O Tribunal do Júri é um órgão colegiado, integrante do Poder Judiciário, composto por juiz togado, que preside, e vinte e cinco jurados, pessoas leigas, de nacionalidade brasileira, maiores de 18 anos, idôneas e alfabetizadas175. Segundo a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 5º, XXXVIII176, trata-se de direito e garantia fundamental, que possibilita à participação do povo nas decisões do Poder Judiciário, garantindo-se o devido processo legal para o julgamento dos crimes contra a vida, seja na forma consumada ou tentada177.
O Tribunal do Júri é regulado pelo Código de Processo Penal, mas devem ser respeitados os seguintes princípios constitucionais: a) plenitude de defesa;
b)soberania dos veredictos; c)sigilo das votações; d)competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
A plenitude de defesa possui na verdade uma dupla faceta, pois a defesa está dividida em técnica e autodefesa178. A primeira, obrigatória, é exercida por profissional habilitado, sendo que a última é uma faculdade do imputado, que pode
175 NUCCI, Guilherme de S. Prática Forense Penal. 7 ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p.
229.
176 BRASIL. Constituição. Constituição da República Federativa do Brasil. Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem- estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Brasília, DF, Senado, 1988.
Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br/ ccivil_03/ constituicao/ ConstituicaoCompilado.htm >.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes [omissis] XXXVIII - é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos; d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
177 . Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo
Penal. Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br /ccivil_03 /decreto-lei / del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. § 1º Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1o e 2o, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados.
178 TAVORA, Nestor; ALENCAR, Rosmar Rodrigues. Curso de Processo Penal. 8 ed. São Paulo:
JusPodvim, 2013. p. 826.
trazer a sua versão dos fatos, ou valer-se do direito ao silêncio179. Prevalece no júri a possibilidade não só da utilização de argumentos técnicos, mas também de natureza sentimental, social e até mesmo de política criminal, no intuito de convencer o corpo de jurados180. Muito se questionava, caso houvesse divergência, entre a defesa técnica, realizada pelo defensor, e a autodefesa, realizada pelo réu no interrogatório.
Qual delas deveria ser encaminhada aos jurados. O STF181 entende que devem prevalecer as teses sustentadas pela defesa técnica. O Doutrinador Nestor Tavora182, entende que devem ser acolhidas as duas defesas, técnica e autodefesa.
Ainda é importante ressaltar, quanto a plenitude de defesa que, no momento da quesitação, mesmo que tenha o júri afirmado a materialidade e a autoria do fato deve ser formulado quesito específico183 onde se questionará se o júri absolve o acusado. Tal questão engloba todas as teses de defesa.
O Sigilo das votações possui o escopo de afastar qualquer desconforto aos jurados, no sentido de que estes não venham a ser intimidados184. O sigilo das votações envolve o voto e o local do voto. Para evitar intimidação dos jurados, as votações ocorrem em uma sala especial, com a presença185 das pessoas indispensáveis a
179 TAVORA. 2013. p. 826.
180 Ibid.
181 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Acordão proferido em Habeas Corpus nº 72.450/PE.
"Habeas-corpus". Dois homicídios consumados e um tentado, ocorridos no interior de presídio.
Decisão do tribunal do júri não apelada. Conhecimento, apenas, quanto às questões apreciadas em revisão criminal pelo tribunal "a quo". Vício na quesitacão: legítima defesa e súmula 162. 1. Não cabe a invocação da Súmula 162 ("e absoluta a nulidade do julgamento pelo júri, quando os quesitos da defesa não precederam aos das circunstâncias agravantes") porque não houve quesito sobre circunstância agravante. 2. O juiz não formula os quesitos a partir do que o réu disse no interrogatório ou do que as testemunhas afirmaram nos depoimentos, mas, exclusivamente, dentro dos limites das teses sustentadas pela defesa técnica. Não argüida a tese da legítima defesa durante os debates perante o Plenário do Tribunal do Júri, não se pode pretender a nulidade do julgamento por defeito do questionário. Inocorrência de violação ao art. 484, III, do CPP. 3. "Habeas-corpus" indeferido na parte em que foi conhecido. Órgão julgador Segunda Turma Relator: Min. Maurício Corrêa, Data de Julgamento: 15 abr. 1996 , Data de Publicação: DJ 19 abr. 1996PP-00084 EMENT VOL-02077-01 PP-00076 RTJ VOL-00191-01 PP-00218.. Disponível em < http:// www.stf.jus.br/ arquivo/ informativo/
documento/informativo276.htm>. Acessado em: 26 nov. 2014..
