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O tridimensionalismo realiano pode ser neoconstitucional?

Concepções jusfilosófica e a identidade do sistema positivo

CAPÍTULO 2: As bases jurídico-filosóficas centrais do sistema jurídico brasileiro contemporâneo

2.5 O Neoconstitucionalismo: concepção constitucionalista pós-positivista do direito

2.5.4 O neoconstitucionalismo e sua compatibilidade com o sistema jurídico brasileiro

2.5.4.1 Sobre a compatibilidade do neoconstitucionalismo com o tridimensionalismo realiano: uma rota para o delineamento de um

2.5.4.1.5 O tridimensionalismo realiano pode ser neoconstitucional?

Essa é uma questão de menor importância (ou mesmo desimportante) em relação às anteriores, pois a concepção teórica que chega (neoconstitucionalismo) é que, segundo a visão expressa neste trabalho, deve buscar maior adequação aos quadros pré-existentes (visão tridimensional). Mas ainda assim, cabem algumas observações importantes sobre esse aspecto, sendo que a primeira é o de se admitir que o tridimensionalismo não foi, obviamente, pensado para um contexto de Estado Constitucional, como modelo cultural jurídico standard590.

Entretanto não deixa de ser interessante observar que a adequação deste modelo, pelos motivos já expostos, a uma concepção de centralidade constitucional é total, exatamente pelas características plásticas das normas constitucionais, de maior liquidez (novamente tomando por empréstimo a expressão de Bauman) e fluidez, o que facilita a concretização da realidade normativa a partir das tensões produzidas entre a realidade fática e os valores sociais circundantes.

Evidentemente que um sistema em que a produção normativa não está sob o monopólio do legislador - já que não há dúvidas que no neoconstitucionalismo essa incumbência é dividida entre este e os órgãos jurisdicionais (Tribunal Constitucional à frente) -, a força de uma teoria tridimensional faz-se sentir de forma mais aprofundada, pela duplicação do encargo de justificação (no momento de produzir a norma e no momento de sua aplicação), que deve ser realizada tanto pelo legislador, no processo de produção da norma, como pelo juiz, no processo de sua aplicação (que não deixa de ser também o de produção). Em ambos os casos, mas em especial neste último, é imprescindível a observação aguda da realidade fática e dos valores constitucionais em relevo no processo de definição do conteúdo normativo estabelecido para a solução do caso concreto.

Certamente, Miguel Reale teria ido ainda mais longe se tivesse em mãos um instrumental técnico-jurídico como a norma-princípio, cujo reconhecimento e desenvolvimento pelo mundo jurídico se deu de forma mais contundente em tempos mais recentes. É ela um instrumento metodológico facilitador dessa relação dinâmica e dialética mantida entre fato, valor e norma, fazendo com que um sistema jurídico fundado em bases neoconstitucionais não possa abdicar de uma leitura totalizante da realidade fático-cultural circundante, no momento de estabelecer a norma reguladora

590

Para utilizar a terminologia de Peter Härbele em HÄRBELE, Peter. Entrevista de César Landa. In: VALADÉS, Diego. (Org.). Conversas acadêmicas com Peter Härbele. São paulo: Editora Saraiva, 2009, pág. 2.

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do caso concreto, ou mesmo no momento em que o legislador exerce o seu papel de produzir normas genéricas e abstratas.

Um das suspeitas que se levantam contra o tridimensionalismo é sobre a sua capacidade de se relacionar com as múltiplas culturas existentes em um mesmo sistema político. Há quem afirme que o pensamento realeano foi estabelecido em um contexto histórico no qual não estavam presentes de forma tão incisiva sociedades multiculturais e mesmo as pluriculturais. Neste caso, teria Reale pensado não a partir da premissa de existência de diferenças culturais ou identidades específicas de cada grupo, mas sim a partir dos pontos em comum que ajudariam a estabelecer os traços culturais da sociedade brasileira.

Ainda que tendamos a concordar com essa afirmação, a verdade é que o tridimensionalismo possui em sua estrutura fundamental as bases para se reconstruir teoricamente, com vistas a se atualizar em direção a novas realidades socioculturais que nos circundam, ou mesmo, incorporar novas formas de análise de fenômenos que sempre existiram, mas que são, de tempos em tempos, observados sob um ponto de vista epistemológico diverso. De toda forma, o tridimensionalismo do direito de Miguel Reale com suas linhas teorizantes amplas, mais coerentes, pode tranquilamente ser repensado a partir das direções do mundo contemporâneo, estando habilitado a manter com o neoconstitucionalismo uma parceria profícua no Brasil.

Pelo exposto, uma linha teórica neoconstitucional/tridimensional, desenvolvida adequadamente e com os ajustes devidos, muito pode auxiliar na reflexão e construção do sistema jurídico-constitucional brasileiro que, sem abrir mão das suas raízes tradicionais, deve continuar aberto a referências externas com ele compatíveis. É nesta direção, então, que caminharemos em busca de uma remodelação de institutos de validade e legitimidade, mostrando que não são eles estanques entre si, mas pelo contrário, devem ser analisados, cada vez mais, de forma unitária.

189 CAPÍTULO 3: A VALIDADE COMO ATRIBUTO NECESSÁRIO DA JURIDICIDADE

Se não temos dúvidas acerca das verticais mudanças havidas nas relações sociais vivenciadas pelo homem contemporâneo, é natural decorrência concluirmos que o papel do Direito e seus institutos - como instrumentos de organização e estabilização social - não podem deixar de sofrer análise aprofundada. Problema, então, que se põe é o de saber se os institutos a que se faz referência ainda cumprem adequadamente as suas funções, no âmbito do sistema jurídico brasileiro, ou se devem ser revistos e redirecionados em suas formulações, nos limites que se fizerem necessários. Se a opção da revisão é a escolhida (e já adiantamos ser este o posicionamento adotado neste trabalho), a questão que se coloca é em que medida e em que direção deve caminhar esse reexame de rota.

Assim, a fim de evitar um vale-tudo teórico que acabe inviabilizando o Direito em suas características essenciais, faz-se urgente que sejam reconfiguradas as bases teóricas dos seus institutos fundantes que, sem deixar de respeitar às tradições em que criou raízes, amoldem-se aos novos paradigmas contemporâneos, mais restritamente, como fizemos referência nos capítulos anteriores, àqueles que se coadunem com as características, tradição e realidade da ordem jurídica brasileira. No caso em pauta, estamos nos referindo a uma realidade que vai tomando direção do que a doutrina vem denominando de neoconstitucional, de bases pós-positivistas, mas que ainda busca por uma reconfiguração teórica dos institutos jurídicos (no espaço que no Capítulo anterior chamamos de neoconstitucionalismo teórico), de maneira a evitar contradições de um sistema que alardeia a adoção de uma concepção filosófico- jurídica, mas ainda permanece adotando instrumentais teóricos que com ela não se coadunam.

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