CAPÍTULO 1: GEOGRAFIZANDO O TURISMO
1.1 O turismo em seu caráter multidimensional
Sendo uma área do conhecimento de recente desenvolvimento como objeto de estudo acadêmico, o turismo se constitui em um campo de estudo sobre o qual faltam consensos em algumas questões epistemológicas e que ainda carece de formulações e contribuições científicas. O debate entorno da construção do turismo na academia guarda inúmeras divergências relacionadas aos conceitos construídos para definir a atividade em questão. Segundo Ignarra (1999) o turismo, desde 1910, é objeto de discussão e elaboração conceitual. Muitos estudiosos o consideram como uma prática antiga, no entanto só emergiu no âmbito da investigação científica após a Segunda Guerra Mundial.
Essa imersão não o caracteriza como sendo ciência por parte de vários estudiosos, porém, o turismo é analisado como um fenômeno cuja complexidade se condensa toda uma gama de aspectos da sociedade e da cultura. Na visão de autores, a exemplo de Barreto (2000), Maranhão; Pequeno; Sanaglio (2012), pela multiplicidade de definições e conceitualizações, o turismo é objeto de diferentes ciências, resultando em abordagens sob diversos marcos de referência da Economia, das Ciências Sociais, da Geografia e outros campos do conhecimento.
Segundo Barreto (1995), o primeiro conceito sobre o turismo propagado no mundo, foi construído no ano de 1911 por Hermann Von Schullernzu Schattenhofen. Este economista declarou que o seu conceito envolve fatores socioeconômicos que se revelam no processo, na chegada, na presença e na saída do turista em um determinado lugar.
Outros conceitos foram surgindo, contudo, um que se disseminou foi o criado em 1991 pela Organização Mundial do Turismo (OMT). Para esta organização o turismo é “uma
atividade de pessoas que viajam e permanecem em lugares fora de seu ambiente habitual por menos de um ano ou até um ano consecutivo, objetivando lazer, negócios e outras motivações (OMT, 2003a, p. 18).” O turismo foi assim denominado para facilitar a obtenção de dados estatísticos. Neste sentido, a OMT considera deslocamento como característica elementar do turismo, independentemente da razão pela qual motivou o viajante. Maranhão; Pequeno et al (2012) afirmam que:
Em meio a este conceito, percebe-se a ótica comercial e mercadológica, justificada pelo destaque que o turismo estava alcançando e que ainda alcança no setor econômico. No entanto, mesmo com todo o avanço econômico, o qual é nutrido pela globalização, é um equívoco limitá-lo às características de mercado produção, distribuição e consumo (MARANHÃO; PEQUENO et al, 2012, P. 215).
De fato, o turismo não possui apenas esta unicidade. Ao considerarmos esta atividade como uma possibilidade que pode contribuir para fortalecer os laços territoriais e culturais estamos indo além da versão mercadológica que o turismo possui, embora seja prevalecente, desterritorializando mais que fortalecendo, ou se acrescentando as territorialidades construídas pelos sujeitos das comunidades receptoras.
Ainda no tocante a OMT, esta instituição tentou universalizar um conceito de turismo, porém deixou evidente a carência de abordagens conceituais que o distinga de outros setores econômicos. Dessa forma, o turismo, analisado sob esta perspectiva, é caracterizado como:
[...] um tipo de serviço à disposição dos homens da sociedade industrial moderna, pois passa a integrar na vida de todas as nações e a contribuir de maneira significante para o desenvolvimento das atividades econômicas do século XXI. (LAGE & MILONE, 2001, p. 40).
Proliferam-se, nesse contexto, abordagens que ressaltam o turismo como atividade econômica se expandindo em escala mundial e que se traduz em um movimento de um contingente significativo de capital nos diferentes ramos de negócios. Fica claro nesta discussão que tais visões se limitam, em especial, ao potencial econômico do turismo e ao seu expressivo papel na economia, secundarizando ou desprestigiando outros aspectos igualmente importantes associados a esta atividade como sua capacidade de inserção em comunidades no sentido de se somar aos atributos (i)materiais existentes nelas.