182 TAVORA. 2013. p. 826.
183 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br /ccivil_03 /decreto-lei / del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 483. Os quesitos serão formulados na seguinte ordem, indagando sobre: [omissis] § 2o Respondidos afirmativamente por mais de 3 (três) jurados os quesitos relativos aos incisos I e II do caput deste artigo será formulado quesito com a seguinte redação: O jurado absolve o acusado?.
184TAVORA. 2013. p. 826.
185 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br /ccivil_03 /decreto-lei / del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 485. Não havendo dúvida a ser esclarecida, o juiz presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial
esse ato processual: o juiz, os jurados, o membro do Ministério Público, o advogado e os auxiliares da justiça.
A redação do artigo 485, CPP, dispõe que, ao final dos debates e não havendo dúvida a ser esclarecida, o juiz presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de ser procedida a votação. Em acréscimo, o seu § 1º preconiza que na falta de sala especial, o juiz presidente determinará que o público se retire, permanecendo somente as pessoas mencionadas no caput deste artigo. É evidente que não havendo sala própria, cabe ao magistrado determinar o esvaziamento do plenário.
Para assegurar o sigilo186, deve o juiz suspender a divulgação dos demais votos assim que se definir a votação de cada quesito, evitando que seja o sigilo seja violado por uma eventual votação unânime.
Os jurados julgam os fatos, e esse é o alcance da soberania dos veredictos, o julgamento dos fatos187. Esse julgamento não é passível de modificação e em hipótese de julgamento manifestamente contrário à prova dos autos, a apelação provida terá o condão de cassar o julgamento e mandar o acusado a um novo júri188. Contudo, em prol da inocência, tal princípio não é absoluto, admitindo-se que o Tribunal de Justiça absolva de pronto o réu condenado injustamente pelo júri em sentença transitada em julgado, no âmbito da ação de revisão crimina189l.
de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de ser procedida a votação. § 1o Na falta de sala especial, o juiz presidente determinará que o público se retire, permanecendo somente as pessoas mencionadas no caput deste artigo. § 2o O juiz presidente advertirá as partes de que não será permitida qualquer intervenção que possa perturbar a livre manifestação do Conselho e fará retirar da sala quem se portar inconvenientemente.
186 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br /ccivil_03 /decreto-lei / del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 483. Os quesitos serão formulados na seguinte ordem, indagando sobre: [omissis] § 1o A resposta negativa, de mais de 3 (três) jurados, a qualquer dos quesitos referidos nos incisos I e II do caput deste artigo encerra a votação e implica a absolvição do acusado.
§ 2o Respondidos afirmativamente por mais de 3 (três) jurados os quesitos relativos aos incisos I e II do caput deste artigo será formulado quesito com a seguinte redação: O jurado absolve o acusado.
187 TAVORA. 2013. p. 827.
188 Ibid.
189 Ibid.
O tribunal do júri possui competência para processar e julgar os crimes dolosos potencial ofensivo194, será atraída ao procedimento escalonado do tribunal popular, assegurando-se, para estas últimas, os institutos despenalizadores da Lei nº 9.099 de 26 de setembro e 1995, que dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais.
Em outro giro, quanto ao procedimento, este é dividido em duas fases: instrução preliminar ou judicium accusationis, e julgamento em plenário ou judicium causae.195 A primeira seria destinada à formação da culpa, denominada instrução preliminar realização do interrogatório e de debates orais, diferenciando-se sobremodo a partir do encerramento da instrução): chama-se juízo de admissibilidade, positivo pelo juiz sumariamente (juiz singular): denomina-se judicium causae
190 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: < http:// www.planalto.gov.br /ccivil_03 /decreto-lei / del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. § 1º Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1o e 2o, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados.
