As entrevistas foram realizadas entre janeiro e março de 2007. Os critérios utilizados para a escolha das entrevistadas foram: a -‐ estas teriam que trabalhar em empresa bancária; b -‐ exercer ou ter exercido a tarefa de caixa; e c -‐ estar em idade fértil. As entrevistas foram marcadas através dos contatos de gerentes de banco onde tenho conta, contatos familiares e pessoais. As entrevistadas foram16:
Débora -‐ 25 anos – solteira – bancária há cinco anos, estudante de Marketing. Começou a carreira no banco como escriturária e faz três anos que é caixa, função que ocupou por mais tempo. Já trabalhou no departamento pessoal, como telefonista e como recepcionista. O pai tinha um amigo no banco e a encaminhou para fazer a seleção, para ela poder ter seu primeiro trabalho e ganhar seu dinheiro.
Roberta -‐ 26 anos – solteira – sem filhos – bancária há oito anos foi seu único emprego. Formada em Administração de Empresas. Há um ano trabalha de supervisora de operações – tesoureiro -‐ mas foi caixa por sete anos. Seu pai trabalhava no banco e arrumou o emprego de caixa, para ela começar a ganhar um dinheiro e sugeriu também que ela fizesse faculdade de administração de empresas. Hoje pensa cursar faculdade de Direito, pois acredita que terá mais chances de trabalho e em concursos no futuro, uma vez que “bancária” não é profissão e aos trinta anos diz que seria considerada velha para empregos na área de administração.
Elaine -‐ 31 anos – solteira – sem filhos -‐ bancária há dez anos. Formada em Ciências Contábeis.
Começou como caixa onde permaneceu por nove meses. Depois foi assistente de vendas, trainee e
16 Os nomes utilizados são pseudônimos para manter o anonimato das entrevistadas.
gerente, cargo que executa há seis anos. Antes do banco teve outras experiências em grupos de investimentos e trabalhou como auxiliar de contabilidade.
Eliane – 47 anos – solteira – sem filhos -‐ já foi casada – Com vinte e seis anos de experiência, começou como escriturária em outro banco e logo passou a ser caixa. Desde então trabalhou em outros dois bancos que foram incorporados pelo atual empregador. Gosta de ser caixa, não tendo outra ambição profissional do que esta.
Natália – 19 anos – solteira – sem filhos – bancária há três meses, caixa. Estudante de Marketing. A oportunidade de conseguir esse emprego veio através de uma amiga que trabalha no banco e que a avisou de que haveria seleção e ela mandou um curriculum. Diz que estava em um emprego que considerava bom, mas este era ainda melhor.
Elizângela -‐ 28 anos – casada – sem filhos -‐ formada em Administração de Empresas. Quando estava trabalhando em outro banco mandou curriculum para uma gerente do banco que tinha estudado com ela na faculdade. Segundo ela todos que trabalham neste banco fazem prova e entrevista e todos começam como escriturário, porque todo mundo tem plano de carreira e de cargos e salários.
Diferente de outros bancos, que contratam como gerente, no que ela trabalha a praxe é começar como escriturário e então, caixa, assistente de gerente, chefe de serviço e finalmente gerente. Hoje é caixa, mas faz várias coisas além de ficar no caixa tais como verificação de cheques devolvidos, pagamentos e atendimento a solicitações de clientes.
Viviane -‐ 29 anos – casada – sem filhos – bancária há sete anos e trabalha como caixa faz três anos, formada em Serviço Social. Entrou para o banco através de indicação do vizinho que era gerente de uma agência. Afirma ter começado como telefonista, depois foi recepcionista e agora caixa.
Valéria -‐ 39 anos – casada -‐. Tem dez anos de banco. Mãe de dois filhos, um de dez anos e outro de dois anos e meio, formada em Publicidade. Deixou o mercado de trabalho, por vontade própria, para cuidar do seu primeiro filho, mas depois de um ano não agüentou ficar dentro de casa e resolveu arrumar um trabalho. Uma amiga que trabalhava nos recursos humanos de um banco a chamou para trabalhar no departamento de cobrança com um salário excelente e meio expediente. Este banco fechou e foi comprado pelo atual empregador. Ela acabou então sendo transferida para essa agência faz seis anos. Não pôde trabalhar muito tempo como caixa porque sofre de tendinite e vem mudando de função e hoje trabalha como gerente de expansão17.
