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A Lei n° 13.467/2017, vulgarmente conhecida como Reforma Trabalhista, vem trazendo novos contornos ao Direito do Trabalho Brasileiro e, consequentemente, posicionamentos doutrinários contrários e favoráveis às mudanças implementadas.

Fala-se em flexibilização das relações laborais e maior força das cláusulas contratuais; entretanto, aponta-se também a precarização e aumento da vulnerabilidade da condição do trabalhador.

De acordo com Maurício Godinho Delgado30, a referida Lei 13.467/2017

seria, na verdade, um reflexo do movimento fomentado pela vertente ideológica pró- flexibilização e desregulamentação que ganhou força no Brasil nos anos 1990, defendendo a supressão da proteção do trabalhador.

28 BRASIL. Senado. Voto em Separado do Senador Paulo Paim. Disponível em:

<http://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=5310413&disposition=inline>. Acesso em maio de 2018.

29BRASIL. Senado. Emenda Supressiva n°, da Sra. Luizianne Lins. Disponível em:

<https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=7292710&disposition=inline>. Acesso em: maio de 2018.

30 DELGADO, Mauricio Godinho. A reforma trabalhista no Brasil: com os comentários à Lei n.

Enxerga a reforma, ainda, como desmantelador e responsável pela desarticulação do conjunto normativo pátrio, desenvolvido de acordo com as diretrizes de um Sistema Internacional de Direitos Humanos. À mesma crítica se unem a maioria dos doutrinadores brasileiros.

Delgado diz que os pontos de flexibilização trazidos pela Nova Lei são bastante claros, assim como a intenção que norteia sua redação e a quebra de pilares essenciais para a construção do direito do trabalho: diz que a nova lei desnatura o conceito de direito fundamental ao trabalho digno e o conceito de justiça social.

O pilar central desta exposição crítico-acadêmica é o chamado trabalho intermitente, introduzido no capítulo anterior como uma novidade legislativa – pois a CLT pré-reforma não fazia nenhuma menção explícita à supracitada modalidade – e um dos pontos mais complexos da Reforma, anteriormente implementado em outros ordenamentos jurídicos. É assim que a Nova Lei o inaugura no ordenamento pátrio:

Art. 443. O contrato individual de trabalho poderá ser acordado tácita ou expressamente, verbalmente ou por escrito, por prazo determinado ou indeterminado, ou para prestação de trabalho intermitente.

[...]

§ 3o Considera-se como intermitente o contrato de trabalho no qual a

prestação de serviços, com subordinação, não é contínua, ocorrendo com alternância de períodos de prestação de serviços e de inatividade, determinados em horas, dias ou meses, independentemente do tipo de atividade do empregado e do empregador, exceto para os aeronautas, regidos por legislação própria. (grifa-se)31

De acordo com o exposto, o caput do artigo 443 da CLT traz a previsão legal da prestação de trabalho intermitente no âmbito jurídico brasileiro, enquanto sua definição está no § 3º do mesmo artigo.

Medida provisória 808/2017, que alterava a Consolidação das Leis do Trabalho e cujo prazo de vigência encerrou-se em 23 de abril de 2018, havia atribuído novo texto ao artigo 452-A que, em suas linhas, tratava sobre os requisitos legais do trabalho intermitente pontuadamente:

Art. 452-A. O contrato de trabalho intermitente será celebrado por escrito e registrado na CTPS, ainda que previsto acordo coletivo de trabalho ou convenção coletiva, e conterá:

I - identificação, assinatura e domicílio ou sede das partes;

II - valor da hora ou do dia de trabalho, que não poderá ser inferior ao valor horário ou diário do salário mínimo, assegurada a remuneração do trabalho noturno superior à do diurno e observado o disposto no § 12; e

31 BRASIL. Decreto-Lei n° 5.452, de 1º de maio de 1943. Consolidação das Leis do Trabalho.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del5452.htm>. Acesso em março de 2018.

III - o local e o prazo para o pagamento da remuneração.

Após o encerramento da referida Medida e sua não conversão em Lei, devido à ausência de votação no Congresso, o texto do dispositivo legal supracitado voltou a ser o original – menos denso e mais objetivo que seu substituto –, que se limita à exigência da forma escrita do contrato de trabalho intermitente, da especificação do valor da hora de trabalho (este não pode ser inferior ao valor horário do salário mínimo ou ao devido aos demais empregados do estabelecimento). Percebe-se, assim, que há menos requisitos para a configuração de tal modalidade. Retira-se também (pelo menos de forma explícita) a exigência do registro na Carteira de Trabalho e Previdência Social.

O § 4° do artigo 452-A da CLT – que trata sobre o descumprimento, sem justo motivo, da oferta para o comparecimento ao trabalho, após ser esta aceita – havia sido suprimido pela MPV 808/2017. Frisa-se que se estabelece multa de 50% da remuneração que seria devida, valor a ser pago à outra parte no prazo de trinta dias. O dispositivo voltou a vigorar novamente após a queda da medida provisória.