191 TAVORA. 2013. p. 827.
192 Ibid. p. 828.
193 Ibid.
194 Ibid.
195 LOPES JUNIOR, Aury. Direito Processual Penal. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 1.045.
196 TAVORA. 2013. p. 829.
ou juízo de mérito, onde os fatos serão apreciados pelos jurados, sob a presidência do juiz presidente do tribunal do júri197:
.
Percebe-se então que o procedimento, na primeira fase, a judicium accusationis, apesar de parecida com o procedimento ordinário, passou a ter nova formatação, possibilitando as alegações escritas preliminares e a inversão do rito quanto ao interrogatório e debates orais. Já a segunda, judicium causae, é onde os fatos serão apreciados pelos jurados.
A judicium accusationis é inaugurada com o recebimento da denúncia ou queixa, onde o juiz determinará a citação do réu, para responder a acusação, em prazo de 10 dias, acompanhada com as provas documentais e rol de testemunhas.
[...] após o recebimento da denúncia ou queixa, contendo rol de até oito testemunhas, o juiz determina a citação do réu para responder a acusação, por escrito, no prazo de dez dias. Oferecida a defesa prévia, contendo toda a matéria de seu interesse, além do oferecimento de eventuais documentos e rol de testemunhas, até o máximo de oito, ouve-se o órgão acusatório, se houver preliminares e documentos novos. O magistrado designa audiência de instrução e julgamento. Nesta, ouvem-se as declarações do ofendido, se viável, os depoimentos das testemunhas de acusação e de defesa, os esclarecimentos dos peritos, acareações e reconhecimento de pessoas e coisas podem ser feitos. Ao final, interroga-se o acusado, que pode permanecer em silêncio, se desejar. Realizam-se os debates orais. O juiz profere a sua decisão em seguida ou o fará no prazo de dez dias198.
Ressalte-se que mesmo que o réu, não responda a acusação, o juiz nomeará defensor199.
Havendo decisão de pronúncia, transitada esta em julgado, inaugura-se a segunda fase com a abertura da sessão plenária, ou judicium causae, onde as provas serão apresentadas aos jurados.
[...] as provas e alegações das partes serão formalmente apresentadas aos jurados, integrantes do Conselho de Sentença, para que, ao final, seja proferida a decisão de condenação ou absolvição. O juiz presidente lavra a sentença e encerra a sessão200.
197 TAVORA. 2013. p. 829.
198 NUCCI. 2013. p. 230.
199 Ibid.
200 Ibid.
Para Guilherme de Souza Nucci, em um viés formal, há basicamente três fases, para o desenvolvimento do processo.
Nucci entende que o procedimento do júri, sobretudo depois da reforma da Lei n. 11.689/2008, conta, na verdade, com três fases, visto que o CPP,
O juiz presidente do Tribunal do Júri determina a intimação das partes para que, em cinco dias, manifestem-se, requerendo qualquer diligência, oferecendo documentos e apresentando rol de até cinco testemunhas para depoimento em plenário. Serão providenciadas as diligências necessárias e o magistrado fará o relatório sucinto do processo, por escrito, a fim de ser entregue aos jurados oportunamente. Após, o juiz designa data para o julgamento em plenário. Enquanto se aguarda a realização da sessão de julgamento, outros incidentes podem ser instaurados, como, por exemplo, a justificação, para colher alguma prova inédita surgida após a etapa das diligências202.
