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1.3 O turismo e suas Características

1.3.1 O Turismo Presente na Vida da Aldeia da Jaqueira

“O turista consome sem comprometer-se, seu único interesse é abstrair-se de sua cotidianidade” (Moira Millan, liderança indígena Mapuche da Argentina, 2006).

A reflexão seguinte será baseada nas publicações “Os Índios do

Descobrimento: Tradição e Turismo” de Rodrigo de Azevedo Grünewald (1999), “Turismo em Terra Indígena: o caso da Reserva Pataxó da Jaqueira” de Victor Ferri

Mauro (2007), “A Reserva Pataxó da Jaqueira: o Passado e o Presente das Tradições” de Maria Soledad Maroca de Castro (2008), bem como abordarei a minha percepção, como morador na cidade de Porto Seguro há 9 anos.

Discutiremos especificamente o processo turístico do povo Pataxó em Coroa Vermelha, apesar dos artigos citados abordarem também a localidade de Barra Velha.

O turismo realizado em Coroa Vermelha, localidade pertencente a Porto Seguro, Bahia, é um turismo de massa. Os turistas, ao chegarem a Porto Seguro, têm a possibilidade de visitar a localidade, onde, segundo os registros históricos, teria sido realizada a primeira missa após o “Descobrimento” do Brasil. Coroa Vermelha é um local onde se encontra uma grande variedade de restaurantes e barracas de praia, bem como ambientes de compra de artesanatos indígenas. Muitos desses turistas nunca tiveram um contato prévio com os povos indígenas, o que gera grande interesse e torna esse local muito atrativo.

Um dos pontos visitados em Coroa Vermelha é a Aldeia Indígena Pataxó da Jaqueira, lócus desta pesquisa.

Em 1997, na Gleba B da Terra Indígena Coroa Vermelha, na chamada Reserva da Jaqueira, foi iniciado o primeiro projeto de visita a uma Terra Indígena no Brasil, o qual detalharemos mais adiante. A partir da percepção dos Pataxó sobre o interesse dos turistas na cultura indígena, conceberam o projeto de Ecoturismo na Reserva da Jaqueira, pela necessidade que tinham de proteger o pequeno pedaço de mata que lhes pertencia, e também como forma de criar uma alternativa econômica (SOUZA, 2009).

Passados vinte e dois anos, a experiência da Reserva da Jaqueira serve de modelo e inspiração para outras aldeias que recebem visitação, como as aldeias de Barra Velha e Pé do Monte, situadas na Terra Indígena de Barra Velha, também no município de Porto Seguro.

Segundo Grünewald (1999), parte dos turistas fica admirada e satisfeita com o contato, enquanto outra acha os índios aculturados e sem identidade.

Os Pataxó de Coroa Vermelha vivem praticamente da venda do artesanato. Assim, por serem compradores de seus artesanatos, os turistas são vistos positivamente pelos indígenas.

Grünewald (1999) afirma que, no processo turístico relacionado ao vínculo comercial entre indígenas e turistas, surge também um forte componente de revitalização e conservação da identidade indígena. Para o autor, as representações da sua cultura e costumes são importantes não somente pelo valor financeiro do “pacote turístico”, mas porque reforçam as tradições e o orgulho étnico, cuja manutenção pode ser dificultada se os indígenas forem constantemente acusados de serem “índios descaracterizados”.

A indústria do turismo encoraja ativamente as expressões de orgulho étnico e as renovações dos padrões tradicionais (GRÜNEWALD, 1999, p. 97-98).

Por outro lado, o encontro entre etnicidade e turismo gera uma “etnicidade reconstruída”, descrita pelo autor como um tipo de “etnicidade para o turismo”, no qual culturas exóticas figuram como atrações-chave e os nativos se esforçam para satisfazer a demanda turística que envolve “fazer-se-nativo-para-turistas”. Como expressa o Ipê, indígena Pataxó, em entrevista: “tem muito índio em Coroa Vermelha que tá longe de ser índio, tá mais para o lado branco e só se dá conta de sua etnicidade para fora, ou seja, para exibir algo que nem sabe o que é” (GRÜNEWALD, 1999, p. 206).

O autor comenta que os indígenas Pataxó de Coroa Vermelha são uma comunidade que se mostra aos turistas como os indígenas do tempo do Descobrimento, os chamando de “índios do Descobrimento”. E por qual motivo eles constroem sobre si essa imagem para expor no ambiente turístico? No nosso ponto de vista, tomam tal atitude porque essa é imagem que os turistas esperam ver e com isso eles conseguem incrementar o comércio tanto de venda dos artesanatos quanto o comércio de fotos, que também é muito forte. Os indígenas sabem que muitos turistas vêm para a região e esperam encontrar um índio que remonte ao período de 1500. Desta forma, a comunidade indígena pode tirar proveito e com isso aumentar a sua renda.

Sendo assim, nos parece que boa parte dos Pataxó entendem e aceitam que o turista, ao chegar na região, quer encontrar “índios genéricos” ou os chamados por Grünewald de “índios do descobrimento”, vestidos com pena, cocar, pintura corporal. Desta forma, informações sobre a cultura, os direitos indígenas, a luta para a manutenção de sua identidade, os conflitos internos e externos, são abordadas, oferecendo ao turista o entretenimento esperado e, assim, os indígenas podem garantir o seu sustento.

