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CAPÍTULO 2 OLHARES SOBRE A VELHICE: QUESTÕES E MÉTODOS

2.5. O universo da Casa-Lar e sua particularidade

A Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula, universo do presente estudo, foi criada para moradia provisória de 16 idosos que viviam em albergues e nas ruas de São Paulo. Não existia, até aquele momento (em 1999), uma instituição que tivesse essa finalidade de moradia provisória. Em geral, os serviços destinados à população de rua e, conseqüentemente, aos velhos de rua, restringem-se, ainda hoje, aos albergues e às casas

de convivência. Ambos são conhecidos também como instituições de acolhimento, uma vez

que abrigam a população de rua. Outra designação utilizada é o abrigo, que se destina, em geral, à população jovem que não tem onde ficar. Os albergues destinam-se ao pernoite e seus usuários não podem ficar no local durante o dia. As casas de convivência são destinadas a atividades diárias, tais como oficinas de trabalho e de discussão, almoço, higiene e lavagem das roupas; não são destinadas ao pernoite da população de rua.

Albergues e casas de convivência são, em geral, mantidos por instituições filantrópicas e

Desenvolvimento Social, no caso do município de São Paulo. Algumas dessas instituições oferecem no mesmo local ambos os serviços, ou seja, durante o dia realizam atividades de uma casa de convivência e à noite oferece o serviço de albergue.

A proposta da Casa-Lar teve origem em um grupo de discussões composto por idosos que freqüentavam a Casa de Convivência Porto Seguro, mantida pela Associação Evangélica Beneficente (AEB)34. Essas discussões partiram de oficinas de cidadania e direitos, realizadas com os usuários da casa de convivência35. Desta maneira, a Casa de Convivência Porto Seguro constatou que o número de idosos que usavam seus serviços tinha aumentado. Além disso, os idosos tinham dificuldade e lentidão nas filas para tomar banho, fazer a alimentação e outras atividades, mostrando que eles tinham necessidades diferenciadas. É importante ressaltar que os chamados “idosos” correspondiam às pessoas com mais de 60 anos, mas permitia a inclusão daqueles com mais de 50 anos, uma vez que o trabalho com população de rua mostrava a existência de um “processo de envelhecimento precoce”, flexibilizando a redução da idade em que considerariam as pessoas que viviam nas ruas como idosos36.

Um dos moradores da Casa-Lar que vivenciou este processo acrescentou a informação de que essas discussões, iniciadas na Casa de Convivência Porto Seguro, foram resultado da organização do Fórum Estadual das Minorias – promovido em 1996 pela

34 Instituição assistencial que trabalha, dentre outros segmentos, com população de rua.

35 As informações sobre este processo foram obtidas por meio de documentos, relatos de moradores da Casa-

Lar, funcionárias da Secretaria Municipal da Família e Bem-Estar Social – FABES – e da observação de campo.

36 O projeto da Casa-Lar propunha que fosse destinada a “idosos moradores de rua, independentes e

socialmente ativos, de ambos os sexos, a partir de 60 anos, com flexibilidade para o atendimento de pessoas com mais de 50 anos que apresentem evidente envelhecimento precoce” (SÃO PAULO. Secretaria Municipal

Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania, pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e pelo Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo – que tinha como objetivo organizar o Programa Estadual dos Direitos Humanos. Este fórum foi composto pelos segmentos da população especialmente afetados em seus direitos humanos37 e, dentre estes, estava a população de rua. Os idosos que freqüentavam a Casa de Convivência Porto Seguro apresentaram nesse fórum os problemas vividos nos albergues, tais como a inadequação do espaço físico e a convivência com pessoas de outras faixas etárias que não os respeitavam. A partir disso, alguns albergues e casas de convivência destinaram um tratamento diferenciado, tais como separar uma fila e horários especialmente para idosos. A necessidade de criação de uma instituição destinada especificamente a idosos surgiu, portanto, da insatisfação dos mesmos com os albergues, mas também de um pressuposto da casa de convivência de que eles não se adequavam ao serviço oferecido.

Os albergues, segundo os moradores da Casa-Lar, tinham horários de saída muito rígidos – por volta das cinco horas da manhã. Os velhos eram desrespeitados por serem mais lentos do que os mais jovens ao fazer suas tarefas e, além disso, não tinham onde ficar durante o dia e permaneciam “jogados” nas ruas.

A secretaria municipal responsável pela população de rua e pelos idosos à época era a Secretaria Municipal da Família e Bem-Estar Social de São Paulo – FABES. A Casa de

37 SÃO PAULO. Governo do Estado de São Paulo; Assembléia Legislativa; Fundação SEADE. Cadernos do

Convivência Porto Seguro era conveniada com esta secretaria e ficava sob sua supervisão. Assim, as assistentes sociais responsáveis pelo segmento do idoso na região onde se localiza a Casa de Convivência Porto Seguro passaram a acompanhar as discussões com estes idosos. As reuniões realizadas indicavam para estas supervisoras da FABES e para as assistentes sociais da casa de convivência que não bastaria criar um albergue diferenciado para idosos por causa das necessidades que eles tinham, uma vez que não conseguiriam sair daquela situação, por exemplo, encontrando trabalho. Além disso, a maioria era alcoólatra e tinha dificuldade em manter os vínculos familiares. Assim, a proposta formulada deveria contemplar um espaço de permanência para os idosos durante o dia, configurando uma instituição nos moldes de uma casa e não de um albergue.

A designação Casa-Lar foi adotada no decorrer do processo de discussão para criação da instituição, como referência ao que propunha a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842/1994), em seu artigo 10º, inciso I, sobre a competência da área de promoção e assistência social:

“estimular a criação de incentivos e de alternativas de atendimento ao idoso, como centros de convivência, centros de cuidados diurnos, casas-lares, oficinas abrigadas de trabalho, atendimentos domiciliares e outros” (BRASIL, 1994, p.2)

A proposta da Casa-Lar e Convivência São Vicente de Paula não tinha intenção de substituir a rede já existente de acolhimento para população de rua, era apenas uma alternativa específica para os idosos.

Inicialmente a proposta era estabelecer um convênio entre a FABES e a Associação Evangélica Beneficente – AEB – para gerenciar a Casa-Lar. No decorrer do processo, entretanto, ocorreram divergências entre a associação e a Secretaria, finalizando o convênio para este projeto. Desta forma, a Casa-Lar foi criada para ser administrada diretamente pela FABES. É nesse contexto que a análise aqui construída como um olhar particular conduz o presente debate a refletir sobre uma realidade maior e significativa: a da velhice nas ruas e das políticas que a ela se destinam.