Há quatro decisões possíveis para a finalização da fase da formação da culpa. A decisão de Pronúncia, Impronúncia, Absolvição Sumária e Desclassificação.
a) pronúncia – decisão interlocutória mista, que coloca fim à fase de colheita de provas, julgando admissível a acusação e encaminhando o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri; b) impronúncia – decisão interlocutória mista, que coloca fim ao processo, julgando improcedente a denúncia, por ausência de prova suficiente da materialidade ou de indícios de autoria: c) desclassificação – decisão interlocutória simples, que desloca a competência para o julgamento da causa a outro juízo, pois não se trata de crime doloso contra a vida; d) absolvição sumária – decisão terminativa de mérito, que encerra o processo, julgando improcedente a ação, por estar claramente demonstrada a inexistência do fato, não ter sido o réu o autor ou partícipe do fato, o fato não constituir infração penal ou a ocorrência de excludente de ilicitude ou de culpabilidade203.
201 NUCCI. 2013. p. 230
202 Ibid.
203 EL TASSE, Adel; GOMES, Luis Flávio. Processo Penal IV: Júri. São Paulo: Saraiva, 2012. p.61.
A Pronúncia, embora denominada sentença, em razão da forma como é prolatada, é apenas decisão interlocutória mista204, embora seja uma decisão interlocutória, mantém a estrutura formal de uma sentença na sua composição, ou seja, deve possuir relatório, fundamentação e dispositivo, cuja finalidade é acolher a acusação205. Estando presentes a materialidade, ou seja, conjunto dos vestígios deixados pelo crime e indícios suficientes de autoria, encaminha-se o réu a julgamento pelo Tribunal do Júri206.
Interessante ainda mencionar, que nesta fase, prepondera o princípio do in dubio pro societate207, ou seja, havendo dúvida fundada, deve o juiz pronunciar o réu, desde que conte com provas mínimas sobre a materialidade e a autoria.
Não havendo sequer provas mínimas, não é o caso de pronúncia, e sim de impronúncia. E se o réu já foi pronunciado, cabe ao tribunal despronunciar208. O princípio do in dubio pro societate não pode ser invocado em todos os casos209,
204 EL TASSE; GOMES. 2012. p.61.
205 Ibid.
206 Ibid.
207 Ibid.
208 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Acordão Proferido em Recurso Especial nº 1010570/DF.
Recurso especial. Despronúncia. Ausência de elementos indiciários da autoria. Matéria probatória.
Súmula 7. Despronúncia. Ausência de elementos indiciários da autoria. Matéria probatória. Súmula 7.
A Corte de origem, ao desvendar a inexistência de indícios mínimos de autoria, tornou a controvérsia somente apurável em nível de cotejo probatório, o que recomenda a aplicação da Súmula 7 desta Corte. Não se é de verificar a prevalência do princípio do in dubio pro societate, no juízo de pronúncia, se nem ao menos restaram comprovados indícios suficientes de autoria, circunstância a ser considerada para permitir a despronúncia. Recurso não conhecido. Órgão julgador Sexta Turma.
Relatora: Ministra Maria Thereza de Assis Moura. Julgado em 16 nov. 2010. Publicado no DJe em 29 nov. 1994. Disponível em < http:// stj.jusbrasil.com.br /jurisprudencia/17630063/recurso-especial-resp- 1010570-df-2007-0267381-1> Acessado em: 25 nov. 2014.
209 . Supremo Tribuna Federal. Acordão proferido em Habeas Corpus nº: 81646 PE. 1.
Não é questão de prova, mas de direito probatório - que comporta deslinde em habeas-corpus -, a de saber se é admissível a pronúncia fundada em dúvida declarada com relação à existência material do crime. II. Pronúncia: inadmissibilidade: invocação descabida do in dubio pro societate na dúvida convencimento fundado na prova: donde, a exigência - que aí cobre tanto a da existência do crime, quanto da ocorrência de indícios de autoria, de que o juiz decline, na decisão, "os motivos do seu convencimento". 4. Caso em que, à frustração da prova pericial - que concluiu pela impossibilidade de determinar a causa da morte investigada -, somou-se a contradição invencível entre a versão do acusado e a da irmã da vítima: conseqüente e confessada dúvida do juiz acerca da existência de homicídio, que, não obstante, pronunciou o réu sob o pálio da invocação do in dubio pro societate, descabido no ponto. 5. Habeas-corpus deferido por falta de justa causa para a pronúncia. Órgão julgador Primeira Turma. Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Julgado em 04 jun. 2002. Publicado
no DJe em 09 ago. 2002. Disponível em
<http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo276.htm>. Acesso em: 26 nov. 2014..
sobretudo quando vagos e imprecisos os indícios sobre a existência do crime ou autoria210.
