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CAPÍTULO 1 A Constituição Como Forma do Direito

1.1 O Tribunal e suas competências

A operação fundamental do Supremo Tribunal Federal parece ser em certa medida a de definir suas competências, seja como sinônimo de poder, seja como obrigação- dever. Como se respondessem quase todo o tempo a um gabarito de quem pode o quê, baseado em quê. A Constituição Federal delegou ao Supremo duas competências fundamentais: como cúpula do Poder Judiciário, funciona como última instância de todo sistema de justiça; e como tribunal constitucional detém, a “precípua guarda da Constituição”. Desse modo, compete ao Tribunal julgar tanto processos originários − que começam e terminam no Supremo − como os recursos − em que o STF pode reverter decisões já proferidas, quando estão de alguma forma relacionadas ao texto constitucional.

Além do que, o tribunal também julga os conflitos de competências de outros tribunais e mais de uma dezena de ações e recursos4.

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Conforme o texto constitucional cabe ainda ao STF processar e julgar:

- as infrações penais comuns, o Presidente da República, o Vice-Presidente, os membros do Congresso Nacional, seus próprios Ministros e o Procurador-Geral da República; - litígio entre Estado estrangeiro ou organismo internacional e a União, o Estado, o Distrito Federal ou o Território;

- a extradição solicitada por Estado estrangeiro;

- a revisão criminal e a ação rescisória de seus julgados;

- a reclamação para a preservação de sua competência e garantia da autoridade de suas decisões;

- a execução de sentença nas causas de sua competência originária, facultada a delegação de atribuições para a prática de atos processuais;

- a ação em que todos os membros da magistratura sejam direta ou indiretamente interessados, e aquela em que mais da metade dos membros do tribunal de origem estejam impedidos ou sejam direta ou indiretamente interessados;

- o pedido de medida cautelar das ações diretas de inconstitucionalidade. (grifos no original)

Esse quadro amplo das chamadas competências − que inclui processos individuais e coletivos, de controle concentrado e difuso de constitucionalidade − faz com que o STF julgue em média 60 mil processos por ano. Em 2006, foram mais de 150 mil processos. A Suprema Corte dos Estados Unidos, por exemplo, julga em média 100 processos durante o calendário forense. A maior parte dos processos recebidos pelo STF (quase 70%, segundo dados do Tribunal, disponíveis em seus relatórios de atividades anuais) respondem por recursos.

Embora a própria Constituição defina as atribuições da corte, existem diversas leis e emendas constitucionais que dispõem sobre as competências do tribunal, assim como códigos que regulam o processamento de ações e recursos. Desse modo, o STF movimenta suas competências a partir de uma sobreposição de normas hierarquicamente colocadas. Uma norma jurídica, conforme define o jurista Matos, são comandos dirigidos à conduta humana que permitem, proíbem, comandam e definem competências socialmente organizadas e imanentes (2011, p. 47).

A hierarquia entre as normas jurídicas foi pensada pelo normativista Hans Kelsen a partir de um modelo piramidal, em que uma norma só é válida porque está ligada a normas superiores por laços de compatibilidade, em uma cadeia finita que culminaria na norma fundamental. A Constituição, no topo da cadeia do direito interno, seria então pressuposto de validade de qualquer ato normativo abaixo dela, sem, no entanto, ser a norma fundamental em que se ancora todo sistema.

Conforme destaca Nodari (2013), a normal fundamental de Kelsen é:

pressuposta, imaginária, ficcional (para postular o estatuto da norma fundamental, Kelsen se baseou na Filosofia do como se, de Vaihinger, para o qual até mesmo o discurso científico residia, em última instância, sobre alguma ficção). Ou seja, uma maneira de dar validade ao sistema, de remetê-lo ao Um (ainda que alguns queiram ligá-la ao princípio de que os pactos devem ser cumpridos – pacta sunt servanda –, e outros, muito mais tacanhos, à Constituição).

Teríamos, assim, um sistema de normas com conteúdo baseadas numa norma sem conteúdo e fictícia (p.6).

O direito operaria na relação entre o legal e o ilegal, a partir de requisitos formais de posição, o que transformaria todo sistema jurídico em um sistema circular autorreferente, ou, nas palavras de Luhmann, “o que funda o direito é o próprio direito” (1993, p.15).

