4. ESCOLA LA SALLE CARMO: UM CENÁRIO DE ANÁLISE
4.6 O Uniforme Escolar do Colégio La Salle Carmo
O assunto abordado neste subitem é referente aos uniformes escolares do Colégio La Salle Carmo, o qual nos brinda com diversos trechos retirados dos livros, “Crônicas do Carmo 1908 – 80 anos – 1988 Volume dois”, 1988 e “Crônicas do Carmo Volume três”, 1989 ambos escritos pelo irmão Bonifácio, o qual narra alguns episódios sobre os uniformes escolares e o cotidiano da educação da época.
No capítulo “Carmo X Quartel” é possível ler a seguinte passagem: Houve tempos em que a disciplina em ambos os casarões era férrea. Passar do Carmo para o quartel pouca diferença fazia além da quantidade maior ou menor ou do grau de fertilidade dos percevejos que povoavam os dormitórios de ambos. No início da década de 1930, até mesmo o TIRO DE GUERRA – prolongamento e substitutivo do Quartel – funcionava no Carmo. Durante um quarto de século, a Educação Física era ministrada por militares competentes; não consistia unicamente em andar se rolando na quadra e correndo bestamente atrás de uma bola dizendo que praticava esporte; o batalhão escolar, tanto na marcialidade (sic) como no uniforme, era de feição militar. A farda era de uso
rigorosamente obrigatório. Não era um dos moderninhos desfiles de sete de setembro que, por vezes, têm semelhança com carnaval. (BONIFÁCIO, 1988, p. 47)
O trecho indica a forte tendência militarizada no ensino da instituição, indicando que as práticas físicas recebiam instrução e monitoramento e alto disciplinamento do exército. Em outro trecho, podemos observar a ênfase dada ao uso do uniforme escolar:
16O irmão *Edmundo Inácio, homem possante, durão, bonzinho,
simpático, ousado, cara-de-pau, era grande amigo do **PPL fora das quadras esportivas. A pedido do Ir. Edmundo, o Comandante autorizou os soldados que estudavam na Escola Técnica de Contabilidade a frequentar as aulas, contanto que fossem impecavelmente uniformizados e que apresentasse na volta, antes da meia-noite, uma agenda de frequência devidamente assinada pelo Irmão. O comandante, sob o pretexto de conversar com seu amigo sobre a criação de suínos, ia fiscalizar as presenças de seus comandados as aulas noturnas. (BONIFÁCIO, 1988, p. 47-48).
No extrato de texto citado acima é possível perceber a forte influência militar no colégio, o que logicamente, também afetava a vestimenta dos alunos. Já no livro “Crônicas do Carmo volume dois” lançado em 1989 o Irmão Bonifácio evoca suas memórias com o capítulo: “Um domingo Lassalista há meio século”. Composto de muitas lembranças, o texto do Irmão discorre sobre um tempo do fim da década de 30.
Assim é possível ler:
Às cinco horas, todos estavam reunidos na capela para as preces matinais, sempre as mesmas, encontradas em um velho livro de orações e que tinha a duração de quinze minutos. Em seguida, um Irmão lia um texto explicativo do Evangelho prescrito para missa do dia. Seguia-se meia hora de meditação sobre o assunto lido. Às seis horas, na igreja matriz, iniciava-se a primeira missa a que todos os
16 *Na realidade o nome verdadeiro é Sr. Arlindo Mathias Reis, um dos irmãos que atuaram no Carmo entre 1908 e 1988. Nota da autora.
**PPL: Apelido dado ao Coronel Paulo Pinto Leite, homem temido e admirado pelo seu rigor no comando do Quartel que, de 9º Batalhão de Caçadores se tornou Grupo de Artilharia Anti-Aérea. Nota da autora.
