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CAPÍTULO 3 Procedimentos Metodológicos

3.5 O tratamento dos dados e os procedimentos analíticos

Para o tratamento dos dados registrados em vídeo fizemos uso de um software desenvolvido pelo IPN-Kiel, o Videograph®. Para cada aula filmada obtivemos um arquivo que oferece os dados quantitativos referentes aos percentuais de cada categoria empregada na análise.

Os dados utilizados para categorização com o Videograph® foram oriundos de uma câmera filmadora móvel, a qual acompanhava a professora nos seus deslocamentos em toda a sala de aula. Quando a professora se aproximava de algum grupo, escrevia no quadro de giz ou caminhava pela sala, a câmera focalizava esses momentos.

O trabalho de análise, considerando diretamente as imagens das aulas em vídeo, faz com que seja possível levar em conta os aspectos verbais e os não - verbais das interações. Essa forma de análise nos ajuda a superar uma limitação da análise dos discursos transcritos, que, por mais sofisticada que seja, não conseguiria evitar a perda de elementos não - verbais.

O Videograph® funciona da seguinte forma: na tela do computador aparecem: um registro áudio visual da aula, as categorias informadas pelo pesquisador e uma linha do tempo. Quando o vídeo é colocado em funcionamento, o pesquisador seleciona a categoria que ele considera correspondente àquele momento da aula e a linha do tempo vai registrando tal categoria em um espaço que se encontra abaixo da imagem do vídeo - uma linha do tempo. Quando o pesquisador seleciona uma nova categoria, ela passa a ser registrada em lugar da anterior, de modo a aparecer uma demarcação entre ambas. O programa oferece o tempo destinado a cada categoria ao longo da análise. Os tempos absolutos obtidos são transferidos para uma planilha do Excel, o qual nos dá a condição de somar aqueles referentes a cada categoria nas diferentes aulas, obter os respectivos percentuais e construir gráficos para melhor visualização. Tivemos o cuidado de, no final, conferirmos as somas dos tempos de todas as categorias, e verificar se não havia contradições entre eles. Por exemplo, o tempo referente à codificação da abordagem comunicativa deve ser o mesmo daquele referente ao discurso de conteúdo científico, uma vez que a categorização desse conjunto de categorias se dá apenas nos momentos em que o professor assume este tipo de discurso uma vez que a categorização desse

conjunto de categorias se dá apenas nos momentos em que o professor assume esse tipo de discurso.

Na codificação das categorias, inicialmente, trabalhamos a posição do professor e o tipo do discurso. Essas duas categorias foram primeiramente codificadas devido ao fato de serem mais superficiais e diretas. A codificação das outras categorias dependia exclusivamente do tipo do discurso, pois seriam aplicadas somente nos momentos em que a professora assumia um discurso de conteúdo científico.

Sobre a posição do professor, como comentado anteriormente, isoladamente ela nada informa, mas, quando analisada no mapa de episódios, a posição do professor assume uma condição fundamental para a percepção da dinâmica discursiva em sala de aula. Os seus percentuais nos ajudam a entender a dinâmica utilizada pelo professor para gerenciar as atividades desenvolvidas.

Para melhor visualização da cada aula, inicialmente construímos um mapa de episódio. Mortimer et al (2007) afirmam que um episódio é definido como um conjunto de ações e significados que são produzidos na interação, o qual deve ter um início e um fim bem definido.

Os episódios não são delimitados pelos aspectos verbais e não - verbais (gestos, entonações da voz, movimentos), mas por um conjunto de categorias que incluem: o tema, a fase da atividade na qual ele tem lugar, as ações dos participantes, as formas como os participantes se posicionam no espaço físico em que ocorrem as interações e as formas pelas quais os participantes interagem entre si e com os recursos materiais utilizados.