A ideia de validade, na leitura de Kelsen, não está ligada necessariamente ao conteúdo das normas como condições de sua existência, mas à sua relação lógica com um sistema posto. Parece ser, nesse sentido, que se dirige a crítica de Carl Schmitt ao normativista, em um dos muitos debates travados entre os dois juristas. Segundo Schmitt, o direito poderia ser em alguma medida um sistema de relações jurídicas, mas como tal não estaria completo. Seria necessário incorporar um “juízo político” na técnica jurídica, levando em conta os atores que o fazem, que aplicam as normas legais. Segundo Annelise Riles, a perspectiva de Schmitt reabre o direito como um conjunto de recursos coletivos e técnicas jurídicas, como se visto a partir da sala de um juiz (2011, p. 45). É o espaço da decisão que parece importar para o autor. O quem decide (SCHMITT: 2006 p. 36). Em última instância, a própria existência do direito estaria condicionada a uma decisão; ele só existe porque uma decisão permitiu sua existência.

No entanto, não me parece que esses circuitos tautológicos ajudem a compreender o modo como, a partir deles, se dão as operações jurídicas. Conforme argumenta Riles (2010) seguindo o jurista francês Yan Thomas, as ficções jurídicas não são uma teoria jurídica, mas uma prática do direito que tem um modo próprio de fazer coisas. O que importa, então, são os movimentos e a replicação desse modo de operação. As ficções não são nada além de ferramentas do conhecimento jurídico, portanto não são boas nem ruins. Não vem ao caso se os juristas acreditam ou não nelas porque o fundamental são suas operacionalizações.

Independentemente do lugar em que reside sua legitimidade (seja na norma metajurídica de Kelsen, que dá legitimidade formal, seja na “vontade soberana do povo”, na qual reside sua validade material), ou de seu caráter intrinsecamente ficcional, parece fundamental saber como essas duas coisas operam, tendo em vista que o direito, se pensado como ciência, tem uma pretensão prescritiva, de intervenção.

Se ao STF foi delegado o poder de proteger a Constituição, o Tribunal o faz a partir de uma série de competências, tanto postas no plano legal, como a partir de uma série de protocolos que devem ser seguidos e que não estão na lei − nem mesmo estão escritos nos documentos jurídicos −, mas que são compatíveis com a própria história do Tribunal e com o modo como ele opera. Cabe aos ministros defender a Constituição como se protege um “templo sagrado”, nas palavras do ministro Luiz Fux5, em uma operação que produz resultados muito concretos, embora nem sempre

rápidos e automáticos como se poderia esperar.

A guarda da Constituição se dirige, sobretudo, aos poderes Legislativo e Executivo. O primeiro deles, com competência para emendar a Constituição, faz às vezes de constituinte derivado, formulando novas leis que por sua vez devem estar em conformidade com os princípios e comandos constitucionais.

Quando existe dúvida se uma lei tem validade ou não, cabe ao Supremo decidir sua constitucionalidade, mas apenas quando alguém propõe um processo. O tribunal não tomar a iniciativa apenas atua quando provocado nas formas autorizadas, ou seja, em tipos de processos específicos.

Ainda que possa decidir a validade de normativas ou qualquer ato do poder público em sede recursal, o STF o faz principalmente nas ações originárias do controle concentrado, que podem ser: Ação Declaratória de Constitucionalidade, Ação Direta de Inconstitucionalidade, Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental. Cada uma delas com competências específicas.

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A Constituição Federal também delegou aos tribunais que compõe o Poder Judiciário a competência para formular seus próprios regimentos e eleger suas direções. Cabe então ao STF criar seus próprios comandos em termos de procedimentos, tão caros ao universo jurídico. O regimento parece tão importante que a ele se dirige um tipo específico de recurso, os chamados agravos regimentais.

O regimento interno do STF (RISTF) “estabelece a composição e a competência dos órgãos do Supremo Tribunal Federal, regula o processo e o julgamento dos feitos que lhe são atribuídos pela Constituição da República e a disciplina dos seus serviços” (RISTF, Disposições Gerais). Foi editado originariamente em 1980 e vigora até os dias de hoje, com 48 emendas. Sua eficácia foi recentemente alvo de debate na corte nos recursos da Ação Penal 470, conhecida como mensalão. O debate envolvia o status do regimento que, mesmo anterior à Carta Magna, foi recepcionado por ela. A ideia de recepção evidencia o fato de que uma nova Constituição não renova tudo, pois o futuro ao qual a Constituição remete é também um passado. Leis anteriores a ela continuam a vigorar, embora submetidas aos princípios e disposições da nova ordem. Esse é o caso do código penal, por exemplo, que é de 1940.

A posição vencedora no julgamento do recurso citado confirma o regimento interno com status de lei, ou seja, tem a mesma força de comando que uma lei ordinária formulada pelo legislador. O regimento parece ser uma versão do Tribunal para todos os comandos dados pela Constituição, pelas leis e pelos códigos, repetindo-os muitas vezes textualmente, sem precisar reformulá-los inteiramente. Em suma, adaptando-se às novas regras. O regimento interno reverbera sobre si mesmo quando destaca que o Tribunal, mesmo com mudanças em suas competências, mantém sua forma e seu modo de operação.