Porém, um dos fatores importantes é saber qual o reflexo dessa reconstrução cultural e étnica no cotidiano da comunidade Pataxó e nas implicações sociais e econômicas da aldeia.

De acordo com Van Den Berghe e Keyes (1984) nessa situação acaba surgindo o chamado “turismo étnico”. Nesse turismo, o nativo não está simplesmente lá para atender às necessidades do turista; ele está ele mesmo “em exposição”, um espetáculo vivo a ser escrutinizado, fotografado. Segundo os autores, o turista étnico não quer ver “tourees” 11 e sim os “nativos “intactos”, “inexplorados”. Porém, a

presença do turista, como um observador da cultura, torna o nativo um ator, que modifica seu comportamento, e que faz um espetáculo de si mesmo. Assim, a busca pelo exótico destrói a autenticidade nativa, devido à esmagadora influência do observador sobre o observado.

Van den Berghe (1994, p. 571 apud GRÜNEWALD, 1999, p. 309) ainda vai além ao afirmar que o turismo étnico representa a última onda da expansão do capitalismo explorador para a mais remota periferia do sistema mundial. Povos do Quarto Mundo que foram primeiro repelidos para regiões de refúgio — as “reservas nativas” dos colonizados - estão agora sendo “redescobertos” como um recurso turístico - e é justamente dessa forma que indígenas sob “extrema marginalização” tornaram-se “uma atração turística primordial para afluentes viajantes do Primeiro Mundo em busca do outro primitivo, autêntico”.

Castro (2008), em uma abordagem distinta da relatada por Grünewald (1999), oferece uma visão interessante a partir da perspectiva e dos sentimentos dos Pataxó. Para a autora, uma visão superficial pode mostrar a Reserva da Jaqueira como um

11 Segundo os autores, “o touree é o nativo quando ele começa a interagir com o turista e modificar seu comportamento. O touree é o nativo que virou ator, quer consciente ou inconscientemente — enquanto o turista é o espectador” (Van den Berghe; Keyes, 1984, p. 346).

empreendimento comercial e capitalista, cuja finalidade seria a produção de renda para os indígenas que lá vivem, através da visita de turistas.

Quanto aos elementos tradicionais ali apresentados, veríamos neles apenas simulacros destituídos de significado, cópias de uma tradição localizada em um passado distante e inapreensível. Em suma: em uma perspectiva utilitária e exclusivamente econômica, a Reserva da Jaqueira seria concebida como uma encenação falsa ou mentirosa, incapaz de produzir efeito sobre aqueles que encenam (CASTRO, 2008, p. 28).

Se fôssemos entender a Reserva da Jaqueira como um simulacro, teríamos que não acreditar nos relatos dos próprios Pataxó. Nitynawã Pataxó, uma das fundadoras da aldeia, não deixa de mostrar e reconhecer como a vida do seu povo melhorou desde a demarcação das terras e a criação da Reserva.

Segundo Castro (2008), foi o trabalho desenvolvido pelos Pataxó na Reserva da Jaqueira, por meio de muito esforço e superação de dificuldades, que permitiu que conhecessem mais profundamente a trajetória histórica de seus antepassados e promovessem a tradição, o que lhes devolveu um senso de identidade, dignidade e orgulho. Para conceber a Reserva como uma atividade exclusivamente capitalista, teríamos que imaginar os Pataxó como atores racionais cujas motivações para a ação se restringissem à conquista de bens e terras. Projetaríamos sobre os Pataxó uma maneira de agir e de se situar no mundo que, hoje, sequer admitimos em atores nascidos e crescidos em grandes cidades do mundo Ocidental, onde prevalece uma ação calculista e econômica.

Suas experiências nos dão a medida de como se situam no mundo, e de como esse mundo, no qual se situam, os constituiu e ainda os constitui enquanto sujeitos. [...] ao contrário de nossas teorias, eles não opõem continuidades e descontinuidades históricas; não opõem, tampouco, tradições resgatadas e tradições inventadas. [...] Na verdade, para eles, a dicotomia não se apresenta porque, ao se situarem como seres-no-mundo sublinham principalmente sua própria capacidade criativa enquanto sujeitos [...] chamo a atenção para as atividades da Reserva como um ato performativo, capaz de produzir efeito sobre os sujeitos. O que vivem e experimentam ali, todos os dias, constitui uma parte importante daquilo que concebem como ser índios. Essa experiência também é compartilhada por outros Pataxó que, embora não frequentem a Jaqueira diariamente, participam de processos de criatividade semelhantes quando se pensam a si mesmos como índios e se envolvem nos projetos comuns ao grupo (CASTRO, 2008, p. 131-133).

Grünewald e Castro trazem contribuições relevantes para analisarmos a realidade local, nos alertando para a necessidade de sempre termos como referência

a vontade do povo indígena, evitando o risco de nos tornarmos, mais uma vez, mesmo sem querer, “colonizadores”.