Além das descritas, outras disciplinas foram adicionadas, possibilitando o início de uma comunicação entre essas diferentes abordagens, ora em diálogo produtivo, ora em disputas acirradas, mas sempre mantendo a distinção entre o turismo como fenômeno e seu
estudo. O turismo é um fenômeno social, da mesma forma que as migrações, o desemprego, a urbanização, entre outros. Conforme Barreto (2009), os fenômenos sociais necessitam ser investigados por várias ciências, desde o ponto de vista positivista ao fenomenológico e cada vertente busca o aprofundamento deste fenômeno de acordo com suas premissas teórico- metodológicas.
O turismo pode ser compreendido também como um sistema que está interligado por uma série de subsistemas (setor público e privado, planos, demanda turística, infraestrutura, atrativos culturais e naturais, equipamentos e instalações, comunidades receptoras) que se inter-relacionam para almejar um objetivo comum. Esta ideia foi empregada por Cuervo (1967, p.196) que define o turismo como sendo “um conjunto bem definido de relações, serviços, instalações que se gera em virtude de certos deslocamentos humanos”. Há ainda estudiosos como Jafari (2005) que possuem a visão interdisciplinar do turismo, sendo este o estudo do homem longe do seu hábitat usual, da indústria que responde a suas necessidades, e dos impactos que ambos, ele e a indústria, têm no ambiente sociocultural e físico da localidade receptora. Nessa dimensão é considerado o turismo e sua interferência em outras dimensões (pessoal, ambiental, mercadológica).
Tem-se também o turismo dentro da vertente fenomenológica, que segundo Xavier (2007) baseia-se na observação e na percepção do fenômeno como um processo desenvolvido ao longo do tempo e no espaço. É visto como uma atividade altamente dinâmica implementada por um indivíduo ou por um grupo. Contudo, ao se analisar o turismo nesta vertente, o autor afirma que há uma importância concentrada apenas no individuo em detrimento de outras dimensões que englobam a atividade. Ainda assim, consideramos que ao analisar o turismo no sentido da subjetividade é um grande avanço, pois os estudos em sua maioria focam em aspectos econômicos ou sociais. Esta é a vertente que elegemos para tratar da análise geográfica do turismo no viés da percepção dos sujeitos que vivenciam o fenômeno.
Não é o nosso intento expor uma diversidade de conceitos sobre o turismo, mas evidenciar que ela existe como foi exposto nas três abordagens elucidadas acima. Em qualquer das definições, podemos inferir que o turismo é uma atividade humana que gera muitas repercussões na sociedade em que se desenvolve. Esta atividade é constituída por diversos ideários que permeiam as sociedades contemporâneas e que, em geral foram socialmente construídos no processo de ocidentalização do mundo. O turismo é responsável pelo incremento econômico de diversas populações e por este motivo, a contribuição que o
turismo pode dar ao desenvolvimento, vai depender de onde se quer chegar. Isto é, há um crescimento econômico tradicional, medido por meio de indicadores convencionais, incorporando o destino no contexto global do turismo, ou a um desenvolvimento mais humano. Cañada e Gascón (2007, p. 40) sugerem que, para que o turismo se manifeste de forma coerente, há que se levar em consideração a sua capacidade enquanto motor de “empoderamiento para los sectores menos favorecidos”.
O empoderamento está intimamente ligado a autonomia de pequenos grupos sobre o seu território no sentido de poder de decisão em relação as atividades que venham a potencializar a qualidade de vida de todos que constroem e mantém o território. Está atrelado também a possibilidade que os sujeitos locais possuem de expressar no presente, uma ideia de futuro em seu território, no sentido dialógico, flexível, vislumbrando ações passíveis de serem realizadas e que possam ajudar à (re) construção deste futuro. O empoderamento, em termos mais objetivos, está atrelado a promoção da melhoria da qualidade de vida dos sujeitos que fazem o território, bem como aumentar os seus níveis de autoconfiança e organização.
Isso posto, não basta buscar entender o turismo como fenômeno econômico ou exclusivamente social, ou até mesmo apenas funcional sem compreendermos a dimensão existencial, o que faz do turismo uma atividade complexa e que transforma relações e espaços. Para este estudo, optamos por inserir o turismo dentro dos preceitos teórico- metodológicos da Geografia ancorada em uma abordagem fenomenológica, uma vez que o nosso intuito é refletir sobre o turismo enquanto fenômeno que se insere em comunidades com o modo de vida tradicional, transformando territórios e paisagens. Essa inserção pode se dá interagindo ou não com os saberes, fazeres e experiências dos sujeitos locais, ratificando ou não suas territorialidades construídas ao longo da história.