O trabalho de caixa, segundo as entrevistadas, consiste em uma jornada de trabalho de segunda a sexta de seis horas diárias com quinze minutos de almoço. Ser uma boa caixa significa ser
“rápida, prestativa, ter jogo de cintura ao tratar com o público e não dar diferença no caixa ao final do dia”. O cliente que chega ao caixa tem que ser atendido em no máximo cinco minutos. Já observei em um banco que existe um controle de quanto tempo o cliente fica em média na fila.
Periodicamente, me explicou o funcionário, o caixa sai da sua posição e entrega uma pasta de cartolina ao último da fila, que contém registros sobre o tempo que os clientes esperam na fila para serem atendidos. Ao chegar a sua vez ao caixa o cliente entrega a pasta ao caixa e este registra o horário da entrega. Pode-‐se, portanto calcular o tempo médio que o cliente é atendido pelo caixa.
Viviane nos diz: “Ser uma boa caixa é atender os clientes bem, não errar no final do dia, e ter sempre muito jogo de cintura, porque um cliente quer uma coisa, outro quer outra. Muitas vezes a gente não pode fazer o que eles querem que seja feito”. Quanto à diferença no caixa, no final do dia, Elizângela
17 Não houve nenhuma entrevistada etnicamente diferenciada, todas seriam consideradas brancas para os padrões brasileiros.
nos explica que o trabalho deve ser visto por três ângulos, primeiro o do cliente, depois o do banco e então “a gente tem que olhar por nós”, pelo do bancário, isto porque:
“Se der diferença no caixa quem paga quem entra com a grana somos nós. Se sobrar dinheiro esta diferença fica para o banco. Então a gente sai perdendo de tudo quanto é jeito.
Então a gente tem que fazer tudo com muita cautela para não errar para o cliente, porque a gente pode estar pagando um tributo, uma conta errada, e não errar para a gente, porque depois a diferença recai para nós, né? Ser eficiente é também não dar diferença nem para o cliente, nem para vocês, nem para o banco”.
Valéria aponta que existem vantagens em trabalhar no caixa e que muitos funcionários preferem esta atividade, pois não tem metas, não tem vendas, não tem papelada, informação. “Se não der diferença no caixa, ele faz o dele vai embora, sem preocupação, tranqüilo, volta no dia seguinte, e é isso”. Débora diz que sua jornada é “rapidinha, faz aquilo e pronto”. Nenhuma delas se considera uma má profissional, porém a única que mencionou estar satisfeita sendo caixa é Eliane, que se considera e é considerada por suas colegas como excelente profissional. Esta afirma gostar do que faz e estar feliz no emprego:
“Eu gosto do que faço. Apesar dos pesares, de falarem que banco não paga direito, eu não tenho nada que reclamar. Eu acho que eu ganho legalzinho e tenho o plano de saúde, ticket refeição, o que para mim tá legal. Se isso é uma forma de acomodação, então eu acho que me acomodei nisso. Eu estou adorando ficar aqui no banco”.
Todas as entrevistadas têm curso superior, algumas tiveram o trabalho no banco como seu primeiro emprego ou a opção do trabalho no banco foi uma melhoria de emprego ou uma maneira apenas de se sustentar. Com exceção de Eliane, nenhuma delas se vê realizada com o trabalho e apesar das funcionárias de um determinado banco mencionarem o plano de carreira e salários da empresa elas não vêm o emprego de bancária como uma carreira que as satisfaça. Roberta, formada
em Administração de Empresas, diz: “Hoje em dia não penso em cursar medicina e sim direito, pois acredito que tenho mais chances de trabalho e de concursos no futuro”. ““Bancária” não é profissão e aos 30 anos já sou considerada velha para empregos na área de administração”.