CAPÍTULO IV PSICOPATIA E INIMPUTABILIDADE
4.4. O tratamento da psicopatia
Existem muitos autores que referem que o tratamento da psicopatia é bastante questionável, tendo em conta que os traços característicos dos psicopatas são altamente resistentes a tratamento312. Contudo, não existem boas evidências de que a
psicopatia seja tratável, mas também não existem evidências conclusivas de que não é tratável313.
Antes de mais, parece-nos importante lembrar o facto de que, quanto maior o grau de risco, menor será o grau de tratamento e, como já sabemos, os psicopatas apresentam um risco muito elevado e uma grande resistência à mudança. Posto isto, para que as taxas de sucesso dos programas de intervenção aumentem, é necessário eleger os indivíduos que reúnam maiores probabilidades de êxito314.
Alguns investigadores defendem que os programas direcionados para o desenvolvimento de empatia, consciência e competências interpessoais, focados nas emoções ou que pretendam efetuar mudanças na personalidade dos participantes, convencendo-os que só eles são responsáveis pelo seu comportamento e que podem aprender maneiras mais pró-sociais para satisfazer as suas necessidades e desejos, parecem não trazer muitos benefícios para este tipo de ofensores315. Já os programas
312 V. FORTH, Adelle; BO, Sune; KONGERSLEV, Mickey, op. cit., 2013, p. 11. 313 Cf. HART, Stephen D.; HARE, Robert D., op. cit., 1997, p. 30.
314 De acordo com GONÇALVES, Rui Abrunhosa – Promover a mudança em personalidades anti-sociais: punir, tratar e controlar. Análise Psicológica, 2007, pp. 571-573.
315 HART, Stephen D.; HARE, Robert D., op. cit., 1997, p. 31; HARE, Robert D.; NEWMANN, Craig S., op. cit., 2010, p. 108;
que parecem surtir mais efeitos positivos são as técnicas cognitivo-comportamentais, resultando na redução da violência e reincidência316.
Rui Abrunhosa Gonçalves317 apresenta-nos um modelo de tratamento, que
intervém junto dos ofensores em vários aspetos e que integra três vértices fundamentais: a punição, o tratamento e o controlo. Tal modelo irá incidir numa correta avaliação de cada ofensor, no risco que ele apresenta e no prognóstico para o seu tratamento.
Todo este processo de avaliação é feito com o auxílio a uma variedade de instrumentos, quer de autorrelato, quer de checklists. O instrumento base proposto para a avaliação de ofensores é a PCL-R, pois permite identificar a psicopatia e recolher uma grande quantidade de informação dos ofensores através da sua entrevista semiestruturada. Feita esta análise, poder-se-á recorrer a um plano de intervenção que incida nas vertentes do tratamento e do controlo ou em ambas separadamente que tenha como objetivo o bem-estar social, que se deve sobrepor ao bem-estar individual. Tal modelo impõe que a qualquer momento o plano de intervenção possa ser interrompido pelo terapeuta, caso hajam indícios seguros que o agressor ameaça envolver-se de novo em comportamentos desviantes.
Ademais, a parte do controlo é muito importante. As dificuldades de reinserção são muitas devido ao facto de a sociedade ser estigmatizante ou, então, porque o controlo exercido sobre o indivíduo não foi eficaz. Por isso, é necessário que os programas de intervenção prevejam módulos de prevenção de recaídas, se bem que o controlo deve abranger-se também à família, amigos, vizinhos, instituições de justiça ou monitorização eletrónica do sujeito.
Sobre este programa de intervenção, e relativamente aos psicopatas, devemos ter em conta o risco apresentado por estes e as dificuldades demonstradas ao nível de tratamento. Estes indivíduos, devido à gravidade da violência que praticam, tendem a ter penas elevadas e quando assim não o é, ela tende a aumentar devido ao cometimento de comportamentos violentos aquando do cumprimento da pena. Com
316 FORTH, Adelle; BO, Sune; KONGERSLEV, Mickey, op. cit., 2013, pp. 11-12. No seguimento do mesmo assunto v.
GONÇALVES, Rui Abrunhosa, op. cit., 2007, p. 574, que refere que não adianta dotar os indivíduos de competências educacionais, laborais ou profissionais se não se proceder a uma alteração, anteriormente, aos padrões de pensamento e de relacionamento inerpessoal.
317 Para este modelo são necessários dados referentes às variáveis de carácter socio-demográfico, jurídico-penal e clínicas. A lei
defende que a prisão deverá ser sobretudo ressocializadora e, por isso, deve oferecer equivalências de trabalho, educação, lazer e formação profissional, do mesmo modo que deve oferecer competências relacionais e interpessoais, mudanças de pensamentos, comportamentos e estilos de vida. Isto pode ser feito com o consentimento do recluso ou através de meios mais coercivos, uma vez que a motivação para a mudança não implica necessáriamente que ele não consiga mudar e faça progressos. Conforme referido por GONÇALVES, Rui Abrunhosa, op. cit., 2007, pp. 576-578.
isto quer-se dizer que, apesar das reduzidas taxas de sucesso em psicopatas, o tratamento deve sempre existir, contudo deve, anteriormente, ser feita sempre uma análise aos benefícios, custos e prioridades. Em todo este processo, a parte do controlo irá ganhar grandes contornos sobre o tratamento e a punição, uma vez que estes sujeitos apresentam altas taxas de reincidência318.
