle sobre o espaço em que vive. Os demais animais estão organicamente submetidos aos desígnios naturais, o ser humano “ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E ai está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho” (ENGELS, 2004, p. 23). Tal controle é ampliado com a humanização do ser humano, proporcionada pelo trabalho que distancia crescentemente a humanidade da condição animal. Com isso os seres humanos criam um novo mundo, a cultura e a sociedade.

Engels (2004) destaca que o homem acabado é a sociedade. Toda evolução na sociabilidade humana e no domínio sobre a natureza é resultado da transformação proporcionada pelo trabalho. Esse processo é fruto da construção coletiva da humanidade,

pois se trata de produção social. No processo de trabalho os seres humanos “dependem uns dos outros e criam, assim, determinadas relações de produção entre eles.” (HARNECKER, 1983, p. 227). Assim, o trabalho de todo indivíduo configura-se como parte da totalidade da produção social.

Como atividade intencional, teleológica7 o trabalho possibilita à humanidade a resolução de problemas cada vez mais complexos, com a criação de novas necessidades e o estabelecimento de mecanismos de maior controle sobre a realidade (MARX, 1983). O desenvolvimento das forças produtivas, proporcionado pelo crescente domínio humano sobre a natureza, induz, também de forma contínua, à redução do trabalho necessário para produzir os bens essenciais à sobrevivência humana. Como consequência histórica do processo de trabalho, os seres humanos controlam cada vez mais a natureza e aperfeiçoam o trabalho necessário para produzir alimentos, vestuário e habitação indispensáveis à sua existência. Esse processo é resultado ainda da crescente divisão técnico-social do trabalho que reduz o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir valores de uso.

Mas, afinal, como o trabalho docente insere-se nesse processo? Observemos que os professores atuam em instituições formativas (entre as quais a universidade), lidam com a transmissão/produção de conhecimentos e, portanto, não modificam diretamente a natureza com essa atuação. Não seria então equívoco designar a ação docente como “trabalho”? Qual a especificidade do “trabalho docente”, sua natureza, e como se relaciona com a totalidade do trabalho social?

Para respondermos a essas questões é fulcral refletirmos sobre o papel da educação no processo de trabalho. Como fenômeno inerentemente humano, a educação é “uma exigência do e para o processo de trabalho, bem como é, ela própria, um processo de trabalho” (SAVIANI, 2005, p. 12). Em estágios primordiais da humanidade a educação ocorre simultaneamente ao trabalho: ao transformar a natureza o ser humano transforma a si mesmo, educa-se. Com o desenvolvimento produtivo e, consequentemente, com a consolidação da vida social, os processos formativos, a educação, constituem-se em parte de uma categoria específica de trabalho, insere-se no trabalho imaterial.

7Exatamente por sua especificidade teleológica o trabalho é muitas vezes compreendido como resultado de

impulsos cerebrais. Em manifestação imediata e fenomênica o trabalho é percebido como resultado exclusivo do pensamento humano. Essa compreensão equivocada sustentará a concepção idealista de explicação da realidade social. É preciso perceber que as representações humanas fundamentam-se nas condições materiais da existência. Isso implica considerar que a ação humana, além de mudanças naturais, tem consequências sociais.

Assim, o processo de produção da existência humana implica, primeiramente, a garantia da sua subsistência material com a conseqüente produção, em escalas cada vez mais amplas e complexas, de bens materiais; tal processo nós podemos traduzir na rubrica “trabalho material”. Entretanto, para produzir materialmente, o homem necessita antecipar em idéias os objetivos da ação, o que significa que ele representa mentalmente os objetivos reais. Essa representação inclui o aspecto de conhecimento das propriedades do mundo real (ciência), da valorização (ética) e de simbolização (arte). Tais aspectos, na medida em que são objetos de preocupação explícita e direta, abrem a perspectiva de uma outra categoria de produção que pode ser traduzida pela rubrica “trabalho imaterial”. Trata- se aqui da produção de idéias, conceitos, valores, símbolos, hábitos, atitudes, habilidades. Numa palavra, trata-se da produção do saber, seja do saber sobre a natureza, seja do saber sobre a cultura, isto é, o conjunto da produção humana. Obviamente, a educação situa-se nessa categoria do trabalho não- material. (SAVIANI, 2005, p. 12).

A educação, inerente a toda formação humana, é assim concebida como mecanismo de formação dos indivíduos para a produção e reprodução social. Como destaca Mészáros (2006) nenhuma sociedade perdura sem um sistema educacional específico – no qual, atualmente, o sistema escolar, ainda que não exclusivamente, é parte fundamental. Todo e qualquer modo de produção pressupõe processos educativos, os quais estão organicamente vinculados à divisão técnico-social do trabalho e ao desenvolvimento das forças produtivas. Desse modo, mudanças no mundo do trabalho são sempre acompanhadas de alterações correspondentes nos processos formativos. O aperfeiçoamento histórico das técnicas de trabalho e a modernização do mundo produtivo, exigem a consolidação de instituições específicas para a formação dos trabalhadores. Isso levará à consolidação de unidades e sistemas responsáveis em adequar8 a força de trabalho às necessidades produtivas. Nas instituições formativas, sujeitos específicos assumem centralmente a função pedagógica de instruir outros indivíduos. Trata-se, nos sistemas escolares, dos professores, pois o trabalhador docente torna-se o elemento principal do trabalho imaterial desempenhado pelas instituições oficiais de formação.

Fundamentalmente a partir do processo de industrialização capitalista, as instituições escolares assumem crescentemente a função de formação da mão-de-obra, dos trabalhadores materiais (CAMBI, 1999; NEVES, 2002; SAVIANI, 2005). E, nesse caso, cabe fundamentalmente aos docentes a função de preparar (fornecer habilidades técnicas e valores sociais específicos) os sujeitos para o mundo trabalho. Assim, ainda que não esteja diretamente envolvido na transformação da natureza, com o desenvolvimento das forças produtivas e principalmente a partir do modo de produção capitalista, o trabalho docente

constitui-se em parte do trabalho coletivo necessário à produção e reprodução da sociedade, insere-se na categoria de trabalho imaterial (SAVIANI, 2005) e está organicamente vinculado ao trabalho material.

Desse modo, o trabalho docente, bem como todo sistema escolar, está dialeticamente determinado pelo modo de produção. A organização, o conteúdo e o próprio desenvolvimento do trabalho docente estão sempre organicamente vinculados ao trabalho material. Por isso, as exigências laborais da produção capitalista, em função da necessidade de valorização do capital, são os fundamentos centrais das instituições educativas e do trabalho docente, incluindo as relações trabalhistas que o envolvem9.

Nesse sentido, qualquer análise sobre o trabalho docente pressupõe considerarmos a totalidade do mundo do trabalho. Atualmente isso significa, fundamentalmente, compreendermos como o modo de produção capitalista conforma o trabalho. Como veremos, trata-se essencialmente de um processo de degradação humana originado na exploração da força de trabalho.