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A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar realizada em Montego Bay, na Jamaica, em 1982, instituiu o Tribunal Internacional do Direito do Mar com a finalidade de decidir sobre os conflitos advindos da sua aplicação ou interpretação.

Accioly, Silva e Casella (2012, p.223) explicam que a Convenção de 1982 é o resultado de ―mais de nove anos de reuniões de delegados de todo o mundo em Genebra, Nova York, Caracas e Kingston, na Jamaica‖. Ainda explicam os autores que ―a principal preocupação da maioria das delegações não era de cunho legal, mas sim político e econômico‖.

Nesse sentido, é importante destacar que o discurso proferido pelo delegado de Malta,

Arvid Pardo, em 1967, na Assembleia Geral das Nações Unidas, é base importante para as negociações da Convenção de 1982.

A respeito do conteúdo do discurso do delegado de Malta, Accioly, Silva e Casella (2012, p.223) explicam que:

[...] abordou os últimos progressos verificados em relação à exploração dos mares, principalmente dos fundos dos oceanos, de onde, ao que tudo indicava, seria possível extrair quantidades fantásticas de minérios, sobretudo nódulos de manganês, níquel, cobre e ferro, além de outros minérios em menores quantidades, além do potencial do subsolo dos fundos marinhos em matéria de petróleo e gás natural.

Os países em desenvolvimento reagiram positivamente a esse discurso, conforme explicam Accioly, Silva e Casella (2012, p.223):

O pronunciamento de Arvid Pardo foi recebido com entusiasmo pelos países em desenvolvimento, animados com a possibilidade de poderem participar da exploração dessas riquezas, desde que conseguissem evitar que as grandes potências monopolizassem a sua exploração.

Assim, após o processo de negociação da Convenção, as partes, já no preâmbulo manifestaram-se favorável a estabelecer uma nova ordem jurídica:

[...] uma ordem jurídica para os mares e oceanos que facilite as comunicações internacionais e promova os usos pacíficos dos mares e oceanos, a utilização equitativa e eficiente dos seus recursos, a conservação dos recursos vivos e o estudo, a proteção e a preservação do meio marinho.

Desse modo, o Tribunal Internacional do Direito do Mar com sede em Hamburgo, na Alemanha, é composto por 21 juízes, os quais devem ter experiência em temas relacionados com o direito do Mar.

Nesse sentido, o Art. 2º, do anexo VI da Convenção, referente ao Estatuto do Tribunal

Internacional do Direito do Mar, dispõe: Art. 2º.

1. The Tribunal shall be composed of a body of 21 independent members, elected from among persons enjoying the highest reputation for fairness and integrity and of recognized competence in the field of the law of the sea.134

134 Tradução livre da autora: o Tribunal é composto por um corpo de 21 membros independentes, eleitos de entre pessoas que gozem da mais elevada reputação pela sua imparcialidade e integridade, de reconhecida competência no campo do direito do mar.

Nessa mesma linha de raciocínio, o fato de os membros terem experiência relevante em matéria de direito do mar, considera-se uma das maiores vantagens do Tribunal. Conforme Avgerinopoulou (2003, p.7) ―The expertise of the judges is also one of the main advantages of

the Tribunal‖.135

O Tribunal tem jurisdição para conhecer dos casos decorrentes das disposições da Convenção. No entanto, não é o mecanismo exclusivo para as partes, as quais, conforme o Art. 287 da Convenção podem submeter suas controvérsias a outras Cortes e Tribunais, in verbis:

Art. 287.

1. When signing, ratifying or acceding to this Convention or at any time thereafter, a State shall be free to choose, by means of a written declaration, one or more of the following means for the settlement of disputes concerning the interpretation or application of this Convention:

(a) the International Tribunal for the Law of the Sea […] (b) the International Court of Justice;

(c) an arbitral tribunal constituted in accordance with Annex VII;

(d) a special arbitral tribunal constituted in accordance with Annex VIII for one or more of the categories of disputes specified therein.136

No tocante ao acesso, é permitido não apenas aos Estados membros da Convenção, mas também a outras entidades não estatais. In verbis:

Art. 305.

1. This Convention shall be open for signature by: (f) international organizations, in accordance with Annex IX.137

Por outro lado, o Art. 21 do anexo VI da Convenção dispõe que o Tribunal além de conhecer disputas sobre questões específicas da Convenção, também tem competência para resolver disputas previstas em outros tratados que lhe confiram jurisdição. In verbis:

Art. 21. The jurisdiction of the Tribunal comprises all disputes and all applications submitted to it in accordance with this Convention and all matters specifically provided for in any other agreement which confers jurisdiction on the Tribunal.138

135

Tradução livre da autora: a especialização dos juízes é também uma das principais vantagens do Tribunal.

136Tradução livre da autora: art. 287. 1. Um Estado ao assinar ou ratificar a presente Convenção ou a ela aderir, ou em qualquer momento ulterior, pode escolher livremente, por meio de declaração escrita, um ou mais dos seguintes meios para a solução das controvérsias relativas à interpretação ou aplicação da presente convenção: a) o Tribunal Internacional do Mar [...]; b) a Corte Internacional de Justiça; c) um tribunal arbitral constituído de conformidade com o Anexo VII; d) um tribunal arbitral especial constituído de conformidade com o Anexo VIII, para uma ou mais das categorias de controvérsias especificadas.

137 Tradução livre da autora: art. 305. 1. Esta Convenção estará aberta à assinatura de: (f) as organizações internacionais, em conformidade com o anexo IX.

Nesse sentido, temos que, no tocante à submissão de controvérsias relativas a outros acordos, estas devem estar relacionadas a matérias cobertas pela Convenção, e ser acordada entre todas as partes do acordo ou convenção que lhe confira jurisdição.

