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O trabalho feminino e a voz da trabalhadora

Capítulo 2: O trabalho e as palavras

2.3 O trabalho feminino e a voz da trabalhadora

No mercado de trabalho brasileiro, assim como em boa parte do mundo globalizado, as posições mais bem-remuneradas e de maior prestígio são majoritariamente ocupadas pelo gênero masculino. Essa é uma constatação que remete à persistência cultural de um passado histórico ligado ao patriarcalismo. Os economistas e estudiosos do trabalho doméstico, Carlos Horn e Cristina Vieceli, chegam a afirmar que o ―o único setor de atividade com presença feminina majoritária é o dos serviços domésticos‖ (HORN, 2017, p. 63). Na história de Leninha, relatada por Carneiro e Rocha em A ralé brasileira, o autores observam, dentre outras constatações, a persistência cultural dos processos de divisão do trabalho por meio da ideologia de

gênero, na medida em que, como relatam, diferentemente do que ocorre em relação aos meninos, as meninas aprendem, desde novas, as atividades laborais da casa: lavar louça, lavar roupa, limpar a casa, etc. Dessa forma, esses trabalhos, considerados femininos, passam a ser naturalizados como atividades de mulheres, contribuindo para que meninas de classes economicamente desfavorecidas se vejam identificadas ao emprego doméstico em casas de família. É claro que não se pode desconsiderar aqui o aspecto econômico dessa realidade, uma vez que essas meninas não escolhem ser empregadas domésticas. Antes disso, chegam a esse trabalho por exclusão, impulsionadas pela dicotomia remuneração-qualificação.

Essa exclusão também se dá por meio da linguagem. Eni Orlandi, em seu livro As formas do silêncio, observa que, ―para nosso contexto histórico-social, um homem em silêncio é um homem sem sentido‖ (ORLANDI, 2007). Ao mesmo tempo, para uma abordagem linguística do tema considera que ―o silencio é. Ele significa. Ou melhor: no silêncio, o sentido é‖. A partir dessa perspectiva, podemos retomar a personagem ficcional da empregada doméstica Bozena, da série de televisão Toma Lá Dá Cá. Pode- se indagar, a respeito dessa imposição de silêncio a Bozena, operada pelo seu patrão Mário Jorge: qual o sentido do apagamento de voz da empregada?

A reflexão sobre essas questões remete às diversas formas pelas quais podemos pensar no espaço de fala. Primeiramente, cabe uma abordagem acerca da luta feminina por esse espaço:

A exortação ao dever-se feminino ―seja bela e desejável!‖, ―seja boa esposa e boa mãe!‖ e ―(não) seja militante!‖ é sintoma das regularidades e das transgressões a respeito da (in)visibilidade das mulheres no espaço público. Segundo Perrot (2017), a invisibilidade e o silêncio das mulheres faziam parte da ordem das coisas na organização social patriarcal. A sua voz, inclusive, é uma condição metonímica que pode ser tratada como um elemento a ser depreciado e até mesmo excluído do espaço público. Katleen Jamieson (1988) afirma que um dos temas que surgiram na história é o de que as mulheres deveriam manter-se quietas (BITTENCOURT, 2018, p. 144).

De modo recorrente, as mulheres têm, ao longo da História, sua voz apagada. Pode-se interpretar, por meio da assertiva de Bittencourt, que a personagem Bozena, como representante de uma voz feminina, sofre a exclusão do seu lugar de fala. Essa exclusão está relacionada, conforme afirma Piovazani (2020), à condicionalidade histórica e a vontade de manutenção do poder, em forma de opressão. ―Eis do que deriva essa busca por justificar opressões de diversos tipos. Para fazê-lo se inventam e

se ressaltam inferioridades [...] onde há e só deveriam haver semelhanças e iguais fundamentais‖. (PIOVEZANI, 2020, p. 257).

No caso da trabalhadora doméstica, representada nessa analogia pela figura da personagem Bozena, para além da questão de gênero a opressão se expressa pelo território no qual está inserida, que pode ser considerado superior ao seu campo social. Ou seja, além de ser mulher, detentora da voz feminina, a trabalhadora também é representante de uma classe econômica desfavorecida em relação à dos patrões. Por meio de um sentimento de superioridade social, estes assumem serem os detentores de um conhecimento maior, o que lhes asseguraria o direito de apoderar-se do campo de fala e manter a dominação. Isso ainda remete às reflexões de Piovezani, a partir da obra de Courtine, acerca da persistência de um imaginário em relação à voz do povo: ―a multidão vocifera, protesta, geme ou delira de raiva ou de prazer: a massa não fala‖ (COURTINE apud PIOVEZANI, 2016, p. 74). A voz do povo, nesse imaginário, é naturalizada como incorreta e delirante (PIOVEZANI, 2016, p. 75). É nesse ideário que o empregador fictício Mário Jorge desqualifica e apaga a voz de sua empregada Bozena. Não obstante tudo o que já foi dito acerca do silenciamento da fala feminina, ainda é possível relatar o ideário de sua voz e fala da sociedade atual. Para alcançar a eficácia desejada, mulheres que chegam a uma posição liderança já devem, de partida, mudar o timbre da voz e modo de falar. Isso porque, cultural e historicamente, o poder estava na mão daqueles que tinham voz considerada grossa e firme (PIOVEZANI, 2016). Um exemplo dessa mudança dita como necessária está na criação da imagem pública que se construiu em torno da ex-presidenta Dilma Roussef. Sua mudança de postura, de prosódia e até mesmo de estilo estão associadas à cultura patriarcal que ainda vigora no Brasil e no mundo.

Ao observar a fala das domésticas, nota-se uma diferença prosódica em relação àquela exigida por uma mulher que pretende assumir uma posição de liderança. As gravações feitas no Sindicato das Domésticas permitem observar esse fenômeno em diferentes momentos das falas das trabalhadoras, do representante e ainda da advogada do sindicato. No capítulo a seguir, serão analisadas algumas dessas mudanças prosódicas observadas nas falas das trabalhadoras, além dos já tratados estudos do discurso.

Capítulo 3: A voz da trabalhadora doméstica e de seus representantes