O § 5° do mesmo artigo, que dispõe que “o período de inatividade não será considerado tempo à disposição do empregador, podendo o trabalhador prestar serviços a outros contratantes.”, também havia sido revogado pela medida provisória, tornando a vigorar após o dia 23 de abril de 2018. Texto semelhante foi incluído, paralelamente, ao § 1° do artigo 452-C (vigência encerrada), cujo caput definia tempo de inatividade.

Tem-se como definido juridicamente que o empregado teria o tempo inativo vinculado ainda ao empregador, não podendo contratar com outros empregadores. Nítido seria o prejuízo que poderia ser trazido ao empregado, sujeito mais frágil da relação contratual, caso não houvesse outra inserção legal que assegurasse tal possibilidade.

Entende-se que, no ponto relativo a esta matéria, a medida provisória tinha o condão de organizar a legislação, tornando-a mais clara e encadeando de melhor forma as ideias referentes ao “tempo de inatividade”.

A lógica do trabalho intermitente inclui a existência de diversos contratos paralelos, uma vez que é argumento próprio de seus defensores a flexibilidade laboral.

32 BRASIL, Medida Provisória n° 808, de 14 de novembro de 2017. Altera a Consolidação das Leis

do Trabalho. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2017/Mpv/mpv808.htm#art1>. Acesso em: abril de 2018.

Fugiria à justificativa do legislador quaisquer formas de enrijecimento e conservadorismo contratual que impedissem e dificultassem a empregabilidade pós- reforma, ainda que, paradoxalmente, seja essa uma consequência comum, de acordo com dados que serão expostos mais adiante.

Outra alteração cujo destaque é merecido diz respeito à data de pagamento das parcelas devidas ao trabalhador. O texto do § 6° do artigo 452-A do diploma trabalhista, inserção da Lei da Reforma, tornou a vigorar após o fim da Medida Provisória, e dispõe que o pagamento imediato das parcelas que lhe são devidas – quais sejam: i) remuneração, ii) férias proporcionais acrescidas de um terço, iii) décimo terceiro salário proporcional, iv) repouso semanal remunerado e v) adicionais legais – será realizado ao final de cada período de serviço. O texto da MPV 808 determinava que tal pagamento deveria ser efetivado na data acordada para pagamento.

Com o fim da vigência do texto provisório, retorna a garantia jurídica do § 8° do artigo antes mencionado, que havia sido realocado por fins de organização:

§ 8o O empregador efetuará o recolhimento da contribuição previdenciária e

o depósito do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, na forma da lei, com base nos valores pagos no período mensal e fornecerá ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações.

Especial atenção às inserções dos artigos 452-B a 452-H, todas realizadas em razão da edição da Medida Provisória 808/2017. As especificidades foram aqui escrupulosamente tratadas, como se fossem, cirurgicamente, uma dissecação da nova modalidade.

O artigo 452-B facultava às partes acordar acerca do estabelecimento de locais de prestação de serviços, turnos de convocação do empregado e formas e instrumentos de convocação e de resposta para a referida prestação e o formato de reparação recíproca caso cancelados os serviços previamente agendados nos termos do artigo 452-A aqui já trabalhado.

O artigo 452-C caput, conforme já exposto, definia “período de inatividade” como o intervalo temporal que não corresponda àquele para o qual o empregado intermitente tenha sido convocado para prestar seus serviços e o tenha feito, de acordo com o § 1º do artigo 452-A.

Seus parágrafos versam sobre a possibilidade gozada pelo empregado de realizar contratos paralelos de qualquer natureza ou modalidade jurídica durante o período de inatividade e sobre a descaraterização do trabalho intermitente através da

remuneração do tempo não disponibilizado para o empregador.

Por seu turno, o artigo 452-D aludia à rescisão de pleno direito do contrato de trabalho intermitente após o decurso do prazo de um ano sem convocação do empregado pelo empregador, período este contado a partir da data de celebração do pacto, da última convocação ou do último dia de prestação do serviço acordado.

Já o artigo 452-E, minuciosamente, designava quais eram as verbas rescisórias devidas da extinção do contrato de trabalho intermitente, enquanto o dispositivo seguinte definia como base de cálculo das verbas da rescisão contratual a média dos valores recebidos pelo empregado ao longo da vigência do contrato.

O artigo 452-G, por sua vez, estipulava uma “quarentena”, como dito no popular, de dezoito meses para que empregado demitido, que antes tenha sido registrado através de contrato de trabalho por prazo indeterminado, seja recontratado pelo mesmo empregador na modalidade intermitente.

Vê-se aqui que havia a intenção de afastar a recontratação precoce ou imediata e em massa dos empregados do regime de contrato de trabalho por prazo indeterminado dispensados mas que, mesmo assim, apesar da postergação, firmar- se-ia contrato de trabalho intermitente e, por consequência, seriam precarizadas as condições de trabalho.