Ao se referir aos casos resolvidos pelo Tribunal, Avgerinopoulou (2003, p.7) salienta que ―it has discussed environmental issues and has adopted a protective stance towards the

protection of the environment‖139.

A opinião pode ser analisada à luz das controvérsias resolvidas pelo Tribunal, entre

elas cita-se o caso conhecido como atum do Sul, motivado pela Austrália e a Nova Zelândia

contra o Japão. O terceiro caso contencioso submetido ao Tribunal140.

A controvérsia começou quando o Japão, apesar de ter assinado em maio de 1993 a Convenção para a Conservação do Atum do Sul, manifestou a intenção de aumentar a quota anual de pesca estabelecida para cada um dos países membros. Posteriormente, conforme Miranda (2009, p. 124), o Japão ―iniciou um projeto sem o consentimento da Austrália e da Nova Zelândia, com o propósito de avaliar os incertos números relacionados ao estoque de atum‖.

Desse modo, a Austrália e a Nova Zelândia, também membros da Convenção para a Conservação do Atum, se opuseram, tendo em vista que a espécie era considerada em perigo de extinção e, assim sendo, conforme o anexo VII da Convenção sobre o Direito do Mar, a Austrália e a Nova Zelândia solicitaram a conformação de um tribunal arbitral.

Nesse sentido, Miranda (20009, p.124) explica que Austrália e Nova Zelândia alegaram que ―a atitude do Japão de ter desenvolvido esse programa unilateralmente seria uma violação as normas estabelecidas pela Convenção sobre o Direito do Mar, relacionadas à conservação e gestão de espécies altamente migratórias‖.

Enquanto se estabelecia o Tribunal, Austrália e Nova Zelândia solicitaram em 1999 que medidas provisórias fossem adotadas. Assim, em resposta aos requerimentos, o Tribunal (1999, p. 15) decidiu:

a)Australia, Japan and New Zealand shall each ensure that no action is taken which might aggravate or extend the disputes submitted to the arbitral tribunal; b) Australia, Japan and New Zealand shall each ensure that no action is taken which

138Tradução livre da autora: art. 21. A jurisdição do Tribunal compreende todos os conflitos e reivindicações apresentadas em conformidade com a presente Convenção e todas as matérias expressamente previstas em qualquer outro acordo que atribui competência ao Tribunal.

139

Tradução livre da autora: tem discutido questões ambientais e tem adotado uma postura protetora em face à proteção do ambiente

might prejudice the carrying out of any decision on the merits which the arbitral tribunal may render; c) Australia, Japan and New Zealand shall ensure, unless they agree otherwise, that their annual catches do not exceed the annual national allocations at the levels last agreed by the parties […]; d) Australia, Japan and New Zealand shall each refrain from conducting an experimental fishing programme involving the taking of a catch of southern bluefin tuna […] e) Australia, Japan and New Zealand should resume negotiations without delay with a view to reaching agreement on measures for the conservation and management of southern bluefin tuna; f) Australia, Japan and New Zealand should make further efforts to reach agreement with other States and fishing entities engaged in fishing for southern bluefin tuna, with a view to ensuring conservation and promoting the objective of optimum utilization of the stock.141

A decisão do Tribunal merece destaque por ter incorporado princípios do Direito Internacional do Meio Ambiente. O Tribunal evidenciou que a urgência da situação e os possíveis danos que a demora do julgamento provocaria no meio marinho, demandavam medidas prévias a fim de evitar prejuízos irreparáveis. Portanto, note-se nesse caso que, diante da dúvida, o benefício foi a favor do Meio Ambiente.

Posteriormente, o Japão alegou que as partes só poderiam submeter uma disputa a um Tribunal se tal situação tivesse sido acordada previamente. Em decisão final, o Tribunal determinou que apesar de considerar a matéria tratada como parte daquelas relacionadas com a Convenção sobre o Direito do Mar, a própria Convenção para Conservação do Atum do Sul estabelecia que o método de solução de disputas fosse aquele escolhido pelas partes, portanto, o Tribunal carecia de competência.

Apesar da revogação das medidas prévias, a decisão do Tribunal é relevante para o fortalecimento do Direito Internacional do Meio Ambiente, o qual, com o decorrer do tempo, vem se consolidando como uma instituição eficiente pelo papel que desempenha na proteção do Meio Ambiente marinho. No entanto, os casos são limitados à matéria tratada pela convenção.

141 Tradução livre da autora: a) Austrália, Japão e Nova Zelândia devem garantir que não seja tomada nenhuma medida que possa agravar ou estender as disputas submetidas a um tribunal arbitral; b) Austrália, Japão e Nova Zelândia devem garantir que não seja tomada nenhuma medida que possa prejudicar a realização de qualquer decisão do Tribunal; c) Austrália, Japão e Nova Zelândia assegurarão, a menos que eles concordem em contrário, que as suas capturas anuais não ultrapassem os dotações nacionais anuais nos níveis acordados entre as partes [...]; d) Austrália, Japão e Nova Zelândia devem abster-se de conduzir um programa de pesca experimental que envolve a tomada de uma captura de atum do Sul [...]; e) Austrália, Japão e Nova Zelândia devem retomar as negociações sem demora com vista a chegar a um acordo sobre medidas de conservação e gestão de atum do Sul; f) Austrália, Japão e Nova Zelândia devem envidar mais esforços para alcançar um acordo com outros Estados e entidades de pesca que exerçam a pesca do atum do Sul, com vista a assegurar a conservação e promover o objetivo de utilização óptima das ações.