São apontados alguns cuidados que devem ser tidos com os psicopatas, pois muitos estudos demonstram que estes podem aumentar as suas capacidades de manipulação quando o tratamento é aplicado de forma inapropriada319. Muitos
psicopatas participam em todos os tipos de programas fornecidos pelos estabelecimentos prisionais, fazem um bom papel, apresentam progressos positivos, convencem os terapeutas do seu caráter reestruturado, são libertados e reiniciam os seus comportamentos onde pararam quando entraram na prisão320. Algumas pesquisas
acrescentam, ainda, que, em indivíduos psicopatas com maiores prejuízos emocionais, as taxas de reincidência são maiores naqueles que receberam tratamento para a perturbação, comparados com aqueles que não receberam qualquer tipo de tratamento. Veja-se por exemplo o estudo de Harris, Rice e Cormier (1991), que compararam a taxa de reincidência em 169 pacientes que tinham sido submetidos a um programa intensivo de tratamento. Em não psicopatas, a taxa de reincidência de crimes violentos foi de 22% em indivíduos que receberam tratamento e 39% em indivíduos que não receberam. Contudo, em indivíduos psicopatas, a taxa de reincidência de crimes violentos era de 77% para indivíduos tratados e 55% para não tratados321. Ora, como é que um programa terapêutico pode tornar alguém pior?
Entende-se que os grupos de terapia e os programas orientados para a introspeção e discernimento podem ajudar os psicopatas a melhorarem as suas capacidade de manipulação, de mentira e a usar os outros, mas não os ajudam tanto a entenderem-se a eles próprios322.
Ao contrário da maioria dos outros criminosos, os psicopatas aparentam sofrer pouco de angústia pessoal, não veem as suas atitudes e comportamentos como errados
318 Idem, pp. 580-581.
319 FORTH, Adelle; BO, Sune; KONGERSLEV, Mickey, op. cit., 2013, p. 12.
320 HARE, Robert D., op. cit., 2003, p. 202. V. GONÇALVES, Rui Abrunhosa, op. cit., 1999, p. 179, relativamente ao carácter
intensivo dos programas com psicopatas e ao desgaste provocado no terapeuta para não ser enganado por ele, é importante que aquela possa ter oportunidade de discutir e verbalizar com outros colegas a sua relação com o ofensor e a forma como tem lidado com as características destrutivas dele, de modo a não desenvolver reações adversas de descrença e negativismo face ao tratamento.
321 HARRIS, Grant T.; RICE, Marnie E.; CORMIER, Catherine A., op. cit., 1991, p. 627. 322 HARE, Robert D., op. cit., 2003, p. 202.
e só procuram tratamento quando isso beneficia os seus próprios interesses, como em situações que pretendem a sua liberdade condicional323. Para além disso, estes
indivíduos apresentam uma fraca motivação, mostram poucos progressos nos tratamentos e, normalmente, terminam-nos prematuramente324.
Atente-se, ainda, para o facto de que este aspeto da avaliação do tratamento encontra-se relacionado com a capacidade de predizer comportamentos futuros. Para o sector forense, uma parte muito importante é a de prever a perigosidade futura do ofensor e saber até que ponto um tratamento pode ser eficaz na diminuição dessa mesma perigosidade e levar à sua libertação. No caso dos psicopatas, esta torna-se uma tarefa bastante complicada, uma vez que no cometimento do comportamento criminoso estão envolvidos muitos fatores pessoais e, também, muitas variáveis situacionais. Por isso, a avaliação quer de informações individuais, quer da motivação do indivíduo para o tratamento, quer da verificação do sucesso de outros tratamentos anteriores são fundamentais para a apreciação desta situação325.
Se os indivíduos com traços psicopáticos são aqueles com maior índice de reincidência e que demonstram menores probabilidades de tratamento, principalmente em programas direcionados para o desenvolvimento da empatia, consciência e capacidades interpessoais, então o que deve ser feito para os ajudar? Individualizá-los de outros ofensores parece ser uma boa estratégia, devido às suas altas capacidades de exploração e manipulação, porém isto acarretaria a existência de unidades especiais para os manter longe de outros ofensores, o que, por si só, se tornaria muito dispendioso.
Apesar da existência de reduzidas taxas de sucesso e dos programas de tratamento serem difíceis, consumirem muito tempo e serem caros, em nossa opinião, é importante que estes continuem a ser implementados e que se continuem a fazer mais e melhores investigações relacionadas com estas áreas, que tragam novas
323 Cf. HARE, Robert D.; NEWMANN, Craig S., op. cit., 2010, p. 108.
324 V. sobre isto FORTH, Adelle; BO, Sune; KONGERSLEV, Mickey, op. cit., 2013, p. 11. Também a existência de alguns
mitos, ilusões e crenças irracionais nas instituições penitenciárias, de acordo com GONÇALVES, Rui Abrunhosa, op. cit., 2007, p. 575, desfavorecem as taxas de sucesso dos tratamentos efetuados com os ofensores e promovem a sua resistência à mudança. Um dos mitos é o da “visão do delinquente como um doente a tratar e o tratamento penitenciário como um procedimento de tipo médico”, ora este mito pressupõe que grande parte dos tratamentos efetuados em prisões são feitos a ofensores que possuem algum distúrbio mental ou que desenvolveram alguma sintomatologia patológica durante o cumprimento da pena, quando na verdade a percentagem destes indivíduos corresponde a uma pequena minoria. Um outro mito é o do “penitenciarista ingénuo”, que pode ter duas formas de expressão. A primeira é a de que o ofensor é uma vítima-produto da sociedade criminosa existente e que sem a modificação daquela, não poderemos esperar bons resultados na prevenção do crime; a segunda verifica-se em alguns agentes penitenciários, que com um certo objetivo de ajudar, propõem ao indivíduo algumas mudanças que este não está disposto a cumprir.
informações e que ajudem a reduzir os danos causados por psicopatas. É, ainda, fundamental ter em conta que as intervenções de tratamento de psicopatas feitas ainda durante a infância possuem um efeito muito mais efetivo, porque nesta fase os traços de personalidade são geralmente muito mais moldáveis326.