2 MODERNIDADE E PÓS-MODERNIDADE
2.4 O TURISTA
Como visto anteriormente, as mudanças sociais ocorridas durante a Modernidade Pesada, transformaram os hábitos e motivações das viagens. O capitalismo fortemente praticado durante o período tornou as localidades visitadas em grandes centros de troca comercial, onde os visitantes poderiam se refugiar de seus problemas cotidianos.
O preço pago pelo turista vai variar de acordo com os serviços contratados, mas a localidade receptora também deverá pagar o seu. E este preço está geralmente relacionado ao desgaste natural, físico e social. Por conta disso, a imagem do turista nem sempre está atrelada a uma figura positiva. Por muitas vezes, ele são considerados “invasores”, “curiosos”, “exploradores”.
O que existe de mais exótico no turismo são os próprios turistas! [...] Eles são chamados de novos bárbaros de hordas douradas, de novos senhores. São comparados às nuvens de gafanhotos que surgem como uma calamidade e devoram tudo por onde passa, antes de desaparecerem. (KRIPPENDORF, 2009, p. 64).
A motivação da viagem (ou a “centralidade”, descrita por Cohen) é determinante no grau de envolvimento do turista com a sociedade receptora. Se o que se busca é o puro descanso, ou o lazer, o encontro de turistas e autóctones sempre será semelhante ao encontro entre estranhos descrito por Bauman:
[...] um encontro de estranhos, é diferente de encontro de parentes, amigos ou conhecidos – parece, por comparação, um “desencontro” [...] é um evento sem passado. Frequentemente também é um evento sem futuro. [...] uma história para não ser continuada, uma oportunidade única para ser consumada enquanto dure no ato [...] (BAUMAN, 2000, p.111).
Krippendorf (2009) reforça a fragilidade dos laços existentes entre turistas e autóctones quando afirma que “via de regra, o viajante não aprende nada, ou
muito pouco, sobre como realmente é a vida nas regiões visitadas”. E mesmo assumindo a existência dos turistas que buscam este estreitamento de laços com a comunidade visitada deixa claro que esses não compõem a maioria.
[...] os turistas, que desejariam conhecer profundamente o país que os acolhe e seus habitantes, são na realidade, bem mais numerosos do que em geral se admite. Entretanto, é provável que as inibições, a falta de segurança e de experiência paralisem, frequentemente essa vontade. [...] Uma coisa é certa: a maioria dos turistas não sente a necessidade urgente de se aproximar dos habitantes das regiões visitadas (KRIPPENDORF, 2009, p. 48).
Aramberi (2001), também considera aqueles que buscam a troca com a comunidade local, mas observa que eles são apenas “lascas do iceberg do sistema de turismo moderno”. Contudo, no que tange aos estudos na área de comportamento do consumidor, a posição diante desses novos turistas, ou consumidores pós-modernos não é tão pessimista assim.
O sujeito que outrora era ávido pelo consumo de bens e serviços em escala industrial iniciou uma substituição lenta, porém firme, do consumo moderno pelos hábitos de consumo com base na socialidade. Cova (1997), afirma que o indivíduo, cercado de seus aparatos modernos foi sendo isolado dos laços sociais, e ao alcançar o ápice da independência, entrou em crise.
A partir disso ele observa que há uma mudança radical na lógica do consumo, que busca menos as suas formas de significação da vida individualmente e mais o seu valor de aproximação dos vários grupos de referência que darão o significado de suas vidas. O poder de coesão torna-se mais importante que o bem, gerando um decrescimento no consumo de produtos e serviços que isolam pessoas e o crescimento daqueles que convocam a aproximação entre elas6 (tradução livre da autora).
Na pós-modernidade, o sujeito torna-se livre da forma organizada e racional da Modernidade e por essa razão, ele pode agregar valores mutáveis
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[...] reinforces the idea of a postmodern tribalist individual who is looking less in consumption for a direct means of giving meaning to life than for a means to form links with others in the context of one or several communities of reference which will give meaning to their life (COVA, 1997, p.307).
aos bens e serviços que vão variar não só de acordo com o próprio indivíduo, mas também entre os outros indivíduos que compartilham os mesmos laços sociais, ainda mais, como os significados dos objetos não são mais fixos e conectados às suas funções, mas são flutuantes, cada indivíduo pode atribuir significados diferentes para esses objetos. Há desta forma, um relativismo extremo no valor de ligação de um produto ou serviço, contrário ao valor de uso “universal” que era percebido na modernidade7 (COVA, 1997 – tradução livre da autora).
Os consumidores contemporâneos originam o crescente grupo de turistas chamados por Cohen (1979) de turistas “pós-modernos” que justifica o termo, quando diz que é essa minoria que de fato busca um significado mais profundo em suas viagens.
E da mesma maneira pode-se agregar a esse turista, outras características muito próprias do sujeito pós-moderno, como a preferência pela hiper-realidade, pela simulação, pela imagem. A imagem torna-se a substância essencial e o produto/ serviço é escolhido a partir dela. A tecnologia torna possível a simulação da realidade, o que explica a tendência do uso das formas virtuais de consumo (COVA, 1996).
Se o sujeito pós-moderno cultiva múltiplas identidades (expressas na prática do consumo, principalmente), no meio virtual também é possível mantê- las. Paradoxalmente, o uso da tecnologia poderia levar o usuário à um crescente isolamento, mas ao contrário disso, ela tem favorecido a comunicação entre pessoas no ciberespaço.
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Moreover, as the meanings of objects are no longer fixed and connected with theis functions, but, free floating, each individual may ascribe different meanings to the objects. There is therefore an extreme relativity in the linking value of a product or a service, contrary to its “universal” use value as it was perceived in modernity (COVA, 1997, p. 308).