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O trabalho noturno como uma necessidade do trabalhador de Enfermagem

5.1 Percepções do trabalhador de Enfermagem acerca do trabalho noturno em Unidade

5.1.1 O trabalho noturno como uma necessidade do trabalhador de Enfermagem

Apesar de haver dados que indiquem a preferência de alguns trabalhadores pelo turno noturno, a maioria dos participantes deste estudo referiram que a escolha por esse horário de

trabalho deu-se em função das necessidades pessoais, assim como a família foi apontada como um importante fator a ser considerado na escolha pelo turno de trabalho. A necessidade de assistí-la motivou muitos trabalhadores a aderirem a este turno de trabalho, como pode ser evidenciado no depoimento:

(...) eu precisava do dia para ficar mais tempo em casa em função do meu filho menor, que era bem pequeno quando eu me separei do meu ex marido. Eu não tinha com quem deixá-lo, e hoje permanece assim. Prefiro estar em casa durante o dia para arrumar as coisas, dar almoço para ele e encaminhar para a escola (...). (E5)

Os relatos mostram que os trabalhadores de Enfermagem, na maioria das vezes, escolhem o turno de trabalho em função das necessidades de cuidado à família, e não necessariamente em função de sua cronobiologia.

Segundo Oliveira (2005) para que os profissionais consigam trabalhar à noite é necessário que seu organismo passe por uma fase de adaptação, uma vez que a espécie humana é diurna. Isso porque ocorrem algumas alterações orgânicas na temperatura, hormônios, psique, comportamento e desempenho em trabalhadores que atuam em turnos noturnos.

Pode-se dizer que os ritmos cronobiológicos influenciam tanto nos fatores fisiológicos quanto nas habilidades motoras. Quanto aos fatores fisiológicos mais afetados pode-se citar: força, velocidade, energia e resistência. Já as habilidades motoras incluem coordenação e tempo de reação. Portanto, afirma-se que as organizações do trabalho que não levam em conta a variabilidade cronobiológica do indivíduo, poderão ter trabalhadores que apresentem repercussões em sua saúde, não podendo exigir o mesmo nível de produtividade dos trabalhadores nas vinte e quatro horas do dia.

Além da questão familiar, a necessidade de conciliar outros ganhos financeiros como: um segundo emprego e horas extras permeou os relatos dos participantes, como exemplificado a seguir:

(...) começou quando eu assumi [na instituição], eu já trabalhava em outra instituição e fiquei dois anos trabalhando nas duas. Após ter largado este segundo emprego, acabei acostumando com a noite (...). (E3)

(...) por estes plantões extras serem a noite tem sido bem mais cansativo. Eu já trabalhei em dois empregos ao mesmo tempo, mas um era de dia, ai parecia que eu não cansava tanto, eu ficava mais noites em casa. Isso se faz pela necessidade, ou por ter um extra no final do mês, mas fico em dúvida de até que ponto isso realmente vale a pena (...). (E9)

Como mostram os depoimentos, alguns trabalhadores mesmo após abandonar o segundo emprego, seguem no trabalho noturno.

(...) e como eu tinha outro emprego, então para mim facilitou bastante trabalhar à noite. Hoje já não trabalho mais em dois lugares, somente aqui, mas continuo trabalhando à noite (...). (E11)

(...) tive a possibilidade de continuar os estudos de dia e após concluí-los, tive um segundo emprego como docente em outra cidade. Depois de um ano sai de lá, mas fiquei trabalhando no noturno (...). (E4)

O fato de alguns participantes terem organizado suas vidas em função do trabalho noturno fez com que permanecessem nesse turno, devido a suas rotinas. A adaptação da cronobiologia também contribuiu para a permanência na noite e os depoimentos, a seguir, ilustram esse dado:

(...) hoje, para trabalhar de dia, acho bem mais difícil, principalmente em função dos meus horários de sono e atividades que tenho durante o dia. Para mim, trabalhar à noite possibilita mais folgas para que eu possa me dedicar a outras coisas. E também porque meu relógio biológico já se adaptou a este esquema de trabalhar à noite (...). (E3)

(...) para mim além de facilitar para que eu tenha folga, mais tempo de fazer as coisas, eu já estou habituada com isso, o meu rendimento é bem melhor do que durante o dia e também por já estar acostumada com este horário de trabalho (...). (E5)

Mas também existem aqueles que gostariam de sair do turno da noite, no sentido de priorizar sua saúde. No entanto, sob a ótica destes participantes, a troca de turno ou a saída de um setor para outro, esbarra em entraves institucionais, como pode ser visualizado no depoimento

(...) hoje eu não penso como antes. Anteriormente era uma necessidade porque eu tinha dois empregos, já agora que eu não tenho mais, estou achando bem complicado trabalhar à noite (...) eu estou dando mais valor para o sono da noite (...). (E11)

(...) a instituição deveria dar mais oportunidade para as pessoas que querem poder trocar de turno. Oportunizar para quem quer trocar de setor, só que por permuta um vai e outro vem fica difícil, deveria se abrir oportunidade, deixar as pessoas escolherem onde querem ficar (...) penso que as pessoas por qualquer motivo que seja tem o direito de trocar (...). (E7)

Outro fator que motivou a escolha pelo trabalho noturno foi o desejo de estudar e/ou de aprimorar conhecimentos na área em que se está trabalhando, a fim de acompanhar os avanços tecnológicos que mudam quase que diariamente e logo que são lançados no mercado, já vão sendo incorporados à rotina de cuidado das instituições, exigindo cada vez mais conhecimento dos trabalhadores de Enfermagem. No entanto, tanto a possibilidade de se ter o dia livre para se dedicar a outras atividades, que vão ao encontro das necessidades pessoais ou profissionais, dentre elas o estudo, o gosto pessoal, ou a vontade de se conhecer coisas novas os levam ao trabalho noturno, conforme evidenciam as seguintes falas:

(...) eu estudava de dia e trabalhava à noite e no outro hospital já tinha sido assim. E quando eu cheguei aqui, tive a possibilidade de trabalhar à noite e continuar os estudos de dia (...). (E4)

(...) a minha inserção no trabalho noturno foi a pedido. Eu solicitei por necessidades pessoais, precisava do dia para estudar e também queria ter a experiência em pós- operatório de cirurgia cardíaca que na UCI ocorre à noite (...). (E12)

Outros fatores apontados pelos trabalhadores de Enfermagem foram a comodidade devido ao deslocamento de sua residência e as necessidades do serviço.

(...) o motivo principal é pelo fato de que moro em outra cidade, e para mim fica melhor o turno da noite. Facilita os horários de ônibus e por ser dez plantões e meio à noite, precisa vir menos vezes para o hospital (...). (E10)

(...) se deu por necessidade do serviço, me pediram para fazer a noite e eu fui fazer (...). (E 13)

Esses relatos mostram que, para os trabalhadores, o trabalho noturno em Unidade Intensiva significa a possibilidade de atender e responder às necessidades da família, manter outra fonte de renda, estudar. Isso aponta para uma significação do trabalho noturno, ou seja, o mesmo simboliza, para o trabalhador, a possibilidade de se dedicar a outras atividades para além do trabalho. No entanto, estar trabalhando em um turno devido à impossibilidade ou dificuldade de deslocamento, ou pela necessidade do serviço, podem sinalizar para a possibilidade de existirem, no trabalho a noite, trabalhadores que não se identificam com o mesmo, o que pode acarretar danos à sua saúde mental e qualidade de vida.

5.1.2 Vivências de prazer e sofrimento no trabalho noturno em Unidade de Cuidados