Desta forma, o mapa de episódio elaborado para cada aula é formado por 10 colunas que focalizam: a ordem do episódio (se é o primeiro ou segundo e assim por diante); a posição do professor; o tipo do discurso; o tema do episódio; os tempos final e inicial de cada episódio; a sequência discursiva, a qual pode ser única ou variada para um episódio considerando-se a possibilidade de subtemas; os tempos inicial e final das sequências discursivas; a abordagem comunicativa; as intenções do professor; as observações gerais e os erros conceituais (Apêndice B).

O mapeamento das aulas nos possibilitou uma primeira aproximação com os dados e nos ajudou a construir uma visão panorâmica da dinâmica discursiva da sala de aula envolvendo as intenções do professor, a abordagem comunicativa e as mudanças gerais de comportamento da professora e dos alunos.

É observado que, para toda a aula, o planejamento da professora concilia-se a uma almejada dinâmica discursiva, mas, na prática, visto que a dinâmica discursiva na sala de aula é influenciada pelo comportamento dos alunos, pelos recursos utilizados,

pelos aparatos experimentais e pelo próprio desenvolvimento das atividades, não é incomum alterações no planejamento inicial.

As abordagens comunicativas e as intenções do professor se relacionam intimamente, uma vez que a abertura do professor para os pontos de vista dos alunos relacionam-se às suas intenções ao longo da aula. Desse modo, esses conjuntos de categorias devem ser analisadas ao mesmo tempo ou contrapostos um ao outro para que não haja contradição entre ambos. É preciso ressaltar que essas categorias não são aplicáveis aos turnos de fala, visto que é necessário um segmento mais amplo da aula para ser possível identificar qual a intenção e a abordagem comunicativa. É observado que tais categorias apresentam uma variação bastante pequena nesses turnos, as quais em muitas aulas acabam não variando. Por outro lado, quando são considerados episódios, é possível que apareça mais de um tipo de intenção ou abordagem, problema que é resolvido trabalhando-se com sequências discursivas e, caso necessário, escolhendo aquela categoria mais predominante ao longo desse segmento.

Na codificação da abordagem comunicativa é preciso ficar atento às interações. Quando a sequência não traz turnos de fala, ela é não interativa/ de autoridade, sendo codificada como “sem interação”. Por outro lado, quando a sequência é interativa/ dialógica ou de autoridade, ela é codificada como sendo “com interação”, trazendo segmentos de turnos de fala.”

Os mapeamentos dos padrões de interações, os quais são considerados como uma microanálise da dinâmica discursiva da professora, não foram usados para todas as sequências, mas apenas para algumas sequências discursivas selecionadas. Essas sequências selecionadas refletiam de forma significativa características voltadas às intenções do professor que prevalecem em diferentes aulas e ao tipo de abordagem comunicativa. Esses padrões também ajudam a dar visibilidade às intenções e às classes de abordagem comunicativa.

Já para a categoria locutor foi feito o mapeamento apenas para o tipo de conteúdo do discurso “discurso de conteúdo científico”, visto que, em nossa análise, estávamos interessados apenas no discurso que a professora desenvolvia a estória científica.

Neste capítulo apresentamos a metodologia empregada para a coleta de dados. Segundo Mortimer et al (2007), para caracterizar a dinâmica discursiva de uma sala de aula, é preciso utilizar uma certa quantidade de aulas, pois, só assim, poderemos analisar os personagens em diferentes situações. Utilizamos em nossa análise dois

momentos, os quais foram influenciados pelo contexto de dentro e de fora da sala de aula. Optamos, então, por apresentar todos os momentos que compreenderam o semestre, assim, não deixamos de fora os momentos em que as aulas não foram filmadas, visto que eles influenciaram diretamente sua dinâmica discursiva.

A professora em seu planejamento faz uso de duas situações para introduzir e desenvolver conceitos: por meio de experimentos ou por meio de aula expositiva. Observamos que essas duas situações são bastante evidentes no planejamento da professora, portanto, optamos em selecionar, para uma análise mais minuciosa, um exemplo de cada situação.

Capítulo 4 - Os professores que lecionam Ciências Naturais no Ensino

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