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Desde que a sociedade passou a se organizar, o imposto faz parte das relações sociais. Um dos pilares do Império Romano era a tributação aplicada sobre os povos vencidos, que eram obrigados a pagar pesadas taxas ao vencedor. No feudalismo, os vassalos eram obrigados não só a pagar a seus senhores, como eram taxados pelos reis e pela Igreja. Com o advento do Estado moderno, o pagamento dos impostos passou a ser visto como parte de um contrato entre o povo e seus governantes. Aceita-se contribuir com o Estado, desde que a obrigação tenha sido imposta por lei e que seja considerada justa. “O Estado moderno é, essencialmente, um Estado de impostos, a administração financeira é o cerne de sua administração. A separação daí resultante entre os bens da Casa Real e os bens do Estado é modelar para a objetivação das relações pessoais de dominação”, afirma Habermas (HABERMAS, 2003a, p.31).

Para Falcão (2009), o contratualismo3 foi importante para a definição do tributo como resultante de um acordo entre a sociedade e seus governantes. Em troca do tributo pago, o contribuinte receberia, de volta, a segurança e outros bens públicos. “Enquanto produto da vida em sociedade, o tributo foi modelado, em sua fase moderna, nas lições do contratualismo, tendo, a partir daí, sofrido influência das correntes políticas que, a sua maneira, demonstraram percepções diferentes sobre o financiamento do Estado”, afirma (FALCÃO, 2009).

A partir do ocaso do absolutismo monárquico, ficou entendido que qualquer exigência de tributos não poderia ocorrer sem o consentimento do povo, mas por meio do parlamento enquanto representante do cidadão-contribuinte. “Assim, surge o princípio do consentimento, que legitima, a partir de então, o poder tributante do Estado”, argumenta Falcão. O tributo é tido como uma contrapartida dos serviços prestados pelo Estado. Seria, em último caso, o preço pago pelo contribuinte para sua segurança e para os serviços recebidos. Essa corrente,

3 Segundo Bobbio (1995, p. 272), o contratualismo compreende todas aquelas teorias políticas que veem a

origem da sociedade e o fundamento do poder político num contrato. “Isto é, num acordo tácito ou expresso entre a maioria dos indivíduos, acordo que assinalaria o fim do estado natural e o início do estado social.” Num sentido mais estrito foi uma escola que floresceu na Europa entre o começo do século XVII e o fim do século XVIII. Seus principais nomes são: Hobbes (1588-1679), Locke (1632-1704), Rousseau (1712-1778), Kant

segundo Falcão (2003, p.70) deu início à teoria do tributo como instrumento de permuta e se tornaria a essência dos movimentos liberais que se seguiram.

O autor não está sozinho em analisar a trajetória dos tributos numa concepção contratualista. Para Piancastelli e Nascimento (2004, p. 242), o sistema tributário de um país assemelha-se a um contrato firmado entre a sociedade e o Estado. “Tal acordo pressupõe que a população suportará os custos da atividade governamental, desde que, em contrapartida, receba os serviços e as obras públicas de que necessita”, afirmam. Esse acordo pressuporia, ainda, que o sistema tributário possua certas características básicas desejáveis como a eficiência econômica, a simplicidade administrativa, a flexibilidade, a responsabilidade política e a equidade fiscal. Esse acordo social também definirá quão progressivo ou regressivo será o sistema tributário.

De acordo com Sabbag (2005, p. 38), a progressividade tributária é a tentativa de se onerar mais gravosamente quem tem uma riqueza tributável maior. As alíquotas progressivas crescem de acordo com a base de cálculo e são fixadas em percentuais variáveis, conforme o valor da matéria tributada, com isso, o valor do tributo aumenta em proporção superior ao incremento da riqueza. Desta forma, os que têm capacidade contributiva maior contribuem em proporção superior. Para Machado (2004), “com o tributo progressivo, o que tem mais paga não apenas proporcionalmente mais, porém, mais do que isso, paga progressivamente mais.” No Brasil, o princípio da progressividade aplica-se ao Imposto de Renda, ao ITR (Imposto Territorial Rural), ao IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) e ao IPVA (Imposto sobre Veículos Automotores). Segundo o STF (Supremo Tribunal Federal), a progressividade também se aplica às taxas.

Já a regressividade tributária consiste, segundo Padilha Silva (2008), que “quanto menor for a capacidade de pagamento dos indivíduos, maior será a proporção relativa da sua renda que ele vai dedicar ao rateio da carga impositiva.”

Salvador, no artigo “A distribuição da carga tributária: quem paga a conta?”4, faz um resumo desses dois tipos de tributação. Ele explica que para compreender a regressividade e a progressividade é necessário se avaliar as bases de incidência, que são: a renda, a propriedade, a produção, a circulação e o consumo de bens e serviços.

4 SALVADOR, Evilásio. “=“Distribuição da carga tributária: quem paga a conta?” Artigo publicado no site

Conforme a base de incidência, os tributos são considerados diretos ou indiretos. Os tributos diretos incidem sobre a renda e o patrimônio, porque, em tese, não são passíveis de transferência para terceiros. Esses são considerados impostos mais adequados para a questão da progressividade. Os indiretos incidem sobre a produção e o consumo de bens e serviços, sendo passíveis de transferência para terceiros, em outras palavras, para os preços dos produtos adquiridos pelos consumidores. Eles é que acabam pagando de fato o tributo, mediado pelo contribuinte legal: empresário produtor ou vendedor. Trata-se do fetiche do imposto7: o empresário nutre a ilusão de que recai sobre seus ombros o ônus do tributo, mas se sabe que ele integra a estrutura de custos da empresa, terminando, via de regra, sendo repassado aos preços. Os tributos indiretos são regressivos.

A correlação de forças na sociedade, argumenta Salvador, é quem vai definir se um sistema tributária será mais regressivo, ou progressivo.