Por fim, deixou de vigorar o artigo 452-H, que consistiria em simples repetição da ideia do supramencionado § 8° do artigo 452-A, se não fosse a ressalva feita em relação ao disposto no artigo 911-A da CLT, cuja vigência também foi encerrada, por ser fruto da MPV/808:

Art. 911-A. O empregador efetuará o recolhimento das contribuições previdenciárias próprias e do trabalhador e o depósito do FGTS com base nos valores pagos no período mensal e fornecerá ao empregado comprovante do cumprimento dessas obrigações.

§ 1º Os segurados enquadrados como empregados que, no somatório de remunerações auferidas de um ou mais empregadores no período de um mês, independentemente do tipo de contrato de trabalho, receberem remuneração inferior ao salário mínimo mensal, poderão recolher ao Regime Geral de Previdência Social a diferença entre a remuneração recebida e o valor do salário mínimo mensal, em que incidirá a mesma alíquota aplicada à contribuição do trabalhador retida pelo empregador.

§ 2º Na hipótese de não ser feito o recolhimento complementar previsto no § 1º, o mês em que a remuneração total recebida pelo segurado de um ou mais empregadores for menor que o salário mínimo mensal não será considerado para fins de aquisição e manutenção de qualidade de segurado do Regime Geral de Previdência Social nem para cumprimento dos períodos de carência para concessão dos benefícios previdenciários. (grifa-se)

Como se pode ver, tal disposição, que não vigora mais, reduzindo os malefícios causados para o empregado intermitente, era extremamente prejudicial, visto que o descontrole e a incerteza próprios do contrato de trabalho intermitente vinculam o salário à hora trabalhada, não garantindo o recebimento do salário mínimo de forma integral, o que não assegura a consideração do mês cujo rendimento tenha sido inferior ao valor do salário mínimo no caso de não recolhimento complementar.

Apesar da presença de disposições positivas e negativas para o empregado intermitente, é inegável o cenário de insegurança jurídica trazida pela perda da validade das inserções feitas pela MPV 808/2017. Tal Medida começou a prosperar em 14 de novembro de 2017, para vigorar durante o prazo de 60 dias, prorrogado por igual período.

Os contratos realizados entre a referida data e o dia 23 de abril de 2018 o foram sob a égide das mudanças provisórias; após esse intervalo de tempo, perdeu- se o referencial prático que se pensava ter. Após uma leitura rápida sobre a Consolidação das Leis do Trabalho, torna-se perceptível que o tema que mais havia sofrido alterações era o pertinente ao trabalho intermitente.

Não há, portanto, no ordenamento jurídico pátrio, orientações suficientes para o estabelecimento da modalidade, visto que boa parte da regulamentação provinha dos acréscimos da medida provisória aqui trabalhada.

Os juristas, em geral, tanto do âmbito acadêmico quanto do âmbito da advocacia trabalhista não possuem o norte necessário para o exercício de sua carreira no que tange o trabalho intermitente e os consequentes contrato de trabalho. Volta-se a carecer de regulamentação, e o tema torna a ser instável.

Alguns especialistas veem a queda da Medida Provisória 808/2017 como uma abertura para a “judicialização” do direito trabalhista, dentre eles o professor da Universidade de São Paulo Ótavio Pinto e Silva que, em entrevista ao Jornal Folha de São Paulo, asseverou:

“O entendimento cai e volta a dúvida, porque ficará de acordo com a interpretação de cada caso concreto no Judiciário. O TST [Tribunal Superior do Trabalho] pode vir a definir isso por súmula, mas, enquanto não for feito, há uma total insegurança jurídica”33

33 FOLHA. MP emperra e põe em xeque reforma trabalhista para todos os contratos. Disponível

em: <https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/03/mp-emperra-e-poe-em-xeque-reforma- trabalhista-para-todos-os-contratos.shtml>. Acesso em: abril de 2018

Um grupo de congressistas vê, no entanto, a Medida Provisória como causadora da insegurança jurídica atual na qual o direito trabalhista está inserido, sobretudo no concernente ao trabalho intermitente. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (partido Democratas), antes da votação na medida pela Comissão Mista do Congresso, manifestou-se contrário à permanência da vigência dos dispositivos, conforme falou em entrevista:

“Não votá-la restabelece a segurança jurídica do projeto de lei original" [...]

“O direito dos trabalhadores está na Constituição brasileira, não estão numa lei. A reforma organiza uma legislação antiga, que mais atrapalhava a relação do empregador com o empregado”34

Há aqui que se abrir o parêntese para discordar do parlamentar referido. Muitos dos pontos de organização da Nova Lei eram fruto da Medida Provisória, cujos dispositivos eram mais minuciosos e mais específicos em relação às novidades legais. Após a queda da Medida Provisória, parlamentares se organizam para exigir a regulamentação da Lei Trabalhista, que carece de sustentação para sua aplicabilidade concreta.