Irmãos assistiam incorporados nas primeiras filas de bancos. Essa liturgia, com um longo sermão, prolongava-se por quase uma hora. Voltava-se à capela do colégio para mais meditação e a récita de três dezenas de Ave Marias do Rosário. Às sete horas e trinta minutos era o café, durante o qual alguns Irmãos se revezavam na leitura dum livro instrutivo. Isso também era costume dos monges medievais. Durante o café, já apareciam no pátio os primeiros alunos uniformizados a rigor, de fardamento, talabarte e centurião, camisa branca, gravata azul marinho, sapato preto e quepe na cabeça. Dez minutos antes das oito horas, já estavam os alunos formados em fila por aula, e o Irmão regente conferia as presenças e fornecia os comprovantes de participação na missa. Sem delongas, os Irmãos e os alunos dirigiam-se pela Rua Marquês do Herval até a escadaria da catedral Diocesana onde se encontravam frente às alunas do colégio São José em seu uniforme típico. (BONIFÁCIO, 1989, p. 53- 54).
O uniforme como símbolo de identificação, de disciplina e de ordem aparece em quase todas as narrativas do texto do Irmão Bonifácio. No livro, “Guia do Professor” do colégio do Carmo editado em 1988 pelo próprio colégio, também se podem encontrar diversas “orientações” em relação ao vestuário tanto do aluno como do professor. No capítulo seis, denominado “Descrição dos Órgãos e suas competências” no item “6.2.3 – Serviços de Coordenação de Turno” há o destaque para a importância do uso do uniforme como um mecanismo dinâmico de controle disciplinar. (GUIA DO PROFESSOR, 1988, p. 57)
No capítulo oito, denominado “Compromissos do Professor”, no item “8.2 – Quanto à formação do aluno” lê-se: “É dever de todo professor oportunizar a cada um dos seus alunos uma educação integral, abrangente, que permita seu desenvolvimento espiritual, mental, físico e social”. Adiante, também se lê:
É também responsabilidade do professor zelar pelo desenvolvimento SOCIAL de seus alunos. Para isso estará atento a uma sólida formação de seus corações, de modo que vivenciem sensibilidade, fortaleza, e estima pelo belo, o bem e a verdade. Evite a mimaça(sic), a pieguice, a sensualidade. Lembra constantemente que a vida social implica na descoberta do ‘outro’, com necessidades, exigências, direitos e deveres iguais aos seus. Acima de tudo, zela pela ‘adoração’ da justiça e sua promoção, em quaisquer situações. Tendo compreendido o objetivo de sua atividade na sala de aula, o professor fixa na sua própria mente esta meta: ENSINAR A BEM VIVER. - “E isto ele conseguirá tão somente caso seguir as regras que farão dele um bom mestre.” (GUIA DO PROFESSOR, 1988, p.76-77).
No capítulo nove, denominado “Normas Gerais”, do mesmo livro já citado acima, no item “9.4 – Deveres dos alunos” é destacado de forma explícita a importância e obrigatoriedade do uso do uniforme, sendo dever do aluno “apresentar-se devidamente uniformizado em todas as atividades escolares”. (GUIA DO PROFESSOR, 1988 p. 84)
Porém, no controle do professor, ou, a chamada ficha de avaliação, é possível encontrar indícios de uma preocupação com a vestimenta, desta vez dirigida aos docentes, indicando ao professor: “Você se esmera na aparência pessoal e no modo de trajar? A resposta pode ser marcada como “sim” ou “não”. (GUIA DO PROFESSOR, 1988 p. 93)
As conclusões possíveis que se pode tirar destas “orientações” são de que o colégio prima pela ordem e disciplina e que a postura do colégio é de não ter muita maleabilidade quando o assunto são suas regras. O colégio parte da premissa que a condição física, em todos os sentidos, isto é, modo de trajar e o asseio, dos alunos facilitam para um bom desenvolvimento intelectual e social. É claramente percebida a preocupação, também com o modo de vestir do docente, o qual não tem uniforme determinado, mas, pelos trechos reproduzidos aqui, se percebe que existe uma orientação subentendida sobre isso.
O nível de socialização dos alunos também é uma preocupação recorrente durante toda leitura do “Guia do Professor”, onde fatos como, manter a harmonia do grupo, não permitindo que nenhum aluno se destaque com atitudes sentimentalistas ou crie um expediente emotivo no qual ele recorra a todo instante, parece intervir, no entender do colégio, na precaução da condição de iguais entre os alunos. Mensagem essa que passa a ideia de transcender da vestimenta do indivíduo para a postura do mesmo dentro da sociedade na qual ele pertence.