Resta dizer, que este princípio não se confunde, com o princípio do in dubio pro reo, que só vigora no momento da sentença final, que condena ou absolve o acusado211. Não pode ser confundido o momento da pronúncia e o da sentença final.
Quanto à composição da sentença de pronúncia212 é valido falar, que ela deve (a) evidenciar as provas existentes a respeito da materialidade do fato e da autoria (ou participação), sem fazer juízo de mérito profundo (para condenar ou absolver); (b) declarar o dispositivo legal em que julgar incurso o acusado; (c) especificar as circunstâncias qualificadoras e, (d) as causas de aumento de pena.
Conforme já ventilado anteriormente, a Despronúncia213, que ocorre quando a decisão de pronúncia proferida pelo juiz é reformada, por intermédio de interposição de Recurso em Sentindo Estrito, o provimento deste recurso, acarreta o mesmo efeito da Impronúncia.
São duas as possibilidades214 de despronúncia: (a) a primeira pode acontecer quando o juiz, diante do recurso em sentido estrito, retrata-se; (b) a segunda, quando o tribunal julga tal recurso e lhe dá provimento.
Em outro giro, não se convencendo o juiz da materialidade do fato ou da existência de indícios suficientes de autoria ou de participação, fundamentadamente, Impronunciará o acusado215. A impronúncia é decisão terminativa que não avalia o mérito da imputação, não decide se o réu é culpado ou inocente, mas não permite que seja julgado pelo Tribunal do Júri216, por faltar prova da existência do crime ou
210 EL TASSE; GOMES. 2012. p.61
211 Ibid.
212 Ibid.
213 Ibid.
214 Ibid. p.62.
215 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm>.
Acesso em 29 out. 2014. Art. 414. Não se convencendo da materialidade do fato ou da existência de indícios suficientes de autoria ou de participação, o juiz, fundamentadamente, impronunciará o acusado.
216 EL TASSE; GOMES. 2012. p.62.
de que o réu seja o seu autor. Se, posteriormente, outras provas surgirem, pode ser oferecida outra denúncia (ou queixa, conforme o caso), reabrindo-se a instrução.
Sobre a natureza jurídica da impronúncia217 há, pelo menos, duas correntes: (a) a que entende que se trata de uma decisão interlocutória mista terminativa e (b) a que afirma que se trata de uma sentença terminativa.
Seria decisão mista porque a impronúncia põe fim a uma fase do processo218, assim também como a pronúncia, mas terminativa porque encerra o processo, diferente da pronúncia, que encerraria apenas a fase do judicium accusationis219. De acordo com a opinião de Adel el Tasse, Luiz Flávio Gomes220, na medida em que encerra o processo, o melhor é asseverar que se trata de uma sentença (mais precisamente, sentença terminativa, porque extingue o processo sem julgamento do mérito do pedido, ou seja, sem condenar ou absolver)
A decisão de impronúncia só faz coisa julgada formal, não material, por força do parágrafo único do art. 414 do CPP221, pois enquanto não ocorrer à extinção da punibilidade, poderá ser formulada nova denúncia ou queixa se houver prova nova.
A Desclassificação ocorre quando o juiz se convence, em discordância com a acusação, da existência de crime diverso dos crimes dolosos contra a vida, tentado ou consumado222, e não for competente para o julgamento, remeterá os autos ao juiz que o seja223. Assim, desclassifica-se a infração para outra que não pertence à competência do Tribunal do Júri.
217 EL TASSE; GOMES. 2012. p.63.
218 Ibid.
219 Ibid.
220 Ibid.
221 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm>.
221 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, promulgado em 13 de outubro de1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3689compilado.htm>.